A Psicanálise e o Feminino

A observação das mulheres histéricas, entrincheiradas na repressão do século XIX, permitiu a Freud as primeiras formulações teóricas da corrente psicanalítica que percorreu as décadas, chegando à análise do feminismo na era pós-moderna

*Por Maria Helena R. Junqueira

Freud teve importância fundamental no processo de retirada da histeria do registro médico, ao inscrevê-la como sintoma psíquico com um sentido a ser decifrado.

Em fins do século XIX, dar ouvidos às mulheres e a seus sofrimentos significava também uma postura política, oposição ao pensamento até então dominante. Nesse ambiente é que Freud começou a escutar as histéricas, indo além da suposição leviana de que seus sintomas fossem resultantes de uma farsa, um fingimento. Sua observação permitiu a fundação da Psicanálise como prática clínica psicanalítica. O que em verdade isto trazia de novo? A formulação de que a constituição do sintoma histérico, do sintoma psíquico, ocorria em decorrência e por intermédio do inconsciente e não pela intenção consciente da histérica.

Pode-se constatar que há uma dimensão libertária operando na escuta psicanalítica das histéricas, já que por meio da fala elas começaram a dar voz ao corpo e a expressar o que antes aparecia como sintoma corporal na conversão histérica. O sintoma histérico, muitas vezes, se presentificava de modo dramático, deixando entrever a revolta e o protesto pela intensa repressão a que os corpos estavam submetidos.

É na passagem do século XVIII ao século XIX que se constitui no Ocidente um discurso sobre a diferença sexual, em consequência das reivindicações igualitárias da Revolução Francesa. Até então era como se houvesse um sexo único, predomínio absoluto do masculino considerado perfeito e superior, que servia de paradigma ao feminino sem autonomia de existência e que seguia o modelo proposto por Galeno, vigente desde a Antiguidade. Este é um exemplo definitivo de como os processos históricos modelam e configuram os processos de subjetivação. Assim, podemos dizer que o paradigma da diferença sexual é um dos correlatos necessários da modernidade.

Entre Produção e Reprodução

Dentro da lógica do sexo único – o masculino – e considerando-se a primazia suposta do masculino sobre o feminino, na divisão de espaços sociais era delegado às mulheres o espaço privado, a família, lugar de reprodução. Aos homens, destinavase o espaço público, de produção, espaço mais amplo de governabilidade social. Aos homens era facultada a circulação tanto no espaço privado quanto no público, o que não era possível às mulheres. Essa situação durou por muito tempo, estabelecendo-se regras sociais que impunham severas restrições à vida das mulheres e que impediam a possibilidade de criação de novas condições na convivência social.

Por volta da década de 1960, tornam-se mais explícitas e exigentes as reivindicações em relação a várias questões quanto à participação da mulher na vida social, no trabalho, na política. E na sexualidade, ocorre uma profunda transformação com o advento da pílula anticoncepcional. Este fato representa um dos marcos na longa luta das mulheres por liberdade.

Este histórico faz-se necessário para nos ajudar a focalizar o tema da feminilidade e seus desdobramentos na pós-modernidade. E também porque esta questão sempre esteve atrelada aos processos históricos e sociais.
É nessa mesma década que floresce de modo definitivo o movimento feminista que teve importante repercussão e alcançou avanços significativos na luta por novas condições para as mulheres e na redefinição das identidades sexuais. Entre o discurso feminista e o discurso freudiano sobre as diferenças dos sexos travou-se um acalorado debate. Mas para compreender esta polêmica é necessário explicitar alguns pontos importantes presentes nas formulações de Freud.

É necessário dizer que, em parte, as críticas feitas pelo feminismo à teoria psicanalítica eram procedentes, se considerarmos que Freud partiu de uma concepção hierárquica da diferença sexual e não de uma concepção igualitária. Outro ponto de contestação do feminismo foi a centralidade que a maternidade assumia nas teorias freudianas, que tinham em conta que sem a maternidade a mulher não cumpriria efetivamente a feminilidade. Este primado foi intensamente discutido pelas feministas, que se opunham a esta dimensão tão fundamental que a Psicanálise delegara à maternidade. Outra questão conflitante dizia respeito à inveja do pênis, que para Freud era constitutiva do feminino, o que era veementemente contestado pelas feministas, que por reivindicarem a igualdade entre os sexos, o acusavam de falocentrismo, de ter o falo como referência primordial na compreensão da diferença sexual.

Feminino e Feminilidade

Mas esta é uma leitura parcial que se pode fazer das formulações freudianas sobre o feminino e a feminilidade. Vale a pena aproveitar para traçar a diferença e especificidade de cada um destes termos. O feminino é entendido como dimensão constitutiva da experiência humana, estabelecendo-se na contraposição ao masculino, diferença regulada pelo operador fálico e pelo complexo de castração. Já a feminilidade seria um conceito tardio de Freud, desenvolvido a partir de 1923, que permite repensar os fundamentos da lógica fálica, dizendo respeito ao processo de constituição da subjetividade tanto de homens quanto de mulheres, à problemática da castração agora dizendo respeito aos dois sexos. Ao participar da constituição psíquica de ambos os sexos, a feminilidade subverte as possibilidades de compreensão da constituição da sexualidade humana, confrontando o sujeito com o desamparo fundamental e permitindo a criação de novas formas sublimatórias.

Há algo importante nesta formulação freudiana, que desvincularia feminilidade de mulher, articulando-a em um campo teórico muito mais amplo. Assim, implicaria também a constituição da identidade sexual masculina. Não há dúvida de que isto significa algo inteiramente novo na concepção de cada sexo. Neste caso não é o sexo masculino que é modelo para o feminino, os sexos vão se definindo a partir deste confronto com o desamparo, a castração, algo que provoca horror tanto em mulheres quanto em homens. São várias as implicações que esta maneira de conceber a diferença sexual acarreta. Ela rompe com a formulação freudiana inicial de que o “masculino originário” seria o fundamento da sexualidade tanto de meninos quanto de meninas, sendo que no caso das meninas elas só alcançariam sua condição de ser mulher pela perda desta masculinidade originária. O feminino, nestas primeiras formulações, é concebido como sendo uma derivação da masculinidade, tendo esta dimensão de origem.

Não será então que surge um novo estatuto para o feminino no horizonte teórico da Psicanálise? Pode-se concluir que o conceito de feminilidade agora proposto por Freud assenta-se em outro solo que não o registro fálico, baseando-se a feminilidade em uma dimensão de ausência, de falta. A feminilidade assumiria, assim, a dimensão originária de constituição do psiquismo, o que representa uma reversão das primeiras proposições freudianas.

Ausência do Registro Fálico

Se a ordem fálica pretendia a vigência de uma ilusão de perfeição do ser humano, ou pelo menos dos homens, a introdução da feminilidade como referencial originário e constitutivo do psiquismo cria uma fenda, uma hiância. Ultrapassava-se, deste modo, a grande falácia da perfeição como característica primordial do humano, o que ao mesmo tempo implicava em se afirmar definitivamente a finitude e a mortalidade humana, a precariedade dos homens. Em consequência dessa concepção, podemos compreender a suposição de que a travessia de uma análise possa levar o sujeito a se tornar mais feminino, ou seja, menos onipotente e arrogante, marcas tão presentes no narcisismo.

A assunção da incompletude, da finitude, se dá a partir da aceitação da mortalidade como condição inexorável do humano. Não há como mascarar a precariedade do sujeito marcado pela falta, sua força advém, justamente, da superação do orgulho, do narcisismo que tenta dissimular a fragilidade a partir da qual somos todos constituídos.
A constituição subjetiva é simultaneamente individual e social. Cada sujeito se compõe a partir das vicissitudes de seu psiquismo, de sua história pessoal e das circunstâncias sociais a que está submetido. Esta confluência se torna ainda mais vigente na vida pós-moderna, quando estamos sujeitos de forma massiva a diversos apelos e contingências, muitas vezes expressos por meio das mídias.

O pertencimento social e a possibilidade de reconhecimento por outro, algo tão fundamental a todos, só se faz possível a partir do cumprimento de sutis exigências de várias ordens, do atendimento a vários códigos que condicionam a aceitação ou o não pertencimento. A dinâmica inclusão/exclusão exerce seu poderio e fascínio, motivando muitas vezes angústias, num processo em que homens e mulheres lutam para constituir um lugar próprio, uma identidade.

Desafios Abissais

E, afinal, como vivem hoje as mulheres, nesta era pós-moderna? Podemos pensar, ainda no rastro de um projeto de futuro que foi esboçado pelo movimento feminista, e não plenamente realizado, que este é um momento de perplexidade para as mulheres. A configuração do mundo e sua complexidade é hoje processo bastante diferente do que foi nos anos 1960 ou nos anos 1980. A própria política perdeu seu vigor de contestação e transformação, deixando um vazio social que com frequência transforma novos projetos políticos em quimeras.

A mulher se encontra atualmente diante de desafios abissais e tomada de certa decepção, já que muitos ideais não foram alcançados e ficaram para trás. Elas já sabem que a luta pela igualdade entre os sexos é enganosa e parcial. Esta igualdade pode ser buscada mais no trabalho, por igualdade de condições e salários. Mas do ponto de vista dos papéis sociais coube à mulher um real acúmulo de tarefas e responsabilidades. A maternidade se redesenhou e, consequentemente, as famílias também.

*Maria Helena R. Junqueira é psicanalista membro da federação Brasileira de Psicanálise (FEBRAPSI) e da sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ) e doutora em comunicação e cultura pela Universidade federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

FONTE: Portal Ciência&Vida

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