Hannah Arendt e a Banalidade do Mal

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O mal sempre constituiu um desafio à filosofia, chegando, muitas vezes, a ser considerado um enigma; por isso, tem correspondido a um convite a não ser pensado. Mas o fato de ignorá-lo, expurgá-lo do pensamento não o esconjura e nem o retira do universo dos problemas humanos. Por outro lado, é exatamente esse caráter enigmático do mal que pode representar urna provocação para que o pensemos melhor ou de forma diferente.

Para Ricoeur, o que fornece o caráter enigmático ao mal, pelo menos na tradição judaico-cristã do Ocidente, é a nossa tendência de colocar, numa primeira abordagem e num mesmo plano, fenômenos díspares como pecado, sofrimento e morte. De acordo com esse ponto de vista, a nossa proposta, neste trabalho, é dissociar a noção de mal da de pecado, de sofrimento e de morte. Tentaremos abordá-lo dentro da perspectiva da ação que nos conduz a uma abordagem da ética e da política, pois, sendo o mal, nessa perspectiva, sinônimo de violência, combatê-lo, por meio da ação ética e política, é diminuí-lo no mundo.

A experiência política do século XX revelou-nos o surgimento de uma nova modalidade de mal até então desconhecida. A emergência do fenômeno totalitário obrigou-nos a reavaliar a ação humana e a história, na medida em que esta revelou novas figurações do homem, inclusive em algumas de suas formas monstruosas. É, precisamente, no contexto da reflexão sobre a experiência das sociedades totalitárias do nosso século que Hannah Arendt retoma a questão do mal na filosofia.

(…)Hannah Arendt passa a seguir a trilha aberta por Kant, apoiando-se no conceito de mal radical em sua investigação acerca do surgimento dessa nova forma de violência e do seu alastramento e plena realização enquanto realidade política.

(…)Na sua concepção, o surgimento dessa nova modalidade de mal tem, como meta, não o domínio despótico dos homens, mas sim, um sistema em que todos os homens sejam supérfluos. O primeiro passo essencial no caminho desse domínio total é a destruição da pessoa jurídica do homem. O passo seguinte é a anulação da individualidade e da espontaneidade, de forma que seja eliminada a capacidade humana de iniciar algo novo com seus próprios recursos. O objetivo dessa destruição é a transformação da pessoa humana em coisa.

Tendo em vista nossa preocupação com a atualidade da ocorrência desse tipo de mal, somos obrigados a admitir que este risco sobrevive à queda dos estados totalitários. Nas, sociedades burocráticas modernas, os acontecimentos políticos, sociais e econômicos de toda parte conspiram, silenciosamente, com os instrumentos totalitários inventados para tornar os homens supérfluos.

Hannah Arendt mostra-nos que o modelo do “cidadão” das sociedades burocráticas modernas é o homem que atua sob ordens, que obedece cegamente e é incapaz de pensar por si mesmo, pois essa supremacia da obediência pressupõe a abolição da espontaneidade do pensamento. E nessa ausência de pensamento, nessa expressão humana opaca, nessa rarefação das consciências aparece a tragédia, batizada por Hannah Arendt de a “banalidade do mal”.

(…)Impressiona a persistente preocupação de Hannah Arendt com o problema do mal no quadro político contemporâneo, desencadeada, ao que parece, já no prenúncio do fenômeno totalitário.

(…)Observamos, nitidamente, que o fio que costura o pensamento político de Hannah Arendt é o problema do mal, recolocado e renovado o tempo todo, mas sempre dentro do contexto de uma preocupação ética e política. Pergunta-se: por que o mal?

Pensamos que o mal foi escolhido por Hannah Arendt porque ele sempre nos remete à referência oposta que é, em seu pensamento, a idéia de liberdade. Hannah Arendt sempre trabalhou, pari passu, o mal e a liberdade.

(…)Observamos que os temas mais recorrentes em Hannah Arendt não são tratados em sua individualidade e especificidade; ao contrário, ela investiga o seu oposto. Por exemplo, o pensar e o julgar são abordados como os antídotos do mal, aquilo que evitaria a banalidade do mal.

(…)o mal é considerado como urna possibilidade humana, uma contingência e, sendo assim, acha-se inscrito na sua liberdade.

(…)Hannah Arendt elegeu o “vazio de pensamento” como sendo o núcleo do problema da “banalidade do mal”, o que significa que ela toma, como referência, o vazio, a falta, enfim um negativo, para se pensar o mal.

(…)Hannah Arendt lança um foco de luz sobre a questão do mal contemporâneo, definindo-o como um tipo de esvaziamento que se produz na ação e no pensamento humanos.


Excertos da Tese de Doutorado de Nádia Souki /UFMG

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