Imagem: Foto de Steven Meisel
*Por Ângela Rodrigues
Entendo o fenômeno moda hoje como um campo de interpretações que pode lançar luz, sobretudo sobre a relação do indivíduo com seu corpo, com os objetos, com o seu mundo, e porque não dizer com o espírito do tempo.
Ao pensarmos na relação do individuo com seu corpo salta aos olhos a importância que a moda desempenha na construção da subjetividade e na percepção que o indivíduo tem de sua corporeidade. O conceito de corporeidade nos remete a um individuo desprovido da dualidade cartesiana. Denota, um ser que se percebe como um corpo e uma mente amalgamados, indissociáveis, um ser biológico, mas também cultural que se autoproduz material e culturalmente o tempo todo. Nesse processo as produções simbólicas parecem ocupar um papel importante.
A moda participa ativamente tanto da existência fenomenológica quanto da psicológica do individuo, de forma tácita ou expressa ajuda o individuo a se comunicar. Apesar de ser coadjuvante do corpo, a moda de maneira geral e a roupa em particular, parecem denunciar a lógica que impera na relação sujeito/corpo/psiquismo. Nessa lógica, a relação de amor e ódio que o indivíduo contemporâneo mantém com sua corporeidade torna-se instigante. Ora se traduz na lapidação do corpo através de intervenções estéticas invasivas; ora na modificação corporal muitas vezes levada ao extremo pelos adeptos radicais da body modification.
A adesão às cirurgias corretivas que lapidam as formas, a popularização da body art, da tatuagem para citar apenas alguns exemplos, também são reveladores. Em síntese, o corpo ocidental nunca foi tão enfeitado, amado, sacralizado, idealizado, moldado, mostrado, mas também descaracterizado, odiado, negligenciado, rejeitado, vendido, bem pago. Essas possibilidades sugerem que o individuo se apoderou de seu corpo como uma forma importante de exteriorizar a percepção que tem de sua subjetividade. Através dele, como suporte da roupa ou da arte e, por conseguinte, de produções simbólicas explicitas o indivíduo parece mostrar que finalmente se apossou do que é seu. Há muito que ser discutido nesse sentido.
No que se refere ao consumo, ainda que em vias de modificação frente à crise mundial, tende a consagrar na moda e no comportamento, o vale tudo, de todos os lugares, de todas as cores, de todas as tribos, de todas as procedências. Com a globalização e a miscelânea de referências a que o individuo está exposto, emerge a clareza da historicidade do bom gosto e do mal gosto e por conseguinte a percepção de que não há mais espaço para ditaduras mercadológicas explicitas, as veladas sempre existirão. A adesão simultânea ao novo, ao velho, ao vintage, ao sustentável, ao tecnológico, ao ecológico, ao oriental, ao sagrado, ao profano sugere que o valor de uso dos objetos consumidos tem sido muito considerado entre os que realmente alimentam o universo do valor de troca. Penso que a unilateralidade inerente à fases anteriores do consumo está definitivamente enterrada.
Se o indivíduo hoje tem liberdade para cultuar seu corpo ou mutila-lo da forma que melhor lhe apraz, e frente às possibilidades de ver e consumir referências diferentes das clássicas americanas e européias (inclusive no comércio popular e na mídia de massa) é natural que o comportamento hoje seja, ainda que de forma embrionária, pós-moderno, sem referências rígidas e claras. Sobretudo na década de 90 do século XX, muito se falou a respeito do declínio de referências basilares do comportamento individual e social, tais como a família, a religião e o Estado. Contudo, a ânsia quase generalizada de relações mais fraternais, a disseminação de religiões, ceitas, credos e misticismos de todas as ordens e claro, o recente despertar do Estado, parecem requerer outros tipos de análise. Não é a toa que a , – família nuclear, religiosa (?) e carismática tem acendido os holofotes do mundo.
O pano de fundo de todas as possibilidades – de estilo, de subjetividades, de consumo, de referências visuais, de comportamento, de crenças – só se configurou com a tecnologia. É ela que nos permite ver melhor, apesar de suscitar cegueiras intelectuais impensáveis; nos mostra milhões de referências apesar de eventuais comprometimentos culturais; se presta a interesses mercadológicos mas possibilita o escambo e a troca sobretudo de idéias.
*Ângela Rodrigues é graduada e mestre em Filosofia pela Unesp. Professora universitária há 8 anos na área de pesquisa científica em vários cursos superiores e pós-graduação dos quais se destacam Moda, Arquitetura e Urbanismo, Ciência da Computação entre outros.


6 06UTC setembro 06UTC 2011 às 12:36
[...] Moda, consumo, comportamento e tecnologia: reflexão inaugural [...]