Humanos e Animais: Uma Parceria Feliz?

Diana e Seus Cães Caçadores ao Lado da Caça” por Jan Fyt (1611-1661)

*Por Angelita Scardua

Há vários estudos científicos indicando que ter um bicho de estimação pode:

- elevar as taxas de sobrevida entre vítimas de enfarte;
- diminuir o stress;
- contribuir para a estabilidade da pressão arterial em hipertensos e dos níveis de açúcar em diabéticos;
- melhorar o desempenho escolar de crianças com déficit de aprendizagem.

Com tantos benefícios obtidos, é comum vermos os bichinhos como uma extensão das nossas emoções, mas será que são? Investigações sobre o metabolismo do cérebro fornecem evidências de que os sentimentos dos outros animais não são muito diferentes dos nossos, pois, há processos cerebrais comuns entre nós e eles. É o caso do neurotransmissor dopamina, importante no processamento da alegria e do desejo, que é encontrado tanto em humanos como em outros mamíferos.

Se os animais são capazes de sentir emoções, então, temos uma razão a mais para tratá-los com carinho, o que significa respeitar as diferenças que existem entre nossas espécies. Os diferentes animais têm necessidades que são características de suas histórias evolutivas. Querer forçar um cão ou um gato a viver uma vida integralmente humana é privá-lo da oportunidade de ser o que ele realmente é. Animais confinados que não compartilham do convívio de outros da própria espécie sentem-se solitários e estressados, tendendo a desenvolver sintomas associados à depressão e à ansiedade, isto vale também para os humanos. Quando não diferenciamos as necessidades dos animais das nossas corremos o risco de não aproveitar o que de melhor eles têm a nos oferecer que é o aprendizado da diferença, dos limites entre o que desejamos para o outro e o que é necessário e adequado para ele.

Fatores diversos na história de nossa evolução, tanto objetivos quanto subjetivos, nos impulsionaram a conviver com outros animais. Nesse processo evolutivo, os cães se tornaram a maioria, e os mais desejados, na população de animais domésticos, seguidos de perto pelos gatos. Humanos e cachorros convivem sob o mesmo teto há milênios, seja numa caverna, numa palhoça, num castelo ou num apartamento. Essa convivência próxima entre humanos e cães trouxe benefícios para as duas espécies, e como os humanos têm mais recursos de dominação sobre os cães é possível que, talvez, sejamos os grandes ganhadores dessa parceria. Uma coisa é certa, porém, os cães amplificaram suas chances de sobrevivência quando passaram a conviver conosco: casa, alimento e proteção obtidos sem as ameaças existentes em florestas e savanas deram aos cães domésticos maiores chances de que seus filhotes sobrevivessem e se tornassem adultos saudáveis. Ao contrário de sua contraparte selvagem, os lobos, os cães domésticos seguem com a população aumentando e vivendo por muito mais tempo.

Ainda assim, a despeito do ganho obtido pelos cães na expectativa de vida e no aumento da população, é válido perguntar se depois de tanto tempo juntos aprendemos realmente a entender nossos parceiros caninos? Muitos humanos quando optam por conviver com outros animais se esquecem de respeitar as particularidades de cada espécie, e tendem a colocar as próprias necessidades na frente das deles. Essa atitude coisifica o outro animal, pois, nos leva a tratá-lo como se fosse um objeto para a realização dos nossos desejos afetivos ao suprir carências de todo tipo. Acontece que o animal que escolhemos para viver conosco é um ser vivo e, como tal, deve ser minimamente compreendido para ser respeitado e ter a chance de uma existência digna e satisfatória.

Como nos humanos, o pleno desenvolvimento físico e psicológico de um cão ou gato depende do fato do animal ter acesso às condições mínimas que lhe permitam desenvolver e utilizar seus recursos motores, cognitivos e emocionais. Assim, por exemplo, separar um filhote de cachorro da mãe antes de oito semanas priva o animal de um período de socialização muito importante para o desenvolvimento comportamental, podendo levá-lo a desenvolver medo de contato com outros cães e dependência excessiva da figura do dono. Outro problema comum que afeta o desenvolvimento de animais de estimação, especialmente cães, é a falta de atenção e de comunicação por parte do dono. Isso pode levar a um estado de confusão mental do animal, porque ele não consegue prever a reação do dono em resposta a uma ação sua. Isso, por sua vez, impede o cachorro de reconhecer se seu comportamento está sendo percebido como positivo ou não pelo dono. Tal situação tende a gerar altos níveis de ansiedade no animal, podendo desencadear também quadros depressivos. Assim, para quem pensa em ter um cachorro, a condição fundamental é disponibilidade: tempo!

Cães são animais sociais, naturalmente eles se organizam e vivem em bandos/grupos. Os grupos caninos, por menores que sejam, são caracterizados pela presença de um líder e por uma organização rigidamente hierárquica. Não há igualdade no universo canino, e eles não desejam isso. Cães esperam que o seu dono seja o líder, ou, melhor dizendo, que seja mais forte e tenha mais energia do que ele. Se o dono não consegue impor disciplina ao seu cão, ele se sente desprotegido e com necessidade de suprir ele mesmo essa carência de liderança. O resultado é que se o cão é um tipo dominante ele pode tornar-se agressivo e até violento, se ele for um tipo mais fraco se sentirá ansioso pela tarefa que exige mais do que suas capacidades de dominância. Logo, sentir que faz parte de um grupo com hierarquia e liderança clara e definida é fundamental para o bem-estar canino. Não raro é, portanto, que tenhamos a tendência de confundirmos a presença constante dos cães em nossas vidas com a ideia de que eles sentem e pensam como um de nós, mas por mais íntimo que um cão seja de um humano ele continua a ser um cão.

Alimentar a ideia de que nós e nossos bichos somos uma coisa só minimiza o fato de que os animais de estimação ajudam a suprir algumas necessidades emocionais das pessoas, funcionando como uma fonte de segurança afetiva. Essa segurança afetiva, contudo, não advém do fato de que os animais podem substituir os afetos humanos, mas de que ao convivermos com eles temos mais chances de desenvolver nossa humanidade. Ou de pelo menos aprendermos a lidar melhor com as emoções e os modos de funcionamento que são próprios da nossa espécie. Isso porque a observação das diferenças entre nós e os outros animais nos permite identificar o que é essencialmente humano e o que é próprio das outras espécies.

Aprendermos a dar ouvidos às reais necessidades dos animais que vivem conosco, e não ao nosso desejo em relação a eles, potencializa os ganhos dessa convivência tão ancestral entre as espécies, e que está diretamente relacionada ao nosso desenvolvimento afetivo. Pelo menos é o que aponta vários estudos sobre o convívio entre humanos e animais. Essas pesquisas que estudam a relação entre nós e os animais domésticos sugerem que os moradores de lares habitados por bichos de estimação tendem a ser mais felizes e a apresentarem mais características de personalidade consideradas positivas. Além disso, também se observa que as pessoas que têm relações mais fortes e seguras com outros humanos são as que estabelecem os vínculos mais saudáveis e equilibrados com seus animais. Ou seja, se aprendemos a lidar adequadamente com cães e gatos é porque, numa certa medida, também aprendemos a fazê-lo com aqueles que são da nossa espécie.

*Angelita Scardua é Psicóloga, Mestre em Psicologia Social (USP) e especialista em Desenvolvimento Adulto e Felicidade.

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