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Sobre o Dinheiro e as Emoções

Heart of Money

O medo e a dor de perder dinheiro
Estudo publicado na Neuroscience revela como o cérebro administra as perdas

Para o cérebro, perder dinheiro é doloroso e temerário. Essa é a conclusão de um estudo publicado na Neuroscience por pesquisadores da University College de Londres. Usando ressonância magnética funcional para analisar o tecido cerebral de 20 voluntários que passavam o tempo apostando em jogos de azar, os cientistas observaram que perder ativava neurônios dos circuitos ancestrais reguladores do medo e da dor.

Muitas decisões cotidianas, como apostar na loteria ou investir em aplicações financeiras, são, de certo modo, jogos de azar que geralmente resulta em ganho ou perda de dinheiro”, explica o neurocientista Ben Seymour, coordenador da pesquisa. “Temos alguma idéia sobre como o cérebro aprende a ganhar, mas não tínhamos até então muitas pistas sobre como ele administra as perdas.”

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Excesso de otimismo prejudica as finanças

Otimismo é bom, mas seu excesso pode fazer mal ao bolso. É o que revela uma pesquisa feita na Universidade Duke e publicada no Journal of Financial Economics. Os pesquisadores criaram um método de classificação de níveis de otimismo baseados em bancos de dados demográficos e financeiros da população dos Estados Unidos.

Os resultados mostraram que, em níveis moderados, uma visão positiva do futuro leva a melhores decisões tomadas ao longo da vida e que culminam numa situação financeira mais confortável. Além de conseguir economizar mais dinheiro, estas pessoas trabalharam menos, fizeram menos dívidas e aposentaram-se mais tarde. Já os otimistas extremos passaram mais tempo trabalhando, guardaram menos dinheiro, fizeram mais dívidas e são mais propensos a fumar. “Isto mostra que, assim como excesso de confiança, uma visão extremamente positiva da vida pode levar a comportamentos que, em longo prazo, revelam-se pouco benéficos”, diz Manju Puri, coordenador do estudo.

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Para poupar, precisa doer no “bolso”

Estudo revela que aposentar o cartão de crédito é uma forma eficaz de fazer economia

Todo mundo sabe, intuitivamente, que aposentar o cartão de crédito é uma forma eficaz de fazer economia. Agora um estudo de pesquisadores da Universidade de Nova York comprovou isso cientificamente. Em artigo publicado no Journal of Experimental Psychology, eles elaboraram dois experimentos em que voluntários simulavam compras com cartão de crédito ou dinheiro, o que resultou em gastos significativamente maiores com o primeiro método. Os autores explicam que pessoas se iludem quando usam o “dinheiro de plástico”, pois ele não causa aquela conhecida “dor” no bolso, deixando o caminho livre para o impulso e, conseqüentemente, o rombo no orçamento.

FONTE: Viver Mente e Cérebro

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O estudo foi realizado com jovens de 13 a 21 anos, no Grupo de Assistência Social Bom Caminho, na periferia da Zona Oeste de São Paulo

Agência USP de Notícias

Apesar dos poucos recursos, os jovens da periferia gastam seu dinheiro principalmente em cuidados com a aparência. A escolha é uma tentativa de fugir dos preconceitos que sofrem e serem aceitos pelo seu grupo social e pela sociedade. Essa é uma das constatações obtidas na pesquisa realizada pela cientista social Paula Nascimento da Silva.

A pesquisadora, que concluiu seu mestrado na Faculdade de Educação (FE) da USP (Universidade de São Paulo) em 2008, estudou o Grupo de Assistência Social Bom Caminho, na periferia da Zona Oeste de São Paulo. A instituição trabalha com cerca de 160 jovens da comunidade, discutindo educação, família, saúde, violência e outros temas. “Eu entrei na instituição como voluntária e, durante quatro anos, além das atividades sociais, realizei entrevistas e questionários, com jovens de 13 a 21 anos, sobre consumo e assuntos relacionados“, conta Paula.

O objetivo da pesquisa foi identificar quais bens de consumo eram privilegiados por esses jovens e o porquê. Pelas entrevistas, Paula constatou que os jovens privilegiam o vestuário e objetos que compõem a aparência pessoal, como tênis, roupas, produtos de cabelo, cosméticos etc. Uma das perguntas realizadas foi o que o jovem compraria se tivesse R$ 500 à mão naquele momento. Apesar de aparecerem respostas como ajudar a família, as contas da casa ou comprar alimentos, predominaram os gastos com a aparência.

Falta de emprego

Diferentemente do jovem de classe média e alta, que não tem grandes dificuldades para conseguir trabalho ou estágios, o jovem da periferia geralmente não tem emprego formal, a maioria faz bicos eventuais. Com o tráfico e outras atividades ilegais – sempre mais presentes que para outros grupos sociais – eles podem ganhar mais dinheiro em bem menos tempo. “A questão que eu levantei foi: porque esses jovens arriscam a vida para ganhar dinheiro e gastam com coisas aparentemente supérfluas, como tênis de marca, roupas, festas e baladas?“, questiona a pesquisadora.

A resposta é que esses jovens especificamente são estigmatizados como marginais, que não trabalham. Há assim um preconceito muito forte da sociedade em geral, mas se ignora que eles têm uma vitimização muito maior que em outros setores e faixas etárias da sociedade. Por exemplo, o Brasil tem uma taxa de homicídios violentos de cerca 48 casos para cada 1.000 mortes na população geral. Na periferia de São Paulo, entre os jovens do sexo masculino, essa taxa sobe para 106 casos.

A pesquisa de campo mostrou que, quando os jovens saem da periferia, eles sofrem esse olhar de discriminação. “Um exemplo típico é quando ele vai ao shopping e o segurança o aborda perguntando o que ele está fazendo ali“, explica Paula, “pensando nisso, percebi que o consumo está diretamente ligado ao preconceito“. A tentativa em mudar a aparência é também uma tentativa de fugir desse estigma negativo que existe em relação ao jovem da periferia.

Assim, a pergunta inicial está respondida: porque o jovem privilegia bens de consumo aparentemente desnecessários? A pesquisa mostrou que vestuário e aparência não são gastos supérfluos para o jovem da periferia, muito pelo contrário. “Como eles são excluídos pela sociedade, vivendo sem segurança, saúde e educação, as possibilidades de construir um futuro estão muito distantes. Nesse contexto, o consumo ligado à aparência traz resultados mais rápidos e evidentes”, explica a pesquisadora.

Alternativas à exclusão

Em vez de construir uma formação, o jovem, para fugir dos estereótipos e ser aceito em seu próprio grupo, tenta aparentar algo mais próximo do que a sociedade aceita e valoriza. Paula esclarece que “o jovem nessa faixa etária tem fragilidade e a necessidade de reconhecimento e aceitação. E esse reconhecimento se dá pelo que o jovem tem materialmente, pois vivemos numa sociedade de consumo“.

Segundo a socióloga, falta ao poder público não apenas conscientizar esse jovem, para que ele use seus poucos recursos em algo mais necessário e construtivo, mas, principalmente construir melhores condições de educação, saúde, alimentação e moradia. A sociedade exige que ele esteja inserido nesse imperativo social, e seria insensato exigir que o jovem da periferia nade contra a corrente da sociedade de consumo e ainda vença os muitos preconceitos que sofre.

Finanças Comportamentais

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*Por Isabella Bertelli

Já ouviu falar em finanças comportamentais [em inglês, behavioral economics]? Ou o título foi tão inesperado que o levou a ler esse texto? Bem, finanças comportamentais é um ramo de estudo que envolve áreas como a administração, a economia e a psicologia. Como o próprio nome sugere, trata-se de estudar o comportamento financeiro das pessoas.

Comportamento financeiro pode ser tudo o que se relaciona com o uso do dinheiro; por exemplo, algumas perguntas que podem ser feitas são: por que algumas pessoas economizam mais do que outras? Os mais velhos tendem a gastar menos ou mais que os jovens? Como uma pessoa decide onde investir seu dinheiro, se, por exemplo, na poupança ou na bolsa de valores? O que conta na hora de alguém decidir abrir seu próprio negócio? Como uma dona (ou dono) de casa organiza e lida com a renda e os gastos? Como um acionista decide onde investir e onde não investir? Como decidimos no que gastar nosso dinheiro e no que não gastar? Etc e etc.

Todas as pessoas, a partir de uma certa idade, têm que administrar suas finanças pessoais. Desde muito cedo, em nossa sociedade, muitas crianças já têm que raciocinar sobre dinheiro e se comportar com relação a ele: alguns ganham trocados dos pais sem fazer nada em troca, outros precisam realizar tarefas; alguns mantêm cofrinhos, outros gastam tudo assim que ganham; precisam decidir se compram doces ou brinquedos etc.

O estudo das atitudes e comportamento financeiros das pessoas pode servir a uma dupla função: (1) Para entidades financeiras, como: empresas, para um entendimento das atitudes e comportamentos dos clientes, e para órgãos governamentais, pois pode auxiliar no planejamento de políticas públicas, evitando perdas financeiras, e (2) para as pessoas, pois entender a maneira com que lidam com o seu dinheiro é importante para que sejam elaboradas estratégias para evitar sofrimentos, dívidas, dificuldades na administração e uso etc.

A base das finanças comportamentais se relaciona ao trabalho de dois psicólogos: Amos Tversky e Daniel Kahneman. Os trabalhos destes pesquisadores, elaborados entre os anos 1974 e 1979, representam a base teórica para a análise do comportamento financeiro. Antes deles, havia um pensamento dominante na área das finanças, que é conhecido como hipótese de racionalidade ilimitada dos agentes, oriundo da teoria neoclássica.

Esse nome complicado pode ser simplificado da seguinte forma: achava-se que as pessoas eram racionais sempre, todo o tempo, ilimitadamente… Logo, seu comportamento quanto ao dinheiro era totalmente racional, pensado inteligentemente de modo a atingir a melhor escolha, como se um computador interno fizesse complicados cálculos matemáticos, estatísticos e probabilísticos e chegasse à melhor opção, e agíssemos de acordo com isso.

Como você deve desconfiar, essa hipótese não é adequada, pois as pesquisas indicam que as pessoas não pensam ou se comportam sempre de um jeito considerado “racional”. Na área da psicologia, há algum tempo fala-se que as pessoas não são racionais (Freud o disse, só para citar um nome conhecido), mas isso não era idéia corrente em todos os círculos, nem mesmo na psicologia, muito menos na economia, a principal área a estudar o comportamento financeiro.

As finanças comportamentais procuram relaxar a hipótese de racionalidade radical, e consideram inadequado conceber o indivíduo como simples autômato, calculista objetivo de problemas de otimização condicionada, refém de uma lógica inexorável. Buscam incorporar os aspectos psicológicos dos indivíduos no comportamento financeiro, evidenciando a irracionalidade das pessoas.

Na definição de Camerer (2003), a essência das finanças comportamentais é a convicção de que aumentando o realismo dos fundamentos psicológicos humanos quanto às finanças, a própria economia irá melhorar, pois se gera insights teóricos, faz-se melhores predições dos fenômenos, e sugere-se melhores formas de lidar com ela. Para esse autor, a teoria neoclássica não é completamente inútil, porque provê os economistas de uma estrutura teórica que pode ser aplicada muitas vezes, além de provê-los de predições refutáveis.

Quero chamar a atenção para a questão dos pontos de vista. Camerer e a maioria dos autores desse ramo são da economia e de áreas afins, e muitas vezes partem de um ponto de vista das empresas, com o objetivo número 1 que citei no começo, por exemplo, de otimizar lucros e evitar perdas. Querem pesquisar para entender como nossa cognição funciona, de modo que diminuamos os erros e aumentemos os acertos, para evitar perdas financeiras, para empresas, bolsa de valores, órgãos de financiamentos e órgãos governamentais gerais que lidam com dinheiro. Há também outro ponto de vista, o número 2, que é o foco nas pessoas, em como entender e melhorar a forma como lidamos com nossas finanças. Existem, ainda, estudos que unem esses dois pontos de vista.

Voltando na história, os trabalhos de Tversky e Kahneman foram essenciais para dar força a uma hipótese contrária a da racionalidade ilimitada: a da racionalidade limitada [bounded racionality], como nomeou outro pesquisador, o Simon (1957). As pesquisas desses autores fundamentaram a idéia de que os seres humanos estão sujeitos a vieses comportamentais que, muitas vezes, os afastam de uma decisão centrada na racionalidade. Portanto, muito do que sabemos sobre vieses cognitivos, vêm de pesquisas sobre tomada de decisão.

Simon (1957) argumenta que pessoas que têm que tomar decisões (1. tomadores de decisão, o termo mais utilizado; 2. Decisões como, compro o carro ou não? Invisto meu dinheiro nisso ou não?) têm limitações em suas habilidades no processamento de informações. Conseqüentemente, os tomadores de decisão não podem ser perfeitamente racionais da maneira descrita pela teoria neoclássica. Ao invés disso, os tomadores de decisão tentam fazer o melhor que podem dadas as limitações a que estão sujeitos.

A maior contribuição conceitual de Simon é a noção de que as considerações do processamento de informação (ou seja, como as informações são processadas em nossas mentes) representam um importante papel no entendimento do processo decisório humano. Deste modo, como nossa capacidade é limitada no processamento de informações, em condições de incerteza, usamos “regras práticas” ou heurísticas [heuristics] para tomar decisões.

Neste contexto, no final dos anos 60 e início dos anos 70, uma série de artigos escritos por Tversky e Kahneman revolucionou a pesquisa acadêmica em julgamento humano. A idéia central do programa “heuristics and biases” e que julgamentos em situações de incerteza freqüentemente são baseados em um número limitado de heurísticas simplificadoras em vez do processamento algoritmo mais formal e extensivo e este conceito influenciou diversas teorias e pesquisas. Os erros de cognição têm sido considerados em pesquisas de diversos campos de conhecimento, como análise de decisão, estratégia empresarial e finanças (Schwenk, 1984).

Esses trabalhos introduzem a possibilidade de que, nas suas tomadas de decisão, agentes financeiros empreguem processos heurísticos, podendo incorrer sistematicamente em vieses cognitivos. A partir dessas idéias, nas últimas duas décadas, tem aumentado o interesse não somente da comunidade acadêmica e do ambiente empresarial, pelas associações entre psicologia dos julgamentos que as pessoas realizam, e o processo de tomada de decisão (Mendes-da-Silva & Yu, 2009).

A literatura de finanças comportamentais aborda alguns dos vieses cognitivos, como esses:

- Representatividade. Inicialmente examinada por Tversky e Kahneman (1974), indivíduos que utilizam essa heurística tendem a fazer julgamentos baseados em estereótipos previamente formados. Esse viés cognitivo induz um comportamento de ignorar o papel do tamanho de uma amostra, por exemplo; ou melhor, na intuição de algumas pessoas, o tamanho da amostra não é fator relevante, apesar de constituir matéria essencial em estatística.

- Ancoragem ou ajustamento. As pessoas tendem a fazer julgamentos a partir de um valor inicial, que será ajustado para a obtenção de uma resposta final. O ajustamento realizado freqüentemente não oferece condições para considerar racional a escolha do agente. Desse modo, decisões tomadas em contextos similares podem apresentar-se diferentes, em decorrência de valores de referência distintos.

- Disponibilidade. Os eventos mais freqüentes são mais facilmente lembrados. Adicionalmente, os eventos mais prováveis são mais lembrados que os improváveis. Esta heurística, segundo Bazerman (2002), pode induzir o agente a erros sistemáticos na tomada de decisões gerenciais.

Esses autores argumentam ainda que ganhos e perdas são avaliados relativamente a um ponto neutro de referência, e que a dor associada à perda de um valor $X é maior que o prazer associado ao ganho dos mesmos $X, existindo uma tendência de superavaliar eventos de pequena probabilidade e subavaliar eventos de média e grande probabilidade.

Esse pequeno texto introduziu as finanças comportamentais. Note que apesar do nome do ramo se referir ao comportamento, muito do que é estudado é cognição. Portanto, as finanças comportamentais abrigam uma gama de estudos que se referem a comportamento, atitudes, expectativas e cognição com relação a finanças, sendo bastante ampla e abarcando múltiplas possibilidades.

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Esta é uma entrevista com Bernard Lietaer feita pela jornalista Sarah van Gelder, editora da revista Yes, revista de futuros positivos, EUA, 1988. O texto em espanhol foi enviado à Primavera, aos 23 de Abril de 2002. Esta tradução é do tipo tradução livre da CAPINA.

Poucas pessoas trabalharam com e sobre o sistema monetário a partir de enfoques tão distintos como Bernard Lietaer, que atuou cinco anos no Banco Central da Bélgica. Aí, seu primeiro projeto foi o desenho e a implementação de uma moeda européia unificada. Lietaer foi presidente do sistema de pagamento eletrônico da Bélgica; desenvolveu para empresas multinacionais tecnologias a serem usadas em ambientes de múltiplas moedas nacionais; também atuou em países em desenvolvimento, contribuindo para melhorar suas poupanças. Ensinou finanças internacionais na Universidade de Lovaina, na Bélgica, país onde nasceu, e, ainda, foi gerente geral e broker (corretor) de uma das grandes empresas de investimento.

Atualmente, é professor visitante do Centro para o Desenvolvimento Sustentável da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e está escrevendo o seu décimo livro, O Futuro do Dinheiro: mais além da cobiça e da escassez. A editora Van Gelder conversou com ele sobre a possibilidade de um novo tipo de moeda, mais adequada à construção da comunidade e da sustentabilidade. Essa é a conversa que transcrevemos aqui.

Por que você põe tanta esperança no desenvolvimento de moedas alternativas?

O dinheiro é como um anel metálico que colocamos em nosso nariz e nos esquecemos de que fomos nós mesmos que o desenhamos e, então, nos deixamos conduzir por ele ao redor do mundo… Acredito que já é tempo de imaginar aonde queremos ir e, em minha opinião, deveríamos nos encaminhar para a sustentabilidade e para a comunidade. Portanto, é preciso desenhar um sistema monetário que nos conduza até este ponto.

Então, na realidade, você diria que muito daquilo que ocorre ou que não ocorre na sociedade tem sua raiz no desenho do dinheiro?

É assim. Enquanto os livros de texto de Economia sustentam que as pessoas e as empresas estão competindo por mercados e recursos, eu sustento que, na realidade, elas estão competindo é por dinheiro – usando os mercados e os recursos para fazer isso. Portanto, o desenho de um novo sistema monetário significa, na realidade, redesenhar o alvo para o qual se orienta grande parte do esforço humano. Mais ainda: creio que a cobiça e a competência não resultam de nenhum temperamento humano imutável constitutivo. Eu cheguei à conclusão de que a cobiça e o medo da escassez, na realidade, estão sendo continuamente criados eamplificados, como conseqüência direta do tipo de dinheiro que estamos utilizando. Por exemplo, podemos produzir mais alimentos do que o suficiente para alimentar todo o mundo, como também existe trabalho suficiente para todos no mundo. Mas, claramente, não existe dinheiro suficiente para pagar todos esses trabalhos: a escassez está em nossas moedas nacionais. Na realidade, a tarefa dos Bancos Centrais é criar e manter essa escassez de divisas e a conseqüência disso é que temos então que lutar uns contra os outros a fim de sobreviver.

O dinheiro é criado quando os bancos fazem empréstimos. Quando um banco entrega a soma de cem mil dólares contra uma hipoteca, na realidade o que o banco está criando é o dinheiro principal e inicial, ou seja, os 100.000 que você gasta e que, então, faz circular a economia. Mas, na realidade, o banco conta com que você vai devolver 200.000 dólares nos próximos vinte anos. Só que estes segundos 100.000 dólares não são criados. Pelo contrário, significa que o banco manda você para o mundo cruel, para que você lute contra todo mundo e traga para ele esses segundos 100.000 dólares.

Então, isto quer dizer que uns têm que perder para que outros possam ganhar? Ou seja, é preciso que uns tenham que sacar de suas contas para que outros consigam dinheiro suficiente para pagar esses juros?

É assim: é exatamente isso que os bancos fazem quando emprestam o dinheiro que têm. E isso é assim porque as decisões tomadas pelos Bancos Centrais, como a Reserva Federal dos EE UU, são tão importantes. Uma alta significativa no custo das taxas de juros automaticamente determina uma proporção muito alta de quebras necessárias. Na realidade, isso quer dizer que quando o banco verifica sua credibilidade, realmente o que ele está checando é o quanto você é capaz de competir e vencer os outros jogadores. Em outras palavras, até que ponto você vai ser capaz de extrair esses segundos 100.000 dólares que o banco nunca criou e que, se você fracassar neste jogo, ele o fará perder sua casa ou qualquer outro patrimônio colateral que você terá que entregar.

Isto influencia também a taxa de desemprego?

Seguramente, este é um fator maior, mas ainda há algo mais a agregar: cada vez mais, as tecnologias da informação permitem que se alcance um alto crescimento econômico sem um correspondente aumento do emprego. Creio que nos EE UU, neste momento, estamos vivendo uma das últimas etapas ou períodos orientados pelo emprego, como diz Jeremy Rifkin em seu livro o Fim do trabalho: os empregos não vão existir mais, nem sequer nas boas épocas. Um estudo feito pela Federação Metalúrgica Internacional em Genebra prediz que, dentro dos próximos trinta anos, apenas dois ou três por cento da população mundial serão capazes de produzir todas as necessidades do planeta. Mesmo que multipliquemos isso por um fator dez, a pergunta será: o que então fariam os outros 80 por cento da humanidade? Meu prognóstico é de que as moedas locais serão uma ferramenta de muita importância para o desenho social no século XXI, mesmo que não seja por nenhuma outra razão além do emprego. Não estou dizendo que essas moedas locais estão sendo chamadas a substituir ou que irão substituir as moedas nacionais. Por isso mesmo é que as chamo de moedas complementares. As moedas nacionais que geram competição, com certeza, vão continuar a desempenhar seu papel no mercado global competitivo. Mas, creio eu que, sem dúvida, as moedas locais complementares são muito mais adequadas para desenvolver as economias locais e cooperativas.

Você acredita que essas economias locais irão prover uma forma de emprego que não será ameaçada de extinção?

Ao menos numa primeira etapa, isso é correto. Na França, atualmente, existem umas trezentas redes de intercâmbio local chamadas SEL (SAL). Desenvolveram-se quando os níveis de desemprego alcançaram os 12%, para facilitar intercâmbios de diversos tipos de produtos e serviços, desde os aluguéis à produção orgânica. Mas também é certo que em alguns lugares se trata de um movimento bastante desenvolvido, como no Sudeste da França, em Ariège, onde existe um movimento bastante importante de pessoas que, não só comercializam queijos, frutas, tortas e outros produtos de mercado comercializados a cada 15 dias, mas também serviços de serralheria, cabeleireiro, aulas de navegação a vela ou aulas de inglês. Nesse circuito, apenas são aceitas as moedas locais. E as moedas locais criam trabalho; assim, creio ser adequado fazer a distinção entre trabalho e emprego. Emprego é o que você faz para viver. Ao contrário, trabalho é algo que você pode fazer se que você quiser, se te agrada. Desde já, espero que os empregos se tornem cada vez mais obsoletos e, mesmo assim, sempre existirá um fascinante e infinito trabalho por ser feito. Na França, você encontra pessoas que oferecem aulas de violão em troca de aulas de alemão e ninguém paga em euros. O que é maravilhoso quanto à moeda local é que quando as pessoas criam sua própria moeda não precisam criá-la com base no fator da escassez e nem precisam dispor de moedas de nenhum outro lugar para poder fazer um intercâmbio com o vizinho. Outro exemplo clássico é o do Time Dollar de Edgard Kahn, que significa que, enquanto existir um acordo entre duas pessoas sobre alguma transação com uso desses time dollars, o dólar tempo, eles já criaram odinheiro no próprio processo do acordo; não existe, portanto, escassez de moeda e isso não significa que exista uma quantidade infinita dessa moeda. VOCÊ NÃO PODE ME DAR 500.000 horas de time dollars porque seria impossível da tua parte dar tantas horas… Mas não existe essa escassez artificial de dinheiro que os bancos criam permanentemente. Em vez de atirar uns contra os outros, este sistema impulsiona as pessoas a cooperarem entre si.

Você está sugerindo que a escassez não precisa ser um princípio guia de nosso sistema econômico. Mas a escassez não é fundamental à economia, em especial quando se trata de um mundo de recursos limitados?

A análise dessa questão está baseada no trabalho de Carl Gustav Jung, porque ele foi o único que construiu um marco de abordagem da psicologia coletiva. E o dinheiro é um fenômeno de psicologia coletiva. O conceito chave de Jung é que o dinheiro é um campo emocional que mobiliza as pessoas individual e coletivamente em uma direção particular. Jung mostrou que todas as vezes que um arquétipo particular é reprimido, emergem dois tipos de sombras que são polaridades uma da outra. Por exemplo, se o arquétipo que corresponde ao papel de rei ou de rainha é reprimido, eu vou me comportar seja como um tirano seja como um covarde.

Essas duas sombras estão conectadas uma à outra através do medo. Assim, alguém é tirano por medo de parecer débil, enquanto o débil o é por medo de parecer tirano. Só alguém que não tenha medo dessas duas sombras pode incorporar o arquétipo do Soberano. Agora, podemos aplicar este marco também ao fenômeno, já tão bem documentado, da repressão ao arquétipo da Grande Mãe – o arquétipo da Grande Mãe foi muito importante no mundo ocidental, nos albores da pré-história, através do período pré indo-europeu e ainda o é em muitas culturas tradicionais atuais. Mas esse arquétipo tem sido violentamente reprimido no ocidente, ao menos durante 5.000 anos iniciados com as invasões indo-européias, reforçadas pela cosmovisão judáico-cristã, que é contrária à figura da deusa, e culminando com os três séculos de caças às bruxas ao longo da era vitoriana.

Assim, se repressão exercida contra esse arquétipo é de tal ordem, e tendo durado todo esse tempo, então, aquelas sombras se manifestam de maneira muito poderosa na sociedade. Se depois de 5.000 anos as pessoas passaram a considerar esses comportamentos de sombra como normais, a pergunta que eu me faço é muito simples: quais são as sombras do arquétipo da Grande Mãe? Daí que estou propondo que estas sombras sejam a cobiça e o medo da escassez. Assim, não é surpreendente que, na época vitoriana, no clímax da repressão contra a Grande Mãe, um mestre escola escocês chamado Adam Smith tivesse então criado a economia moderna, que pode ser definida a partir deste enfoque como uma maneira de distribuir ou de administrar os recursos escassos através do mecanismo individual e pessoal da cobiça.

Então, se a cobiça e a escassez são as sombras, qual é o arquétipo da Grande Mãe? Ou melhor, o que representa o arquétipo da Grande Mãe em Economia?

Primeiro, seria importante distinguir a deusa que representa todos os aspectos do DIVINO como a GRANDE MÃE, que simboliza especificamente o planeta Terra, a fertilidade, a natureza e o fluxo da abundância em todos os aspectos da vida. Alguém que assimilou o arquétipo da Grande Mãe confia na abundância do universo. É quando falta confiança em você mesmo que, então, o fato de ter uma gorda conta bancária, a qualquer preço, acaba sendo o maior valor a que se aspira. O primeiro homem que acumulou uma série de coisas como proteção contra as incertezas do futuro, automaticamente teve que começar a defender o seu botim contra a inveja e as necessidades dos outros. Se uma sociedade tem medo da escassez, ela cria um ambiente no qual se manifestam boas razões para se viver com medo da escassez: isso é o que se chama uma profecia de autocumprimento.

Também é verdade que temos vivido durante um longo tempo acreditando que era necessário criar escassez para criar valor. Mesmo que isso possa ser válido em alguns domínios, se extrapolado para outros, como temos feito, pode ser absolutamente artificial. Por exemplo, não existe nada que nos impeça de distribuir gratuitamente toda informação. O custo marginal dessa distribuição nos dias de hoje é praticamente nulo; sem dúvida, inventamos copyrights e patentes para manter a informação escassa (e valiosa). Assim, o medo da escassez é que cria a cobiça e a acumulação, criando por sua vez – em outra parte – a escassez que se temia. Enquanto, por seu lado, as culturas que incorporam a Grande Mãe são baseadas na abundância e na generosidade.

Estas idéias estão desenvolvidas por você no conceito de comunidade?

Na realidade, minha definição de comunidade é etimológica. A origem da palavra ‘comunidade’ vem do Latim, de munus, que quer dizer dom, presente; e de cum, que quer dizer juntos. Juntos, um com o outro é o que significa literalmente comunidade; dar-se uns aos outros. Portanto, eu defino comunidade como um grupo de pessoas que acolhe bem e honra minhas ofertas e presentes, e de quem espero também receber em troca, de volta, razoavelmente, ofertas e presentes.

E as moedas locais podem facilitar este intercâmbio de presentes?

A maioria das moedas locais que conheço começaram com o propósito de criar emprego, mas existe um grupo crescente de pessoas que estão começando experiências de moedas locais especificamente para criar comunidade. Por exemplo, eu me sentiria muito estranho se chamasse meu vizinho, no vale, e lhe dissesse: “percebi que você tem um montão de pêras em sua árvore. Será que posso pegar algumas? Imediatamente, me sentiria com a necessidade de lhe oferecer algo em troca… Mas, se vou ao supermercado e ofereço meus dólares escassos, é muito mais fácil e muito mais cômodo, simplesmente porque … vou ao supermercado! Assim, acabamos não usando as pêras do vizinho. Mas, se eu tivesse moedas locais, não teria nenhuma escassez de meios de troca. Então, comprar as pêras do vizinho poderia se tornar numa boa desculpa para a interação. Em Tahoma Park, Maryland, Olav Eliberk começou com uma moeda local para facilitar esse tipo de intercâmbio dentro da comunidade e todos os participantes concordam que foi isso o que ocorreu desde então.

O que nos leva à seguinte pergunta; se as moedas locais podem significar também um meio pelo qual as pessoas podem satisfazer suas necessidades básicas, como alimentação e moradia? Ou se essas são necessidades que deverão continuar sendo satisfeitas pelo mercado competitivo?

Tem muita gente que gosta de jardinagem mas que, neste mundo competitivo, não pode viver de jardinagem. Agora, se um jardineiro está desempregado e eu estou desempregado, na economia formal os dois devemos morrer de fome. Sem dúvida, com as moedas complementares, ele pode cuidar de meu jardim e fazer crescer meus alfaces e eu posso lhe pagar em moeda local, prestando algum serviço a alguém que precise dele, da mesma forma como as horas de Ithaca, NY, são aceitas no mercado local. Pois, os granjeiros usam a moeda local para pagar a alguém que os ajude com a colheita ou para consertar alguma coisa dentro de casa. Alguns senhorios aceitam essas “horas” para pagamento do aluguel, especialmente se não estão afetados por cotas de hipoteca a serem pagas com os dólares escassos.

Quando você dispõe de moeda local, rapidamente se torna claro o que é local e o que não é local. Por exemplo, um grande supermercado só vai aceitar dólares, porque seus fornecedores estão em Hong Kong, Singapura, ou Kansas City. Mas o supermercado local de Ithaca aceita horas e dólares. Usando moedas locais, você pode criar um caminho em direção à sustentabilidade local. As moedas locais também provêem a comunidade de algumas proteções contra os aumentos de preços e os vaivéns da economia global.

Você que esteve no negócio de monitoramento e de desenho do sistema financeiro global, porque você acredita que as comunidades deveriam estar protegidas desses vaivéns?

Antes de tudo, o sistema monetário oficial atual já não tem mais quase nada a ver com a economia real. Só para dar uma idéia, as estatísticas de 1995 indicam que o volume de moeda intercambiada em nível global foi de 1 a 3 trilhões por dia: isto é, 30 vezes mais do que o produto bruto diário dos países desenvolvidos da OCDE em seu conjunto. Um produto interno bruto (PIB) dos EE UU é movimentado no mercado global a cada três dias. Deste total, só dois ou três por cento têm a ver com transações reais; o resto está dentro do cibercassino especulativo global. Isso significa que a economia real foi relegada a ser uma mera capa de cobertura do bolo da especulação, o que é o reverso do que acontecia até duas décadas atrás.

Quais são as implicações deste fato e o que ele significa para aqueles que não estão fazendo transações através das fronteiras internacionais?

Por um lado, está muito claro que o poder se deslocou dos governos para os mercados financeiros. Quando um governo faz algo que desagrada ao mercado – como os britânicos em 1991, os franceses em 1994, os mexicanos em 1995 – ninguém vai se sentar à mesa e lhe dizer: “vocês não deveriam fazer isso porque…” O que acontece é algo muito mais fácil: surge uma crise monetária com aquela moeda. Assim, algumas centenas de pessoas que não foram eleitas por ninguém e que não têm nenhuma responsabilidade coletiva sobre nada… Como, por exemplo, são os fundos de pensão ou tantas outras coisas… E assim segue o processo…

Você falou também da possibilidade de uma explosão desse sistema…

Hoje, estou vendo uns 50% de probabilidade de que isto ocorra nos próximos 5 ou 10 anos. Há pessoas que dizem que essa possibilidade é de 100%, que este horizonte está muito mais próximo. George Soros, que trabalhou especulando com moedas, concluiu que esta falta de estabilidade é cumulativa; assim, que a quebra da livre flutuação da moeda está absolutamente garantida. Joel Kurtsman, ex-diretor de Harvard Business Review põe o seguinte título em seu último livro: A morte do dinheiro e prognóstico de colapso iminente devido à loucura especulativa…

Só para ver como isso poderia acontecer, imaginemos as reservas de todos os Bancos centrais da União Européia, que representam algo em torno de 640 bilhões US$. Pois, numa situação de crise, se todos os Bancos Centrais decidissem trabalhar juntos – coisa que nunca fizeram – e se todos decidissem usar todas as suas reservas – o que tampouco jamais ocorreu – eles seriam fundos para controlar apenas a metade do volume de um dia normal de comércio! Isto seria numa ocasião normal; mas num dia de crise este volume poderia duplicar ou triplicar; aí, então, as reservas dos Bancos Centrais não durariam mais que duas ou três horas…

E qual seria a saída?

Se isso ocorresse de repente, estaríamos hoje em um mundo muito diferente. Em 29, o mercado de ações quebrou, mas se manteve o padrão ouro. Foi por isso que o sistema monetário se sustentou. Agora, estamos lidando com algo muito mais fundamental: o único caso próximo que conheço é o do império romano, que terminou com a moeda romana. Naquele tempo, isso levou quase um século e meio para que a quebra se propagasse
para todo o império. Agora, essa mesma coisa levaria apenas algumas horas.

As moedas locais não poderiam prover as comunidades de alguma forma de resistência, ajudando-as a sobreviverem em situação de quebra das moedas ou de qualquer outra quebra internacional? Você mencionou também que as moedas locais poderiam promover a sustentabilidade: qual é a conexão?

Para compreender isso, é preciso ver a relação que existe entre as taxas de juros e os modos como operamos tendo em vista o futuro. Se eu pergunto: “Você quer cem dólares agora, ou cem dólares dentro de um ano?”, a maior parte das pessoas irá responder que querem o dinheiro agora. Simplesmente porque acham que devem depositar esse dinheiro numa conta bancária, sem riscos, e poder contar com cento e dez dólares um ano mais tarde. Uma outra maneira de dizer isso é que, se eu te ofereço dez dólares dentro de um ano, seria equivalente a te oferecer noventa, hoje. O desconto que se faz em relação ao futuro se refere ao desconto pelo dinheiro à vista. Por exemplo, se pagamos à vista, em geral, sempre nos dão um desconto de dez por cento, por isso, às vezes é o caso de oferecer pagar com cartão ou cheque. Isso significa que no sistema monetário corrente tem sentido cortar árvores e colocar o dinheiro no banco, porque o dinheiro no banco vai crescer mais rápido que as árvores. Isso faz com que tenha sentido poupar dinheiro construindo casas pobremente dotadas de isolamento térmico, por que o custo da poupança de energia na casa é mais baixo do que o de isolá-las.

Devemos desenhar um sistema monetário que faça exatamente o oposto daquilo que acontece atualmente. É o que eu chamo de carga de longo prazo – “demurrage charge” – , um conceito desenvolvido por Silvio Gesell já faz cerca de um século. Sua idéia era de que o dinheiro é um bem público, assim como o telefone ou o transporte coletivo, pelos quais deveríamos pagar apenas uma taxa por usá-los. Em outras palavras, criaríamos uma taxa de juros negativa em vez de positiva. Seria assim: se eu te dou um bilhete de cem dólares e digo que dentro de um mês você tem que pagar um dólar para que o bilhete continue válido, o que você faria? Suponho que trataria de usá-lo ou, senão, iria investir em algo mais, para não “perder” esse dólar… Exatamente essa é a função do dinheiro: só é bom quando circula. No sistema de Gesell, as pessoas deveriam usar o dinheiro como um meio de intercâmbio, mas não como reserva de valor. Deste modo, se geraria trabalho, se causaria a circulação e se poderia investir num sistema de incentivos de curto prazo. Em vez de cortar árvores para colocar o dinheiro no banco, você investiria seu dinheiro em árvores vivas ou em instalar calefação ou em isolamento de madeira para a sua casa.

Isto já foi experimentado?

Só sei de três períodos nos quais podemos encontrar isto: no Egito clássico; na Idade Média européia, três séculos atrás; e há alguns anos, na década de trinta.

No Egito antigo, quando se acumulavam grãos, você recebia um bônus que era intercambiável e se transformava numa espécie de moeda. Se você voltasse um ano depois, com dez “moedas”, você poderia obter nove vezes essa quantidade de trigo, porque os ratos haviam comido uma parte, os guardas que haviam mantido o sistema deviam ser pagos, etc. Então, essa quantidade das dez peças era submetida a uma taxa negativa, ou seja, havia uma espécie de desvalorização. O Egito foi o celeiro do mundo antigo – o presente do Nilo. Por quê? Porque, em vez de conservar valor em moeda, todo o mundo era levado a investir em elementos produtivos que durariam para sempre, como em melhorias na terra e nos sistemas de irrigação.

A prova de que o sistema monetário tem algo a ver com a riqueza é que tudo terminou abruptamente, quando o império romano substituiu a moeda egípcia, que tinha os grãos como padrão, por seu próprio sistema monetário, com juros positivos. Depois disso, o Egito deixou de ser o maior celeiro do mundo e se transformou num país em desenvolvimento… como se diz hoje. Na Europa, na Idade Média, séculos X – XIII, as moedas locais eram emitidas por senhores locais que periodicamente as recuperavam e reeditavam, recolhendo um imposto nesse mesmo processo. Com essa desvalorização, tornava-se indesejável manter essa moeda como valor de reserva, já que a moeda acumulada deixava de ser válida. O resultado foi o florescimento da cultura e o crescimento e expansão do bem estar, no período correspondente àquele em que essas moedas locais foram usadas. Quase todas as catedrais foram construídas nesse período e, se você pensa sobre o que se exige de uma pequena cidade para construir uma catedral, é simplesmente fantástico!

As catedrais consumiram gerações para serem construídas, não é verdade?

Não só por isso. Para além dos papéis que, obviamente, desempenham o simbólico e o religioso, que não quero aqui absolutamente diminuir, deveríamos nos recordar de que as catedrais também tinham uma função econômica importante. Elas atraíam os peregrinos que, da perspectiva dos negócios, desempenhavam um papel similar ao dos turistas de hoje. Essas catedrais foram construídas para durar para sempre e para criar um fluxo de dinheiro de longo prazo para as comunidades. Essa foi a maneira de se criar abundância para cada um e para todos os descendentes, por treze gerações. A prova é que isto funciona assim até hoje no negócio das cidades; Chartres vive ainda dos turistas que visitam sua catedral, o que já dura 800 anos e nunca se esgotou.

Quando a introdução da tecnologia da pólvora permitiu que os reis centralizassem o poder, no século XIV, a primeira coisa que fizeram foi monopolizar o sistema monetário. O que aconteceu então? Não se construíram mais catedrais. Nos séculos 14 e 15, a população continuava tão cristã e devota como antes, mas o incentivo econômico para os investimentos de longo prazo havia terminado. As catedrais são só um exemplo; os relatos do século 12 mostram como moinhos e outros elementos da produção se mantiveram num extraordinário nível de qualidade, com partes que eram substituídas antes que estivessem gastas. Estudos recentes revelaram que a qualidade de vida dos trabalhadores, na Europa dos séculos 12 e 13, era altíssima, mais alta ainda do que hoje. Quando não se pode manter a poupança na forma de moeda, deve-se então investi-la em algo que possa produzir valor no futuro; esta forma de dinheiro foi que criou essa extraordinária explosão.

De todo modo, esse foi um período no qual o cristianismo era hegemônico na Europa. Sendo assim, como fica o arquétipo da Grande Mãe que devia estar sendo reprimido?

Na realidade, um símbolo religioso muito interessante que se tornou dominante nessa época foi a famosa madona negra. Havia centenas dessas estátuas durante o período que vai do século 10 ao 13. Na verdade, eram estátuas de Isis com o menino Hodes sentado em seu colo, importadas diretamente do Egito durante as primeiras cruzadas. Seu assento especial, vertical, era chamado cátedra – daí a palavra cátedra atualmente – e de forma muito interessante essa cadeira era um símbolo exato que identificava Isis no antigo Egito. As estátuas das madonas negras também foram identificadas na época medieval como a alma mater que era a mãe generosa, literalmente – o que depois, na América, vai se referir a algumas universidades relevantes. As madonas negras eram uma continuação direta da Grande Mama, em uma de suas formas antigas. Elas simbolizavam o nascimento e a fertilidade, a riqueza e a terra. Elas simbolizavam o espírito encarnado na matéria antes que as sociedades patriarcais separassem o espírito da matéria. Temos, assim, uma vinculação direta entre duas civilizações que criaram sistemas de moeda com juros negativo criando níveis de abundância inusuais para pessoas comuns (o Egito antigo e a Europa do século 10 ao 13). Estes sistemas monetários correspondem exatamente a honrar aquele arquétipo.

Que potencial você vê para moedas locais no sentido de que possam trazer o arquétipo da Grande Mãe, da bondade e a generosidade, para as nossas economias atuais?

A questão mais importante que a humanidade de hoje em diante tem que se por é a da sustentabilidade e das desigualdades e quebras nas comunidades, que criam tensões que resultam em violência e guerra. É possível atacar ambos os problemas com a mesma ferramenta, fazendo uma criação consciente de sistemas locais que reforcem ao mesmo tempo a sustentabilidade e a comunidade. Significativamente, temos observado no passado, nas décadas passadas, um claro despertar do arquétipo feminino. Isso está refletido não só nos movimentos de mulheres, no aumento das preocupações ecológicas ou nas novas epistemologias que reintegram espírito e matéria, mas também em tecnologias que nos permitem substituir hierarquias por redes, como é o caso da Internet.

Se agregarmos a estas tendências o fato de que, pela primeira vez na história da humanidade, temos tecnologias de produção para criar uma abundância sem precedentes, tudo isso converge para uma extraordinária oportunidade de combinar o hardware de nossas tecnologias da abundância com o software das mudanças de arquétipo. Tal combinação, que antes nunca havia sido possível nessa escala e nessa velocidade, nos permite, hoje, desenhar com consciência sistemas monetários feitos de tal modo que sejam eles que trabalhem para nós e não nós para eles. Proponho desenvolver sistemas monetários que nos levem a alcançar a sustentabilidade e a comunidade, cuidando dos níveis local e global. Estes objetivos estão em nossas possibilidades no tempo de uma geração. Se os materializamos ou não, isso vai depender de nossa capacidade de cooperar uns com outros e de, conscientemente, inventar nosso dinheiro.

FONTE: Deriva Editora

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Nível de hormônio masculino seria capaz de influenciar desempenhos de operadores da bolsa de valores: quanto mais, maiores as chances de aumentar os ganhos

*Por Geoff Brumfiel – Tradução de Nilza Laiz Nascimento da Silva

Os livros e os filmes geralmente retratam os operadores do mercado de capitais como jogadores “machões”. E pode haver realmente provas científicas que apóiem essa imagem da cultura popular: dois pesquisadores associaram os níveis de testosterona ao sucesso dos operadores da bolsa, em um mercado de ações de Londres.

John Coates, da Cambridge University, no Reino Unido, um ex-operador que se tornou neurocientista, começou esse estudo a partir do que ele observou durante o tempo em que trabalhava no ramo: os operadores de pregão se tornavam exaltados por ocasião de grandes ganhos e profundamente deprimidos com as perdas. “Era um tipo de com portamento maníaco”, ele diz. Coates salienta ter começado a suspeitar que os hormônios, e especificamente a testos terona, pudessem estar envolvidos nesse processo porque as poucas operadoras do sexo feminino não lhe pareciam ser afetadas do mesmo modo.

Para investigar isso, ele e seu colega da Cambridge — Joe Herbert — acompanharam 17 operadores de uma firma de Londres, por oito dias consecutivos de trabalho. Os pesquisadores coletaram amostras de saliva do grupo antes e depois das operações do dia. Eles analisaram dois hormônios — a testosterona e o cortisol, hormônio produzido em situações de incerteza.

Causa ou Correlação?

Os resultados, divulgados no Proceedings of the National Academy of Sciences, foram claros, segundo Coates: “Os ope radores tiveram ganhos acima da média nos dias em que seu nível de testosterona também estava acima da média”. Catorze dos dezessete operadores testados ganharam mais dinheiro nos dias em que apresentaram níveis de hormônio elevados, pela manhã.

A testosterona estaria por trás desses ganhos? Coates acha que sim. Porém, Herbert, seu colega e co-autor do tra balho, adverte que os resultados não são suficientemente consistentes para provar que é a testosterona que está mobilizando o comportamento de risco. “Percebe-se uma correlação, não necessariamente uma relação de causa efeito”, ressalta.

Os níveis de cortisol, por outro lado, não parecem estar correlacionados a perdas ou ganhos. Esse hormônio parece acompanhar a volatilidade do próprio mercado, fator que pode ter tornado mais estressantes os dias dos operadores.

Hormônios Elevados

Coates afirma que os achados da pesquisa apontam para uma intrigante possibilidade — a de que os hormônios poderiam intensificar a irracionalidade dos mercados financeiros. “As altas vertiginosas vistas nas ‘bolhas’ do mercado podem ser impulsionadas ainda mais pelos níveis elevados de testosterona dos operadores, ao passo que os desastres financeiros e as liquidações poderiam ser exacerbados pelo cortisol”, especula Coates.

O tamanho pequeno da amostra torna essa especulação exagerada, adverte Hans Vermeersch, biossociólogo da University of Ghent, na Bélgica. Vermeersch, cujas pesquisas apontaram uma relação entre testosterona e comporta mento de risco em adolescentes, afirma que muitos outros fatores, tais como atividade sexual, dieta e até mesmo o deslocamento matinal até o trabalho poderiam estar influenciando os níveis hormonais dos operadores. Mesmo assim, ele não exclui a possibilidade de a pesquisa mostrar que os mercados também sofrem influência dos hormônios.

Os resultados não me surpreendem”, comenta Benedict Stoddart, um operador de taxa de juros de uma firma de Londres. “Quando você está ganhando ou perdendo dinheiro há uma resposta emocional.” Mas, ele acrescenta que isso não significa que aquela imagem popular de “feras movidas à testosterona” seja verdadeira. Na realidade o que a maioria dos empregadores busca são operadores que tentem permanecer calmos, apesar da fúria de seus hormônios: “A testoste rona, com certeza, não seria algo que estaria na mira dos bancos”, conclui.

Comportamentos de risco

A teoria da evolução de Darwin estabeleceu um marco no estudo das variações entre e intra sujeitos, não apenas quanto às variações nas suas formas como também nos seus comportamentos. Assim como as características físicas, os comportamentos também estão sujeitos aos processos de seleção natural, o que permite a geração de hipóteses preditivas acerca de seu valor adaptativo. Fazer este exercício de traçar vínculos entre os diferentes comportamentos, seu valor adaptativo e possíveis traços psicológicos permite que se tente responder a perguntas como: qual o valor adaptativo presente nas alterações comportamentais geradas pela presença de testosterona? Responder a esta pergunta certamente ajudará a discutir sobre a aparente aptidão de ganhar grandes somas de dinheiro na bolsa de valores.

A presença de testosterona no organismo faz com que homens e mulheres se tornem, além de mais fortes, mais dispostos ao enfrentamento físico, o que parece ser necessário para participar e vencer competições. Durante muito tempo isso levou a se pensar que a testosterona estivesse envolvida apenas com o controle do comportamento agressivo e violento. No entanto, em ambos os sexos, a testosterona também está envolvida com variações da libido, o que faz com que diversos pesquisadores entendam que ela não esteja gerando o comportamento violento isoladamente, mas que está relacionada com o desejo por exercer maior domínio social em um grupo.

Por este raciocínio a testosterona induziria uma maior disposição em lutar por posições mais dominantes no grupo, ao mesmo tempo que aumentaria sua disposição ao acasalamento. Dessa forma o comportamento violento seria uma conseqüência e não um fim. O que é gerado é um comportamento afeito ao risco de se expor às disputas, ou seja, uma disposição a situações com alta probabilidade de insucesso, no qual as perdas, assim como os ganhos, podem ser muito grandes.

Sendo assim, parece que, para entender como a testosterona aumentou os ganhos na bolsa, devemos entender como um comportamento de risco pode ser útil nesta situação. Para isso, poderíamos perguntar a um investidor profissional por que correr riscos poderia levar a um maior ganho. Se fizermos isso teremos de ouvir que o ganho associado a um maior risco está, sempre, associado a maiores chances de perda. Mais ainda, que apenas alguns cenários de investimento são favoráveis a quem corre grandes riscos, sendo que na maioria das vezes leva apenas a maiores perdas. Se isso for verdade podemos supor que apenas em algumas situações mais testosterona significa mais lucro, em outras será exatamente o oposto, mas para isso teria de se fazer outros estudos.

Mesmo que isso valha pouco para ajudar na análise sobre o papel da testosterona na bolsa de valores que sirva, ao menos, para inibir as pessoas a pensar que tomar anabolizantes (com testosterona) pode, além de deixar a pessoa mais “bonita” (o que já é questionável), deixar a pessoa mais rica também.”

FONTE: Ciência e Vida

A Avareza Na Ficção

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Balzac e Dostoievski, escritores consagrados do século XIX, viviam atolados em dívidas, não admira que ambos tenham criado personagens sovinas e egoístas

*por Moacyr Scliar

Embora muitos já tenham esquecido, o Brasil viveu períodos de grandes surtos inflacionários, nos quais o dinheiro perdia rapidamente o seu valor. Era muito comum ver moedas nas sarjetas das ruas; ali ficavam porque valiam tão pouco que ninguém se dava ao trabalho de abaixar-se para apanhá-las. Isso nos remete a um fato básico da economia e da vida social: a rigor, o dinheiro é uma ficção. Mas exatamente por causa desse ângulo, digamos, ficcional, ele assume também caráter altamente simbólico. E não muito agradável, segundo Freud. Observando que ao longo da história o dinheiro foi freqüentemente (e ainda é) associado à sujeira, o pai da psicanálise postulou que a proposital retenção de fezes, característica da chamada fase anal do desenvolvimento infantil, teria continuidade, no adulto, com a preocupação com o dinheiro. O avarento é um exemplo caricatural disso.

Aos escritores essas coisas não poderiam passar despercebidas, mesmo porque muitos deles tinham, e têm, problemas com dinheiro; Honoré de Balzac (1799-1850) e Fiódor Dostoievski (1821-1881) viviam atolados em dívidas, sobretudo o escritor russo, que era um jogador compulsivo. Não é de admirar que avarentos tenham dado grandes personagens da ficção. O primeiro exemplo é, naturalmente, o Shylock, de William Shakespeare (1564-1616) na comédia O mercador de Veneza, do fim do século XVI. Shylock era um agiota. Na Idade Média, o empréstimo a juros era proibido aos cristãos e reservado ao desprezado e marginal grupo dos judeus. Um arranjo perfeito: quando o senhor feudal não queria ou não podia pagar dívidas contraídas com os agiotas, desencadeava um massacre de judeus, um grupo desprezado e marginalizado, e resolvia o problema. Shylock sente-se desprezado e quando empresta dinheiro a Antonio, um mercador, pede em garantia uma libra da carne do devedor: ele quer que este se revele inadimplente e pague a dívida com a matéria de seu próprio corpo: um esforço desesperado e grotesco para ser respeitado.

Outro usurário que aparece na peça O avarento (1668), de Jean-Baptiste Molière (1622-1673) é Harpagon. Quanto mais rico fica, mais mesquinho se torna, e mais faz sofrer os filhos, o jovem Cléante, apaixonado por Mariane, moça pobre – Harpagon obviamente se opõe ao namoro – e a filha Élise, que ele quer casar com o velho Anselme. Além das brigas com os filhos, Harpagon tem outros motivos para se inquietar: enterrou em seu jardim uma caixa com dez mil escudos de ouro e é constantemente perseguido pela idéia de que sua fortuna será roubada. No fim, a avareza é castigada e Cléante e Élise podem se unir às pessoas que amam.

Avarentos também não faltam nos romances de Charles Dickens (1812-1870), um dos mais conhecidos é o personagem Ebenezer Scrooge de Um conto de Natal (1843), um homem velho, egoísta, insensível, que odeia tudo – até o Natal – uma festa que evoca bondade e generosidade. Scrooge maltrata seu empregado Bob Cratchit, que tem um filho deficiente físico, o Pequeno Tim, mas na noite de Natal é visitado por misteriosas entidades, os Espíritos do Natal, e muda por completo, tornando-se generoso, ajudando Cratchit e sua família. Em Silas Marner, novela de George Eliot (1819-1880) que usava o pseudônimo de Mary Ann Evans, o personagem, um misantropo que prefere o ouro às pessoas, aprenderá, assim como Scrooge, a sua lição. Ele é roubado, mas, ao tomar sob seus cuidados o menino Eppie, mudará, tornando-se um homem melhor. Em Eugénie Grandet (1900), de Balzac, somos apresentados a Félix Grandet, um rico e sovina mercador de vinhos, que se opõe à paixão da filha pelo sobrinho pobre.

Como se pode ver em todas essas obras, a obsessão pelo dinheiro resulta de uma personalidade repulsiva ou patética. Freud tinha razão: o poder simbólico do vil metal não é pequeno e tem atravessado os séculos incólume.

*Moacyr Scliar é médico, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras

FONTE: Revista Viver Mente e Cérebro

Psicologia Econômica

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Cientistas laureados com o Prêmio Nobel de Economia estudaram a influência de fatores psicológicos na hora da tomada de decisão

*Publicado em 30/10/2002

Para quem não faz parte do mundo financeiro, economia e psicologia parecem ciências completamente diferentes e sem qualquer ligação. Entretanto, a relação entre estas duas áreas sempre foi discutida no meio econômico, sem que se chegasse a alguma conclusão. A partir de agora, isso pode começar a mudar. Dois cientistas norte-americanos, o economista Vernon Smith e o psicólogo Daniel Kahneman, foram laureados com o Prêmio Nobel de Economia deste ano exatamente por serem autores de teorias que provam cientificamente que não é possível depender apenas da matemática para tomar decisões econômicas. Segundo eles, às vezes, o lado psicológico de um investidor pode até ser mais importante do que seu conhecimento financeiro.

“Sempre se discutiu que a tomada de decisão não pode ser exclusivamente feita pela análise de números, mas ninguém havia mostrado isso de forma científica. Eles conseguiram”, afirma o professor de Finanças Comportamentais da FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo), Ricardo Humberto Rocha. Segundo ele, nos últimos quinze anos, os economistas se voltaram para a matemática de uma forma exagerada. “Começou até a haver um certo preconceito das escolas que não são tão focadas nos números. Os dois vencedores provam que um bom economista deve sim saber muita matemática, mas tem que estar atento ao lado psicológico das pessoas. Agora, os pesquisadores que estavam voltados para este tema se sentirão mais amparados cientificamente. Uma nova fronteira está se levantando. Mas esta mudança não é instantânea”, opina.

A lógica da pesquisa de ambos é a de que quem toma a decisão final, em qualquer situação, é o ser humano. Ou seja, mesmo que a pessoa possua ótimo conhecimento técnico e financeiro, sempre é o chamado feeling, o lado comportamental, que determina qual o rumo a seguir. “Teoricamente, todos os gestores que estão no mercado têm o mesmo preparo técnico e estão olhando para os mesmos números. Entretanto, decidem de forma diferente; alguns se dão bem, outros, mal. Portanto, é fácil perceber empiricamente que há influência do psicológico na tomada de decisão”, explica Rocha. Para o diretor do departamento de economia da UnB (Universidade de Brasília), Jorge Nogueira, a concessão desse prêmio vai ajudar a tornar a Economia Experimental uma área nobre da Economia. “Isso é extremamente importante, pois mostra que a Economia Experimental está se tornando cada vez usada para a formulação de teorias. É importante, por exemplo, estar atento a como um investidor se comporta em determinada situação de risco. E, para poder dizer como é esse comportamento, é necessário ter informações de área experimental”, diz Nogueira.

Na opinião do diretor, é provável que a partir de agora a visão da Economia comece a mudar até nas universidades. “Acho que os alunos e professores vão se voltar mais para a interface entre economia e psicologia, já que essas áreas são essenciais para entendermos efetivamente o comportamento do ser humano enquanto agente econômico”. O vice-reitor e professor do Departamento de Economia da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Aldair Rizzi, entretanto, discorda e não acredita que o Prêmio traga mudanças brutais aos currículos. Segundo ele, a teoria de que a psicologia também deve ser analisada começou a entrar nas instituições de ensino no início dos anos noventa. “Sempre existiu essa dicotomia na economia, essa diferença entre um enfoque que privilegia a questão dos modelos matemáticos e outro que privilegia o estudo da economia como uma ciência social. O que eles fizeram foi provar isso por meio de laboratório. É uma teoria que tem muito rigor teórico, mas se abstrai da realidade, que é muito mais complexa. Não agrega nada aos cursos universitários porque a análise da economia não se restringe ao laboratório, ela envolve política, sociologia e outros diversos campos que complementam o estudo teórico. Não adianta apenas dizer que o aumento da oferta reduz os preços. Isso já nem existe mais na economia”, sentencia.

Além disso, para Rizzi, a discussão não refuta preceitos consagrados da economia. “Os dois laureados tentaram agregar formas de interpretação. Mas existem teorias muito mais antigas que são mais apropriadas e mais consistentes para o estudo da economia. Na prática, este prêmio não trará mudanças”, conclui. O professor da UnB, entretanto, aposta em modificações. “Eles conseguem demonstrar, por exemplo, que o agente econômico tem muito mais medo de perder do que tem interesse de ganhar. E o que se pensava até hoje é que a vontade das pessoas de ganhar muito era comparável ao risco de perda que estavam dispostas a correr. Eles mostraram o contrário: que as pessoas preferem minimizar a perda ao invés de tentar maximizar o ganho”, afirma Nogueira. “Claro, não foram os primeiros a fazer este tipo de análise, mas, com certeza, estão entre aqueles que mais contribuíram”.

Meio ambiente valorizado

Professor voltado para a Economia do Meio Ambiente, Nogueira acredita que as teorias de Vernon Smith e Daniel Kahnegem podem contribuir bastante para sua área. “Ambos trabalham muito na tentativa de colocar preço em coisas que não têm mercado, como o ar e a água. Kahnegem estudou muito o método de tentar estimar preço para estes bens, o chamado método de valoração contingente”, explica.

Segundo o professor, este é um ponto importante e que tem sido muito discutido. “É necessário tomar decisões de como gastar e quais são os recursos necessários para evitar a poluição e a degradação do meio”. Os dois cientistas fizeram estudos experimentais com o comportamento humano para conseguir descobrir quanto as pessoas estão dispostas a pagar por algo que não tem mercado. “Como não há mercado de ar puro ou de conservação da natureza, por exemplo, é muito difícil estabelecer um preço. Eles estudaram métodos para alcançar esta valoração da forma mais verdadeira possível. Isso é muito importante, pois, a cada dia, as sociedades gastam mais recursos para tentar decidir hoje sobre resultados que só vão aparecer daqui a muito tempo – por isso não se sabe exatamente o quanto gastar. Precisamos criar preço para poder, por exemplo, pressionar o governo a investir em um parque nacional”, explica. Nogueira afirma que a premiação destas teorias dá maior substância para a negociação de uma política publica mais ativa “para este tipo de coisa, aparentemente, pouco importante, como a água limpa e o ar puro”.

FONTE: Universia

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*Por Alessandro Vieira

Já rendeu prêmio Nobel para um psicólogo, tem por objeto de estudo o comportamento (econômico) numa abordagem científica e vê o mundo como uma rede de incentivos, reforços e aprendizagem. Se você acha que estou falando da Análise Experimental do Comportamento, errou: é da Economia Comportamental. “Ué”, você pode estar se perguntando, “Qual a diferença?”.

Coisa de Psicólogo ou de Economista?

Em 2002, Daniel Kahneman, psicólogo israelense ganha o prêmio Nobel de Economia por suas pesquisas a respeito do comportamento econômico. (Aliás, foi o primeiro Nobel conferido a um psicólogo e esse fato passou em brancas nuvens, sem a comemoração que merecia!). Em 2006 um importante economista dos EUA, Steven Levitt publica uma obra de divulgação científica que virou bestseller mundial: Freaknomics, onde uma visão da Economia centrada no comportamento humano, e não em abstratas cifras e índices, é exposta. Parece curioso, mas tanto Kahneman, psicólogo, quanto Levitt economista, estão falando do mesmo assunto: Economia Comportamental.

Incentivos, Interesses, Decisões

Diferente da visão que o brasileiro tem da Economia (basicamente monetária e extremamente hermética, conforme reza a tradição acadêmica latina), os cientistas dos EUA e Israel defendem que essa disciplina científica é na verdade o estudo da dinâmica de interesses, motivações e decisões de pessoas em grupo. Por exemplo, seria uma questão genuinamente econômica: “Como três garotos devem fazer para dividir duas barras de chocolate, sendo dois deles egoistas e um altruista?”

Portanto, a Economia não seria apenas uma forma de gerenciar recursos escassos (sua definição clássica, de Adam Smith e afins), mas seria também o estudo de como motivações afetam a decisão de indivíduos e grupos.

Na visão Econômica Comportamental as sociedades são uma complexa rede de incentivos onde os participantes compartilham da mesma motivação fundamental: a busca de valor para suas vidas (entendendo por “valor” maximizar ganhos e minimizar perdas). Lembre-se que nessa Economia, dinheiro é apenas um detalhe. O dito “valor” pode significar meio ambiente, estética, amor, amizade, saúde, ética, etc. Enfim, são valores humanos. Assim, por exemplo, um Economista Comportamental pode estudar a dinâmica da sedução masculina, tomando o valor “beleza feminina” como critério de análise. De fato, a Economia Comportamental tem rendido estudos curiosos. Levitt, em Freaknomics, chega a demonstrar “por A mais B” porque é um bom negócio para traficantes de trinta anos de idade morar com suas mães! (Dentre outras teses aparentemente estapafúrdias que você e se pergunta “Nossa, isso é Economia ou Psicologia?”).

A essa altura você pode estar se dizendo: “Já vi isso antes…” As semelhanças com a proposta filosófica de Skinner, o Behaviorismo, não param por aí. Continue lendo.

Sentimentos Interferem na Economia?

As pesquisas de Kahneman questionam a Economia Clássica e sua visão simplista de Homem. Na dita Economia Clássica o Homem é um ser infinitamente racional que toma decisões econômicas visando sempre o seu próprio bem. (Isto é, o Homem é inteligente, egoísta e sensato).

Kahneman demonstrou, e vem daí o seu Nobel, que as pessoas, em meio a situações econômicas (poupar, gastar, investir, etc) muitas vezes não são racionais, nem egoístas e nem sensatas. Entre a situação econômica e a resposta emitida há processos comportamentais que Kahneman apelidou de “viéses psicológicos”. Sua obra é uma dissecação desses viéses, que são uma espécie de filtro decisório que se mescla à racionalidade lógico-matemática na hora tomar decisões econômicas. Por exemplo, nossos comportamentos econômicos são influenciados por nossa auto-imagem (“Sou mesmo o bom em finanças. Nada pode me deter!”), pelo que aprendemos por comunicação social (“Meu primo me disse que devo começar a investir na Bolsa”), por ilusões de controle (“Se deu certo antes, vai dar certo sempre”), por estados de ânimo e humor(“Melhor não ir comprar nada hoje, estou deprimida e farei um estrago na loja”), etc.

O economista comportamental é alguém que leva em conta os viéses psicológicos das pessoas e analisa a contingências envolvidas nas situações como redes de incentivos que interferem nas decisões. Por exemplo: “Martha é uma jovem investidora da Bolsa que, por razões de auto-estima elevada, ilusão de controle do ambiente e entusiasmo emprestado dos amigos, resolve arriscar mais que podia. Que sistema de incentivo poderia ser criado para evitar que Martha e pessoas com o mesmo perfil agisse de tal forma?”

Pára! Isso não é Análise Experimental do Comportamento?

Levitt, apesar de ser dos EUA, a terra de Skinner e até hoje o grande centro do Behaviorismo, não fala uma palavra sequer sobre o Behaviorismo & CIA. Kahneman se diz um cognitivo-comportamental, e não um behaviorista, e não cita muito a obra de Skinner em suas pesquisas. Parece que esses autores fazem questão de associar a Economia Comportamental a matemática da Teoria dos Jogos, que também rendeu um Nobel de Economia.
Contudo, ao aplicado e dileto estudante de Psicologia é impossível ler sobre a Economia Comportamental e não lembrar de Skinner, que fala o tempo inteiro em sua obra a respeito de incentivos sociais, e chega a dizer que a Análise Experimental do Comportamento teria mais a contribuir a Política e às instituições econômicas do que a terapia. Ele chegou a falar em uma engenharia comportamental que iria modelar, dentre outras coisas, sistemas de incentivo econômico.

E as Diferenças?

O Analista do Comportamento não restringe seu trabalho a fatos econômicos, ao passo que o Economista Comportamental está exclusivamente atento para o que pode observar em termos de ações como poupar, investir, gastar, etc. Talvez esse recorte de realidade seja a maior diferença entre os dois grupos. Outra diferença seria o fato do Analista se apoiar em uma filosofia para seu trabalho (o Behaviorismo). Na Análise do Comportamento os sentimentos, a linguagem e outros fenômenos afins são também muito mais estudados que na Economia Comportamental, já contando com muito conhecimento sistematizado a respeito.

Conclusões:

Seja como for, isto é, seja a Economia Comportamental uma cria que não assume sua genealogia, ou seja, ela algo mesmo inédito, seu advento tem uma utilidade muito grande para Analistas do Comportamento em geral: evidenciar que Skinner tinha razão ao dizer que a terapia seria apenas uma das aplicações possíveis da Análise do Comportamento.

*Alessandro Vieira dos Reis é psicólogo, trabalha com Interação Humano-Computador e Gestão de Pessoas em organizações. Na área de interação entre Psicologia e Tecnologias Digitais, desenvolveu trabalho com Usabilidade, Design de Educação a Distância e Game Designer.

FONTE: Rede Psi

Análise Psicológica do Dinheiro

Money Tree

Se somos obrigados a buscar, gostar e lutar por um valor coletivo chamado dinheiro seria interessante que o fizéssemos com um toque profundamente pessoal e singular de criatividade e prazer, pois só desta forma nosso complexo de inferioridade e incerteza seriam debelados, nos devolvendo a certeza de que nosso lugar jamais será eterno, mas que fomos capazes de expor todo o nosso potencial, sendo o ápice que podemos alcançar como seres humanos.

*Por Antonio Carlos Alves de Araújo

Discutir as implicações psíquicas e sociais de todo o simbolismo e mitologia do dinheiro é tarefa fundamental para um projeto sério da psicologia social. O tema ainda é um verdadeiro tabu, sendo que apenas encontramos escassas obras que tentam dar um sentido moral para a questão. Psicologicamente o dinheiro é sentido como a alavanca de um sonho que gostaríamos de efetuar, assim sendo, seu caráter é totalmente futurista, contribuindo para o incremento do poder do tempo sobre o prazer do indivíduo, ressecando por completo a vitalidade da pessoa, que sempre só pode existir no presente. Já está mais do que na hora de percebermos que o dinheiro é o confidente mais preciso de nossa alma e espelha todas as partes não resolvidas de nossa personalidade; sendo uma espécie de terapeuta que conhece as entranhas de um ser humano, porém, é o mais passivo e omisso em relação a uma atitude de resolução. Um dos instrumentos de aferição da saúde psíquica é exatamente a relação da pessoa com o dinheiro.

Muitos se queixam que precisam gastar compulsivamente, não percebendo que tal ato mascara uma culpa inconsciente não apenas por talvez ter acesso ao dinheiro, mas que historicamente sofreram de um complexo de inferioridade que lhes diz a todo o instante que não são merecedores de determinado prazer, devendo se livrar o mais rápido possível do instrumento que causa a satisfação. Outros reclamam da extrema cautela em gastar, estando presos não apenas num complexo de segurança, mas também espelham sua profunda miséria psíquica na retenção de uma espécie de “totem” instituído pela pessoa. O dinheiro para estas pessoas é algo sacralizado que mesmo o obtendo, jamais poderão se livrar de seu sentimento de carência pessoal. O leitor já chegou a conclusão óbvia de que o dinheiro ou poder cobrem ilusoriamente todas as carências pessoais, pois a pessoa que o detém será objeto do comentário, cobiça e interesse dos demais. Mas neste ponto outra questão fundamental se coloca: Por quanto tempo seguramos o interesse por algo? Este sem dúvida alguma é o drama de uma era consumista. Todos almejam no plano pessoal o que o sistema econômico tenta impor diariamente; a necessidade infinita de consumo. É justamente por esse motivo que a figura do traficante de drogas no plano ideológico causa tanta repulsa, pois independentemente do malefício que o mesmo traz à saúde publica, não deixa de espelhar fielmente o que o sistema almeja, o consumo incessante de um produto. O dinheiro paralelamente tenta compensar esta ilusão da eternidade, sendo que o medo da morte que nunca foi tão grande na história da humanidade como em nossos dias encontra um escapismo elegante na sensação de se possuir.

Principalmente as culturas orientais enfatizaram que a grande contradição humana é à procura da satisfação do desejo que jamais pode ser realizada, pois o mesmo é por si só o objeto de conflito. Se algo cobiçado é alcançado vira coisa amorfa e desprovido de paixão pessoal. Por outro lado é infantil determinada atitude de desapego de objeto material, apenas para se provar a superação da ambição. Se a solução fosse a simples procura de um guru, quase toda a população mundial deveria se mudar para determinado templo no HIMALAIA. Com o enfraquecimento do poder político da igreja no final da idade média, o centro da preocupação humana migrou da idéia de como alcançar o “paraíso” para a satisfação de se possuir dinheiro; ambos tem como função o entorpecimento da angústia em relação à morte. A antiga contabilidade das boas ações que teve seu apogeu nas indulgências vendidas pela igreja foi facilmente substituída pelo imediatismo da contabilidade material do dinheiro, que transportou o indivíduo para uma sensação de vencer ao menos temporariamente o horror da morte e abandono. As religiões têm sua sobrevivência no resquício da culpa ou medo de uma punição posterior, que o indivíduo não sabe qual será. Apenas o “mistério” as mantém vivas na cabeça materialista do homem contemporâneo, e assim como na psicologia, a entidade deus apenas é lembrada na profunda crise e desespero, sendo que o trato diário pela melhora do íntimo humano é totalmente negligenciado.

O dinheiro como toda espécie de totem ou entidade erigida tem como função básica a sua manutenção e sobrevivência por si só, não interessando a análise social e moral de seu impacto. Há uma escala da progressão em relação ao dinheiro, e quanto maior o peso de fatores inconscientes, maior será o grau de neurose que aflige o indivíduo. Exemplificando, o dinheiro serve para: sobrevivência, necessidade de abrigo e alimentação, educação, lazer e diversão, ou: competição, compensação de uma auto imagem negativa, exibicionismo, compensação de um arraigado complexo de inferioridade. A contradição no exposto acima é a de que o dinheiro deveria servir para algo extremamente concreto, mas basta um olhar mais apurado para descobrirmos que a cada dia o mesmo serve aos aspectos de nosso imaginário. O medo e pânico do desemprego, que é um câncer mundial das economias, apenas reforçam o conceito de que ganhar dinheiro é sinônimo de estar vivo. Nenhuma outra emoção ou desejo seja: amor, fé ou paixão conseguiu centralizar por completo a preocupação do homem contemporâneo, e repito que isto se dá não apenas por um fator de sobrevivência. Talvez a compulsão pelas drogas chegue perto do anseio citado, embora a mesma também não deixe de ser um subproduto do dinheiro. As próprias religiões se curvaram a entidade do dinheiro ao acatarem sem muitas delongas a questão do dízimo em seus trabalhos eclesiásticos.

FREUD analisou o desenvolvimento psíquico do dinheiro. Chegou a conclusão que a primeira experiência psicológica de valor para uma criança era o treino do toalete. Assim sendo, as fezes tinham uma conotação de apego para a criança, sendo que a mesma ainda fantasiava inconscientemente que os bebês nasciam através da defecação. Embora tal aparato seja um tanto complicado de ser aceito pelo leigo, o fato é que tal assertiva tem o seu mérito na questão do desenvolvimento do processo mental de retenção e acúmulo. Analisar eficientemente o processo histórico que leva um ser humano à incapacidade de dividir seria uma das coisas mais nobres que a psicologia poderia efetuar. O dinheiro fornece a sensação de se poder viver constantemente em um “mito”, retocando uma auto imagem sempre negativa como disse anteriormente. O problema também afeta aquelas pessoas que já possuem o dinheiro e gostariam que as vissem sem uma imagem já pré-estabelecida pelos demais, fato quase que impossível. CARL GUSTAV JUNG estabeleceu a noção dos opostos no inconsciente. Para qualquer ação ou emoção corresponderia uma força similar no sentido contrário, como o famoso empuxo de Arquimedes.

A noção de riqueza ou miséria nada tem a ver com o dinheiro para o inconsciente humano, e buscar nossa categoria social no plano mental seria a chave para uma análise mais profunda de nossa alma. Não que toda pessoa que possua o dinheiro seja um miserável emocionalmente, mas perceber que nossa mente reproduz o sistema vigente de estratificações sociais é no mínimo fugir da ignorância pessoal. Qual é o equilíbrio em relação ao dinheiro? Acumular gananciosamente fazendo da mesquinhez a distração diária para nossa mente? Permitir ser explorado pelas pessoas que culpam e invejam quem possui o dinheiro? Gastar ou reter compulsivamente, se enchendo de dívidas, ou a sensação de reconforto ao ver o extrato bancário? Acreditar que o dinheiro pode ajudar alguém que desconhecemos se em outras instâncias seja merecedor de apoio? Todas estas perguntas todos se fazem quase que diariamente possuindo ou não dinheiro. O centro da questão é se o mesmo representa o instrumento para algo que desejamos, ou a revanche contra o que sentimos que perdemos e jamais iremos recuperar, mas mesmo assim alimentamos constantemente dita ilusão.

A verdade sempre reside na simplicidade, embora todos gostem da ostentação em todos os planos na tentativa de se obter destaque pessoal. Se cada um se permitisse algum tempo para a reflexão, não seria difícil perceber que tendo ou não, o dinheiro acarreta um profundo “stress” nos dias atuais, pelo simples fato de que sua busca ou posse se tornou uma profissão paralela perante qualquer atividade profissional que exerçamos. Qualquer um pode contabilizar que possui dois empregos ao esmiuçar o raciocínio citado, sendo que o dinheiro não serve apenas no âmbito material, mas principalmente no fator comparativo, que é a base para o indivíduo formar sua estima pessoal, e embora isto traga danos irreversíveis a personalidade, o fato é que há muito as coisas se orientam desta forma. Que prova pessoal de honestidade daríamos se houvesse a admissão de que é muito mais simples a preocupação com o dinheiro, poder, autoridade, política dentre outras, do que lidar com o histórico emocional íntimo sempre em dívida. Já colecionei mais de uma centena de casos de pessoas extremamente bem sucedidas financeiramente, que abortaram o processo terapêutico pelo simples questionamento de sua impossibilidade de abraçarem ou trocarem algum tipo de carinho com os pais ou parceiros. É extremamente errôneo o projeto de psicologia vigente, quando se omite da denúncia das mais puras necessidades humanas insatisfeitas. O papel do psicólogo sempre deveria ser de confronto e estímulo em relação à importância do percebido e não efetuado pelo paciente.

Os históricos movimentos socialistas tentaram ingenuamente imputar um freio forçado no processo da cobiça e posse material. Não cabe aqui uma análise ou crítica deste tipo de movimento social, mas a percepção de que todos os processos econômicos possuem seu correlato no psiquismo. O próprio conceito marxista da “mais valia” (a soma do custo da produção mais à exploração da mão de obra pelo capital para gerar lucro) está totalmente presente nas relações sociais. Observando muitos casais na dinâmica do relacionamento, me deparo diariamente com tal conceito; um ou ambos tentando explorar ao máximo a afetividade do outro sem nenhuma contrapartida, se obtendo uma espécie de lucro no plano emocional, que não deixa de ser a raiz da timidez, que pode ser caracterizada como uma tentativa consciente de subtrair do outro algum tipo de vantagem sem que a pessoa se exponha ou participe ativamente. O tímido assim como o capitalista almeja apenas gerir suas vantagens ou lucros, jamais compartilhar. Apenas deixo claro para o entendimento do leitor que a timidez não é vista pela psicologia como o que corriqueiramente se coloca acerca do retraimento, vergonha ou medo; sendo que estas emoções estão presentes numa pessoa que podemos chamar de introvertida. A timidez em essência é um estado mórbido de egoísmo e tentativa constante de não trocar no âmbito emocional, sendo a queixa diária de um dos parceiros que o outro apesar da convivência ainda é um total “enigma”, acumulando uma energia do ambiente, assim como na “mais valia” marxista. Se alguém deseja realmente ser um revolucionário deverá rever sua metodologia, pois muito poucos têm uma vocação para a liderança, embora todos sintam a exploração em todos os níveis.

Desta forma o começo para uma autêntica e saudável transformação é a denúncia e pontuação de comportamentos diários de egoísmo e abuso em relação ao outro, pois tal tarefa pode ser cumprida por todos. Uma revolução só é verdadeira quando há uma função ativa para toda a comunidade, sendo que nos dias de hoje isto se traduz pela explanação da insatisfação pessoal, pois é a única coisa que ainda pode ser compartilhada por todos os participantes; do contrário apenas teremos a troca do poder, coisa mais do que conhecida por todas as pessoas. O dinheiro é um fator constante de tensão dentro de determinados relacionamentos. O que mais incomoda não é a posse em si do mesmo, mas a consciência do parceiro de que o outro compartilha segredos, confidências e cuidados apenas com algo inanimado, deixando a pessoa real ao seu lado com um profundo déficit de confiança e valor. A entidade “dinheiro” reclama uma importância única e exclusiva do ponto de vista psíquico, não permitindo a entrada de mais de uma pessoa. A armadilha maior sempre será o tipo de sentimento negativo desenvolvido perante o detentor do valor, chegando ao pensamento nefasto da “prostituição”, por achar que o outro deve pagar por um companheirismo ou sexualidade. Neste ponto as coisas fogem plenamente do controle, acarretando uma somatória de várias sensações incômodas e negativas perante o parceiro. A tônica será uma acirrada disputa e mágoa internalizada, pois a sensação de que o outro desfruta de algo que não será dividido apenas reforça um abismo intransponível na relação. O fato em si é a renegação no decorrer dos tempos que o dinheiro sempre foi algo que gerou o medo, seja para quem o possui ou não; então é ponto notório de que muitos poucos saberão como lidar com o mesmo; aliás, não existe instrução econômica em todos os setores da escola de nossa sociedade, e o dinheiro e seus simbolismos são encarados como um tipo de sociedade secreta onde uns poucos têm acesso.

Algo que possui um valor universal em vários aspectos (sobrevivência, poder, status) terá uma marca pessoal de cada um em relação ao símbolo, como na religião. Quando falamos de algo que abrange toda a coletividade devemos pensar em uma estrutura que fornece segurança material e psicológica, ou algo que desestrutura todo o psiquismo e comportamentos diários. Nos tempos de outrora a posse material era extremamente concreta, sendo aferida pelo acúmulo de terras. Embora as propriedades ainda consistam na riqueza de alguém, o dinheiro no último século alcançou um valor simbólico para a personalidade como nunca antes visto no decorrer das relações sociais; o ponto não é mais a contabilidade da quantidade, mas o quanto de projeção pessoal e narcisista pode se colocar com o auxílio do instrumento dinheiro, e juntamente com o poder e a beleza formam o triunvirato cobiçado pelo mais íntimo de um ser humano. Estas três últimas esferas revelam toda a real e verdadeira natureza da pessoa, embora muitas vezes sejam usadas no intuito de camuflar o que realmente somos. Não podemos mais negar tais questões por pretextos de desapego de ordem religiosa ou moral, e sim questionarmos o que nos tornamos ao entrar em contato com todos os processos acima descritos; se ainda sobrou alguma parte desejante que seja realmente genuína de nosso ser, ou apenas foi moldada pelos valores vigentes. É claro que o desejo não deixa de ser também um fator que se forma no âmbito social, mas quanto nos restou do mesmo como disse acima, sem contaminação da inveja ou competição?

O dinheiro é a fronteira final para a resposta do que verdadeiramente estamos buscando, e como manejamos a busca do prazer pessoal, que está intrinsecamente ligado à outra pessoa. Satisfação é acúmulo, apego, segurança ou a divisão de algo de valor que possuímos com alguém sem que a esfera do medo esteja presente? Nosso inconformismo com a morte só é aplacado com uma posse maior perante determinada parcela do coletivo? Comparar e se sentir superior é realmente nosso conforto? Em quais áreas temos dificuldade de doação? Questionar tais questões podem nos conduzir a essência da importância do dinheiro em nossas vidas; do contrário, apenas seguiremos o dogma de termos família ou filhos para a perpetuação de nosso sucesso econômico. O fato é que a vida desde que somos crianças, nos revela o quanto somos ínfimos e insignificantes perante quase todos os processos sociais e a própria natureza. A ilusão do poder ou destaque pessoal passa a agir como fator compensatório numa personalidade que vê “tudo grande” no externo e “tudo pequeno” no interno. O dinheiro então é uma espécie de convite ou passe para que se diminua a humilhação de tal realidade sentida. Somos “atacados” diariamente, e passamos a correr por algo que nos proteja ao menos temporariamente de nosso sofrimento pessoal perante necessidades criadas pelo âmbito social. Se somos obrigados a buscar, gostar e lutar por um valor coletivo chamado dinheiro seria interessante que o fizéssemos com um toque profundamente pessoal e singular de criatividade e prazer, pois só desta forma nosso complexo de inferioridade e incerteza seriam debelados, nos devolvendo a certeza de que nosso lugar jamais será eterno, mas que fomos capazes de expor todo o nosso potencial, sendo o ápice que podemos alcançar como seres humanos.

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