
Walter Melo*
A casa funciona, dentro das produções da imaginação material, como um abrigo, como um princípio de integração dos pensamentos, das lembranças e dos sonhos, em suma, como um valor de integração psíquica. (…)A casa está inscrita no corpo, não como traço mnêmico, mas como imagem de intimidade, como imagem que busca um centro, que instaura um centro, que cria um universo (Eliade, 1991). Em qualquer casa que moramos, tendemos a imaginá-la sempre mais do que ela é, pois, com esta imagem arquetípica, estamos justamente no ponto de união entre imaginação e memória(…).
A casa é um “valor vivo” (Bachelard, 1996, p. 73), pois, mais do que ser uma imagem homóloga ao universo, revelando seu potencial cósmico, cremos que o próprio universo vem habitar a casa. Gaston Bachelard afirma ser “impossível escrever a história do inconsciente humano sem escrever uma história da casa” (Bachelard, 1990c, p. 89). Desta forma, a casa com seus cômodos, móveis e objetos vai nos provocando sonhos e nos trazendo lembranças.
O simbolismo da casa é um dos mais ricos em significado. Podemos encontrá-lo (…)como símbolo do processo de individuação em C.G. Jung, em temas musicais, etc. De qualquer modo, o que se tem é uma imagem que estrutura o ser humano, dado que se encontra no centro do mundo: a casa é “um verdadeiro cosmos” (Bachelard, 1996, p. 24). (…)
O MUNDO EM SFUMATO
Para Bachelard, a principal característica da imaginação não é a de formar imagens, mas sim a de deformar as imagens provenientes da percepção. (…)Nestes devaneios, abordaremos o dinamismo da imaginação como nos sugere Bachelard: como um amplificador psíquico.
(…)Este abrigo evidente – a casa – protege-nos do frio, calor, chuva, tempestade, da noite. Mas, estando no campo das emoções, ultrapassamos o simples recordar, e passamos a devanear, habitamos nossa casa oniricamente:
Assim, uma casa onírica é uma imagem que, na lembrança e nos sonhos, se torna uma força de proteção. Não é um simples cenário onde a memória reencontra suas imagens. Ainda gostamos de viver na casa que já não existe, porque nela revivemos, muitas vezes sem nos dar conta, uma dinâmica de reconforto. Ela nos protegeu, logo, ela nos reconforta ainda. O ato de habitar reveste-se de valores inconscientes, valores inconscientes que o inconsciente não esquece (Bachelard, 1990c, p. 92).
Estes valores inconscientes que revestem nossas lembranças são considerados por muitos como uma irrealidade, como pura ilusão que deve ser afastada para que se enxergue o mundo tal como ele é. Não é neste ponto de vista que nos apoiamos. Preferimos pensar como Bachelard, para quem uma pessoa que se priva da função do irreal é tão neurótica quanto uma que se priva da função do real.
(…)A discussão acerca do conceito de realidade é ampliada por Jung (1984) quando afirma, em O real e o supra-real, que a divisão do mundo em real, irreal e supra-real pertence à tradição de só se considerar como real o que é percebido pelos sentidos, fazendo do psiquismo uma tabula rasa. Sua posição, no entanto, é totalmente diversa desta. Para este autor, tudo o que atua sobre uma pessoa faz parte do real. Portanto, o inconsciente, com suas imagens, devaneios e sonhos, faz parte da realidade.
(…) O símbolo da casa surge na vida de Jung com uma função estruturante. Primeiramente em um sonho de 1909, no qual Jung se encontra em uma casa desconhecida e, apesar disso, sabia que se tratava de sua casa. Esta possui dois andares. No andar superior, Jung vê, em uma sala de estar, belos móveis em estilo rococó. Descendo uma escada, chega-se ao andar térreo, que se encontra na penumbra e onde tudo é mais antigo. Talvez uma instalação medieval do século XV ou XVI. No térreo, existe uma pesada porta que vai dar numa escada, por onde se chega à adega, local muito antigo, provavelmente da época romana. No piso da adega, vê-se uma argola que, quando é puxada, descobre uma escada no subsolo; neste, temos uma gruta rochosa. Na gruta, Jung vê ossadas, dois crânios muito antigos, restos de vasos e vestígios de uma civilização primitiva. O sonho lhe surge como um auto-retrato de sua situação psíquica:
Era claro que a casa representava uma espécie de imagem da psique, isto é, da minha situação consciente de então, com complementos ainda inconscientes. A consciência era caracterizada pela sala de estar e parecia habitável, apesar do estilo antiquado (Jung, s/d, p. 144).
O térreo corresponderia a seu inconsciente pessoal, enquanto a gruta, o mundo do homem primitivo – o inconsciente coletivo. Portanto, o térreo, a adega e a gruta representam níveis, ao mesmo tempo, ultrapassados e ainda não alcançados de consciência. Para Jung, o psiquismo vai além da possível memória de um inconsciente que se limita a um dado indivíduo. Sua idéia de inconsciente é de uma instância que possibilita o surgimento do novo, de idéias criadoras e que nunca haviam estado antes na consciência. O que interessa a Jung é a “espontaneidade criativa da psique inconsciente” (von Franz, 1992, p. 12). Porém, não se deixa simplesmente ser levado pelos devaneios. Tenta integrá-los à consciência e, com este intuito, decide construir sua casa perto do lago de Zurique. Jung considera a construção de sua casa um trabalho árduo, no qual encontrou apoio para suas fantasias e para seu material inconsciente. Diz Jung:
Necessitava representar meus pensamentos mais íntimos e meu saber na pedra, nela inscrevendo, de algum modo, uma profissão de fé. Foi assim que comecei a construir a torre de Bolligen. Essa idéia pode parecer absurda, mas a realizei – o que foi para mim uma grande satisfação, um acontecimento significativo (s/d, p. 196).
Jung escolheu a casa para configurar o processo de seu desenvolvimento psíquico – processo de individuação. Ao construir o primeiro cômodo, em forma arredondada, sentia-se repousado e, com um sentimento de renovação, denominou-o materno. Depois acrescentou uma parte central em forma de torre; aí possuía um quarto onde ninguém entrava sem sua permissão, espaço este onde podia refletir, assim como liberar sua imaginação, tornando-se um local de concentração espiritual. Depois foi acrescentado um pátio. Este, ao mesmo tempo que delimitou o terreno, deixou a casa com um espaço aberto para o céu e a natureza. Depois da morte de sua esposa, Jung elevou mais um andar na parte central; este representava-o como ele era. Diz Jung: “a torre dava-me a impressão de que eu renascia da pedra” (s/d, p.197).
Segundo Bachelard, a casa onírica pode aparecer representada como gruta, labirinto, choupana, cabana, casa burguesa, e tantos outros motivos, pois existe “uma raiz única na origem de todas essas imagens” (1990c, p. 78). Sua tese é a de um isomorfismo imaginário, que possibilitaria a construção de um devaneio ao redor de uma imagem que impulsiona a pessoa para uma tomada de consciência, para a construção de um mundo. Este mesmo tema aparece em pesquisas de Mircea Eliade:
Exatamente como a cidade ou o santuário, a casa é santificada, total ou parcialmente, por um simbolismo cosmológico ou ritual. Essa é a razão pela qual o fato de estabelecer-se em lugar – fundando uma aldeia ou simplesmente construindo uma casa – representa uma decisão séria, uma vez que envolve a existência de cada homem; em suma, ele deve criar seu próprio mundo e assumir a responsabilidade de conservá-lo e renová-lo. A casa não é um objeto, “uma máquina dentro da qual se vive”; é um universo que o homem constrói para si mesmo, imitando a criação paradigmática dos deuses, a cosmogonia (1979, p. 35).
*Doutorando em Psicologia Social pela UERJ, Mestre em Psicologia Clínica – PUC/RJ.
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