Namorar é… Cada Um Sabe a Dor e a Delícia do Relacionamento Que Tem

“Os Enamorados” por Émile Friant (1863-1932)

O relacionamento contemporâneo é diversificado, multifacetado e prima pela manifestação da vontade do indivíduo.

*Por Elaine Pereira – Portal Uai

O que quase todo mundo quer é encontrar sua metade ideal. Alguém que seja não necessariamente o seu reflexo, mas que o deixe mais feliz em estar acompanhado do que só. O que torna essa busca complexa, entretanto, é o fato de existirem formas diferentes de felicidades para cada um e múltiplas formas de participar do jogo amoroso. Cada vez mais o namoro torna-se, na sociedade contemporânea, cheio de nuances que permitem engajamentos variados e podem, algumas vezes, confundir a cabeça de quem quer ter um ombro mais que amigo para dividir sua intimidade. O que é, então, namorar nos dias de hoje?

Não existe uma definição muito precisa. O ‘ficar’ é um dos caminhos para o namoro, mas não funciona para todo mundo. Especialistas no assunto, como o psicólogo Ailton Amélio da Silva, professor da USP, e o psicólogo Orestes Diniz Neto, da UFMG, concordam que cada vez mais diminui a definição clara dos processos de ritualização do namoro. “Antigamente havia o flerte, o namoro, o noivado e o casamento, eram os estágios. Agora eles foram ampliados. Então, atualmente nós temos o flerte – identificado em várias espécies, além do homem – o ‘ficar’, o rolo (que é quando a pessoa fica mais vezes), o namoro, o noivado, o morar junto, o casamento e a separação”, enumera Ailton Amélio. Segundo ele, alguns dos estágios são optativos. Por exemplo, o noivado perdeu a força, tem gente que não mora junto e até que não fica. E nesse meio estão os enrolados, que normalmente não sabem exatamente se querem ou não o tal compromisso.

“Hoje existe uma pluralidade de modos de viver, o que reflete na pluralidade de famílias”, avalia o psicólogo Orestes Diniz Neto, professor da UFMG. “Algumas são reconstituídas depois do divórcio, monoparentais (filhos apenas com pai ou mãe), muitos solteiros vivendo sozinhos e sem a intenção de formar um vínculo. Essa pluralidade de modos de vida e família também reflete na subjetividade e no jogo amoroso”, explica. “Nas décadas de 70 e 80 era muito claro que jovens só estariam namorando se houvesse um pedido e uma aceitação de namoro dos jovens. Da década de 90 para cá houve uma mudança grande com uma liberalização maior de costumes, em termos da expressão da sexualidade e afetividade, o que faz com que os jovens ‘fiquem’”. Segundo Orestes, o ‘ficar’ é utilizado de maneira diversa pelas pessoas: pode significar apenas alguns beijos, uma noite ou uma sequência de encontros com ou sem contato sexual. “Isso fez com que o padrão do processo do namoro se tornasse muito mais fluído, havendo, às vezes, dificuldade do indivíduo saber em qual relacionamento está”, afirma.

Entretanto, para Ailton Amélio, a noção de compromisso é o fator determinante para que uma pessoa esteja namorando, de fato. Mas o processo de aproximação (o cortejo) até que ocorra um entendimento mútuo do casal de que começou o namoro, é que varia muito.

Mais intimidade, menos compromisso

Aílton Amélio afirma que o que mudou foi o grau de intimidade. “Mesmo sem nenhum comprometimento é possível ter várias intimidades com o outro, o que não inclui apenas práticas sexuais. Não vejo perdas, se você ficar moderadamente, só vejo ganhos. Antigamente era muita repressão e muito uma questão cultural. Tem culturas em que o beijo é uma forma de cumprimento. Então, dentro de certos limites é positivo, a experiência na área amorosa é boa. Exagerar é que é ruim”, diz.

Ele exemplifica: quem fica com 30 ou transa demais logo de cara pode ser obrigado a enfrentar barreiras externas e internas. Problemas também ocorrem com o comportamento contrário. “Quem não tem intimidade, por motivos religiosos, é respeitável, mas também pode ter problemas tanto internos quantos externos. A religião manda uma pessoa seguir certas regras, como se casar virgem. Mas se a pessoa faz isso por inibição, aí é problema. Os casos são múltiplos em psicologia. Se a pessoa tem um problema e adere a uma maneira de pensar, a coisa se complica. Ela acaba desenvolvendo uma teoria dizendo que não quer, que não precisa ou que aquilo é mal”.

Fim das barreiras

Pesquisas realizadas desde o século XX mostram a liberação continuada das práticas, com mudanças no número de parceiros antes do casamento, na importância da virgindade, o número de orgasmos femininos, a idade da primeira relação sexual e outros dados que apontam que o sexo vem se liberando ao longo dos últimos anos. Também caíram gradativamente algumas barreiras que ajudavam a manter um casamento. “Há 30 anos no Brasil só havia o desquite. Hoje, as barreiras externas que ajudavam a segurar os relacionamentos acabaram enfraquecidas. Ficou fácil sair de um relacionamento e, de certa forma, tornou-se mais descartável. A opinião pública não condena, a lei facilitou, a mulher tem independência e não fica no relacionamento amarrada, os anticoncepcionais permitem maior liberdade sexual”, diz o professor da USP.

Entretanto, ainda há um grande número de insatisfeitos. Seja por estarem solteiros ou porque não se dão bem com o parceiro escolhido. Não existe mágica nem receita de sucesso nesse campo. Cada caso deve ser considerado como único. Mas os especialistas apontam uma tendência importante: há um maior individualismo, que torna o processo mais fluido, isto é, as pessoas tem e querem mais liberdade no relacionamento, com uma intensidade menor de vinculação. São pessoas diferentes cujas expectativas se encaixam durante um tempo ou se repelem. Os prós e contras desse novo tipo de jogo amoroso que surge a partir da década de 90 é que deve ser avaliado por cada um.

Entenda como o namoro evoluiu a partir da Idade Média

Da obrigação de enlace até a realização do desejo individual, ocorreram muitas mudanças no processo de namoro no Brasil. Nos dias de hoje, modos mais recentes convivem com jeitos tradicionais de envolver-se com o outro. Namorar não foi sempre a manifestação de um desejo interior dos envolvidos. Houve uma grande evolução no ritual de namoro assim como nas formas de manifestação dele ao longo do tempo. Muitas vezes os jovens eram obrigados a entregar sua vida e sua intimidade a pessoas quem nem bem conheciam, por imposição das famílias.

O jogo de aproximação de parceiros tem mudado ao longo da cultura e de época para época. Se os encontros entre os casais foram mobilizados pelo desejo, a formação de vínculos formalizados socialmente e os processos de ritualização sempre tiveram impacto de diversos tipos de instâncias: econômicas, políticas e sociais. O que quer dizer que o casamento foi, na maior parte das vezes, arranjado.

O compromisso com a instituição

“Se a gente pega, a partir da Idade média para cá, eles tinham objetivos que eram a preservação da família e a formação de alianças políticas, sociais, econômicas. A partir do início do século XXI começa a haver uma mudança do padrão”, explica o doutor em psicologia Orestes Diniz Neto, professor da UFMG. “Começa-se a ouvir mais o jovem na escolha do parceiro. A família escolhia e o jovem participava, consentindo. Depois, passou para uma mudança em que o jovem escolhia e a família concedia”, completa. Segundo ele, da metade do século XX pra cá o jovem escolhe seu parceiro com cada vez menos interferência da família. Do ponto de vista econômico e social as razões mudaram e a noção de responsabilidade, por exemplo, passou a varir de acordo com o modelo. No casamento tradicional, implicava padrões muito claros de comportamento. Então, a família era marcada como instituição que não ia se romper, mesmo que fosse um caos. “A mulher tinha que tolerar as escapadas do marido e ele, por sua vez, tinha que sustentar a família. E vivia-se assim: a afetividade tinha muito pouco peso”, relata.

O compromisso com o outro

Depois ocorreram mudanças no papel da mulher e na estrutura básica da família, com pai, mãe e filho vivendo juntos, com papéis regulados e mais igualitários. “Na família que surge na década de 70, quando homem e mulher tem direitos iguais, o afeto e a reciprocidade de direitos e deveres é que mantém o relacionamento. Os dois tem que se comportar de forma a refletir o compromisso um com o outro”, diz. “Isso é recente. Até a Constituição de 1988, a família era o núcleo e o homem era a cabeça. Se a mulher discordasse dele, estaria cometendo um crime”, diz. “Assim, se a gente pegar as últimas três gerações, cada uma com cerca de 30 anos de diferença, vemos uma mudança dramática”.

O compromisso consigo mesmo

Da década de 90 para cá o foco é a situação de cada um . Estou com você enquanto você me satisfaz. O compromisso é fluido”, descreve. Então, se num certo momento, o namoro era para confirmar a escolha da família, em um outro, um namoro formal passou a ocorrer para que a família também conhecesse o pretendente. Hoje existe uma pluralidade de modos de viver que refletem na pluralidade de famílias, na subjetividade do indivíduo e no jogo amoroso. “Mais recentemente o namoro passou a ser o encaixe amoroso-afetivo entre duas subjetividades. Satisfazer os indivíduos envolvidos na sua experiência.

Já “do ponto de vista antropológico, é um processo psicossocial de formação de vínculos estáveis”, esclarece. O namoro varia de acordo com o grupo e com o modo como a pessoa se coloca na relação. Segundo o psicólogo, o ‘ficar’, por exemplo, não ocorre apenas entre os jovens, mas na faixa de pessoas a partir de 40 anos também, que muitas vezes não querem um relacionamento com o projeto tradicional, isto é, não querem se casar. “Do ponto de vista das mulheres existe um fenômeno observável, boa parte das que se divorciam tendem a não se casar de novo, mais do que os homens. Já os homens se casam e com parceiras mais jovens. Então, você tem um contingente grande de mulheres que estão sem parceiros, que vivem a experiência da busca de afetividade ou decidiram não viver mais isso”, diz.

Lugar para todos, ao mesmo tempo

Nesse compromisso de cada um consigo mesmo, o namoro hoje tende a ser mais fluido, mais disperso na escolha de parceiros, apresenta maior número de trocas do que foi nas gerações anteriores e acontece com uma maior liberdade para o indivíduo e com uma menor intensidade na vinculação. Mas isso se mistura com todos os outros padrões que convivem, ao mesmo tempo, com esse novo tipo de forma de relacionar. “Tem jovem que pede para namorar, jovem que escolhe de acordo com a vontade da família, tudo acontece simultaneamente. Uma multiplicidade de formas de namoro. Não existe esse ideal. Há uma dispersão de modos de ser e se relacionar muito grande. Tudo porque não se trata de uma escolha voluntária consciente que o indivíduo faz mas é um processo que ele se escolhe participando”, conclui.

Num universo relativo, alguns perdem, outros ganham – é a tendência

Na avaliação do doutor em psicologia Orestes Diniz Neto, professor da UFMG, todas as mudanças ocorridas ao longo da história no processo de namoro levam à relativização de conceitos como romantismo, virgindade e heterossexualidade, entre outros. Tornam-se produções locais, de uma época e de uma sociedade que não refletem uma universalidade. “Para alguns grupos, por exemplo, a mulher casar virgem é importante, para outros é depreciativo para ela. Para uns, ter múltiplos parceiros não tem problema, para outros é pecaminoso. Se o romantismo na década de 60, 70, 80 era vivido como um filme de longa-metragem, hoje em dia o romance no namoro é o videoclip, com cenas românticas, e não uma história romântica. Duas pessoas se conhecem num bar, vivem uma situação romântica e acabou”.

Perdas e ganhos

Enquanto para uns essa nova forma vai se dar de forma tranquila, o namoro contemporâneo traz alguns transtornos porque os pretendentes não preferem namorar desse ou daquele jeito, mas se descobrem vivendo uma relação que pode ir de encontro às suas crenças sobre o namoro. Por outro lado, pode não existir o conflito. Muitas pessoas estão vivendo o processo de forma leve e muitas vezes sem vinculações profundas.

Todas as formas desse jogo social tem dificuldades e facilidades. O modo de vida do casal na primeira metade do século XX, por exemplo, era patriarcal. O marido mandava e a mulher obedecia. A questões emocionais e afetivas aconteciam de forma diferente. Hoje há maior possibilidade de romper relações que são disfuncionais e danosas ao indivíduos. Na forma de namoro contemporânea, que varia de indivíduo para indivíduo, muitos relatam vazio e pouca significação no jogo de contatos e vinculação. Mas para outros essa é uma forma de vida que está tranquila e assim é o melhor que pode ser.

Prognóstico

O pesquisador acredita que esse movimento é contínuo. “Se eu tivesse que apostar diria que vamos assistir a um movimento de continuação do que estamos vendo. Uma multiplicidade de formas de ser e de se expressar, mesmo que com algumas resistências e movimentos contrários, como é o caso de algumas religiões. Mas o movimento de abertura dificilmente voltará atrás e a taxa de divórcios tende a crescer. No Brasil, atualmente, uma a cada três casamentos se disfaz. Devemos alcançar a média mundial, que é de, a cada dois casamentos, um se disfaz”.

Aprenda a ter um relacionamento bem sucedido

Doutor em psicologia pela USP, o psicólogo mineiro Aílton Amélio da Silva, autor de três livros sobre o assunto, afirma que hoje é muito fácil encontrar alguém, mas manter um relacionamento com esta pessoa não é. Algumas das orientações resumidas que listamos aqui fazem parte do seu recente lançamento “Relacionamento Amoroso – Como encontrar sua metade ideal e cuidar dela”, uma boa dica para quem está à procura de um parceiro ou quer melhorar sua relação. O autor mostra de maneira objetiva os fatores que contribuem para o sucesso de um relacionamento e as condições psicológicas que levam ao fim de uma relação. Ele revela ainda como a conversa pode contribuir para se ter uma relação amorosa mais duradoura e proveitosa, e avalia como ter uma vida afetiva saudável.

“O meu livro não é uma fórmula, não quero dar a entender que o livro resolve o problema. Mas pode ajudar a esclarecer. É útil. Tem coisas que são difíceis de mudar. Mas é importante analisar as causas da motivação, ver porque muitas vezes você acha que não vai ser bem sucedido. Não existe nenhuma cultura em que não haja casamento”, mesmo que ele tenha formas não convencionais.

DICA UM

Escolha bem o seu parceiro, fazendo uma média ponderada dos defeitos e qualidades. “Cada qualidade e defeito tem um peso e a gente consegue alguém que tem uma média ponderada similar à da gente. Não adianta procurar o perfeito. Geralmente a gente procura alguém em quem os defeitos não nos incomodem e seja atraente”. Estudos realizados com casais com relacionamentos que dão certo mostram que se o seu parceiro não tiver grau de escolaridade, religião e objetivos de vida similares, o relacionamento vai dar muita encrenca. Haverá muitas discrepâncias e arestas a acertar. Entretanto, tem que haver atração e romantismo entre os dois, senão viram amigos. Em alguns setores os temperamentos complementares também são bemvindos, com habilidades diferentes que se completam.

DICA DOIS

O relacionamento e o parceiro escolhido têm que gerar satisfação, que é uma relação entre custo e benefício. “O psicólogo John Gottman, por exemplo, considera que para um relacionamento produzir satisfação – seja amoroso ou amistoso – tem que haver cinco benefícios para cada custo. Se alguém traz mais benefícios do que custos é óbvio que a relação é mais agradável. Então, quase tudo dá para se pensar em termos de custo e benefício. Se ela não me aceita, se ficou feia, se me trata mal, se me apoia ou não, tudo é considerado”.

DICA TRÊS

Considere as alternativas ao namoro. “Sempre a gente está pensando o que haveria de melhor fora do relacionamento do que permanecer nele. Ter outro parceiro ou ficar só”. Este é um capítulo em que o autor desenvolve em seus livros, várias considerações sobre a traição.

DICA QUATRO

Entre com os dois pés no relacionamento novo. Invista, acredite que vai dar certo. Senão, a chance dele fracassar aumenta. “Tenho que misturar a minha identidade em parte (se for tudo vira simbiose), planejar a vida conjunta. A forma católica dos casamentos se aproxima disso (o ser fiel na saúde e na doença). Se casa com conta separada, pacto pré-nupcial, se mantém um círculo de amizades totalmente independentes, já casa se prevenindo pra sair”, afirma. Segundo Ailton da Silva, a pessoa tem que se integrar à outra, mesmo que atualmente as pessoas estejam mais individualistas.

DICA CINCO

Supere as barreira externas e internas. Se você tiver valores contra a separação, mesmo que o relacionamento seja difícil, terá menos chances de encontrar outro satisfatório. Acreditar que o outro vai sofrer e que a separação vai fazer os filhos sofrerem, acreditar que a luta para achar outro parceiro é muito árdua, descartar um candidato na primeira dificuldade, tudo isso são boicotes à felicidade, barreiras internas. As barreiras externas incluem as implicações legais, econômicas e a opinião pública. Alguns desses fatores estão for a do seu alcance.

Fonte: Portal Uai

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