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Habitar o Não-Lugar

*Por Cristiane Dias

A cidade contemporânea é delineada por um espaço muito particular para o qual migram cada vez mais os sujeitos de nossa sociedade: o não-lugar, um espaço “inqualificável”.

Para desenvolver o conceito de não-lugar apoio-me na reflexão de Marc Augé. Para esse autor o não-lugar não inscreve a identidade, nem a relação, nem a história, pois a história é aí reduzida à informação, a identidade a um conjunto de descrições numéricas, como o número do cartão de crédito, da identidade, do passaporte etc., e a relação com o outro é reduzida à espetacularização (tela, video-câmeras, televisão). Nessa perspectiva, o não-lugar demanda um usuário: “definido por seu destino, a soma de suas compras ou a situação de seu crédito, o usuário dos não-lugares anda ao lado de milhões de outras pessoas, mas está só e são os textos (painéis, discos, vídeos) que se interpõem entre ele e o mundo exterior”.

Segundo Augé, há alguns fenômenos contemporâneos que podemos destacar para pensar a experiência do não-lugar, dentre eles: os “deslocamentos impostos pela demografia e a economia mundiais”; “a urbanização em massa”; “os acampamentos”. O que esses “espaços residuais” têm em comum é a “perda do vínculo social”, embora Augé assuma que, evidentemente, o lugar, com sua determinação histórica, identitária, social, se recompõe nesses não-lugares, como forma de sobrevivência.

Nesse ínterim, o que Augé vai chamar não-lugar se situa num “mundo onde se nasce numa clínica e se morre num hospital, onde se multiplicam, em modalidades luxuosas ou desumanas, os pontos de trânsito e as ocupações provisórias (as cadeias de hotéis e os terrenos invadidos, os clubes de férias, os acampamentos de refugiados, as favelas destinadas aos desempregados ou à perenidade que apodrece) um mundo onde se desenvolve uma rede cerrada de meios de transporte que são também espaços habitados, um mundo onde o freqüentador das grandes superfícies, das máquinas automáticas e dos cartões de crédito renovado com os gestos do comércio ‘em surdina’(…)” pede que o olhemos com atenção.

É com esse olhar atento que me pergunto: quem são os habitantes desse mundo contemporâneo, com todas as contradições que a noção de sociedade da informação traz ao cenário da pobreza crescente? Onde habitam os sujeitos da era informacional?

Há dois fatores que gostaria de destacar na definição de não-lugar, para pensar os novos modos de habitar o mundo:

1) a questão do mercado

2) a questão da tecnologia, ambos interligados pela globalização “do mercado econômico liberal e das redes tecnológicas que permitem a comunicação instantânea”.

A questão “quem é o habitante do mundo contemporâneo?” é fundamental para mim, uma vez que a partir dela modifica-se a noção de ‘urbano’, modifica-se o espaço urbano. A chamada ‘sociedade urbana’ agrega outros valores ao modo de vida da cidade. A cidade muda em seu espaço-tempo: com uma senha, um usuário x, numa lan house da cidade, faz compras, paga contas, acessa sua conta bancária, transfere dinheiro, declara seu imposto de renda, compra seu bilhete de avião etc. São transações econômicas que há muito pouco tempo atrás não eram possíveis senão nos “guichês”.

Agora, porém, com as tecnologias da informação e comunicação, o modo de vida urbano é configurado pelo eletrônico. A própria mudança estratégica da administração do Estado, com os e-govs, cuja implementação tem o objetivo de construir uma “sociedade mundial da informação”, é um sintoma cabal de que o espaço urbano sofre transformações importantes e que dizem respeito diretamente ao sujeito tomado como ‘usuário’, uma vez que a oferta de serviços on-line do e-gov demanda usuários.

O habitante do mundo é um “consumidor do espaço” com o qual mantém uma relação codificada e não simbolizada.

Se, por um lado, temos o habitante consumidor do espaço, por outro lado, temos o habitante criador do espaço. Esse é o habitante consumido, para o qual a única saída gerada pela falta de espaço habitável nas grandes cidades é recompor o lugar no não-lugar. São os viadutos, as marquises, os chafarizes e os bancos das praças, as calçadas, que de passantes, passeios e tráfego, recompõem-se em quarto-e-sala.

Confrontados a esse cenário, no que se refere à recomposição do lugar no não-lugar, não é diferente para os que habitam condomínios fechados, freqüentam os shopping centers, vivem pelos aeroportos. “Circulação, muros, guetos, subúrbio, fronteira: o vocabulário é naturalmente espacial em nossos dias, mas as palavras desse vocabulário têm tudo a ver com a relação entre o si-mesmo e o outro”.

O sujeito contemporâneo habita um espaço-tempo diferente daquele da modernidade, pois a textualidade urbana cria agora espaços nômades para se dizer.

Para Augé, “o mundo da globalização econômica e tecnológica é um mundo da passagem e da circulação (…). Os aeroportos, as cadeias de hotéis, as auto-estradas, os supermercados são não-lugares na medida em que a sua vocação primeira não é territorial, não é criar identidades singulares, relações simbólicas e patrimônios comuns, mas sobretudo facilitar a circulação (e, deste modo, o consumo) num mundo com as dimensões do planeta. (…) Esses espaços tem todos um ar de ‘déjà-vu’” – redundância: mundo da redundância, mundo do muito cheio, mundo da evidência. Os espaços de passagem, de trânsito (não-lugares), são transformados em lugares geometricamente habitados.

Michel Serres, em seu “Atlas”, cita duas transformações fundamentais no que ele chama de novo mundo, das quais nos interessa aqui a primeira delas, que é a nossa maneira de habitar. Nossas casas e nossos deslocamentos. O que nos leva a refletir sobre as antigas questões de lugar, diz o autor. Onde falamos, você e eu, por onde passam nossas mensagens…?

Aí se coloca, para mim, mais uma questão: como habitar? Que formas de deslocamento, se “as imagens vindas de longe não nos surpreendem mais, separados por mil distâncias, nós podemos nos reunir por uma teleconferência videoconferência, e mesmo trabalharmos juntos”?

O que se chamou de uma “crise de identidade” pelos pós-modernos, Augé chama de uma “crise do espaço” e uma “crise da alteridade”. Ou seja, a questão do espaço-tempo evidenciada pelo processo de urbanização do mundo, produz um deslocamento na cultura, na economia, no conhecimento, nas cidades. “Essas modificações estão naturalmente em relação com a organização e a circulação, as migrações e os deslocamentos de população, a confrontação da riqueza e da pobreza, mas podemos considerá-las mais largamente como uma expansão da violência da guerra, política e social. Porque é a violência que está na origem das remodelagens urbanas”.

No que se refere a essa ‘crise do espaço e da alteridade’, Tourraine acredita que o “eu” não se constitui mais “por identificação a uma coletividade de pertencimento, mas ao contrário como capacidade de se libertar de todo pertencimento. É, sobretudo, o homem contra o cidadão – a cidadania sendo antes definida em termos de dever” e não em termos de sua “qualificação histórica”, para a qual chama a atenção a reflexão de Orlandi. Para Tourraine, os pertencimentos desapareceram. Nessa perspectiva, a comunicação não teria mais sentido, a não ser do lugar do não-pertencimento social. E quando Tourraine fala do fim do pertencimento, ele refere-se ao “princípio metasocial transcendente” que permeia essa noção.

Michel Serres vem ocupar uma posição de mediação ao pensamento de Tourraine na avaliação da crise do pertencimento. Esse autor vai apontar para o fato de que o que não há mais é a “libido de pertencer”. Serres concorda com a crise do pertencimento, mas questiona: “podemos sonhar viver sem comunidade?” “A que coletivo queremos pertencer? Por qual grupo queremos dar a nossa vida? A sentença de morrer pela pátria não produz mais, para o filósofo, sentido, visto que a “libido de pertencer” perde força no mundo contemporâneo. Eis para ele a crise de pertencimentos: “cada um existe, em si e por si, individualmente”.

Não existimos mais como identidade, e o “nós” não encontra mais seu lugar diante da nova imposição do “todos” da sociedade mundial. É, portanto, a crise da alteridade, configurada pela do espaço. E com isso, Serres questiona? “Onde e como investir nossa libido de pertencimento?” Onde e como habitar num mundo cheio e ao mesmo tempo vazio?

No meu entender, o que se produz, hoje, é uma recriação da noção de pertencimento tal como permeou o século XX. Como lembra Serres, o sujeito assume mais o domínio sobre sua vida singular e cria outros laços de pertencimento. É um novo estado social do sujeito, que se ramifica do “eu” milenar e local, e do “nós” global. E esse estado social novo do sujeito é o do “todos”. Nesse novo modo de ser, o sujeito não sabe mais onde situar suas coletividades, seus grupos, suas comunidades. Onde colocamos o nosso “eu” no espaço? E o “nós” das comunidades, dos territórios? Onde colocamos nossa libido de pertencer?

*Cristiane Dias é pesquisadora do Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb) da Unicamp.

FONTE: Com Ciência

*por Angelita Scardua

A felicidade – ou pelo menos a busca pelo entendimento de sua natureza – tema que tem ocupado a mente de inúmeros pensadores ao longo da história humana no campo da Filosofia, vem encontrando nas últimas décadas um espaço singular nas pesquisas acadêmicas de maior afinidade com as Ciências Sociais. Nos Estados Unidos da América e na Grã Bretanha, mais acentuadamente que em outros centros, os temas em torno da felicidade têm proliferado no meio acadêmico de maneira progressiva, e isso pode ser quantificado pelo volume de livros e artigos sobre o tema publicados a partir do final da década de 90. Esse recente crescimento na produção acadêmica sobre a felicidade, ainda pode ser constatado pela criação de um periódico totalmente dedicado ao tema: o Journal of Happiness Studies.

Muito do interesse inicial pela felicidade surgido na década de 90 está relacionado a área econômica, ou, melhor dizendo, às discrepâncias percebidas entre aumento de renda – melhora da qualidade de vida em termos de consumo e acesso a benefícios mensuráveis objetivamente – e a crescente incidência de doenças de expressão afetiva como a depressão e àquelas ligadas ao stress e a ansiedade. Fatores como violência, instabilidade financeira, autoritarismo e democracia também aparecem como elementos desafiadores quando pretende-se entender os benefícios operados pelo crescimento econômico e suas possíveis correlações com a melhora global da qualidade de vida.

Por um lado, poderíamos tomar tal indicativo como um possível argumento em favor da idéia de que o crescente interesse pela felicidade poderia ser um sintoma de que, para a sociedade atual, a felicidade apresenta-se mais como um problema do que como uma experiência freqüente. Por outro lado, o tipo de interesse pela felicidade que tem se destacado nas pesquisas psicológicas mais recentes refere-se à experiência humana com o cotidiano, seja nas suas relações ordinárias com o dinheiro, o trabalho ou a interação afetiva. Aspectos subjetivos e objetivos têm servido como objeto de estudo para a investigação da experiência da felicidade, pois, servem como sinalizadores da dinâmica cotidiana que constitui a vida daqueles que são vistos como pessoas saudáveis e “normais” dentro dos parâmetros usuais da investigação psicológica. Nesse sentido, a busca por informações que ajudem a compreender e a identificar indícios de uma vida plena no âmbito da vida diária tem contribuído para o incremento de pesquisas em Psicologia sobre a vivência de felicidade em suas mais diversas expressões, particularmente entre os defensores da Psicologia Positiva, que é o que podemos ver no trabalho de Mihaly Csikszentmihalyi.

Csikszentmihalyi em sua obra “A Descoberta do Fluxo” (1999) descreve a experiência de viver de maneira plena a partir do “não desperdício de tempo e potencial, expressando a própria individualidade, mas participando intimamente da complexidade do cosmo” . Apoiando-se em descobertas da Psicologia Contemporânea e em suas próprias pesquisas, Mihaly aponta maneiras de se envolver plenamente com a vida, que ele define como sendo aquilo que experimentamos da manhã até a noite, sete dias por semana, durante o tempo em que vivemos. É esse envolvimento com a vida cotidiana que na opinião do autor poderia favorecer uma “boa vida”, e seria também uma das chaves para a Felicidade. Contudo, esse envolvimento com o cotidiano depende de ter-se uma boa noção das forças que formam aquilo que se pode experimentar, que são manifestas através dos limites do que se pode fazer e sentir, a medida que atingi-se a compreensão da realidade cotidiana que não pode ser ignorada caso deseje-se atingir a excelência.

Mihalyi ainda propõe uma interessante contraposição quanto as possibilidades de se experienciar a vida cotidiana. Por um lado ele reconhece as similaridades entre a maneira como se pode experienciar a vida, independentemente da época e cultura, em decorrência da organização do sistema nervoso humano que permite apenas o processamento de uma pequena quantidade de informação a cada vez. Segundo esse autor esse arranjo biológico/fisiológico que impõe limitações na atenção, determina a quantidade de energia psíquica que possuímos para experimentar o mundo e por essa razão oferecem “um roteiro inflexível para nossas vidas”. Por outro lado, ele não desconhece as diferenças quanto às oportunidades de experienciar a vida decorrentes da inserção social do sujeito. Diz o autor, “Assim, embora os principais parâmetros da vida estejam fixados, e ninguém possa evitar o repouso, a alimentação, a interação, e pelo menos algum trabalho, a humanidade está dividida em categorias sociais que determinam em grande parte o conteúdo específico da experiência”. (Csikszentmihalyi, 1999, p. 11).

Ainda, de acordo com a teoria do Fluxo, aquilo que aparentemente poderia propiciar a vivência de uma vida feliz parece estar disponível, na maior parte das vezes, para a maioria das pessoas. Sendo assim, é lícito perguntar-se por quê nem todas as pessoas se sentem felizes com suas vidas?

Excluindo-se as condições de privação e miséria, há indícios de que a felicidade é algo que se pode atingir com recursos inteiramente pessoais, ou seja, a felicidade seria uma conquista que dependeria muito mais do sujeito e estaria relacionada à questão da individualidade. Csikszentmihalyi descreve a vida como sendo em parte determinada pelos processos químicos do corpo, pela interação biológica entre os órgãos, pelas íntimas correntes elétricas que circulam entre as sinapses cerebrais, e pela organização da informação que a cultura impõe sobre nossa mente. Mas, o autor também reconhece e ressalta a importância da experiência individual como capaz de dar significado à vida, escreve ele: “…a qualidade real da vida – o que fazemos, e como nos sentimos quanto a isso – será determinado pelos nossos pensamentos e pelas nossas emoções; pelas interpretações que damos aos processos químicos, biológicos e sociais” (p. 23).

Ao tentar encontrar os fundamentos da experiência da felicidade na vida de alguém, a Psicologia não deve furtar-se de levar em consideração a característica de flexibilidade presente nos indivíduos, e que é expressa através da consciência individual que pode romper com as determinações da condição humana comum ditadas pelas categorias sociais e culturais e pelo acaso. Do contrário, qualquer tentativa de reflexão sobre as possíveis maneiras de tornar a vida dos indivíduos excelente seriam inúteis. Csikszentmihalyi conclui que, “Felizmente, existem oportunidades suficientes para a iniciativa pessoal e escolha para fazer uma diferença real. E aqueles que acreditam nisso são os que têm mais chance de se libertar dos grilhões do destino

Csikszentmihalyi trabalha com o conceito de Personalidade Autotélica, e promove uma necessária distinção entre sucesso e realização. Esta vem de dentro, e se orienta para um fim que o próprio indivíduo se coloca. Daí a palavra autotélico, significando um fim (telos) que o próprio indivíduo se impõe. O sucesso, ao contrário, se orienta “para fora”, para aquilo que julgamos irá impressionar os outros. Essas reflexões dão a teoria de Csikszentmihalyi uma dimensão existencial e filosófica incomum. O ponto focal de sua teoria sobre a felicidade humana encontra-se na idéia do fluxo – flow – que poderia ser definido como um estado subjetivo em que o sujeito experimenta uma entrega total a atividade desempenhada, no sentido de que a pessoa percebe que tanto os desafios numa dada situação quanto suas capacidades são elevados, ou seja, no estado de fluxo há um envolvimento tão intenso com a atividade, que a realização da atividade em si promove grande satisfação.

As pessoas com personalidades autotélicas seriam caracterizadas por usufruírem com maior freqüência dos estados de fluxo nas mais diversas atividades da vida cotidiana. As pessoas autotélicas precisam de poucos bens materiais, pouco entretenimento, pouco conforto, poder ou fama, sendo mais autônomas e independentes porque não se sentem ameaçadas ou seduzidas por recompensas externas. Ao mesmo tempo se envolvem mais com tudo ao seu redor, porque estão totalmente imersas na corrente da vida. Curiosamente, resultados de estudos indicam que pessoas autotélicas apesar de demonstrarem usufruir mais e melhor das situações cotidianas, não reportam maior felicidade ou satisfação que as outras pessoas.

Csikszentmihalyi levanta uma interessante questão em relação a paridade existente na avaliação da própria felicidade entre pessoas autotélicas e não autotélicas. O que esse autor propõe é que a felicidade declarada não é boa indicadora da qualidade de vida da pessoa, ele postula que algumas pessoas dizem que estão “felizes” mesmo quando não gostam de seus empregos, quando a vida doméstica é inexistente, quando passam o tempo todo em atividades sem significado. Isso seria ocasionado por uma tendência humana para evitar a tristeza que possibilitaria a insistência em prosseguir com uma vida nem sempre satisfatória. Sendo assim, as pessoas autotélicas podem não ser necessariamente felizes mas envolvem-se em tarefas mais complexas – ou sentem-se mais envolvidas com as atividades do dia-a-dia – o que contribui para que se sintam melhores consigo mesmas. Segundo Csikszentmihalyi, ter uma vida excelente pode não ser o bastante para ser feliz. O que importa é ser feliz enquanto estamos fazendo coisas que ampliam nossas habilidades, que nos ajudam a crescer e a realizar nosso potencial.

*Por Maria Izabel de Souza Lopes

“Nada (…) nos pertence, só o tempo é nosso” (Seneca – A amizade)

Já há algum tempo vem-se alertando sobre os efeitos da velocidade na vida profissional e social. Fazer tudo rapidamente dá uma sensação de que não se deve perder tempo. Reportagens que abordam excesso de trabalho, consumismo, felicidade, qualidade de vida revelam novos problemas e novas soluções. Todos os problemas apontam como vilão o trabalho, seja o excesso ou a falta dele.

Tornou-se o tempo de trabalho e não mais o tempo de vida. O depressa, o rápido torna-se sinônimo de eficiência. Severa reestruturação dos hábitos, inicialmente de trabalho depois da própria vida. O tempo aparece, então, como devorador, desfigurador, tirano, cegador de vidas. Dominar ou controlar o tempo para “ganhar tempo” ou “poupar tempo”, tornou-se bem moderno.

No mundo da velocidade a informação chega aos borbotões e processá-la é terrivelmente fatigante. O amanhã está se tornando hoje com uma velocidade assustadora. E o passado já foi consumido pelo tempo. As conseqüências já se fazem sentir: sintomas e doenças como estresses, depressão, dores musculares, ansiedade, agitação e desconcentração, cansaço extremo, já se tornaram um problema de saúde pública decorrente da vida acelerada bombardeada com intensos apelos ao consumo e a resultados.

O movimento inverso, a busca por uma redução dessa velocidade, a retomada e o controle do tempo pelas pessoas já são sentidos de várias formas: pessoas que resolvem mudar o ritmo de sua vida repensando a relação lida e preguiça, reeducando o consumo, desacelerando o tempo de alimentação, modificando o ritmo de suas atividades. A busca pela qualidade de vida também vem provocando um movimento, ainda que tímido, de certos segmentos sociais que se deslocam para cidades menores, que oferecem um ambiente mais saudável, seja do ponto de vista social ou natural. Predominam nesses grupos, por enquanto, os aposentados com boa renda e executivos.

A queda de braço do ritmo frenético do tempo exaustivo de trabalho com o tempo livre é uma novidade. Tema quase tabu mais afeito às discussões acadêmicas, hoje aflora na área de saúde e no ambiente de trabalho para todas as camadas sociais. As políticas de qualidade de vida no trabalho passam pela necessidade de equilíbrio entre o tempo de produção profissional com o tempo dedicado às relações sociais e familiares. Já não se trata mais de lazer paliativo como compensação do esforço alienante do trabalho, mas de um novo estilo de vida.

O custo social e econômico de um tempo melhor distribuído tem sido objeto de estudos e pesquisas. Programas de atividades físicas ou orientação e opções de lazer têm sido recomendados nas empresas públicas e privadas que estimulam a realização de cursos, viagens, práticas esportivas, passeios culturais como visitas a museus e exposições, freqüências a cinemas e teatros. Tem sido uma prática tais empresas disponibilizarem salas de descanso, bibliotecas multiuso para a fruição de seus funcionários. Funcionários com a cultura taylorista-fordista estão dando lugar a funcionários de ação positiva, propositiva e criativa. Busca-se com isso associar qualidade de vida e vida produtiva e minimizar custos de saúde pública oriundos das doenças do trabalho.

A formação da consciência cultural, social e política é necessária a um mundo que vive da inovação permanente, em constante revolução. Portanto, saber dosar a velocidade dessas mudanças é hoje o maior desafio. As pessoas deverão ser educadas para lidar com o tempo, com as informações, com as ações e intervenções.

Os workaholics são os ícones desse ambiente da velocidade. A expressão “não tenho tempo” já foi mais prestigiada no passado. Revelava a importância dada a uma pessoa de “agenda” cheia, acompanhada com laptops , celulares e outros acessórios tecnológicos portáteis. Muitos dos que são engolidos nessa velocidade digital já começam a se preocupar com a sua felicidade.

Entretanto, o tema tempo livre ainda é entendido com muito preconceito. Mas também é preciso notar que tal situação não pode ser aplicada a todas as pessoas, a todos os trabalhadores. Ainda temos contingentes enormes excluídos socialmente. Ao mesmo tempo há ilhas de extrema modernidade que precisam ser observadas e nelas cabe a preocupação central do tema desta exposição. As situações opostas são, na verdade, contradições de um sistema perverso que mais exclui do que inclui. E é nessa contradição que as análises e intervenções devem acontecer.

O tempo social, que ainda é predominantemente analisado, ainda é o tempo de trabalho. Todo processo educativo do homem tem o tempo de trabalho (alienado) como referência. Assim, ainda é quando ele é socializado na família e na educação formal, do ensino primário ao superior. O mundo da produção preocupa-se com o homem apenas durante o seu hiato de tempo de vida produtiva.

O mundo do trabalho supunha incluir todos os trabalhadores nesse mundo e não é isso que está acontecendo. Esse era, pelo menos, o pacto integrador dessa sociedade. No entanto, o tempo de todos não foi sendo transformado em tempo de trabalho e os que nele estão acompanham suas profundas mudanças e antevêem sua exclusão futura.

No mundo moderno e capitalista, o uso e o controle do tempo dos homens no trabalho social produtivo é um dado revelador de organização social. Nele, constituiu-se a jornada de trabalho e o tempo de trabalho passa a regular a vida dos sujeitos, controlando horas de sono e horas de prazer. Paul Lafargue, em seu panfleto O Direito à Preguiça foi um dos poucos que levantaram a voz e denunciaram os malefícios que adviriam da intensa reivindicação das massas proletárias por trabalho e mais trabalho. Já nos idos de 1880 alertava que “o direito ao trabalho” como princípio revolucionário traria conseqüências funestas no futuro.

A idéia do direito ao trabalho, trabalho este construído ao longo da sedimentação das relações de trabalho capitalistas que se sustenta em longas jornadas de trabalho, ainda está presente em todas as reivindicações sindicais no mundo inteiro. Parte-se, ainda, da concepção de que apenas trabalhando, na acepção explorada, obtêm-se as chaves que dão acesso ao socialmente produzido na sociedade. Mas, com o desenvolvimento das forças produtivas, os trabalhadores não percebem que insistindo nisso ajudam, mais rapidamente, a excluir do usufruto do patrimônio humano produzido, aqueles que ficam de fora. A distribuição da renda produzida além de desigual é expropriada na sua maior parte pela minoria e repartida apenas aos que provisoriamente permanecem em seus postos de trabalho, muitas vezes a qualquer preço e, outras vezes, não solidariamente.

Algumas reivindicações, que vêm ocorrendo no mundo do trabalho, sinalizam, às vezes, para uma disposição de mudança. As reivindicações por redução de jornada de trabalho, ao longo destes dois séculos, em defesa de melhores condições de vida no trabalho, ou para que haja trabalho para mais trabalhadores não é uma transformação, mas é um passo significativo. No entanto, a redução da jornada de trabalho como bandeira para a construção de um novo estilo de vida é ainda uma reivindicação tímida. O desemprego é um mecanismo de terror que impede que as massas, assalariadas ou não, possam aspirar uma vida de fruição, embora seja justamente na reivindicação do ócio, da preguiça, que o trabalhador pode resgatar sua dignidade e auto-respeito quando deixarão de lutar pelo direito ao trabalho e passarão a reivindicar a distribuição social da riqueza e o direito de fruir bens e prazeres. Por quê? Deve-se entender que todo tempo livre é tempo para o desenvolvimento livre. O tempo usurpado é apropriado pelo usurpador para seu próprio livre desenvolvimento.

Por outro lado, a verdadeira economia não está assentada sobre a redução da força de trabalho e sim sobre a redução do tempo de trabalho. O desenvolvimento das forças produtivas com o avanço do conhecimento e das tecnologias reduz os custos de produção a um mínimo. Então, reduzir o tempo de trabalho com o aumento das forças produtivas significa também aumentar as capacidades e os meios de prazer, de fruição. Assim é que economizar o tempo de trabalho é aumentar o tempo livre dos trabalhadores. Mas essa “economia de tempo” não tem aumentado o tempo livre do trabalhador, tem sim aumentado a jornada de trabalho dos que permanecem no mercado de trabalho e o medo do desemprego torna-os cegos, individualistas em alguns casos e corporativistas em muitos outros. O que deveria ser o enriquecimento pessoal para a fruição de um tempo livre descompromissado tornou-se mais um quesito na acirrada disputa por uma vaga no mercado de trabalho.

Essa consciência ainda está latente. Os limites deste texto não permitem que possamos aprofundar cada questão aqui levantada. Mas podemos refletir que, para romper com a velocidade vertiginosa imposta pela era da informação globalizada que destrói e constrói o ambiente sociocultural numa velocidade que não se ajusta ao tempo do indivíduo, mas o substitui por outro já sintonizado, comprometendo populações e seus etilos de vida, significa romper com o preconceito, arraigado em nossa cultura, de desprezo à preguiça, ao prazer, à criação, à felicidade.

*Maria Izabel de Souza Lopes é socióloga e proprietária da Temperado no Tempo Beltramilopes Academia de Atividades Físicas Até 2005 atuou como docente do Centro de Ensino Superior de Ilhéus (BA) e da Universidade Estadual de Maringá (PR)

FONTE: Com Ciência

*Entrevista com o professor Muniz Sodré de Araújo, professor da Escola de Comunicação da UFRJ

Muniz Sodré de Araújo Cabral é jornalista, sociólogo e tradutor brasileiro, professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Escola de Comunicação. Possui graduação em Direito, pela Universidade Federal da Bahia, mestrado em Sociologia da Informação e Comunicação, pela Université de Paris IV (Paris-Sorbonne), e doutorado em Letras (Ciência da Literatura), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde obteve também o título de Livre-Docente em Comunicação.

Atualmente é também presidente da Fundação Biblioteca Nacional, órgão vinculado ao Ministério da Cultura. Possui cerca de 30 livros publicados nas áreas de Comunicação e Cultura, dentre os quais citamos Sociedade, mídia e violência (Porto Alegre: Sulina, 2004) e As estratégias sensíveis: afeto, mídia e política (Petrópolis: Vozes, 2006).

Conhecido pela máxima de que “antes da midiatização da sociedade só Deus tinha o poder imediato, global e instantâneo”, o jornalista Muniz Sodré define o fenômeno da seguinte maneira: “Midiatização (…) é a articulação do funcionamento das instituições sociais com a mídia”. Para ele, trata-se de algo realmente novo, “fruto das transformações nos modos de urbanização e no advento das tecnologias da informação e da comunicação, vetorizadas pelo mercado capitalista”.

Na entrevista que concedeu a Graziela Wolfart, jornalista da equipe de comunicação da IHU On-Line, publicada na edição 289, de 13 de abril de 2009, Sodré defende que a expressão “sociedade da informação” é “menos do que um conceito e mais um slogan dos arautos (empresas, deslumbrados etc.) da euforia tecnológica”. Ele considera que a principal consequência social da “telerrealização das relações humanas” é a “redefinição dos modos de constituição da comunidade humana”. E acrescenta que “a corporeidade tende a ser neutralizada pelos dispositivos tecnológicos”, o que, na sua opinião, não é nenhuma catástrofe, “tão só um novo modo de instalação do corpo humano na rede social, agora tecnologizada”.

IHU On-Line – O senhor afirma que “antes da midiatização da sociedade só Deus tinha o poder imediato, global e instantâneo”. Acredita que a mídia tenha tanta força assim, com capacidade para mudar profundamente a vida das pessoas e o rumo da sociedade?

Muniz Sodré – Afirmar o efeito SIG (simultaneidade, instantaneidade e globalidade) da mídia não implica, em princípio, afirmar a sua capacidade de mudança profunda da vida das pessoas ou do rumo da sociedade. Implica, sim, sustentar que a aceleração temporal, por intervenção tecnológica nas coordenadas do espaço-tempo, altera modos de percepção e práticas correntes na mídia tradicional, logo, altera comportamentos e atitudes na esfera dos costumes, normalmente pautados pela mídia. Isso significa que está se gerando uma nova ecologia simbólica, com consequências para a vida social.

IHU On-Line – O que caracteriza o ethos midiatizado?

Muniz Sodré – O ethos é a atmosfera afetiva (emoções, sentimentos, atitudes) em que se movi- menta uma determinada formação social. O ethos midiatizado caracteriza-se pela manifesta articulação dos meios de comunicação e informação com a vida social. Ou seja, os mecanismos de inculcação de conteúdos culturais e de formação das crenças são atravessados pelas tecnologias de interação ou contato. Passamos a acreditar naquilo que se mostra no espelho industrial.

IHU On-Line – Em que medida podemos entender a midiatização como fruto da sociedade da informação?

Muniz Sodré – “Sociedade da informação” é menos do que um conceito, é mais um slogan dos arautos (empresas, deslumbrados etc.) da euforia tecnológica. Toda e qualquer sociedade sempre teve os seus meios de informação e de estocagem de conhecimentos. O que acontece agora é a capacidade exponencial de processamento e velocidade de circulação de dados. Midiatização, por sua vez, é a articulação do funcionamento das instituições sociais com a mídia. Isso, sim, é novo. É fruto das transformações nos modos de urbanização e no advento das tecnologias da informação e da comunicação, vetorizadas pelo mercado capitalista.

IHU On-Line – O que podemos entender por “tecnointeração” e como ela ajuda a compor o fenômeno da midiatização?

Muniz Sodré – Em função das transformações urbanísticas (novos conceitos de cidade, novas formas de habitação etc.), os indivíduos tendem a se relacionar à distância, compondo o que já se chamou de “telerrealidade” social. A interação passa a depender dos dispositivos de mídia (internet, rádio, televisão etc.), portanto, é visceralmente atravessada pelo fenômeno da midiatização.

IHU On-Line – Quais as consequências sociais da “telerrealização das relações humanas”?

Muniz Sodré – A principal é a redefinição dos modos de constituição da comunidade humana. A corporeidade – logo, as tensões e os conflitos decorrentes da proximidade no corpo coletivo – tende a ser neutralizada pelos dispositivos tecnológicos. Não há aí nenhuma catástrofe, tão só um novo modo de instalação do corpo humano na rede social, agora tecnologizada.

IHU On-Line – Como a midiatização e a tecnocultura impactam no modelo de leitura usado nos últimos séculos? O senhor pensa que a leitura em papel está em extinção?

Muniz Sodré – A questão do livro e da leitura ultrapassa hoje tanto a lógica financeirizada da produção – responsável pela publicação em massa da perversão dos conteúdos livrescos – quanto às concepções de leitura ancoradas na centralidade simbólica do livro, que, no entanto, está dando lugar a formas múltiplas ou plurais de leitura. A leitura do futuro, que já é hoje, se define, para nós, como um processo de interação entre linguagens e culturas diversas, existentes não apenas nos livros, mas na casa e na rua, no trabalho e na política, possibilitando o exercício da palavra, dando voz às minorias, sem o que não há cidadania.

IHU On-Line – O senhor acredita que os avanços e as mudanças tecnológicas já che- garam a todas as partes do mundo, inclusi- ve aos países em desenvolvimento, onde muitos ainda vivem em situação de extrema pobreza e miséria? Há democracia e inclusão por igual nesse sentido?

Muniz Sodré – Não há democracia, nem inclusão digital por igual. No entanto, uma sociedade do conhecimento com viés instrutivo implica uma ligação visceral da cidadania com as novas formas públicas de cultura que, agora, deixam de centralizar-se no livro para irradiar-se por sons e pala- vras, graças às tecnologias da comunicação, a todo o espaço social. Quem está de fora dos novos modos de ler e escrever é tido como excluído do mundo do trabalho e da cultura. Daí a exigência histórica de que a escola, mais necessária para os pobres (já que os ricos fazem a sua integração quase que “naturalmente”, graças ao ambiente familiar e social), se redefina com base em um horizonte cultural mais interativo, incluindo jovens e adultos no exercício de interação social, constituído pelas tecnologias da informação e, consequentemente, pelas novas práticas de escri- ta e leitura.

IHU On-Line – Com o imediatismo da informação, o espaço de tempo para a reflexão sobre os fatos acabou. Quais as consequências disso para a formação da sociedade do futuro?

Muniz Sodré – A reflexão sobre os fatos demanda uma temporalidade menos acelerada, ou seja, o “tempo adiado”, a que se refere Paul Virilio em vários de seus trabalhos. É o tempo necessário à distância entre sujeito e objeto, que permite a reflexão. E a reflexão é cada vez mais necessária à reinterpretação continuada da democracia. Vale, assim, reforçar a ideia de John Dewey,15 para quem um estado democrático em crise não sugere, como pensa a grande maioria, doses maiores de democracia formal, e sim uma reflexão centrada na ideia de democracia. O que há de especial nesta ênfase é que a democracia deixa de ser vinculada unicamente à política, já que esta última passaria a ser apenas uma das formas democráticas. Para Dewey, a democracia se encontra muito mais no fato e na experiência sociais do que na dimensão política: na medida em que transcende o Estado, configura-se como um modo de vida ou uma ideia/força. Neste sentido, a ideia de democracia está sempre destinada a ser revisitada, reinventada e reinterpretada. Considerando-se essa ideia como vetor vigoroso, imediatamente surgem em questão lugares, ações e posturas a serem investigados pelo prisma da efetiva partilha e igual compartilhamento. Dentre eles, evocam-se o lugar da informação e o acesso aos bens culturais. Este viés é particularmente relevante nos dias atuais, quando os sistemas produtores de informação estão mais regidos pelo concentracionismo, e a grande maioria dos públicos relegada ao papel de consumidor de mensagens.

FONTE: Revista IHU Unisinos (29.09.2009)

Em Sintonia Com o Coletivo

Em meio à multidão, pessoas comuns podem tornar-se extremamente boas ou más. A decisão de como se comportar dependerá do que pensam que se espera delas.

*por Bernd Simon

(professor de psicologia social da Universidade Christian-Albrechts, em Kiel, Alemanha)

A cela é pequena e suja. Três homens vestindo trajes desbotados estão encolhidos no chão. Quietos, estremecem a cada ruído no corredor. De repente, dois guardas usando uniforme e óculos escuros aparecem na porta, batendo os cassetetes nas mãos. A violência está para começar.

Seis dias antes, tanto prisioneiros como guardas eram jovens universitários comuns. O ano é 1971, e eles estavam prestes a iniciar uma experiência de duas semanas planejada por Philip G. Zimbardo. O psicólogo da Universidade Stanford dividiu aleatoriamente um grupo de estudantes mentalmente sãos entre “guardas” e “prisioneiros”, que deveriam conviver em uma prisão simulada no campus. Zimbardo teve de interromper o estudo prematuramente depois de apenas seis dias, porque os guardas haviam se tornado sádicos, abusando física e psicologicamente dos prisioneiros.

Mas como jovens pacatos puderam se transformar de forma tão assustadora em tão pouco tempo? Naquela época, Zimbardo ofereceu uma resposta simplista: protegidas pelo anonimato da multidão, as pessoas perdem todos os limites e desprezam normas éticas. Na turba, tornam-se animais de um rebanho desenfreado, sem controle ou compaixão.

Atualmente, o estudo clássico, e polêmico, de Zimbardo é freqüentemente citado em apoio à idéia do “coletivo maligno”. Mas essa visão se justifica realmente? Pesquisas recentes indicam que, muito embora grupos levem seus integrantes a se comportar de uma forma que eles não fariam no dia-a-dia, essas ações podem ser tanto positivas quanto negativas. No final de 2001, quando os psicólogos britânicos Stephen D. Reicher e S. Alexander Haslam reproduziram a experiência do prisioneiro para o que viria a ser um reality show exibido pela rede BBC, os guardas agiram de forma um tanto cautelosa. Em razão dos resultados contraditórios, Haslam e Reicher concluíram que o comportamento do grupo depende das expectativas de seus membros sobre os papéis sociais que eles deveriam desempenhar. Se acreditam que se espera deles uma conduta autoritária, é bem provável que ocorram abusos. Zimbardo, por exemplo, encorajava os guardas a portarem-se de modo ameaçador. A chave para entender como os indivíduos de um grupo irão proceder são suas crenças pré-condicionadas sobre o que devem fazer.

Embora os psicólogos possam discordar se indivíduos em uma multidão tornam-se bons ou maus, eles concordam num ponto fundamental: imerso no coletivo, o indivíduo extrapola a si mesmo, para o bem e para o mal.

A dinâmica dos grupos e movimentos de massa é fascinante por causa dos extremos a que podem levar as pessoas. Um indivíduo em um grupo de voluntários arrisca a vida para salvar uma criança, evitando que ela caia nas águas de uma enchente, enquanto outro, em nome de uma causa coletiva “maior”, de bom grado se sacrifica como homem-bomba. Demonstrações desse tipo ocorreram diversas vezes na história, desde a turba clamando pela crucificação de Jesus até a boa vontade dos povos na recente Olimpíada de Atenas.

Regras Fanáticas

Em geral, o temor das pessoas em relação à mentalidade das massas cria nelas a expectativa de que grupos apresentem aspectos sinistros, apesar de a história mostrar, por exemplo, que mudanças sociais positivas são impossíveis sem movimentos de massa. O surgimento dos direitos humanos, a queda do Muro de Berlim, o ambientalismo – muitos avanços recentes resultaram do engajamento massivo de pessoas que lutaram por um bem comum, colocando seus interesses pessoais em segundo plano para atingi-lo. O experimento da BBC destrói também a visão negativa, muito disseminada, de que, em uma multidão, a identidade do indivíduo se dissolve, e ele é levado a cometer atos imorais e irracionais.

Psicólogos sociais desmistificaram o comportamento coletivo, demonstrando que se trata de atitudes psicológicas normais e explicáveis cientificamente. A psicologia do coletivo não é patológica. Mas com certeza a identidade do indivíduo é, em algum grau, despersonalizada quando ele entra em um grupo social, seja comitê de ação política, seja clube ou orquestra sinfônica. Mas será que isso basta para alguém perder todo o senso de moralidade e cometer maus atos? A complexa interação entre o “eu” e o “nós” vem confundindo os cientistas há séculos. Em seu livro Psychologie des foules (Psicologia das massas), de 1895, o médico e sociólogo francês Gustav Le Bon argumentava que, em grupo, os indivíduos perdem a identidade e, conseqüentemente, o autocontrole. Guiados apenas por emoções e instintos, agem segundo uma força primitiva, que ele chamou de “inconsciente racial”.

Outros pesquisadores afirmaram que coletivos teriam uma consciência mental independente. O psicólogo britânico William McDougall, que formulou, no início do século XX, a chamada hipótese da mentalidade de grupo, considerava que todos aqueles que se juntam a uma multidão abrem mão de sua identidade em favor de uma “alma coletiva”.

As teorias de Le Bon e McDougall foram posteriormente alvo de ceticismo: em especial, a idéia da massa com sua própria percepção mental foi considerada por demais metafísica. Mas a noção de perda de identidade do indivíduo sobrevive. Na década de 70, após o trabalho de Zimbardo, a idéia foi desenvolvida e aprimorada pelos estudos dos chamados grupos mínimos. Nessas experiências, os participantes eram alea-toriamente agrupados de acordo com critérios triviais, como preferências no modo de vestir. Apesar de a divisão ser arbitrária, na maioria dos casos isso criou forte sentimento de ligação ao grupo, assim como comportamentos condizentes com esse sentimento.

Baseados nessas investigações, Henri Tajfel, da Universidade de Bristol, Inglaterra, e John C. Turner, atualmente na Universidade Nacional da Austrália, em Canberra, formularam, no início dos anos 80, a “teoria da identidade social”. Segundo a tese dos psicólogos, o pertencer a um grupo criava um “sentimento de nós” no indivíduo, a percepção de uma “personalidade coletiva”. Quanto mais a pessoa se envolve com o coletivo, maior a sua identificação com ele e mais completa a sua aceitação de valores e normas do grupo. Estas podem variar desde a autodestruição voluntária, como a demonstrada por seitas como o Ramo Davidiano em Waco, Texas, até o socialismo utópico coletivista, caso dos kibutzim em Israel. Ao contrário dos modelos de Le Bon e McDougall, a teoria da identidade social afirma que os indivíduos não são arrastados pela mentalidade de grupo, mas escolhem modos em comum de sentir, perceber, pensar e agir.

A Causa do Grupo

Apesar disso, objetivos coletivos podem surgir e se fundir aos objetivos pessoais de alguém – por vezes de modo tão completo que a causa do grupo se coloca acima de todo o resto. Em razão disso, o indivíduo pode fazer grandes sacrifícios pessoais por aquilo que supõe ser o bem comum. Ataques terroristas de homens-bomba suicidas dão testemunho eloqüente do quão longe podem ir essas ações. Comportamentos agressivos têm mais probabilidade de irromper se a personalidade coletiva assume o controle sobre a percepção e as ações do indivíduo. Desse modo, a pessoa não mais distingue entre o “eu” e o “ele”, mas apenas entre o “nós” e “os outros”.

Essa dinâmica pode surgir de forma esporádica também entre pessoas que levam vidas normais, como o vizinho gentil que todos os sábados se transforma no barulhento torcedor de futebol, xingando em alto e bom som os torcedores do outro time. Para ele, essa atitude é o resultado lógico de sua profunda lealdade ao “nós” de seu amado clube. No melhor dos casos, esse torcedor irá ignorar o grupo “estrangeiro” – os outros – mas ele pode, com a mesma facilidade, se tornar desdenhoso e hostil em relação a eles. Essa transformação não é tanto manifestação de uma misteriosa psique de massas, mas uma ação racional coletiva que se ajusta a certas regras estabelecidas. O torcedor de futebol dá seus gritos de guerra no estádio para ajudar seu time a vencer.

Caso o jogo termine em derrota e a frustração dos torcedores se transforme em violência, esta não é indiscriminada; ela se dirige ao grupo oponente, reconhecível por suas insígnias e camisas. Mesmo assim, algumas vezes as fronteiras entre o “nós” e o “eles” mudam de modo surpreendente. Torcedores em confronto de uma hora para outra juntam-se contra a tropa de choque. Em bairros socialmente tumultuosos, membros de grupos étnicos antagonistas tendem a se unir na luta contra o que eles reputam serem ações policiais violentas e injustas. Grupos sociais pouco dados à cooperação podem se aliar em âmbito nacional, como aconteceu nos Estados Unidos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. No entanto, essas situações não explicam como uma passeata pacífica de repente se transforma em uma turba atirando pedras. O fator crucial parece ser que ações isoladas de indivíduos podem ter efeito catalisador sobre o grupo. Se o primeiro a arremessar uma pedra é reconhecível, de forma inequívoca, como um membro do coletivo – por exemplo, por suas roupas ou palavras-de-ordem – sua ação acaba com qualquer dúvida que os demais tivessem sobre o papel que devem desempenhar. Eles rapidamente imitam o comportamento do “personagem exemplar”.

Essas ações, que se espalham rapidamente, às vezes surgem com bastante facilidade em um grupo que não tem um líder forte ou um código de comportamento firmemente estabelecido. Sem orientação clara, os participantes reproduzem, por vontade própria, qualquer suposto “exemplo a ser seguido”. Tumultos e quebra-quebras seguem suas próprias regras espontâneas.

Sob Anonimato

Mas por que o indivíduo na multidão anônima deveria seguir alguma regra? Escondido sob o anonimato, ele poderia facilmente escapar às regras da coletividade sem temer qualquer sanção. Mas diversos estudos mostram que, na realidade, o anonimato aumenta a disposição da pessoa a se envolver em comportamentos excepcionais. Infelizmente, a aquiescência esporádica com freqüência leva as pessoas a desprezar as regras de comportamento aprendidas durante a socialização normal, do tipo “Seja educado”. Em sociedades civilizadas, a maioria das pessoas não quer fazer mal aos outros. No entanto, como mostrou a experiência de Zimbardo, normas próprias de situações específicas podem surgir, e a adesão a elas ser reforçada pelo anonimato. Em certo sentido, as pessoas do grupo se vêem encorajadas porque pensam que as outras pessoas na multidão provavelmente irão apoiar seu comportamento. Se os voluntários da experiência assumem o papel de guardas de prisão, a agressão pode muito bem se tornar a norma naquela situação; todos “sabem”, por meio de filmes e de ouvir falar, que guardas de prisão devem disciplinar os prisioneiros, geralmente por meio do uso da força.

Mas o que faz as pessoas na vida real se unir e se engajar em clubes, organizações e manifestações? No passado, sociólogos consideravam os indivíduos que participam de movimentos de massa, no fundo, egoístas dissimulados. Se e com que intensidade se dava seu engajamento em um grupo dependia da sua “análise de custo-benefício” pessoal – o que ele tinha a perder e a ganhar. Hoje em dia, sabemos que a maioria dos membros é motivada por sua auto-imagem coletiva.Alguém que saiba como influenciar essa autocompreensão coletiva é capaz de liderar as massas a grandes feitos, como Martin Luther King Jr., mas também de desencaminhá-las. Essa habilidade é o que sustenta o carisma de líderes de seitas e revolucionários. Se um herói de guerra ou um terrorista dá sua vida pelo coletivo, ele não está necessariamente fazendo uma análise de custo-benefício equivocada. Na verdade, ele deixou de calcular seu bem-estar pessoal levando em conta a dor ou a morte. Sua consciência foi completamente tragada pelo coletivo. A morte sacrificial passa a ser a forma mais elevada de auto-realização.

Nosso recém-adquirido conhecimento sobre a psicologia das massas talvez nos ajude a, no futuro, resistir à sedução dos demagogos. No momento, ele nos permite entender as forças criativas das coletividades que continuam a tornar possíveis muitos avanços.

Tradução: Demétrio Toledo

FONTE: Mente e Cérebro

1 – Quando a fila não anda

Tese da UnB verifica comportamento dos brasileiros na espera. Eles não gostam de brigar e preferem ignorar os furões.

Cordial e pacífico. O brasileiro não gosta de brigar por seus direitos, principalmente quando o assunto é fila, seja no banco, no supermercado, na rodoviária ou no aeroporto. E, até mesmo quando ele percebe que alguém “furou” a ordem, prefere fingir que não viu. No máximo, cutuca o ombro do intruso e diz de um jeito tranqüilo: “Ô, amigo, a fila termina lá trás!”. As principais reações dos indivíduos nas filas foram observadas e analisadas pelo pesquisador Fabio Iglesias, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Ele é o único do Brasil a estudar o assunto.

O psicólogo defendeu a tese de doutorado Comportamento em filas de espera: uma abordagem multimétodos em março de 2007. Antes de chegar a essas conclusões, Iglesias realizou seis estudos, por isso o nome multimétodos. Ele elaborou instrumentos, bancou o “fura-fila” e descobriu comportamentos inusitados. Entre eles, a diferença entre o que o brasileiro fala e o que ele realmente faz. “Muitos dizem que vão reclamar se alguém entrar na frente, mas o que a análise mostrou é que quase ninguém faz”, revela.

Em um dos experimentos, Iglesias furava a fila na Rodoviária do Plano Piloto, sempre na 10ª posição. Em 206 intrusões, ele observou que 80% dos indivíduos não reagiam e o restante apenas falava cordialmente. Em nenhuma das vezes houve violência física. As intromissões foram feitas de três modos: uma mulher furava a fila, um homem ou um casal. Em todos os casos, eles ficavam apenas 40 segundos e depois saíam da fila. O maior grau de incômodo foi causado pelo casal e não houve diferenças se o intruso era homem ou a mulher ou ainda se quem estava na fila na posição posterior a ele também era homem ou mulher.

Desagradável – Embora quase todo mundo pense que a fila é um local desagradável, uma escala com 20 itens desenvolvida por Iglesias e aplicada em 302 usuários no Distrito Federal mostrou que o maior fator de incômodo é não saber quanto tempo o indivíduo terá de esperar. Para resolver o problema, o psicólogo sugere a colocação de um visor, placas ou a simples justificativa da demora. Nessa fase do estudo, Iglesias também descobriu que, entre aqueles que têm nível de escolaridade maior, há mais reclamações quanto à demora, do que entre os de nível mais baixo. “Nas classes mais baixas, as opções são mais restritas e os indivíduos já estão mais acostumados a tolerar a espera. É o caso, por exemplo, dos serviços bancários”, explica o psicólogo.

Passividade – No quarto levantamento realizado por Iglesias, com 301 indivíduos, o psicólogo identificou um fenômeno chamado “ignorância pluralística”. É o que ele atribui a alguém que não reage quando algo incomoda, porque o “outro” também não reage. Na pesquisa, ele fazia duas perguntas: o quanto alguém se incomoda quando uma pessoa fura a fila e o quanto o indivíduo acha que os outros se incomodam. Para a primeira pergunta, os valores eram sempre maiores do que para a segunda.

Em uma outra etapa da pesquisa, foram feitas duas simulações: uma fila de banco e outra de cinema. O pesquisador descreveu o cenário de intrusão na fila para 218 indivíduos. O caso do banco gerou mais reações que o do cinema. “As pessoas não têm tanto controle sobre situações de banco, que são obrigatórias, quanto têm no cinema, que é uma atividade de lazer e opcional. Por isso, se aborrecem mais com a primeira simulação”, explica Iglesias.

As reações descritas pelos indivíduos na situação sugerida foram mais intensas quando comparadas ao experimento realizado na Rodoviária, onde ele apenas invadia a fila e outros pesquisadores observavam o comportamento. “Isso mostra que os indivíduos dizem uma coisa, mas se comportam de outra forma na prática”, explica Iglesias, que dá aulas em uma faculdade particular de Brasília. Em uma escala de 0 a 100, 66% disseram que reagiriam de alguma forma. O psicólogo também filmou, durante dois meses, filas no horário de pico do almoço de um restaurante coletivo e observou 57 intrusões. Não houve diferença significativa entre os sexos e geralmente os furões entravam “como quem não quer nada”, ou falando ao celular, olhando para o lado ou cumprimentando alguém da fila. A maior parte dos que já estavam na fila fingiu não ver.

Outro estudo também realizado no mesmo restaurante tratou da relação da posição do indivíduo com a estimativa do tamanho da fila e tempo de espera. Na primeira etapa, 192 usuários de 22 filas foram entrevistados. A cada 15 posições, eles deveriam estimar quantas pessoas tinham na sua frente. Iglesias identificou que sempre havia uma superestimativa para quem estava no início da fila e a subestimativa para quem estava no final. Na segunda fase, foram 135 indivíduos entrevistados em 32 filas. A cada 25 posições, o entrevistado deveria estimar o tempo de espera. Em quase todas as posições, houve uma superestimativa.

Todos os experimentos não demonstraram diferenças significativas entre homens e mulheres.

2 – Shopping não é lugar de compras

Pesquisa da UnB feita com 44 mil pessoas mostra que apenas 14,8% das que olham as vitrines entram nas lojas.

Paquerar, ir ao banco, encontrar os amigos, almoçar, levar as crianças para brincar. São tantas as opções de lazer e serviços dentro dos shoppings centers, que o estudioso do mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) Hugo Sandall levantou a dúvida: e as compras, como vão? Na observação feita com pouco mais de 44 mil pessoas em um shopping do Distrito Federal, uma média de apenas 14,8% dos clientes que olham as vitrines entraram nas lojas. “Pode ser que os shoppings não sejam mais procurados para a compra nas lojas, o que seria o motivo primeiro de ele existirem, passando a ser pontos de entretenimento e serviços”, sugere o pesquisador.

Sandall estudou o comportamento do consumidor diante de lojas de dois seguimentos bastante visados, o da moda jovem e o da feminina. A idéia era entender a relação entre o fato de olhar para a vitrine e entrar na loja. Ao contrário do que muitos possam supor, os resultados mostraram que as lojas cujas vitrines chamam mais atenção dos consumidores não são as que mais recebem clientes. Os clientes olharam mais para as lojas femininas e entraram mais nas de moda jovem.

Segundo o especialista, que defendeu sua dissertação de mestrado em maio de 2007, apenas um novo estudo explicaria as razões desse comportamento, mas ele arrisca algumas hipóteses. “O ato de entrar ou não na loja é influenciado por muitas variáveis: se a porta é ampla, se a vitrine é vazada, o tipo de atendimento, e assim por diante”, explica. Outro dado curioso da pesquisa “Comportamentos precorrentes de aproximação de lojas: Efeitos do nível de diferenciação de marca e localização sobre taxas de conversão em um shopping center”, orientada pelo professor Jorge de Oliveira Castro, é que lojas mais próximas das âncoras (aquelas que ocupam um espaço grande na área do shopping e são pontos de referência e atrativos de clientes) não são necessariamente as que vendem mais. “Por estarem mais próximas às lojas âncora, mais pessoas passam na frente delas. Mas a análise mostrou que nem sempre são nessas que os clientes entram mais”, analisa o psicólogo.

Sua pesquisa também mostrou que os comportamentos analisados — de passar na frente da loja, olhar rapidamente a vitrine (entrever), parar para olhar a vitrine e entrar na loja – apresentam um pico nos horários de 15h e 17h. Foi registrada uma média de 54,14 comportamentos de passar, 23,16 de entrever, 13,24 de olhar e 1,54 de entrar. Pela lógica, segundo Sandall, esses comportamentos deveriam estar escalonadas, ou seja, quem passa entrevê, quem entrevê olha e quem olha pode ser que entre. Mas, de acordo com a pesquisa, a primeira relação tem uma probabilidade de 52,5%, a segunda de 58,7% e a terceira de 14,8%.

Banco de Dados – Essa é a primeira vez que o grupo Consuma da UnB, ao qual Sandall pertence, observa o comportamento do consumidor em um shopping center. Por isso, o psicólogo também se preocupou em criar um banco de dados para futuras pesquisas da equipe. Ele filmou o comportamento dos passantes diante das lojas. As gravações totalizam seis períodos de dez minutos, no total uma hora em cada loja. Ao todo, as 44.444 pessoas observadas realizaram 51.290 comportamentos estudados. As análises dos registros em vídeo foram feitas no laboratório de aprendizagem humana da UnB, de junho de 2006 a janeiro de 2007. “Temos um rico material de imagens registradas. São 25 DVDs contendo 5.165 arquivos ou 83Gb, o que corresponde aproximadamente a 1.158 horas armazenadas”, contabiliza.

FONTE: Agência UnB

Psicologia de Elevador

O meio de transporte, tão comum nas grandes cidades, nos obriga a dividir nosso espaço vital com estranhos e coloca à prova a capacidade de comunicação

*por Massimo Barberi

O elevador é o meio de transporte mais usado nas grandes cidades. Só em São Paulo estima-se que existam mais de 270 mil unidades. E cerca de 8 mil novos são instalados a cada ano no Brasil. A caixa metálica iluminada, com painel de botões e, em alguns casos, um espelho, proporciona o deslocamento vertical de forma muito simples e eficaz – e também explicita modos de interagir. Há os que se sentem donos da situação, justamente porque se encontram em uma área restrita. Outros experimentam o desconforto de compartilhar o espaço vital, tão exíguo, com desconhecidos e, intimidados, torcem para chegar logo ao andar de destino. Existem ainda aqueles que usam o local para jogos sexuais O fato é que cada um de nós tem uma forma de enfrentar o elevador. Com exceção, obviamente, dos que sofrem de claustrofobia e preferem a escada.

Em uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 2001, foram usadas câmeras de vigilância em 15 edifícios públicos. A idéia era identificar e quantificar comportamentos típicos adotados no meio de transporte, a começar pela posição escolhida no interior da cabine. A posição preferida por 47% das pessoas, quase dois terços das quais do sexo masculino, é aquela próxima à parede oposta à porta, ou no máximo ao centro. Não por acaso, é uma localização que permite manter sob controle todo o espaço visual. Na prática, uma posição de poder. Isso é confirmado pelo fato de que oito em cada dez pessoas das que ficam diante da parede posterior assumem duas posturas típicas de comando: braços cruzados, sinalizando a interdição à aproximação alheia, ou com as mãos apoiadas na cintura.

Cerca de 30% dos passageiros solitários, com predomínio do sexo masculino, se colocam diante da porta. Manifestam certa impaciência e parecem não ver a hora de sair. Os ingleses os chamam de front runners: muitas dessas pessoas mantêm o nariz a menos de 20 cm da porta, de forma que possam sair assim que ela começa a se abrir. Os 24% restantes se posicionam mais ou menos igualmente à esquerda ou à direita da porta, com ligeira preferência pelo lado em que se encontra o painel.

As coisas mudam quando se trata de elevador já ocupado por um ou mais passageiros. Se a pessoa que já está dentro se posicionou no fundo, os recém-chegados se colocam no lado da porta, à direita ou à esquerda. Também se comportam dessa forma aqueles predispostos a ocupar a posição do fundo quando estão sozinhos. Apenas 2% forçam a situação, ocupando a parede do fundo e obrigando o outro a se espremer em um dos dois ângulos, simulando uma espécie de guerra territorial.

Disputa Territorial

Os front runners, que estão com o nariz perto da porta, não mudam muito seu comportamento quando encontram alguém no fundo: colocam-se sempre na proximidade da saída, mas ligeiramente de lado, de modo a deixar espaço para quem está atrás sair rapidamente, possivelmente como eles mesmos fariam. Se, no entanto, a pessoa que já está dentro escolheu um dos ângulos, a que entra tende a manter a mesma atitude, ocupando o espaço que lhe é mais adequado.

A coisa se complica um pouco se o elevador está cheio. Em geral, pode-se afirmar que o indivíduo que entra ocupará o espaço livre disponível, dando preferência à sua própria inclinação quando está “solitário”. Se no elevador estiverem quatro pessoas, nenhuma delas diante da porta, em 90% dos casos o quinto será o front runner, abrindo mão do que teria feito se estivesse sozinho. Apenas uma minoria dos que entram em um elevador lotado tentará se posicionar em um espaço estreito, constrangendo os outros a se deslocar e causando certo aborrecimento aos demais.

Para tentar explicar esses comportamentos, é preciso recorrer aos nossos ancestrais, do Homo erectus ao Neanderthal e aos primeiros Homo sapiens. Eles necessitavam de um vasto território para assegurar a subsistência do grupo. Na ausência da agricultura, da criação intensiva de animais e de armas adequadas, para matar a fome precisavam de extensas áreas para caçar e colher frutos silvestres.

“Essa exigência é observada também em muitas espécies animais que marcam os limites com a própria urina”, diz o sociólogo italiano Roberto Tassan, especialista em comunicação e comportamento humano. Ainda que o homem moderno seja, pelo menos na aparência, um pouco mais evoluído e não marque o território com as próprias secreções, ele usa sinais comportamentais de natureza subliminar que têm o mesmo significado. “Parece que o indivíduo que entra primeiro em um local fechado, como o elevador, considera inconscientemente que conquistou uma espécie de direito de precedência, enquanto o recém-chegado assume um comportamento de ligeira subordinação psicológica em relação aos que já conquistaram o terreno”, observa Tassan.

Segundo esse ponto de vista, faz sentido que o indivíduo que entra primeiro no elevador em geral se posicione ao fundo, dando as costas à parede, como se usasse a linguagem corporal para expressar, até inconscientemente, uma mensagem do tipo: “Este território é meu e você é um intruso”. “As paredes oferecem sensação de segurança. Por isso, sem se dar conta, a pessoa se posiciona com as costas protegidas”, esclarece Tassan. O discurso, obviamente, não vale para os front runners, que não querem se comunicar e tendem a dar as costas até aos que entram depois.

Dizer Sem Palavras

Estar no elevador junto a outras pessoas significa compartilhar um espaço restrito, no sentido de que estamos constrangidos a nos relacionarmos com outros indivíduos, em geral desconhecidos, a uma distância física que normalmente não seria tão curta. Entra em jogo, portanto, a prossêmica, isto é, o estudo a organização do espaço durante as relações interpessoais e a sua relevância para a comunicação.

A prossêmica fixa regras precisas que estabelecem o espaço de proximidade com o outro. Há variações entre indivíduos e de uma cultura para outra. Naturalmente, a distância é menor no caso das relações íntimas e maior nos relacionamentos sociais. É como se cada ser humano fosse circundado por uma bolha virtual, que só pode ser invadida nas relações íntimas, nos rituais rápidos de saudação (como o beijo na face de um amigo ou apenas conhecido), ou em circunstâncias caracterizadas por manifestações agressivas. “São regras não escritas, que não têm validade em espaços fechados e restritos como o elevador, no qual somos obrigados a infringi-las. A ruptura de tais regras pode provocar em certas pessoas intenso desconforto e sensações aversivas.

Para tentar esconder o desconforto quando está no elevador com estranhos, é comum a pessoa se concentrar na inscrição sobre o peso máximo permitido, lendo-a e relendo-a várias vezes, como se fosse um mantra mental, ou observar ansiosamente as luzes do painel. Na prática, o sujeito tenta enfrentar a invasão da bolha. “Em geral, as que mais sofrem são as pessoas cuja educação foi marcada por certa rigidez e escasso contato físico”, diz Tassan. O elevador tem portanto outras regras, que ultrapassam as da prossêmica e dizem respeito à comunicação – em particular a não-verbal.

É preciso, porém, distinguir dois contextos, cada um com características específicas: o de elevadores “conhecidos” da empresa onde trabalhamos ou do condomínio onde moramos, dos elevadores públicos (como os de hospitais, centros comerciais ou aeroportos). O primeiro transporta pessoas que mais ou menos se conhecem, ao passo que o público é freqüentado por indivíduos que em geral nunca se viram.

É este o contexto mais interessante no que diz respeito à comunicação. Segundo o teórico e pesquisador austríaco Paul Watzlawick, um dos fundadores do Instituto de Pesquisa Mental em Palo Alto, Califórnia, morto em março de 2007, a comunicação é um comportamento e, como não existe um não-comportamento, é impossível não se comunicar de alguma maneira – com ou sem palavras. Assim, quando compartilhamos com outros um espaço físico estamos, paradoxalmente, obrigados a nos comunicar. Não há escapatória. Pode-se comunicar disponibilidade e a atitude amigável com o sorriso ou dar indícios de desejo de não interagir por meio da postura corporal fechada. Dar as costas a quem se encontra no elevador conosco, por exemplo, significa negar-se a qualquer forma de aproximação além da inevitável.

Este último é um dos chamados gestos de barreira. O mais comum deles, no elevador, é cruzar os braços. A posição diagonal do braço diante do tórax, que adotamos para acertar o relógio, também pode ser considerada um gesto instintivo de defesa. Outro modo de negar a comunicação aos companheiros de viagem é o “olhar velado”, que ignora o outro voltando-se para um detalhe da própria roupa, para algum acessório ou objeto que se tem nas mãos. Tais dinâmicas ganham ênfase na situação em que as pessoas transportadas se conhecem. Quando damos as costas a um colega ou vizinho, o gesto assume um significado muito mais enfático do que quando estamos em companhia de desconhecidos.

Certas pessoas sentem, no elevador, um irresistível impulso de falar, ao passo que outras evitam até dizer um rápido “bom dia”. Desse ponto de vista, é possível distinguir – ainda que de forma muito superficial – três tipos gerais: o extrovertido, o introvertido e o que, na análise transacional, é definido como “ok-não ok”. O primeiro seria uma pessoa voltada para os outros, que tem necessidade de comunicar para se sentir psiquicamente viva, enquanto o introvertido é reservado e dificilmente toma a iniciativa de romper o silêncio, ainda que aceite que outros o façam e até participe de uma conversa com estranhos. É improvável, porém, que o introvertido, em geral dotado de uma rica vida interior que o leva a se perder nos próprios pensamentos, distanciando-se com a mente do ambiente em que se encontra, inicie um diálogo. O terceiro tipo, o ok-não ok, seria o indivíduo que costuma comparar-se constantemente com os demais, desprezando-os ou sentindo-se inferior, com base em informações subjetivas e, em geral, preconceituosas. Com freqüência, desloca-se para duas posições, ambas desconfortáveis: sente-se constrangido e afasta-se, na tentativa de se proteger do desconforto, ou julga que as pessoas não são dignas de sua atenção e, portanto, não tem interesse em estabelecer contato.

Em Caso de Pânico

A sensação claustrofóbica evocada pelo elevador pode atingir pessoas de qualquer idade e sexo. Mesmo os que freqüentam elevadores há anos podem, inesperadamente, desenvolver um terror descontrolado e irracional, manifestando sintomas de ansiedade e angústia, sensação de sufocamento, sudorese, náusea, falta de salivação, tremores, palpitações, incapacidade de pensar racionalmente e perda de controle.

“A gênese da claustrofobia remonta ao processo evolutivo: no longo percurso que transformou os primatas em seres humanos, nossos ancestrais pré-históricos muitas vezes se encontravam em situações de perigo, privados de qualquer possibilidade de fuga”, diz Tassan. Segundo ele, a reiteração dessa situação parece ser a matriz da fobia. Além disso, há o agravante de um dado da realidade: o elevador é um meio mecânico que pode quebrar ou –- em casos raríssimos – despencar.

O claustrofóbico teme não apenas a queda, mas a parada entre dois andares e o aprisionamento forçado durante a interminável espera por socorro, enquanto o oxigênio se reduz. É provável que, menos freqüentemente, o transtorno esteja ligado a fatores de natureza anatômica. No ouvido interno, o labirinto, que assegura a sensação de equilíbrio, pode provocar vertigens, tonturas e náuseas em caso de alterações – algo similar ao mal-estar que certas pessoas experimentam viajando de navio ou andando de carro em estrada sinuosa.

*Massimo Barberi é jornalista científico.

FONTE: Mente e Cérebro

*por Priscilla Santos

Quando era estudante de arquitetura, Roberto Pompéia ouviu de um dono de construtora uma frase que jamais esqueceria: É um absurdo pensar em se dedicar aos pobres, pois os pobres não têm como te pagar. A sentença surtiu efeito contrário. Roberto tornou-se um representante da arquitetura popular no Brasil. Foi integrante do Laboratório de Habitação da Unicamp (LabHab), que se especializou em projetar mutirões para erguer casas na periferia,durante 13 anos. Quando o Laboratório foi extinto, em 1999, trabalhousozinho para terminar um mutirão no sul de Minas Gerais. Ao todo foram mais de 15 comunidades em estadoscomo Alagoas, São Paulo e Rio Grande do Sul. Roberto acaba de defender, na USP, a tese de doutorado em que conta a história do LabHab e dos mutirões em que esteve envolvido. A vivência nas favelas e na periferia me trouxe a certeza de que a preservação e a qualidade do espaço público dependem de uma identidade coletiva que zela pelo seu lugar, diz. E para se criar essa identidade coletiva é preciso antes voltar os olhos para a história de cada morador. E nisso não importa classe social, raça, credo, religião.

Como surgiu a questão da identidade em seus trabalhos?

A maior parte das pessoas que moravam nas periferias, onde realizávamos os mutirões, vinha de fora, pois quando a pessoa não vê futuro em sua cidade natal parte para a metrópole. Contrapor-se à sua história original é a primeira quebra de identidade. Quando a pessoa chega à cidade grande, vem a segunda. Quem era Zezinho ou Mariazinha lá no interior vira um zé-ninguém. Estranha à cidade, a tendência da pessoa é se voltar para dentro. É muito comum a pessoa construir um barraco e, na parte interna, botar azulejos da melhor marca, mas não se preocupar com o acabamento externo, pois não quer mostrar nada de bom para fora, quer mais é se cercar. Daí vêm os cacos de vidro nos muros, as cercas. Primeiro, porque as pessoas se sentem seguras, obviamente, mas também porque a rua, que na cidade de origem era o lugar que agregava, na cidade grande é o lugar que desagrega.

Como isso se revertia?

Quando comecei a trabalhar nos mutirões, notei a importância da cozinha coletiva na obra. O momento da refeição parecia uma comunhão: todo mundo em volta da mesa comendo a mesma comida e trocando histórias. Havia pessoas absolutamente tímidas que, quando alguém perguntava e aí, você veio de onde?, começavam a contar sua história, e parecia que começavam a crescer, a ficar importantes dentro do grupo. Todos ficavam absolutamente em silêncio ouvindo. Aí essa pessoa que aparentemente não era nada passava a ser alguma coisa. É como se ela re-significasse seu papel dentro da comunidade.

É o primeiro passo para a identidade coletiva?

Sim. Não existe possibilidade de se construir uma identidade coletiva sem o reforço da identidade individual. Você só forma a identidade coletiva quando se reconhece como um ser importante dentro da comunidade, diferente e único. Na hora em que você resgata sua história, mesmo com os erros e fracassos, você cria uma estrutura, que é você mesmo, e passa a ser respeitado. A palavra respeito vem de re-spectare: olhar muitas vezes para trás. E a história do coletivo é formada por um grande número de histórias individuais, a partir do momento em que você tem uma relação franca com o outro, em que você respeita o outro porque conhece sua história. Você não está vinculado ao vizinho pelo espaço físico simplesmente.

Como isso contribui para a preservação do espaço público?

Quando você sente que o espaço é seu, você cuida e quer interferir, você limpa, não deixa abandonado. Então, o limite entre o público e o privado é muito menos hostil, as cercas são mais baixas, as pessoas convivem mais. Mas às vezes ocorre o contrário. Espaços comuns são tratados como privados. Teoricamente, o hall do apartamento, por exemplo, pertence tanto a você quanto ao seu vizinho. Muitas vezes, entretanto, acabamos estabelecendo uma fração do hall como nosso e, se a plantinha da vizinha cresceu demais e saiu dos limites, já nos sentimos agredidos.

O que fazer para melhorar isso?

Manter o habitar na dimensão humana, que é o contato direto entre as pessoas. Um estudo feito na Universidade de Harvard, em 2001, concluiu que, quanto mais fortes são os laços sociais entre as pessoas de uma comunidade, maior é a qualidade de vida e o nível de satisfação. Tive a oportunidade de conhecer, em Paris, um bairro que foi construído no fim da Segunda Guerra. Na rua que me mostraram havia prédios de quatro andares, de um lado, e de 12, do outro. O grupo que prestava assessoria técnica à periferia de Paris constatou que a vida dos que moravam nos edifícios mais baixos (onde foram criados espaços comunitários como áreas de recreação e clube de idosos) era muito melhor que a dos que moravam nos apartamentos mais altos (onde não havia nenhuma iniciativa para agregar seus moradores). O diagnóstico foi preciso: a diferença entre eles estava principalmente na escada. As pessoas dos prédios baixos, sem elevador, tinham de se encontrar pela escada. Os que subiam cruzavam com os que desciam; ao se passar pelos andares, era inevitável sentir os apartamentos, ouvir barulhos mais íntimos, sentir o cheiro de uma comida apetitosa ou, até mesmo, dar uma olhadela pela porta de um apartamento, aberta por descuido ou generosidade; ajudar alguém a carregar as compras e logo depois ser convidado para um cafezinho. Nos prédios com elevador, o isolamento é muito maior, as pessoas mal se conhecem.

Como fomentar esse contato direto nos prédios altos?

Crie um projeto coletivo. Se você tem um projeto comum, que seja botar uma luminária legal no hall, já vale. Pode ser que saia uma coisa horrível, que as pessoas queiram colocar um lustre de cristal, mas é uma discussão saudável. Se há um salão de festas no prédio, vamos fazer uma festa lá? Projetos coletivos se contrapõem ao espaço que tenta ser o menos coletivo possível. Agora, é difícil, você tem que enfrentar um monte de coisas chatas. Mas, às vezes, é preciso passar pela chateação para resolver as questões da coletividade. Quanto mais relações houver entre as pessoas, melhor. Mesmo que seja para criticar, para xingar, pois isso é menos solitário do que a não convivência. Por que é tão encantador andar nas ruas de Nápoles, de Veneza? Não só porque são estreitas e cheias de história, mas porque sempre tem aquela gritaria, o varal na janela. Cria-se essa quase promiscuidade urbana que até certo ponto é saudável. Torna a cidade mais viva.

FONTE: Vida Simples

*Por Charles Vlek

Excertos de “Globalização, dilemas dos comuns e qualidade de vida sustentável: do que precisamos, o que podemos fazer, o que podemos conseguir?

Será que estamos vivendo em um tempo em que o privado está se tornando o inimigo do público e, talvez, vice-versa? Lares, negócios, viajantes e transportadores, câmaras de comércio locais e governos municipais; estariam todos eles abusando de sua liberdade de iniciativa às expensas de bens e valores sociais e ambientais coletivos e de longo prazo?

(…)

A tensão entre interesses individuais e coletivos é bem representada no termo dilema dos comuns (Dawes 1980; Hardin, 1968; Liebrand, Messick & Wilke 1992; Vlek, 1996; Vlek & Steg, 2002). (…)

Um dilema dos comuns é uma situação de conflito entre um interesse agregado coletivo e numerosos interesses individuais. (…)

Para um autoridade política no nível macro da sociedade, um dilema dos comuns – se reconhecido como tal – se apresenta como um contraste permanente entre um risco coletivo (em mudança), como poluição do ar, e uma grande agrupamento de benefícios individuais (em mudança), como dirigir um carro, por exemplo. (…)

Em contrate, a perspectiva do ator individual no nível micro da sociedade certamente está focalizada em seus próprios benefícios “aqui-e-agora”. Há várias razões pelas quais as pessoas podem não reconhecer um dilema dos comuns como tal:

• porque elas não estão cientes de qualquer dano coletivo;

• porque elas não se dão conta de sua própria responsabilidade por problemas coletivos;

• porque elas não acham que o risco coletivo de longo prazo é suficientemente sério em relação aos inúmeros benefícios a curto prazo, e/ou

• porque elas sabem que há um risco coletivo, mas acham que pouco pode ser feito a respeito (devido à falta de alternativas viáveis e/ou falta de confiança na cooperação dos outros).

A combinação de benefício pessoal, “visão limitada” e a percepção de falta de controle sobre a situação, em particular, podem facilmente levar à negação ou depreciação do risco e, assim, à recusa em participar de esforços para seu controle. (…)

(…) (…) (…)

Liberdade versus igualdade. Como em todo dilema dos comuns, também no transporte dois ideais clássicos lutam por prioridade: liberdade para o indivíduo (lar, empresa) e igualdade para todos. O dilema implica que liberdade individual excessiva de transporte (privado) leva a violações inaceitáveis de direitos iguais a mobilidade, condições de vida e qualidade ambiental para todos. No setor de tráfego e transporte, a liberdade individual e seus riscos de desigualdade social desempenham um proeminente papel. O espaço público de estradas, ruas, praças e parques está mais retirado do que outros locais (lares, escritórios, restaurantes, teatros) do controle social de regras e normas comportamentais. Desse modo, no transporte privado as pessoas são tentadas a burlar extensivamente, às expensas da segurança no tráfego, da mobilidade de grupos vulneráveis, da qualidade ambiental e, finalmente, da igualdade de acesso aos destinos escolhidos.

Em combinação com a crescente privação da desejada mobilidade de alta velocidade (pele menos nas estradas), o princípio dominante de liberdade individual traz consigo sentimentos generalizados de privação social, inveja e competição, três fatores que garantem um forte impulso propulsor por “mais, maior, mais forte, mais rápido e mais longe”. Em contraste, sistemas de transporte coletivo (ônibus, trem, avião) trazem consigo maior igualdade social, menos liberdade individual e, por conseguinte, menos competição entre os seus viajantes.

(…) (…)

Padrões de mudança de comportamento ativados por meio de medidas políticas “duras” e “suaves” normalmente não se limitam a escolha do tipo de transporte, velocidade de deslocamento e/ou localização de estacionamento per se. Mudanças de comportamento relacionadas a mobilidade e transporte podem também envolver modificação nas atividades diárias, nos padrões de gastos e na natureza e intensidade das interações sociais. Nesses e em outros domínios comportamentais é que se pode encontrar razões várias para a aceitação ou rejeição de políticas inovadoras em transporte voltadas para o fortalecimento da sustentabilidade do sistema.

(…) (…)

Qualidade de vida sustentável

Vamos, finalmente, considerar o conceito crucial de qualidade (futura) de vida. A vida humana não deveria em qualquer nível ser sustentável em termos de segurança econômica, bem-estar social e qualidade ambiental? Em que medida esse conceito (…) se encaixa na psicologia da motivação humana?

(…) (…)

Conclusões gerais

Problemas de sustentabilidade são problemas multidimensionais, caracterizados por impactos, causas e processos econômicos, sociais e ambientais. (…)

(…)

Sob uma preocupação geral acerca de desenvolvimentos insustentáveis, a área de estudos das relações pessoa-ambiente pode bem ser agrupada com um modelo de dilema dos comuns ampliado. Por um lado, uma análise meticulosa de dilema dos comuns de um determinado problema de sustentabilidade pode ser baseada em um inventário sistemático de artigos e relatórios de pesquisa existentes na literatura profissional (nós já sabemos um bocado). Por outro, novos e abrangentes estudos sobre sustentabilidade podem partir de uma perspectiva de dilema dos comuns e daí prosseguir em uma proveitosa interação entre ciência e política. Um bom exemplo é a área de transporte motorizado, na qual a formulação de políticas poderia se beneficiar de uma junção abrangente e sistemática de estudos pertinentes com talento e experiência multidisciplinares.

(…) (…)

Teoria e prática. Em relação ao incômodo tema de “praticar teoria versus teorizar a prática” pode ser relevante considerar o que segue. O objetivo da ciência é eficientemente descrever, explicar e prever fenômenos intrigantes, de modo que eles possam ser bem compreendidos e possivelmente administrados. Em contraste, o objetivo da prática é fazer planos e projetos concretos para atingir metas específicas para os ambientes que deveriam satisfazer os usuários. Muito trabalho científico não chega a ser operacional o bastante para predizer como os usuários na realidade responderiam a determinados planos ou projetos. Por outro lado, projetistas e planejadores práticos parecem manter a explicação e a predição científicas implícitas demais. Freqüentemente se atribui ao psicólogo social Kurt Lewin (aproximadamente 1950) a frase “não há nada tão prático como uma boa teoria”. De acordo com outro provérbio, entretanto, “a prova do pudim está em comê-lo”, que significa que para coisas que funcionam não precisamos de receitas elaboradas. Esperemos que futuros teóricos das relações pessoa-ambiente se tornem bons o bastante para pôr seus pés no chão, não importando quão sujos seus dedos possam ficar. Esperemos também que os que usam os estudos sobre pessoa-ambiente na prática profissional se conscientizem cada vez mais de que teorização é indispensável para ir além da experiência clínica de ensaio e erro, por mais criativo que seu pensamento seja.

FONTE: Estud. psicol. (Natal) vol.8 no.2 Natal May/Aug. 2003

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Como psicólogos e educadores estão usando os espaços públicos para transformar as relações sociais e promover a cidadania.

A cidade de São Paulo tem quase quarenta parques municipais, além de centenas de praças. Para muitos, são um ambiente adequado para o prazer e relaxamento, pontilhado por crianças brincando e atletas treinando. Para indivíduos em situação de rua, um “dormitório”. Porém, esses locais podem se configurar em laboratório para a construção da cidadania. Os espaços públicos de lazer, como praças, parques e campos de futebol oferecem condições interessantes para os psicólogos desenvolverem atividades que estreitam o contato com a comunidade e promovem a observação das relações humanas, em particular, na periferia, em bairros onde os direitos sociais não são garantidos. Dessa intertavidade, podem aparecer informações importantes para a compreensão dos movimentos sociais.

Políticas públicas que aproveitem o potencial desses locais ainda são poucas. Mas há pelo menos um bom exemplo sendo desenvolvido na cidade. De acordo com a secretaria do Verde e Meio Ambiente, a administração municipal mantém equipes em dez parques que trabalham valores e atitudes com os usuários. Entre as atividades estão as caminhadas por trilhas. Acompanhando grupos durante o passeio, o educador faz paradas estratégicas para dar lições de cidadania de forma lúdica e dinâmica. “Uma das questões abordadas é a responsabilidade ambiental”, diz Helena Magozo, psicóloga que integra uma dessas equipes. “É o que chamamos de trabalho de controle social, que para ser bem sucedido precisa ter caráter interdisciplinar, passando da biologia e geografia até a arquitetura e a psicologia”, afirma ela.

Outro projeto que utiliza os espaços públicos de lazer como instrumento de trabalho é o Pólos da Paz, do Instituto Sou da Paz. O foco, porém, é outro: influenciar as políticas públicas de segurança. Destinado a jovens entre 15 e 24 anos, o projeto propõe a prevenção da violência através do trabalho comunitário de revitalização de praças e da realização de eventos esportivos e culturais nesses locais de maneira participativa. “O grande desafio é fazer a comunidade se sentir responsável pela praça, que comumente é alvo de depredação, vandalismo e abandono”, diz Marcus Góes, coordenador do Pólos da Paz.

Segundo Góes, ao se compreender o fenômeno da violência como resultado de um contexto social em que direitos não estão sendo garantidos, em que a desigualdade é gritante, em que a qualidade de vida é ruim, em que as pessoas não têm projeto de vida nem tampouco perspectivas de um futuro diferente, o trabalho com a segurança pública assume um caráter preventivo. Assim, ocupar um espaço de maneira democrática, participativa, promovendo a garantia de direitos (como o esporte e a cultura) e a construção de laços comunitários, de perspectivas coletivas de mudança, de valorização do bem comum, reivindicando a presença do Estado, contribui para a segurança pública.

Reformado pelas mãos dos moradores locais, o espaço passa a ser mais valorizado. Há um projeto que está sendo desenvolvido em duas praças de São Paulo pelo Pólo da Paz. Uma delas é a Praça João Paes Málio, no distrito de Campo Limpo. Ali, a parceria com a Subprefeitura rendeu bons frutos. “O apoio vem desde o empréstimo de máquinas para as obras até a concessão de troféus e medalhas para os campeonatos realizados pelos jovens na quadra da praça”, explica Marcus Góes. “Quando o projeto chegar ao fim, esperamos que o poder público continue apoiando as iniciativas dos moradores”, diz. A outra praça fica no bairro do Alto da Riviera, no distrito do Jardim Ângela, também na zona sul. Apesar da parceria com a Subprefeitura do M´Boi Mirim ainda estar em fase inicial, os moradores vêm promovendo uma série de atividades culturais e esportivas.

A idéia é modificar a relação dos usuários com o espaço público, trabalhar a cidadania e o comprometimento com o desenvolvimento e a sustentabilidade da cidade. “Pretendemos preencher uma lacuna nas políticas públicas, fazer algo inovador. Esperamos que o trabalho possa inspirar outras ações”, diz Góes. Cerca de 1.500 pessoas já foram beneficiadas pela iniciativa, seja com atividades coletivas nesses espaços, seja com a reforma das praças.

Porém, a contribuição da Psicologia só produz efeitos se trabalhada interdisciplinarmente. “O psicólogo, ao ler o modo como as relações se desenvolvem, busca na educação, na arquitetura e nas ciências sociais uma maneira de construir sua estratégia de intervenção. Assim, ele procura produzir um movimento diferente, em que a potência desse coletivo-comunidade possa ser o impulso de um processo de transformação da relação com o espaço público”. diz Góes.

Para Helena, a educação dos usuários dos espaços públicos não se esgota na informação. Precisa também de convivência e prática. “O contato com os usuários de espaços públicos pode ser revelador a respeito do comportamento, levando, inclusive, a conclusões sobre problemas sociais mais complexos”, adianta. Ou seja, ainda que um biólogo possa ensinar sobre as flores do parque e um arquiteto possa orientar na reforma da praça, o psicólogo tem instrumentos para intervir na forma de convivência e promover uma transformação cultural mais efetiva.

FONTE: Conselho Regional de Psicologia/SP

Cidade, Doce Lar

Acredite: é possível ter uma vida mais genuína, equilibrada, gentil e prazerosa no lugar agitado e cheio de prédios onde você vive. Saiba como

*por Leandro Narloch

Havia torres de alumínio, vastas muralhas, pontes levadiças e canais que dividiam os bairros. No entanto, alguém teve olhos para enxergar outras coisas: Cheguei aqui na minha juventude, uma manhã; muita gente caminhava rapidamente pelas ruas em direção ao mercado, as mulheres tinham lindos dentes e olhavam nos olhos.

São palavras de encantamento que destoam de um cenário meio inóspito (torres, muros, pontes) que até poderiam descrever metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e tantas outras cidades grandes e médias do Brasil. Mas a cidade descrita no texto chama-se Dorotéia e é bom esclarecer antes que você queira consultar o guia mais próximo não existe. É ficção. Foi planejada e construída por um genial escritor italiano, Italo Calvino (1923-1985), no livro As Cidades Invisíveis, em que o viajante Marco Pólo descreve ao imperador mongol Kublai Khan as cidades (todas imaginárias, todas com deliciosos nomes femininos) por onde ele teria passado em suas andanças legendárias.

O exemplo extraído da literatura mostra que cidades importam mesmo é pelo que somos, o que fazemos nas suas ruas e o que vivemos nas esquinas, estejam elas bagunçadas ou tinindo de tão organizadas. As pessoas seguem amando cidades desordenadas porque estão apaixonadas e porque viveram situações ricas ali, afirma o sociólogo e urbanista colombiano Hernando Gómez Serrano. Para mim, a cidade mais linda que eu conheço é a última em que caminhei apaixonado: Bogotá.Mas é claro que é melhor estar apaixonado em uma rua tranqüila do que em um engarrafamento. A partir de agora, saiba como os problemas das cidades começaram e descubra maneiras simples e serenas de enfrentá-los.

No Princípio Foi o Caos

A primeira das cidades grandes como a gente conhece hoje foi a Paris do século 19. Em 1852, o barão de Haussmann, prefeito parisiense apelidado de o destruidor criativo, começou a botar abaixo as ruelas medievais da cidade, sujas e estreitas. No lugar, construiu imensos bulevares que se encontravam no Arco do Triunfo, com encanamento de água e saneamento básico. Ainda não existiam carros, mas a rua já era dos motoristas e suas carruagens. Pela primeira vez, corredores e condutores podiam, no coração da cidade, lançar seus animais em plena velocidade, afirma oteórico americano Marshall Berman, autor do livro Tudo que É Sólido Desmancha no Ar.

Na aurora do século 20, pipocavam idéias para conter a miséria e a bagunça. Em Londres, o repórter e arquiteto Ebenezer Howard, impressionado com o estado deplorável dos bairros populares, resolveu projetar aquele que seria o lugar perfeito: a cidade-jardim, uma cidade autosuficiente onde as pessoas voltariam a ter contato com a natureza. Nascia ali o ideal urbanóide da casinha no campo e da cidade descentralizada, sem aquela agradável (e essencial) mistura de prédios, casas e pequenos estabelecimentos comerciais que fazem a vida de qualquer bairro que se preze. Anos depois, com a chegada do automóvel, as cidades passaram a ser vistas como máquinas: para dar certo, todas as partes precisavam funcionar em harmonia. Nos anos 20, o arquiteto suíço Le Corbusier planejou uma cidade sem pedestres e sem ruas. Dentro de um imenso parque, 24 arranha-céus se comunicariam por canais suspensos. Tratava-se de uma cidade funcional, padronizada, sem espaço para preferências pessoais. Precisamos matar a rua, afirmava Le Corbusier.

A idéia do francês era louquíssima, claro, mas acabou influenciado boa parte do urbanismo do século 20. Foi assim que surgiram cidades com projetos grandiosos, vias expressas sem lugar para pedestres e divisão em bairros habitacionais longe do comércio, zonas industriais e áreas verdes. O problema é que essas tentativas de dominar o caos acabaram criando bairros monótonos, parques abandonados e muita, mas muita necessidade de transporte motorizado. Isso não é reurbanizar a cidade, mas saqueá-la, afirmou em 1961 a urbanista Jane Jacobs, autora de Morte e Vida de Grandes Cidades. O trabalho dos urbanistas modernos virou um perrengue ainda maior quando o crescimento populacional fez as cidades explodirem, resultando na bagunça que você conhece. Apesar de terem sofrido tanto, as cidades ainda guardam soluções, vantagens e prazeres que não se mostram à primeira vista, diz o urbanista Hernando Gómez.

A seguir, conheça algumas maneira para fazer da sua cidade um lugar na medida dos seus sonhos.

Monte a Sua Cidade

Uma das primeiras vantagens das metrópoles é que, nelas, não há padrão a ser seguido. Tem de tudo. Muito mais do que em cidadezinhas do campo, aqui dá para escolher como viver. A metrópole dá oportunidade para desenharmos a cidade que quisermos, afirma Hartmut Günther, professor de psicologia urbana da Universidade de Brasília (UnB). Cada morador deve decidir qual é o seu ideal de qualidade de vida. Dependendo do que você quer, dá para ter um pouco da vida de casinha de campo a duas quadras da avenida Paulista, uma cara de pousada da Bahia em Porto Alegre ou de estância gaúcha no Rio de Janeiro. A escolha do modo de vida deve definir, primeiro, o lugar onde você vai morar. Você prefere um apartamento no Centro, pertinho do agito, ou um sobrado num bairro residencial com terrenos mais baratos? A rua vai ser uma dessas sem saída, bem tranqüilas, ou cheia de carros e comércio variado?

Traga o Interior

Muita gente reclama que, na cidade, as pessoas são anônimas e ninguém se cumprimenta. Mas quem disse que a proverbial arte interiorana do bate-papo não pode ser levada para a metrópole? Além de jogar conversa fora com os vizinhos e comerciantes próximos, dá para ajudá-los e até depender deles de vez em quando. Cuidar do filho enquanto o casal ao lado sai para jantar, pedir para o dono da padaria ao lado receber a encomenda e o célebre ritual de emprestar uma xícara de açúcar do vizinho são jeitos de estabelecer trocas de confiança e tornar as relações menos superficiais, descobrindo o que acontece na vida da pessoa que dorme a alguns metros de você.

Além disso, a auto-suficiência típica do interior também pode ser seu estilo de vida. Em vez de depender tanto de serviços contratados, que tal consertar com as próprias mãos a mesa que quebrou? Ou fazer uma bela blusa de tricô para o amigo que faz aniversário? Além de ser mais econômico, dá para extrair a calma associada ao interior de atividades feitas por você mesmo, como ter uma horta, lavar a roupa ou pintar o portão que anda enferrujado. É possível levar a paz do campo para a cidade.Do mesmo modo, a pessoa pode ter uma vida repleta de conflitos vivendo em ambientes tranqüilos, diz o psicólogo Paulo Fueta.

Faça o Seu Oásis

As duas dicas aí de cima dependem de uma questão fundamental: a sua casa. Sua moradia precisa ser uma ilha de conforto, um santuário pessoal na cidade, para isolá-lo da confusão que campeia lá fora, afirma Allen Elkin, autor do livro Feliz Cidade. Não adianta reclamar da bagunça urbana se ela continua entre suas quatro paredes. Em vez disso, o melhor é aproveitar para fazer da sua casa uma minicidade tranqüila, cheia de plantas, organizada e tratada com carinho, serenidade e delicadeza.

Apesar da imagem de solidão que os grandes centros urbanos passam, você está livre para abrir as portas de sua casa aos amigos. Além de aparecer para festas, jantares e churrascos, os mais chegados podem ficar com a chave de sua casa, caso eles ou você necessitem. E o cheiro gostoso do interior aparece facilmente em casa com um fogão a lenha. Também é possível se inspirar na Serra do Mar para fazer um belo jardim de inverno ou pelo menos deixar a casa repleta de plantas e móveis rústicos. Até o ritual clássico do interior passar a tarde em cima da árvore se esbaldando com as frutas pode ser realizado em um modesto quintal da cidade grande. Opções não faltam.

Cultive a Natureza

A preocupação com a casa também dá um desconto na distância entre a metrópole e a natureza.Toda grande cidade precisa de áreas verdes para deixar o ar menos poluído,diminuir a concentração de calor e aliviar o estresse urbano para a ONU, não existe qualidade de vida sem 16 metros quadrados verdes por habitante. Se você sente falta de verde onde mora, uma boa dica é meter a mão na terra e montar um jardim,um quintal ou até mesmo um pomar (como o escritor Rubem Braga, que mantinha um verdadeiro pomar suspenso em sua cobertura em Ipanema). Mas se preferir espaços verdes maiores e mais democráticos, trate de aproveitar os parques e, se for o caso, as praias da sua cidade. Nada como o contato com o mar em uma praia afastada para colocar as idéias no lugar. Já nas capitais longe do litoral, a saída é aproveitar os parques da melhor forma possível.

Porém, se o parque da sua cidade parece abandonado, procure freqüentá-lo quando houver eventos como feiras ou exposições culturais. Parques funcionam como ótimas academias ao ar livre: em vez de gastar dinheiro em lugares fechados, botar o corpo para correr no parque ajuda a diminuir seu estresse, e sua relação com o lugar se torna mais íntima. E fique atento às áreas verdes escondidas: o jardim de uma igreja, uma escadaria cheia de árvores ou um ponto com vista panorâmica podem funcionar como um refúgio, um santuário verde para contrabalançar o caos urbano.

Mas se você quer área verde mesmo, saiba que florestas fechadas, com mato e banho de cachoeira, estão mais perto do que se imagina. O que você acharia, por exemplo, de morar em uma cidade com um sexto do território protegido por uma área de preservação ambiental, florestas enormes e duas aldeias indígenas? Legal? Pois estamos falando de São Paulo, a quarta maior cidade do mundo. Como a maioria das metrópoles tupiniquins, São Paulo abriga florestas bem acessíveis. É preciso descobri-las.

Seja Democrático

Como você, os outros moradores da cidade também têm um jeito de morar, um estilo e preferências diversas. Os habitantes das grandes cidades precisam aprender a conviver com a diferença, afirma Ermínia Maricato, professora de urbanismo da Universidade de São Paulo (USP). Um dos traços principais da postura urbana é não se incomodar ao topar na rua com pessoas e comportamentos que eventualmente não contam com a sua aprovação. A cidade, enfim, é o palco das diferenças. O jornalista Alcino Leite Neto, por exemplo, não entende por que o centro de São Paulo é tão malvisto. Quando se fala em revitalizar o Centro, parece que ele está morto. E não está, diz ele, que escolheu orar perto da avenida Paulista por causa dos cinemas da região.O centro de São Paulo é bastante vivo, mas quem vive lá é uma outra classe social. Depois de morar durante dois anos em Paris, Alcino considera o centro de lá e o paulistano no mesmo nível. Todos têm seu charme, diz. A postura urbana pode até transformar você em um Indiana Jones metropolitano, descobrindo o diferente de quermesses a lautos banquetes em um restaurante freqüentado apenas por imigrantes de algum país distante. Afinal de contas, na metrópole, tudo pode acontecer.

Mergulhe Nas Ruas

Andar a pé por aí é essencial para manter a segurança da sua cidade. Uma rua movimentada e com comércio aberto é bem mais segura que outra deserta e cercada por muros. A paz nas calçadas e nas ruas não é mantida basicamente pela polícia, afirma Jane Jacobs. Quem a mantém são os padrões de comportamento espontâneos presentes em meio ao povo. Além disso, o ato de caminhar faz com que o morador realmente viva o seu lugar: só flanando por aí é que se consegue perceber os detalhes da cidade e até se encantar com sua imprevisibilidade. Não consigo imaginar a vida em uma cidade sem o ato de caminhar por ela, afirma o colombiano Hernando Gómez.

Reduza o Estresse

A irritação que eventuais picuinhas urbanas provocam pode ser diminuída de duas formas. Primeiro, evitando aquilo que irrita. Depois de identificar e reconhecer quais são os causadores do seu nervosismo, tente dar um jeito neles. É claro que não dá para apertar um botão e fazer o engarrafamento desaparecer, mas evitá-lo, buscando rotas ou horários alternativos, dá, sim. O segundo caminho é adquirindo o poder de lidar com a bagunça da cidade de forma mais madura. Em geral, isso passa por resolver a situação de estresse e os problemas afetivos que levam a pessoa a focar-se nos problemas, afirma a psicóloga Marilda Novaes Lipp, do Centro Psicológico de Controle do Estresse.

Além disso, há táticas para recuperar o bem-estar perdido pelas esquinas. A mais simples é arranjar uma boa atividade física: bastam 30 minutos de exercícios para o corpo liberar endorfinas, substâncias que dão sensação de conforto e bem-estar. Outro jeito é lembrar que não adianta contribuir para deixar a situação de estresse ainda pior. Quando alguma coisa der errado como perder as chaves no ônibus , não transforme o problema numa tragédia. Você não vai ganhar nada com isso.Na hora do nervosismo, porém, soltar um pouco de irritação é seu direito. Não é errado sentir raiva, diz Marilda Lipp. O que pode ser errado é o modo como a expressamos.

Ache a Sua Turma

As cidades estão cheias de pessoas que passam horas diante do sofá evitando o delicioso e imprevisível encontro com a vida lá fora. Quem age assim deixa escapar um dos grandes trunfos da cidade: o de abrigar todo tipo de gente e grupos com sonhos, idéias e inclinações. Se você ainda não descobriu seu canto na cidade, vá em busca dele. O melhor é começar pelas coisas de que você gosta. Uma preferência musical pode levar a bares específicos, cursos de dança ou de música. Um hobby, como o de cozinhar, tem a possibilidade de virar uma reunião semanal na casa de amigos que compartilham o mesmo gosto pelas artes da cozinha.Participar de uma organização comunitária ou mesmo de uma equipe esportiva também são jeitos de achar a sua turma.

Mude de Vida

Grande parte do estresse urbano é causada não tanto pela cidade, mas pelo modo como se vive nela. Em vez de mudar de cidade, muitas vezes é mais frutífero deixar de trabalhar em um lugar de competição agressiva entre os colegas, por exemplo. No lugar de sair de casa para enfrentar supermercados lotados e estacionamentos apinhados, será que não é melhor voltar a freqüentar a mercearia da esquina ou a padaria do bairro?

Outro ponto importante é a comida: nada impede que nos alimentemos, no meio da poluição e das lanchonetes de fast food urbanas, do modo mais saudável e consciente possível. Lembre-se: não é porque você mora em uma cidade grande que precisa ter um comportamento urbanóide. As cidades não determinam o comportamento de ninguém, afirma o psicólogo Hartmut.

Evite o Trânsito

Unanimidade: trânsito congestionado é chatíssimo. Ninguém é bem resolvido o bastante para ficar tranqüilo em um engarrafamento estando atrasado para o trabalho e a 40 ºC. Por isso, a melhor coisa a fazer diante do trânsito caótico é tentar evitá-lo. Dependendo de suas possibilidades, dá para trabalhar em casa, morar perto do trabalho ou adotar rotas e horários alternativos. Andar a pé é sempre o mais aconselhado por qualquer urbanista. Mas há outras alternativas. O gerente de sistemas Willian Cruz, que mora no bairro de Perdizes, em São Paulo, adotou uma postura nova no trânsito depois que seu carro foi para o conserto. Para quebrar o galho, comecei a ir para o trabalho de bicicleta e não parei mais, diz. Dois anos depois, ele virou louco por bicicleta. Até mesmo influenciou os colegas de trabalho. Faço os oito quilômetros do trajeto em menos tempo do que de carro. E chego animado em vez de estressado pelo trânsito.

Como uma hora ou outra você vai dar o azar de ficar preso no trânsito, saiba que se ressentir pela vida diante do volante é a pior coisa que se pode fazer. A realidade já nos dificulta o bastante, não precisamos ajudá-la a fazer isso, diz o psicólogo Paulo Fueta. O melhor é fazer pequenos projetos para evitar aquela situação. Também é bom administrar bem o tempo, já que ficamos muito mais nervosos no trânsito quando estamos atrasados. Ajuda criar um ambiente agradável no carro, com música, temperatura e roupas confortáveis.

Participe da Cidade

Não adianta resolver todos os seus problemas se as pessoas ao redor ainda conviverem com eles. Participar das decisões para melhorar é essencial. Exigir calçamento sem buracos, ruas mais iluminadas e fazer parte das decisões da cidade são recomendações previstas no Estatuto da Cidade. Participar da questão urbana ajuda a melhorar a cidade e a vida de quem mora nela, afirma Regina Monteiro, conselheira do Defenda São Paulo, movimento que reúne associações de bairro paulistanas.

Ok, reuniões de condomínio não são o melhor programa da sua vida, mas tornam o dia-a-dia mais civilizado. Além delas, dá para participar da cidade aderindo a grupos de assistência, associações de moradores, ajudando na escola do bairro. Sem falar nas atitudes básicas que todo cidadão deve tomar. O governo tem um papel primordial, mas os moradores precisam apoiar programas como reciclagem e limpeza da cidade, afirma Ermínia Maricato.

Conheça a História

Cidades grandes são resultados complexos de fenômenos igualmente impressionantes. Entender por que o seu bairro é feito de ruas tortas, por que as casas são todas iguais ou descobrir a origem das pessoas que formam a cidade são modos de começar a gostar ou, pelo menos, entender a metrópole. Além disso, se a sua cidade não parece gloriosa hoje, certamente ela teve um passado glorioso que pode deixar sua vivência pelas ruas mais interessante. Há diversas formas de conhecer a história da cidade,desde a origem do nome da rua, o nascimento do bairro, os imigrantes que o povoaram.

Aproveite. Sempre

É possível tirar muito prazer de coisas simples da cidade, como andar por um bairro desconhecido, sentar em um banco de praça ou tomar um suco contemplando a multidão que zanza por todo lado, para lá e para cá. Sem falar nas centenas de restaurantes, clubes e botecos ideais para se esbaldar em delícias terrenas e viver a vida da forma mais saudável e jovial possível. Afinal de contas, fazer parte da cidade é torná-la um pouco mais parecida com você.

FONTE: Vida Simples

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