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	<title>Papeando Com a Psicologia</title>
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	<description>Temas Do Cotidiano!</description>
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		<title>Papeando Com a Psicologia</title>
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		<title>Papeando sobre conhecimento e Ano Novo&#8230;Metamorfoses necessárias</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Dec 2009 18:26:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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2009 está chegando ao fim. Nós do grupo Papeando Com a Psicologia estamos satisfeitos de termos conseguido dar continuidade ao nosso propósito de divulgar o conhecimento psicológico. O que só foi possível porque compartilhamos mais um ciclo de debates com todos vocês que nos visitaram, aqui no mundo virtual e nos nossos encontros ao longo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&blog=5350779&post=1506&subd=grupopapeando&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;"><a href="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/12/butterfly.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1509" title="butterfly" src="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/12/butterfly.jpg?w=499&#038;h=373" alt="" width="499" height="373" /></a></p>
<p style="text-align:justify;">2009 está chegando ao fim. Nós do grupo Papeando Com a Psicologia estamos satisfeitos de termos conseguido dar continuidade ao nosso propósito de divulgar o conhecimento psicológico. O que só foi possível porque compartilhamos mais um ciclo de debates com todos vocês que nos visitaram, aqui no mundo virtual e nos nossos encontros ao longo deste ano.</p>
<p style="text-align:justify;">No ano que finda, tendo a Psicologia como ponto de partida, tivemos a oportunidade de debater 11 temas diferentes: <em>Contos de Fada</em>, <em>Comida</em>, <em>Casa</em>, <em>Mal</em>, <em>Mulher</em>, <em>Moda</em>, <em>Sexo</em>, <em>Esoterismo</em>, <em>Mente Criminosa</em>, <em>Dinheiro</em> e <em>Trabalho</em>. Em todos foi gratificante a participação de pessoas com as mais diferentes formações. A diversidade de temas e de visitantes, que caracteriza os encontros do Papeando, tem permitido uma troca singular de idéias sobre a vida e o conhecimento que tenta explicá-la.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong><a href="http://grupopapeando.wordpress.com/2008/12/24/feliz-natal/" target="_blank">Numa época</a></strong> em que os eventos de vida parecem mais velozes do que o tempo marcado nos calendários e relógios, pode parecer um quase desperdício de tempo sentar para “papear” sobre a experiência humana. Mas, como pessoas interessadas naquilo que nos torna humanos – nossas emoções, pensamentos, ações e sentimentos – acreditamos na importância do conhecimento psicológico como recurso para compreendermos melhor a nós mesmos e aos outros.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Compreender:</strong> dar-se conta, alcançar com a inteligência, entender, perceber o sentido, ver, ouvir&#8230;O significado da palavra “compreender” no dicionário é amplo o suficiente para expressar a importância da reflexão e da discussão para tudo o que pensamos, sentimos e fazemos. Pois, ao compreender, podemos avaliar a razão pela qual as coisas acontecem e, ao avaliarmos, podemos repensar nossas posturas e escolhas, podemos mudar a direção que escolhemos seguir&#8230;quando compreendemos, nos transformamos!</p>
<p style="text-align:justify;">Transformação deveria ser uma palavra mais presente em nosso dia-a-dia. Transformar é um verbo rico, que quando colocado em prática torna-se uma maneira abrangente e criativa de alterar aquilo que temos em nossas mãos, seja uma relação, um hábito, uma idéia ou um objeto. Transformar é mais do que apenas mudar. Mudar pode ser aplicado a uma simples troca, variação ou desvio. Transformar não! Quando transformamos, o que era não será mais! Transformar é modificar, metamorfosear&#8230;dar nova forma. É por isso que sem compreensão não há transformação, embora possa haver mudança.</p>
<p style="text-align:justify;">Podemos mudar de casa, de amor, de trabalho, de aparência, sem verdadeiramente alterarmos nossa forma de lidar com a vida doméstica, com os parceiros, com nós mesmos. Mas podemos ser habitantes, amantes, profissionais, pessoas totalmente diferentes quando nos transformamos, mesmo que o cenário e as pessoas de nossas vidas sejam as mesmas que sempre conhecemos. Porque não importa muito o cenário e os personagens da nossa vida; o que parece realmente importar é a compreensão que temos da história que vivemos.</p>
<p style="text-align:justify;">Somente quando conquistamos a compreensão de quem somos, de quem queremos e podemos ser, é que compreendemos a vida que estamos vivendo. E ai, sim, podemos escolher o que realmente nos importa. O filósofo Friedrich Nietzsche escreveu que “<em>Saber é compreendermos as coisas que mais nos convém</em>&#8220;. Nós, do Papeando, assinamos embaixo. Apostando no conhecimento psicológico como veículo para a transformação, individual e coletiva, esperamos percorrer mais um ciclo de papos enriquecedores com todos vocês.</p>
<p style="text-align:justify;">Que em 2010, <span style="color:#ff0000;">T</span><span style="color:#008000;">R</span><span style="color:#800080;">A</span><span style="color:#33cccc;">N</span><span style="color:#ff9900;">S</span><span style="color:#ff00ff;">F</span><span style="color:#00ff00;">O</span><span style="color:#cc99ff;">R</span><span style="color:#808000;">M</span><span style="color:#3366ff;">A</span><span style="color:#993366;">R</span> seja o nosso verbo, o vocábulo que conjugaremos juntos por meio da oportunidade única de nos conhecermos mais e melhor!</p>
<p style="text-align:justify;">Esse é o desejo do Grupo Papeando Com a Psicologia para todos que nos acompanham.<strong><br />
</strong></p>
<p style="text-align:right;">
<p style="text-align:right;"><strong><span style="color:#808080;">Acesse</span></strong> <strong><a href="http://grupopapeando.wordpress.com/tema-atual/" target="_blank">AQUI</a></strong> <strong><span style="color:#808080;">e conheça o tema do nosso próximo encontro.</span></strong></p>
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	</item>
		<item>
		<title>Sobre Qualificações e Competências</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Nov 2009 16:04:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Acidente de Trabalho&#8221; por Eugênio de Proença Sigaud(1899-1979)
*Por Rogerio Valle
Falar em qualificação, agora, é out. O in é falar em competências. Qual a diferença, além da volátil sensação de estar na moda?
A literatura internacional fala em qualificação para designar, basicamente, um potencial cognitivo que:
•	foi obtido, quase sempre, em instituições de formação profissional;
•	foi legitimado através de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&blog=5350779&post=1491&subd=grupopapeando&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;"><a href="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/acidente-de-trabalho-sigaud.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1492" title="acidente-de-trabalho-sigaud" src="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/acidente-de-trabalho-sigaud.jpg?w=500&#038;h=700" alt="" width="500" height="700" /></a>&#8220;Acidente de Trabalho&#8221; por Eugênio de Proença Sigaud(1899-1979)</p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por Rogerio Valle</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Falar em qualificação, agora, é out. O in é falar em competências. Qual a diferença, além da volátil sensação de estar na moda?</p>
<p style="text-align:justify;">A literatura internacional fala em qualificação para designar, basicamente, um potencial cognitivo que:</p>
<p style="text-align:justify;">•	foi obtido, quase sempre, em instituições de formação profissional;<br />
•	foi legitimado através de uma certificação pública, estatal ou privada;<br />
•	é reconhecido nas negociações e contratos de trabalho (classificação, remuneração, etc.).</p>
<p style="text-align:justify;">A outra noção, por sua vez, sempre aparece associada ao desempenho. Ou seja: quando se ouve a palavra competência, pode-se ter certeza de que o assunto são os resultados do trabalho. A novidade é que, recentemente, esta noção tenha passado a ser o eixo de uma nova proposta administrativa, que veio reconfigurar o estagnado cenário teórico dos &#8220;recursos humanos&#8221;: a gestão de competências. Apresenta-se como uma negação (na prática, mais retórica do que real) da análise de cargos e, num salto ainda maior, dos planos de cargos e salários, ambos instituídos na fase áurea do fordismo. A operação se dá em dois momentos. Primeiramente, temos uma espécie de mapeamento das características e habilidades do indivíduo nos campos cognitivo, psicomotor, relacional, emocional, social e tudo mais o que se queira. Tarefa, logo se vê, bastante complicada. O passo seguinte é organizar a evolução dessas características e habilidades individuais, através da definição de roteiros que, associados a promoções ou coisas parecidas, guiem os esforços de aprimoramento profissional.</p>
<p style="text-align:justify;">Não demorou muito a surgir a idéia de que esse mapeamento fosse realizado por órgãos externos às empresas, de modo a que os atestados que dele resultassem tivessem uma validade mais genérica. Tantos foram os atores a promover essa idéia (técnicos de organismos e bancos internacionais, funcionários públicos, dirigentes de organizações patronais e sindicais e mesmo porta-vozes de empresas), que podemos falar de um verdadeiro &#8220;movimento ideológico&#8221;, pretendendo regular o mercado de trabalho interno e externo das empresas. Seus resultados, no entanto, são decepcionantes. Após mais de uma década de discussões, os sistemas nacionais de certificação não deslancharam (exceto, talvez, no Reino Unido). O que tem vingado, isto sim, é a atestação das competências dentro das empresas. Mas as dificuldades, aqui também, são enormes. Os casos de fracasso começam a se multiplicar. Eles resultam da omissão de uma consideração básica: certificados são, antes de mais nada, documentos assinados, isto é, documentos onde alguém proclama algo sobre alguém. Sua validade está sempre condicionada ao prestígio de quem atesta. Por exemplo, sabe-se que a certificação de empresas pela ISO 9000 passa atualmente por uma discreta &#8220;crise de legitimidade&#8221;: como vários órgãos certificadores perderam credibilidade (por exemplo, prestando consultoria a empresas que depois irão auditar), os profissionais e as empresas passaram a associar o valor dos certificados de seus fornecedores à reputação do órgão que os emitiu. Um outro exemplo interessante é o caso do CTC de Recife, escola alternativa cujo diploma vale, em sua região, tanto ou mais do que o do Senai. Mesmo quando a credibilidade de quem diz a certificação é claramente reconhecida, há um outro problema: trata-se de atestados específicos e provisórios. Sob esse aspecto, a única instância que pode dizer a certificação de competências com voz clara e indiscutível é, em última análise, a própria comunidade de trabalho, conceito que não coincide com o de empresa (malgrado todo o blá-blá-blá da literatura apologética).</p>
<p style="text-align:justify;">No fundo, o que está em jogo é retirar a gestão dos conhecimentos produtivos das mãos do aparelho escolar e transferi-la para as empresas, ou para novos órgãos específicos. Há certos aspectos compreensíveis nesta intenção, mas é preciso ver os limites de tal mudança. O processo de qualificação dos trabalhadores exige um campo educacional formal, solo ainda fertilíssimo para o desenvolvimento do potencial de competências de cada futuro trabalhador. Há, é verdade, a questão da experiência. O movimento pelas competências reivindica o reconhecimento da experiência do trabalhador: mesmo um trabalhador que nunca freqüentou escolas pode receber um certificado, atestando seu valor profissional. Mas, ao opor escola (diploma) e experiência (certificado de competências), ele ignora que a primeira pode atuar como um espaço de ampliação da visão de mundo dos sujeitos, logo, de bloqueio às experiências fechadas em si. Aliás, a valorização da experiência do trabalhador não é uma idéia nova: no pós-68, ela era defendida pelos que a opunham ao &#8220;saber dominante&#8221; do taylorismo, da escola ou do partido. É irônico vê-la reaparecer na fala de empresários, gerentes, policy makers e técnicos de organismos internacionais. Em todo caso, a experiência não é apenas um saber tático, contrastando com o saber teórico. Ela constitui e é constituída por ambos. Se não for fecundada teoricamente, a experiência é estática e insuficiente para os atuais desafios. Conhecimento informal e conhecimento formalizado não são conflitantes, mas se alimentam e se criticam reciprocamente.</p>
<p style="text-align:justify;">A valia do que hoje se chama saber tácito (savoir-faire) está na sua capacidade de tomar uma parcela da cultura técnica (conhecimento enciclopédico e de fundo, arquivado na memória de longo prazo das pessoas) e ativá-la, isto é, trazê-la à memória presente (operacional e temporária), transformando-a em conhecimento frontal e aplicado, sempre que decisões precisam ser tomadas. Este conceito de ativação de conhecimentos rompe radicalmente com os dualismos entre o sensível e o inteligível (gigantesca e operante herança das filosofias racionalista e empirista) e entre o tácito e o formalizado (base das teorias contemporâneas sobre a gestão do conhecimento). O conhecimento ativado é uma forma integrada (i.e., que reúne dialeticamente tudo que os dualismos cindiram) e integral (sem diminuições ou restrições) de saber, que permite a construção de uma representação mental dos eventos, a partir da percepção e interpretação dos sinais e signos oriundos do contexto da ação.</p>
<p style="text-align:justify;">Para um indivíduo, o ato de qualificar-se (ou seja, sua qualificação) não é outra coisa senão a assimilação, por ele, da cultura técnica. O efeito deste ato, igualmente chamado de qualificação, pode ser definido como o potencial cognitivo (teórico e prático), obtido num sistema de educação formal, que provê o indivíduo com as condições necessárias ao desempenho de suas funções, inclusive a capacidade epistêmica de refletir sobre as ações suas e de seus colegas, dentro do respectivo contexto. Já a competência é a capacidade pessoal de ativação desta cultura técnica. Mais ainda, é capacidade para transformá-la, em circunstâncias para as quais o saber de fundo revelou-se insuficiente. Nos problemas semi-estruturados (i.e., quando há alto risco e efeitos interconectados, sem modelo prévio), que exigem microdecisões rápidas, a ausência de uma compreensão prévia e comum da situação (fornecida p. ex. pela tradição dos artesãos, ou pelos manuais e roteiros de fabricação da grande indústria) obriga os próprios agentes a assumir a incumbência de produzir um consenso de fundo para suas ações. A interpretação dos signos e sinais oferecidos pelo ambiente precisa gerar um consenso entre os trabalhadores. É essa atividade intersubjetiva de interpretação que determina, em meio aos signos e sinais oriundos do contexto do trabalho, quais as ações mais adequadas do ponto de vista da eficiência (mundo físico), Justiça (mundo social) e autenticidade (mundo subjetivo). Assim, a competência acaba recriando esse reservatório de interpretações prévias que denominamos cultura técnica. Aliás, a tomada de microdecisões (cruciais para o desempenho de processos menos rotinizáveis do que os do fordismo) é a verdadeira razão do atual interesse pela competência. As situações de anormalidade, de necessidade de ajuda ou de perigo são momentos propícios para que se desvende a real competência do trabalhador.</p>
<p style="text-align:justify;">A aprendizagem precisa tanto da base adquirida na escola, quanto do desenvolvimento realizado no local de trabalho. A escola é o lugar da qualificação, a empresa, o do desempenho. O conceito de competências une esses dois mundos. Ele expressa a capacidade do trabalhador de ativar a cultura técnica de sua comunidade de trabalho, para interpretar inúmeros tipos de sinais e signos, verbais (p. ex., frases, durante diálogos sobre questões técnicas ou gerenciais) ou não (p. ex., sinais provenientes de uma máquina), provenientes do contexto físico, social e subjetivo. As competências devem ser vistas como uma mediação entre a qualificação e o desempenho no cargo. Elas explicam por que indivíduos com a mesma titulação podem ter desempenhos bem diferentes, num mesmo cargo.</p>
<p style="text-align:justify;">Em vez de seguir a velha e onipresente classificação das qualificações em conhecimentos, habilidades e atitudes (portadora dos dualismos entre o sensível e o inteligível), preferimos classificar as competências em três grupos:</p>
<p style="text-align:justify;">•	competências técnicas, que permitem a interpretação dos processos físicos e organizacionais da produção;<br />
•	competências subjetivas, que permitem a interpretação das relações pessoais e interpessoais dentro da fábrica;<br />
•	competências sociais, que são aquelas que permitem interpretar o que ocorre fora dos muros da empresa, seja no mercado, seja no espaço público, seja na estrutura estatal.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao contrário das competências, a qualificação não pode ser pensada diretamente a partir do desempenho nos cargos. Cargos são sempre específicos e cambiantes, qualificação é sempre mais genérica e inercial. A educação tecnológica, que qualifica sujeitos, tem por obrigação prepará-los para vários cargos possíveis. Entre a qualificação e o futuro desempenho no cargo, há a mediação de várias formas possíveis de competência. Por isto, a educação tecnológica deve se voltar prioritariamente para o desenvolvimento da cultura técnica, sem se preocupar diretamente com as necessidades ligadas a esse ou aquele cargo específico.</p>
<p style="text-align:justify;">As coisas se complicam, e muito, quando os resultados da avaliação de desempenho estão diretamente acoplados aos níveis de remuneração. Várias empresas de consultoria se apressaram em fornecer &#8220;modelos de remuneração por competências&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">A origem da dificuldade está, a nosso ver, no vão esforço de resolver novas questões emergentes da área de relações de trabalho, usando-se ferramentas recauchutadas da área de RH. É impossível afastar-se das abordagens funcionalistas quando se discute os saberes envolvidos na produção e, contraditoriamente, mantê-las mais à frente, na avaliação de desempenho e nos sistemas de classificação e remuneração. Enquanto não se investir em novas formas de relações de trabalho, baseadas numa abordagem intersubjetiva, os &#8220;sistemas empresariais de gestão de competências&#8221; demonstrarão sua incompatibilidade com os planos de cargos e salários fordistas, ainda que se tente disfarçar estes últimos com novos nomes.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Rogério Valle (valle &#8220;arroba&#8221; pep &#8220;ponto&#8221; ufrj &#8220;ponto&#8221; br) é pesquisador do Laboratório de Sistemas Avançados de Gestão da Produção (SAGE), da COPPE/UFRJ.</strong></p>
<p style="text-align:right;"><strong>FONTE: <a href="http://www.comciencia.br/comciencia/" target="_blank">Com Ciência</a></strong></p>
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		<title>Afinal, queremos mesmo um futuro sem capitalismo?</title>
		<link>http://grupopapeando.wordpress.com/2009/11/26/afinal-queremos-mesmo-um-futuro-sem-capitalismo/</link>
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		<pubDate>Thu, 26 Nov 2009 15:53:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;São Paulo&#8221; por Tarsila do Amaral(1886-1973)
*Por Leonardo S.
Na América Latina, assiste-se atualmente a um rápido avanço da retórica anticapitalista. Países como Venezuela, Bolívia e Equador estão em franco processo de institucionalização de regimes antiliberais, adotando Constituições de fortes tons marxistas. No Brasil, intelectuais argumentam que o capitalismo é um sistema naturalmente excludente, que, mesmo quando [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&blog=5350779&post=1486&subd=grupopapeando&ref=&feed=1" />]]></description>
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<p style="text-align:right;"><strong>*Por <a href="http://www.visoesdofuturo.wordpress.com" target="_blank">Leonardo S.</a></strong></p>
<p style="text-align:justify;">Na América Latina, assiste-se atualmente a um rápido avanço da retórica anticapitalista. Países como Venezuela, Bolívia e Equador estão em franco processo de institucionalização de regimes antiliberais, adotando Constituições de fortes tons marxistas. No Brasil, intelectuais argumentam que o capitalismo é um sistema naturalmente excludente, que, mesmo quando permite sucesso econômico, falha em promover a igualdade social. As críticas são ilustradas por afirmações que ressaltam problemas comuns aos vários países da região, como a excessiva concentração de renda. Mas, será que os problemas levantados são fruto do sistema capitalista?</p>
<p style="text-align:justify;">Para ajudar na defesa dos valores liberais, recorramos às idéias do economista austríaco Joseph Schumpeter, a respeito do capitalismo. Por irônica coincidência, Schumpter nasceu em 1883, ano da morte de Karl Marx, crítico feroz dos ideais capitalistas. Esse também foi o ano de nascimento do brilhante John Maynard Keynes, defensor da intervenção estatal na economia.</p>
<p style="text-align:justify;">Para Schumpeter, o capitalismo é como “Um vendaval perene de destruição criativa”. As pessoas que mantêm esse vendaval soprando são os empreendedores, homens e mulheres de negócios que criam empresas, as quais espalham riqueza para amplas parcelas da população. Embora isso possa parecer utópico, é interessante ressaltar que parte significativa do crescimento econômico brasileiro deveu-se ao processo industrializante ocorrido no País, a partir do início do século XX. Os benefícios sociais desse processo, para parte significativa da população, foram muitos, como o surgimento de oportunidades de emprego melhores e mais diversas que as passíveis de serem oferecidas pela economia agroexportadora herdada do período colonial.</p>
<p style="text-align:justify;">Schumpter também argumentava que a inovação está no centro da dinâmica capitalista. Os empreendedores, termo popularizado por ele, realizam a tarefa de mover recursos de setores cambaleantes da economia para novos setores, nos quais podem ser melhor utilizados. Para o austríaco, um inovador pode surgir em qualquer lugar, tanto em uma empresa quanto no dormitório de uma universidade. A revolução da internet prova o acerto da visão de Schumpeter, com novos empreendedores construindo impérios, como o Facebook, em tempo exíguo, e empresas aparentemente consolidadas sendo varridas do mapa. Quem se lembra do navegador Netscape? Provavelmente, quase ninguém.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma das preocupações de Schumpeter era que, para funcionar, as empresas dependem do que ele denominou de uma “complexa ecologia”, como o mercado de ações. Se essa “infraestrutura” for abalada, o sistema pode parar. Assim, ele temia a possibilidade de burocratas e intelectuais tentarem frear o selvagem espírito capitalista ou de empresários estabelecidos associarem-se a políticos, a fim de evitar o surgimento de novos concorrentes. Quando consideramos o movimento de implantação do socialismo na América Latina, limitando a propriedade privada e a livre iniciativa, e os sucessivos escândalos envolvendo empreiteiras e políticos, as preocupações de Schumpeter parecem muito atuais.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao menos na Europa Ocidental, valores capitalistas, como a livre iniciativa e a propriedade privada, tiveram muito sucesso em criar sociedades mais ricas e igualitárias do que as sociedades socialistas da Europa Oriental e da América Latina. Basta comparar as duas Coréias, em termos econômicos, sociais ou educacionais, para verificar que essa afirmação não carece de sentido. Mesmo o país central do mundo comunista, a União Soviética, ruiu sob o peso da ineficiência econômica. Como ficou patente quando da queda da Cortina de Ferro, a pobreza se havia generalizado entre a população, enquanto uma pequena elite de burocratas, militares e intelectuais gozavam de privilégios inimagináveis para o cidadão comum.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim, pobreza e desigualdade não parecem ser característica do capitalismo. Não é por acaso que a China somente passou a desfrutar do crescimento econômico que tirou milhões da pobreza, quando adotou práticas capitalistas, em certas partes do país. As raízes da pobreza e da desigualdade na América Latina não estão, assim, na propriedade privada ou na livre concorrência. Elas estão consolidadas em estruturas sociais e mentalidades herdadas dos períodos coloniais desses países. Essa herança, tão estudada por historiadores, sociólogos e geógrafos, parece carecer exatamente dos valores liberais que fizeram o progresso, embora com altos e baixos, dos países capitalistas.</p>
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		<title>Tecnologias de Informação Trazem Mudanças nos Postos de Trabalho</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Nov 2009 15:44:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Eu Vi o Mundo&#8221; por Cícero Dias(1907-2003)
Pela definição conceitual, uma &#8220;revolução&#8221; se dá quando são observadas transformações radicais de âmbito econômico, social, político, artístico e científico. A Primeira Revolução Industrial aconteceu entre 1760 e 1850 e teve como protagonista a Inglaterra, grande produtor mundial de algodão. Com a introdução do vapor usado como fonte de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&blog=5350779&post=1478&subd=grupopapeando&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;"><a href="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/eu-vi-o-mundo_cicero-dias1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1482" title="Eu Vi o Mundo_Cicero Dias" src="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/eu-vi-o-mundo_cicero-dias1.jpg?w=496&#038;h=389" alt="" width="496" height="389" /></a>&#8220;<em>Eu Vi o Mundo</em>&#8221; por Cícero Dias(1907-2003)</p>
<p style="text-align:justify;">Pela definição conceitual, uma &#8220;revolução&#8221; se dá quando são observadas transformações radicais de âmbito econômico, social, político, artístico e científico. A Primeira Revolução Industrial aconteceu entre 1760 e 1850 e teve como protagonista a Inglaterra, grande produtor mundial de algodão. Com a introdução do vapor usado como fonte de energia nas máquinas e locomotivas, o país deu início à automação da produção de tecidos e de outros produtos, antes feitos à mão, e agilizou o sistema de transportes de pessoas e de mercadorias com a introdução das linhas férreas.</p>
<p style="text-align:justify;">De acordo com Fernando Teixeira, pesquisador e professor da Universidade Metodista (Unimep), a Inglaterra era o único país que, naquele momento, estava em condições de exercer esse papel na economia mundial, pois havia passado por uma revolução burguesa, no século anterior, que criou condições favoráveis ao desenvolvimento do capitalismo. &#8220;Havia uma política protecionista que tornou o comércio externo superior ao consumo doméstico. As leis voltadas às demandas capitalistas, os cercamentos de terras sem obstáculos e o domínio colonial foram alguns dos vários fatores que colocaram a Inglaterra em condições de liderar a Europa a partir do final do século XVII&#8221;, afirma Teixeira.</p>
<p style="text-align:justify;">A Segunda Revolução Industrial teve início em 1860 e gerou mudanças no processo de industrialização que se estenderam até o início da Primeira Guerra Mundial. Com o surgimento da eletricidade, a produção em série nas linhas de montagem proposta por Henry Ford (conhecida como &#8220;fordismo&#8221;) e o método de administração científica baseada no conhecimento de Frederick Taylor (&#8220;taylorismo&#8221;), a produção industrial ganha um novo ritmo. O protagonista da Segunda Revolução Industrial passa a ser os EUA que, às vésperas da Primeira Guerra, detinham 40% do PIB dos países desenvolvidos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Terceira Revolução</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Recentemente, na década de 1990, alguns autores afirmaram que estávamos vivendo uma Terceira Revolução Industrial, impulsionada, do ponto de vista tecnológico, pelo surgimento de novas Tecnologias de Informação (TIs) e pelo advento da eletrônica, em substituição à eletro-mecânica, no setor industrial. O conceito ainda é polêmico e divide a academia. Mesmo assim, há um consenso: as TIs têm causado profundas transformações na organização do trabalho em todo o mundo.</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Trata-se de um processo, é preciso tempo para avaliar se o atual momento histórico poderá ser chamado de Terceira Revolução Industrial&#8221;, afirma Sérgio Queiroz, pesquisador e professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT), da Unicamp. Para ele, é difícil definir se as mudanças trazidas com as TIs podem ter provocado uma nova &#8220;revolução industrial&#8221;, já que, em alguns setores, não houve mudanças &#8220;radicais&#8221;. É o caso dos meios de transporte, que são os mesmos da Segunda Revolução Industrial com tecnologia aprimorada, e dos meios de produção, ainda baseados na automação, que deixou de ser repetitiva para ser programada pelo computador.</p>
<p style="text-align:justify;">Além disso, diferentemente dos processos ocorridos nos séculos XVIII e XIX, atualmente não há um país protagonista. &#8220;Pode-se pensar no Japão e na China, que estão crescendo em ritmo acelerado. Mas eles não estão ditando as regras da produção atual, como aconteceu anteriormente com a Inglaterra, na primeira revolução, e com os Estados Unidos, na segunda&#8221;, afirma Queiroz.</p>
<p style="text-align:justify;">Para Teixeira, durante o período inicial da industrialização, as técnicas primitivas de produção poderiam resultar em grande produtividade. Atualmente, no conceito de Terceira Revolução Industrial, isso já não é mais possível devido às exigências da produção de bens de capital, em termos científicos e tecnológicos. &#8220;A diferença mais surpreendente entre a Terceira Revolução Industrial e as duas anteriores é a possibilidade de uma produção descentralizada, em que os componentes de um determinado produto podem ser fabricados em diferentes lugares. O mundo globalizado diminui tempo e distância em escala jamais alcançada, o que deve ser atribuído à aceleração do ritmo dos transportes de mercadorias e da informação&#8221;, afirma.</p>
<p style="text-align:justify;">A idéia de Terceira Revolução Industrial é caracterizada por uma redução expressiva dos custos de produção e de preço dos produtos automatizados, e pela aceleração do ritmo de produção. &#8220;Dos anos 80 para cá, os computadores tiveram uma queda de preços de cerca de 20% ao ano&#8221;, afirma Fernando Mattos, professor da pós-graduação em Ciência da Informação e do Centro de Economia e Administração da PUC de Campinas. Para o pesquisador, as Tecnologias de Informação provocaram, também, uma redefinição das dimensões de espaço e de tempo. &#8220;O fluxo das informações passou a ser quase instantâneo e, assim, as distâncias ficam encurtadas&#8221;, explica.</p>
<p style="text-align:justify;">No Brasil, o total empregado no Setor de Informação ainda é baixo se comparado aos países desenvolvidos. O setor concentra cerca de 18% da mão-de-obra empregada, que se apropria de mais de 37% da massa de rendimentos. Além do maior nível de renda, uma média de 54% dos trabalhadores do setor têm carteira assinada (contra 35% da média nacional) e aproximadamente 40% deles têm curso superior (contra 20% da média nacional).</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Tecnologia X postos de trabalho</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O advento das TIs e o aumento da importância do complexo eletrônico no processo industrial causaram uma mudança nos postos de trabalho, marcada pela redução do número de trabalhadores com atividades operacionais e pelo surgimento de vagas voltadas para os profissionais responsáveis pelo gerenciamento e pela coordenação da produção. &#8220;Há uma necessidade de maior qualificação para ocupar os postos de trabalho que lidam com as TIs. O trabalho intelectual passou a ter uma importância maior nesse setor específico&#8221;, explica Mattos.</p>
<p style="text-align:justify;">A diminuição de determinados postos de trabalho e o surgimento de outros é, para Queiroz, uma característica do capitalismo e foi observada também na Primeira e na Segunda Revolução Industrial. &#8220;A produção está cada vez mais mecanizada, o que exige menos trabalhadores lidando diretamente com as máquinas&#8221;, afirma.</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Há uma tendência para se tentar justificar o desemprego macro-econômico pelas inovações tecnológicas&#8221;, explica Mattos, que acredita que problemas sociais da atualidade, como o desemprego, devem-se ao baixo crescimento das economias dos países, e não às novas tecnologias. &#8220;Tecnologias sempre foram criadas. As que tanto nos fascinam hoje têm um efeito menor do que tiveram as indústrias química e petroquímica nos anos 50 e 60. A globalização está acentuando as diferenças entre os países e a concentração de renda, mas isso não é uma questão tecnológica&#8221;, conclui o pesquisador.</p>
<p style="text-align:justify;">Para Teixeira, a força de trabalho no Setor de Informação tem sido cada vez menos necessária, mas a questão do trabalho não deve ser limitada aos efeitos da automação. &#8220;A atual competitividade internacional e as políticas de corte neoliberal favorecem iniciativas empresariais de flexibilização da força de trabalho. É com a insegurança estrutural e permanente do emprego que se pode, com certa tranqüilidade, oferecer trabalho com salários mais baixos&#8221;, complementa Teixeira.</p>
<p style="text-align:justify;">A atual insegurança no trabalho é abordada por David Harvey, em A condição pós-moderna. Para Harvey, a força de trabalho está enfraquecida devido ao alto desemprego, à competição do mercado e à redução da força sindical, o que facilita o controle por parte dos empregadores. Assim, os trabalhos em tempo integral e com segurança (como carteira de trabalho) tendem a se reduzir, ao passo que postos de trabalho flexíveis e autônomos &#8211; que criam uma insatisfação coletiva &#8211; tendem a aumentar.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Fonte: <a href="http://www.comciencia.br/comciencia/" target="_blank">Com Ciência</a></strong></p>
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		<title>À Noite Dormimos&#8230;Nos Divertimos e Trabalhamos!</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Nov 2009 15:30:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Papeando Com a Psicologia]]></category>
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		<category><![CDATA[Sociedade de 24 Horas]]></category>
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		<category><![CDATA[Trabalho em Turnos Alternantes]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho Noturno]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Sem Título&#8221; por Alex Vallauri(1949-1987)
*Por Angelita Corrêa Scardua
Você já se imaginou vivendo para sempre em vigília, ininterruptamente? Provavelmente você sentiu até um certo cansaço ao pensar numa resposta para essa pergunta. É óbvio, se não provável, que a resposta razoável a tal pergunta é, não! Talvez você até goste de imaginar a possibilidade de ampliar [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&blog=5350779&post=1472&subd=grupopapeando&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;"><a href="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/alex-vallauri.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1473" title="Alex Vallauri" src="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/alex-vallauri.jpg?w=496&#038;h=710" alt="" width="496" height="710" /></a>&#8220;<em>Sem Título</em>&#8221; por Alex Vallauri(1949-1987)</p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por <a href="http://www.mundodossentidos.wordpress.com" target="_blank">Angelita Corrêa Scardua</a></strong></p>
<p style="text-align:justify;">Você já se imaginou vivendo para sempre em vigília, ininterruptamente? Provavelmente você sentiu até um certo cansaço ao pensar numa resposta para essa pergunta. É óbvio, se não provável, que a resposta razoável a tal pergunta é, não! Talvez você até goste de imaginar a possibilidade de ampliar o tempo disponível para as suas atividades, o que é bastante compreensível. Mas é difícil imaginar que você ou qualquer outra pessoa pense em fazê-lo sem descanso.</p>
<p style="text-align:justify;">O sono é um dos traços comportamentais mais característicos dos seres humanos, e não sem razão. Pesquisas desenvolvidas ao longo das últimas cinco décadas têm demonstrado que a privação de sono implica em inúmeros danos físicos e emocionais, de problemas gástricos ao aumento da irritabilidade, de déficit de atenção ao aparecimento de humores depressivos, de envelhecimento precoce à disfunções sexuais. Resumindo: dormir é bom, necessário e indispensável. Mas o que poucos de nós sabemos é que o sono tem hora certa para acontecer. Pelo menos do ponto de vista biológico e, também, psicológico podemos dizer que o sono deve ser usufruído preferencialmente à noite.</p>
<p style="text-align:justify;">E porque devemos dormir à noite? Em primeiro lugar porque estamos biologicamente adaptados para isso. Digamos que ao longo da evolução o corpo humano foi desenvolvendo um mecanismo de auto-regulação, esse mecanismo é conhecido como ‘relógio biológico’. Uma espécie de ‘marcador de tempo’ neuronal que organiza o nosso meio interno e nos coloca em sintonia com o meio externo. Esse relógio, aparentemente, localiza-se no núcleo supraquiasmático do cérebro e é sincronizado pela alternância entre claro/escuro que ocorre no meio ambiente. Podemos pensar mais ou menos assim: nos primórdios da vida humana na terra sobreviveram – se reproduziram e passaram os genes adiante – os grupos hominídeos que desenvolveram mecanismos de exposição ao meio, e de recolhimento, que puderam oferecer mais vantagens no aproveitamento dos recursos disponíveis.</p>
<p style="text-align:justify;">Imagine-se como um homem/mulher primitivo: você não possui uma constituição física das mais exuberantes, seus filhotes são muito frágeis e precisam de acompanhamento constante, sua dieta alimentar é maioritariamente raízes e outros frutos de coleta. Lá fora, no mundo à sua volta, há uma dezena de predadores muito mais robustos que você e suas armas são um pedaço de osso e a sua coragem…Venhamos e convenhamos, é muito sábio exercer suas atividades na generosa luz do dia e se recolher à noite quando a escuridão torna-se um disfarce propício para os seus inimigos naturais. Admita, a natureza é sábia dando a todos os seres a chance de sobreviver…e isso, para os outros animais, pode significar se alimentar de humanos.</p>
<p style="text-align:justify;">Você é um tipo matutino, vespertino ou indiferente? Tenha você embarcado ou não na minha fantasia pré-histórica, o fato é que o seu organismo começa a se preparar para o repouso tão logo o sol se põe, o seu cérebro reage ao anoitecer liberando hormônios que te induzem ao sono. Da mesma forma, quando o sol desponta no horizonte o seu ‘relógio biológico’ faz com que seu cérebro passe a liberar hormônios que o enchem de vigor físico e o preparem para a atividade. Para algumas pessoas esses processos e seus efeitos ocorrem um pouco mais cedo e para outras um pouco mais tarde. Ou seja, é natural que algumas pessoas tendam a dormir e a acordar mais cedo e outras mais tarde e, ainda, outras que alternam entre uma coisa e outra sem muito esforço. É o que os pesquisadores designam respectivamente como indivíduos matutinos, vespertinos e indiferentes.</p>
<p style="text-align:justify;">É possível que você nunca tenha pensado na importância do sono em sua vida, ou qual perfil de ‘dormidor’ é o seu, mas tente imaginar-se trabalhando durante à noite, ou em turnos alternantes. Imagine-se perdendo noites e noites de sono durante anos, seguidamente. Você pode ter em mente que a sua função é relevante para a sociedade, você pode ser um profissional de transporte, segurança, energia, saúde….ou você pode ser um profissional da área de supermercado, siderúrgia, entretenimento…enfim, você pode ser alguém que precisa trabalhar e, obra da sociedade humana, o trabalho que você precisa, sabe e/ou deseja fazer é noturno! Justamente quando o seu corpo está pedindo por cama.</p>
<p style="text-align:justify;">Você conseguiria trocar a noite pelo dia? Provavelmente não. Além de adoecer fisicamente, o seu corpo iria chiar e muito, pode ter certeza disso. Você também adoeceria psicologicamente! Por mais noctívago(vespertino) que você seja, você provavelmente não conseguiria reunir um grupo social – abrangente o suficiente para atender todas as suas demandas afetivas e sociais – que quisesse, ou conseguisse, viver exclusivamente à noite. Por conta de nossa história evolutiva somos essencialmente seres diurnos e organizamos nossa vida social assim: atividades durante o dia e repouso à noite. Quase que a totalidade das escolas, do comércio, consultórios médicos, o resto da sua família, o cinema e uma parte considerável dos seus amigos e da vida social ‘funciona’ durante o dia. Esse é o aspecto problemático, do ponto de vista psicológico, da vida em 24 horas. Para que a sociedade contemporânea ofereça serviços ininterruptos é necessário que uma camada respeitável da população seja privada de sono e de vida social.</p>
<p style="text-align:justify;">Quem trabalha à noite sofre com os horários sociais padrão da sociedade humana, além de sofrer com os problemas físicos advindos da inversão temporal que é trabalhar à noite e repousar de dia. Hoje se sabe que parte dos problemas de saúde apresentados por trabalhadores noturnos, ou em turnos alternantes, são desencadeados e/ou agravados por fatores psicológicos. Quando se trabalha à noite ocorre um descompasso entre a vida pessoal e a vida coletiva e, felizmente ou infelizmente, o ser humano é um animal gregário. Ou seja, o ser humano não sabe viver sem a companhia de seus iguais, o convívio social é parte fundamental da nossa saúde psíquica.</p>
<p style="text-align:justify;">À noite sonhamos? Sonhamos! Sonhamos e, também, trabalhamos. Hoje cerca de 20% da população mundial trabalha em alguma atividade noturna. A sociedade de consumo demanda cada vez mais e mais serviços de 24 horas. É o preço que pagamos pelo conforto, pela velocidade da informação e pelo acúmulo de trabalho. É, não devemos nos esquecer que a necessidade de mais e mais pessoas trabalhando à noite está relacionada, em parte, ao fato de que mais e mais pessoas precisam estender o seu dia em função do excesso de trabalho que empurra as atividades de manutenção da vida, doméstica e de lazer, para horários cada vez mais tardios. Nós, seres humanos, não estamos programados para viver dias/noites tão longos.</p>
<p style="text-align:justify;">Se podemos mudar isso? É possível que sim, mas a um custo muito grande. Talvez não possamos mais voltar a um tempo em que as noites eram somente para sonhar, mas talvez possamos impedir que as noites se tornem tão somente um tempo a mais para trabalhar.</p>
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		<title>A Servidão de Tom Cruise: Metamorfoses do Trabalho Compulsório</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Nov 2009 14:36:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Navio de Imigrantes&#8221; por Lasar Segall(1891-1957)
*Por Luiz Felipe de Alencastro
O trabalho compulsório, distinto do trabalho forçado imposto como punição no Código Penal de alguns países, conheceu mudanças radicais nos últimos tempos. Na sua definição mais simples, referente a relações sociais em que o serviço é prestado sob coerção direta, o trabalho compulsório abrange situações extremas. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&blog=5350779&post=1466&subd=grupopapeando&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;"><a href="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/imigrantes.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1467" title="Imigrantes" src="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/imigrantes.jpg?w=500&#038;h=415" alt="" width="500" height="415" /></a>&#8220;Navio de Imigrantes&#8221; por Lasar Segall(1891-1957)</p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por Luiz Felipe de Alencastro</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O trabalho compulsório, distinto do trabalho forçado imposto como punição no Código Penal de alguns países, conheceu mudanças radicais nos últimos tempos. Na sua definição mais simples, referente a relações sociais em que o serviço é prestado sob coerção direta, o trabalho compulsório abrange situações extremas. Ao longo das décadas, as nações viram o declínio da escravidão, o desenvolvimento de diversas formas de servidão laboral e a extensão do assalariamento. No entanto, nos dias de hoje, os países desenvolvidos assistem ao ressurgimento de antigos modos de sujeição dos imigrantes ilegais ao mesmo tempo em que a Internet abre a via à exploração de comunidades longínquas e à intrusão patronal no âmbito doméstico e no tempo de lazer estatutariamente reservado aos assalariados. Na primeira metade do século 19, Francisco Gomes de Amorim, português nascido em 1827, embarcou aos dez anos de idade na cidade do Porto para Belém do Pará. Ia sozinho, semiclandestino, entregue por seus pais a um capitão de navio que o vendeu, como a tantos outros, no mercado de escravos brancos da capital paraense. Viveu por lá durante nove anos. Correspondeu-se com Almeida Garrett, voltou para Portugal, onde se tornou escritor de merecimento (Machado de Assis resenhou um de seus livros de poemas e achou-os razoáveis), e, sobretudo, combateu a exploração da imigração portuguesa pelos seus compatriotas e pelos brasileiros. Sua saga e sua correspondência, publicadas num livro recente, ilustram a &#8220;servidão branca&#8221; que ocorreu antes e depois da abolição da escravidão no Brasil (1). Além do Pará, havia em quase todos os portos brasileiros mercados mais ou menos formais em que se negociava a mão-de-obra aliciada em Portugal. Previamente endividados com os intermediários -os &#8220;gatos&#8221; da época, que pagavam a passagem e a alimentação no navio-, esses imigrantes trabalhavam sem pagamento durante longo período até reembolsar sua dívida. Geralmente, tais trabalhadores viviam cativos, pois o credor era também seu patrão, na pessoa do fazendeiro que havia pago suas dívidas com o intermediário. A praga da exploração de imigrantes está de novo na ordem do dia. Redes de tráfico de imigrantes clandestinos se formam na Ásia, na África, na Europa Central e na América Latina. Quem viaja ou vive na Europa Ocidental, nos Estados Unidos ou no Japão pode constatar a olho nu que o fenômeno já toca contingentes de brasileiros. Ontem, como hoje, ser explorado pelo capitalismo parece bem melhor do que não ser explorado pelo capitalismo. Fatos dramáticos de exploração humana, que pareciam coisa do passado, estão de novo nas páginas dos jornais. Prostituição forçada, venda de bebês, extorsões, turnos de trabalho escorchantes martirizam o cotidiano de imigrantes ilegais que conseguem se enfiar nos países desenvolvidos. Na outra ponta, os malfeitores achacam as famílias dos migrantes para receber suas remessas de divisas em reembolso do financiamento da viagem. Segundo as autoridades britânicas, as gangues de traficantes de trabalhadores extraem US$ 30 bilhões por ano nessas atividades. No meio do caminho, as tragédias: naufrágio de barcas com albaneses no litoral italiano e de barcas com africanos no litoral da Espanha, mortes pelo frio do inverno na travessia a pé dos Alpes ou dos Pireneus, desastres na fronteira do México com os Estados Unidos.</p>
<p style="text-align:justify;">No último mês de junho, o fenômeno virou catástrofe com a descoberta de 58 jovens chineses asfixiados num caminhão no porto de Dover, quando tentavam entrar na Inglaterra. Sob o impacto do drama, ministros e representantes de 30 países se reuniram recentemente em Paris para discutir o problema. No final da conferência, Barbara Roche, ministra delegada do Ministério do Interior britânico (&#8220;Home Office&#8221;) para assuntos de imigração, escreveu: &#8220;Os imigrantes sempre representaram um contributo positivo para as sociedades que os integraram. Temos que encontrar uma solução para responder à aspiração legítima das pessoas em busca de migração e&#8230; ter um olhar novo sobre a resposta que os fluxos migratórios são suscetíveis de trazer a nossas necessidades econômicas e sociais&#8221;. Na prática, as perspectivas não são boas. As discussões parecem apontar para a criação de uma autorização de estadia temporária na União Européia, condicionada a um contrato de trabalho. Caso venha a ser implementada, essa doutrina fecha o caminho à integração, louvada pela ministra britânica, e transfere a administração da política imigratória para as mãos do patronato europeu.</p>
<p style="text-align:justify;">Outros bolsões de trabalho compulsório integram-se à economia global via Internet. Firmas importantes têm terceirizado suas atividades, transferindo para empresas situadas na Índia e nos conventos espanhóis parte de sua gestão administrativa. Quem irá controlar a penosa jornada de trabalho dos digitadores indianos e das freirinhas espanholas? Seria entretanto ilusório julgar que o fenômeno só atinge os pobres ou os países pobres. Como se sabe, a utilização do correio eletrônico, do telefone celular e o uso combinado, via WAP (sigla em inglês para &#8220;protocolo de aplicações sem fio&#8221;), do e-mail e do acesso à Web no celular aumentam a demanda de trabalho nos escritórios e empurram as tarefas laborais para dentro da casa e da vida privada dos assalariados. Um estudo realizado pela firma Pitney Bowes revela que um funcionário americano recebe uma média de 204 mensagens diárias em seu escritório, incluindo os e-mails (50), telefonemas (48), correspondência interna (18), cartas (15), fax (10) e outros recados. Uma análise publicada em 1997 pela agência Reuters, &#8220;Dying for Information&#8221; (Morrendo por Informação), mostrava que um quarto dos 1.313 executivos americanos interrogados declarava sentir-se fisicamente doente com o afluxo contínuo de informações nas suas mãos. Além disso, a pressão do trabalho transborda os limites do escritório. De fato, outro estudo, realizado em 1999 pelo Gallup e o Institute of the Future, indica que 42% das mensagens recebidas por um funcionário em sua casa ou no trajeto entre seu domicílio e o local de trabalho, referem-se, na realidade, ao seu serviço (2). No setor específico da nova economia, depois de algumas mortes por exaustão de jovens executivos mergulhados no trabalho contínuo, nasceu a expressão &#8220;pifado pelas dotcom&#8221; (&#8220;dotcom burnout&#8221;). Da mesma forma, as imprensas européia e americana usam a fórmula &#8220;escravos do Silicon&#8221; para designar jovens e menos jovens que passam a semana fechados em cubículos, onde comem, dormem e trabalham de virada. Naturalmente, os que mais se desgastam nessas atividades não são propriamente assalariados, mas empregados que obtiveram participação acionária na sua firma. Porém, com a forte queda que as ações das empresas de Internet vêm sofrendo nos últimos meses, esse tipo de remuneração virou às vezes fumaça.</p>
<p style="text-align:justify;">Nessas circunstâncias, começa a surgir e a tomar contornos de reivindicação trabalhista o &#8220;direito à desconexão&#8221;: o direito para o assalariado de se desligar -fora do horário de trabalho, nos fins-de-semana, nas férias &#8211; da rede telemática, do arreio eletrônico que o liga ao seu patrão ou a sua firma. Direito espetacularmente desrespeitado na primeira cena de &#8220;Missão Impossível 2&#8243;, quando um helicóptero dos serviços secretos acha Tom Cruise no alto de uma montanha e o engaja numa nova empreitada. Direito reivindicado nas últimas cenas do filme, quando o ator-herói, depois de salvar o mundo, informa ao chefe que não dirá onde vai descansar com a mocinha, senão não poderá ter férias tranquilas. Na primeira parte do filme, Tom Cruise não sofre coerção direta para fazer seu serviço, mas ele é vítima da alienação, da manipulação de seu chefe, e renuncia à essência contratual do trabalho livre para sujeitar-se à extorsão patronal.</p>
<p style="text-align:justify;">É óbvio que os patrões gostariam de inculcar em seus assalariados a idéia de que eles são outros tantos Tom Cruise. Outros tantos especialistas mobilizáveis em qualquer canto para salvar a humanidade ou, de maneira mais prosaica e mais provável, para garantir os lucros de sua firma e o seu emprego.</p>
<p style="text-align:justify;">Entretanto o funcionário especializado, e em particular o funcionário brasileiro, poderá pensar que seu destino se parece muito mais com o da Maria. Com a sina de sua empregada doméstica -alojada no quartinho do fundo da casa ou do apartamento e pronta, todo dia, toda hora, para atender os pedidos e os abusos do patrão, da madame e dos filhos da família.</p>
<p style="text-align:justify;">De qualquer modo, já existe em alguns países europeus e nos Estados Unidos um novo tipo de trabalhador, espécie de Maria globalizada, um indivíduo isolado pronto para ser empregado em qualquer circunstância. Aliciados por agências de trabalho interino, esses indivíduos -sem lenço, sem documento, mas com um celular no bolso- são paus-para-toda-obra, fazendo trabalhos geralmente pouco qualificados, fora de qualquer garantia trabalhista.</p>
<p style="text-align:justify;">Eliminar as torpezas da exploração patronal, regulamentar o trabalho, fruir o lazer, missão impossível no capitalismo globalizado?</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Luiz Felipe de Alencastro é cientista político e historiador, autor de &#8220;O Trato dos Viventes &#8211; Formação do Brasil no Atlântico Sul&#8221; (Companhia das Letras).</strong></p>
<p style="text-align:right;">
<strong>FONTE: Caderno Mais! da <a href="http://www.folha.uol.com.br/" target="_blank">Folha de S.Paulo</a> em 13/08/2000</strong></p>
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		<item>
		<title>A Vocação Humana: uma Abordagem Antropológica e Filosófica</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Nov 2009 15:21:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;A Conquista da Lua&#8221; por Vicente do Rego Monteiro (1899-1970)
 
1. Escolha profissional: dificuldades atuais e perspectivas
O momento da opção profissional tem se revelado como dotado de uma crescente dificuldade de escolha entre os jovens, constatada por especialistas em Orientação Vocacional, por pesquisas acadêmicas e pela grande imprensa.
(&#8230;)
A sociedade contemporânea, em grande parte, revela muita [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&blog=5350779&post=1444&subd=grupopapeando&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;"><a href="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/rego-monteiro-volta-da-lua.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1445" title="Rego Monteiro - volta da lua" src="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/rego-monteiro-volta-da-lua.jpg?w=497&#038;h=422" alt="" width="497" height="422" /></a>&#8220;<em>A Conquista da Lua</em>&#8221; por Vicente do Rego Monteiro (1899-1970)</p>
<p style="text-align:right;"><strong><span style="color:#888888;"> </span></strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>1. Escolha profissional: dificuldades atuais e perspectivas</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O momento da opção profissional tem se revelado como dotado de uma crescente dificuldade de escolha entre os jovens, constatada por especialistas em Orientação Vocacional, por pesquisas acadêmicas e pela grande imprensa.</p>
<p style="text-align:justify;">(&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;">A sociedade contemporânea, em grande parte, revela muita insegurança e incerteza quanto a valores: não há pontos de referência estáveis. Isto gera crise e confusão, tornando muito difícil para o homem atual identificar, em última instância, “o que vale a pena” e dedicar-se a isto; o afastamento das questões mais essenciais como o porquê da existência, um sentido ou causa à qual entregar a vida, gera esquecimento ou inexistência de critérios para orientar e sustentar decisões ou ações (&#8230;).</p>
<p style="text-align:justify;">A dificuldade do homem contemporâneo de tomar consciência de si mesmo, de posicionar-se diante da realidade e a experiência freqüente de indecisão, são conseqüências de uma mentalidade que, negligenciando a necessidade deste fundamento, não favorece a descoberta de valores, nem um autêntico desenvolvimento humano. Não havendo uma clara hierarquia de valores, a postura assumida diante de situações que exigem soluções imediatas é a de relatividade, sem aprofundamento das razões das escolhas ou atitudes a serem assumidas.</p>
<p style="text-align:justify;">À confusão de valores, soma-se a instabilidade da economia e do mercado de trabalho. A forma atual de organização do trabalho, sempre mais competitiva e em rápida transformação, tem exigido definição profissional cada vez mais precoce e, ao mesmo tempo, oferecido uma crescente disponibilidade de mão de obra. Para os jovens, cada vez mais novos ao serem solicitados a uma definição neste universo profissional, é necessário oferecer algo que transcenda as perspectivas instáveis e dramáticas do mercado de trabalho. Esta urgência vem sendo captada por educadores que apontam a necessidade de educar para o mundo do trabalho e não apenas para o mercado de trabalho. (&#8230;) Ao realizar a escolha profissional dentro deste contexto dinâmico e instável é necessário considerar não estritamente a profissão, mas concebê-la dentro de uma dimensão mais ampla e, ao mesmo tempo essencial, que é a da vocação, possibilitando transcender o nível ocupacional inclusive para poder incluí-lo ou transformá-lo.</p>
<p style="text-align:justify;">É necessário que, ao realizar uma opção tão fundamental como a vocacional que, em princípio envolve toda a vida, o jovem possa ser convidado a aproximar-se, a perguntar-se sobre o sentido e finalidade de seu existir. Às questões normalmente colocadas como ‘o que gosto de fazer?’, ‘o que me dá prazer realizar?’, ‘o que sei fazer?’, ‘com qual profissão me darei bem na vida?’, devem ser acrescentadas: ‘a que sou chamado?’, ‘que sentido pode haver no trabalho que desejo realizar?’, ‘qual a finalidade do meu existir?’. Assim, no processo de orientação vocacional, além das dimensões psico-sociológicas, devem ser igualmente consideradas as dimensões antropológica e filosófica, que são fundamentais para o entendimento da vocação humana.</p>
<p style="text-align:justify;">Considerar uma questão do ponto de vista filosófico significa buscar a verdade sobre ela, exige uma preocupação com o todo e não apenas com sua aplicação, seu uso imediato. Nessa perspectiva, para apreender o que há de essencial acerca da vocação do homem deve-se partir da grande interrogativa sobre o ser do homem, de suas características idiossincráticas. Desta forma, partindo da concepção de pessoa &#8211; segundo os autores contemporâneos Josef Pieper, Viktor Frankl, Luigi Giussani -, de algumas categorias que apresentem tanto as potencialidades especificamente humanas quanto a expressão delas no relacionamento com a realidade, pode-se chegar a uma compreensão mais ampla da vocação humana &#8211; a partir também de filósofos contemporâneos como Julían Marías e Alfonso Lopez Quintás -, de forma a oferecer aos jovens subsídios para realizar uma escolha e um caminho vocacional mais humanos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>2. Características antropológicas do homem</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A compreensão do que é o homem está vinculada à idéia de pessoa. O conceito de pessoa esteve sempre presente em toda tradição do pensamento ocidental; os pensadores gregos identificaram no ser do homem duas categorias ou dimensões: o corpo e a alma, o espírito e a matéria. É no homem que estas duas dimensões da realidade se acham presentes, constituindo uma unidade indissolúvel.</p>
<p style="text-align:justify;">A pessoa, uma totalidade aberta a outras totalidades, é considerada em toda a tradição judaico-cristã um valor absoluto: a pessoa vale por si. O homem é pessoa, com possibilidades muito precisas de percepção e relacionamento com o real, que podem ser descobertas e utilizadas a partir de um trabalho de humanização.</p>
<p style="text-align:justify;">A característica própria, distintiva do ser humano é a razão. (&#8230;). Razão é a estrutura interna de compreensão do homem, sua capacidade intelectual de compreensão. Esta forma peculiar de se relacionar e conhecer o real foi chamada pela tradição do pensamento ocidental de capacidade de conhecimento espiritual (&#8230;). Assim, a possibilidade de relação do homem com a realidade é extremamente ampla e elevada, tornando-o capaz de estar diante da totalidade do real: o ‘mundo’ do espírito é a totalidade do ser.</p>
<p style="text-align:justify;">É no nível espiritual que se encontra uma outra característica distintiva do homem: a busca de sentido. (&#8230;) além de buscar a satisfação de suas necessidades e seu equilíbrio homeostático, ele tem urgência em encontrar e realizar um sentido. É inerente ao homem o anseio por descobrir um ‘para quê’, uma finalidade última para existência, algo pelo qual valha à pena entregar a vida. A possibilidade de realizar o desejo de sentido, a afirmar um significado último para a existência, está em responder, de forma singular, própria, às situações concretas, cada uma delas única e irrepetível. Uma vida plena de sentido se constrói buscando e encontrando o significado de cada experiência cotidiana.</p>
<p style="text-align:justify;">(&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;">É na relação com a realidade que o homem descobre suas potencialidades, necessidades e as possibilidades de nela intervir; é no encontro com o real que pode reconhecer a singularidade e unicidade de seu ser. (&#8230;) Assim, cada homem é único e irrepetível, tem um modo próprio de existir, um ‘ser-assim’ que lhe permite responder a circunstâncias irrepetíveis, afirmando valores que só ele seria capaz de fazê-lo naquele momento, daquela maneira.</p>
<p style="text-align:justify;">É próprio do homem a capacidade de decidir, de agir e, portanto, de responsabilizar-se. Uma das manifestações da natureza humana é a capacidade de agir com autonomia e responsabilidade, de posicionar-se diante da realidade com autodeterminação. Ser responsável significa assumir decisões e atitudes dentro das circunstâncias concretas da vida, afirmar valores e posicionamentos a partir de critérios que são identificados pela consciência. O ser humano é responsável porque é livre, porque é um ser que decide, escolhe como proceder em sua existência. A liberdade é a capacidade do homem de conduzir-se a si mesmo, de estabelecer, orientado pela consciência, os critérios que nortearão seus atos e escolhas, de decidir-se pelo bem. Para exercer essas potencialidades especificamente humanas como a responsabilidade e a liberdade, é preciso um processo educativo (&#8230;).</p>
<p style="text-align:justify;">O conceito vocação tem sido entendido de forma redutiva, na maioria das vezes identificado com o sentido profissional ou muito próximo a ele. Julián Marías denomina de vocações parciais aquelas que se referem a alguns aspectos ou facetas da personalidade, comuns a várias pessoas, portanto, genéricas. Seriam formas secundárias de vocação. A vocação no sentido mais profundo e radical envolve a pessoa em sua totalidade e singularidade(&#8230;).</p>
<p style="text-align:justify;">A vocação é um convite, uma proposta à liberdade e responsabilidade do homem, à qual ele pode aderir ou não, mas não lhe compete fabricá-la ou modificá-la. É um chamado que vem de encontro ao homem, a ele cabe apenas atender ou não. (&#8230;).</p>
<p style="text-align:justify;">Tampouco as circunstâncias da vida de uma pessoa podem ser escolhidas. Não são decisões suas o lugar ou época em que nasceu, sua família, características físicas, etc&#8230; Estas circunstâncias são impostas e é a partir delas que sua vida será configurada; porém, a escolha ou decisão humana incide no modo, no ‘como’ vai construir sua história, na maneira particular, pessoal de se relacionar com o que lhe foi dado. (&#8230;).</p>
<p style="text-align:justify;">Assim, a trajetória é expressão da liberdade da pessoa, é a realização de um caminho pessoal construído a partir da vocação proposta e da circunstância imposta.</p>
<p style="text-align:justify;">A descoberta da vocação antropológica, do chamado a ser si mesmo e a sua realização, através das trajetórias biográficas, esclarece e dá sentido às vocações específicas, como as profissionais, dando-lhes um caráter único e insubstituível. A vocação profissional — que supõe a escolha de uma carreira profissional, bem como seu cumprimento — deve estar subordinada, então, a afirmação de quem a pessoa é e deseja ser: é este ‘alguém’ que dá consistência e significado para o que vai ser realizado.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>4. O trabalho com expressão da ontologia humana</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Este conjunto de características antropológicas da vocação humana possibilitam aprofundar temas relacionados ao caminho vocacional, que são comumente entendidos a partir da perspectiva hedonista e redutiva, como o conceito de auto-realização, felicidade e do sentido do trabalho.</p>
<p style="text-align:justify;">O conceito de auto-realização, modernamente identificado como conquista de satisfação, sucesso, prazer, tem sido cada vez mais valorizado, e ao mesmo tempo, mal compreendido. A busca de realização está direcionada a aspectos parciais do homem, a ponto de muitas vezes se conceber ‘realização’ como sinônimo de realização profissional, de status ou sucesso advindo do exercício profissional. Considera-se realizado quem atingiu seus objetivos ou está em pleno desenvolvimento dos planos estabelecidos para si; a realização é concebida como resultado de empenho e domínio sobre o real, de forma a alcançar metas previamente estabelecidas.</p>
<p style="text-align:justify;">(&#8230;.) Isto significa que a auto-realização do homem é construída durante toda a vida, é um movimento dinâmico contínuo, onde constantemente o homem experimenta sua existência como um ‘ainda não’ ou um constante ‘tornar-se’, ‘vir-a-ser’. Assim, o homem está sempre a caminho de sua plena realização, é um caminhante, um peregrino (&#8230;).</p>
<p style="text-align:justify;">A busca da realização, a aspiração à felicidade é próprio da pessoa, dos seres espirituais, é um ‘querer’ dado pela natureza (&#8230;).</p>
<p style="text-align:justify;">O desejo de felicidade é, então, um querer natural, próprio da natureza humana, que a constituiu segundo esta direção e forma. Esta vontade natural de felicidade age como uma força de gravidade, sobre a qual o homem não tem nenhum poder, mas para a qual tende inexoravelmente, irresistivelmente. (&#8230;) Portanto, a felicidade está vinculada à autenticidade da vida humana, à possibilidade de relacionar e integrar cada aspecto parcial com um ponto unitário, na busca da realização total, da plenitude do viver humano.</p>
<p style="text-align:justify;">O trabalho é um aspecto fundamental da vida por atender às necessidades humanas, tanto do ponto de vista material como espiritual, já que através das tarefas concretas o homem se sustenta e, ao mesmo tempo, expressa seu modo original de realizar valores em um determinado tempo e lugar.</p>
<p style="text-align:justify;">A descoberta do valor de sua contribuição pessoal para a vida em sociedade é fundamental para o homem contemporâneo que vive em uma sociedade onde é valorizado o individualismo, o isolamento e a competitividade.</p>
<p style="text-align:justify;">O trabalho pode constituir-se em uma oportunidade privilegiada para o homem atual redescobrir a possibilidade de autêntica relação eu-mundo — onde o pessoal não seja negado, esquecido ou dissolvido — na medida em que o trabalhar se torne ocasião de encontro. O filósofo espanhol contemporâneo, Alfonso López Quintás afirma que é no âmbito do encontro que a pessoa se desenvolve e se aperfeiçoa, é no encontro com o outro que o homem descobre-se, revela-se a si mesmo. Para que haja encontro é necessário ir além de uma simples proximidade com o outro; é fundamental a abertura, o diálogo, a comunicação(&#8230;). Quando há encontro de verdade é possível superar uma lógica individualista e sectária, para afirmar uma postura capaz de abertura, generosidade e acolhimento do diferente.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma exigência fundamental para se gerar a possibilidade de encontro é buscar e compartilhar valores: quando as pessoas dirigem-se e empenham-se para atingir o objetivo último do trabalho que fazem juntas, que é a realização do bem comum, colocam-se a caminho, cada uma com sua contribuição, para a construção de uma nova realidade comum.</p>
<p style="text-align:justify;">O trabalho constitui, assim, uma possibilidade de colocar-se a serviço de outros. É nesta possibilidade de ser uma contribuição e expressão original que o trabalho ganha relevância e significado para a pessoa, constituindo-se ocasião de descoberta e integração da própria personalidade. Torna-se, então, fundamental a maneira como se trabalha, o que se expressa de especial e único, adquirindo menor importância a tarefa em si(&#8230;). Portanto, a realização que pode advir do trabalho está vinculada à expressão da singularidade do ser, daquilo que há de específico e original em cada homem.</p>
<p style="text-align:justify;">A plena realização humana não pode ser encontrada sem que estas características antropológicas possam ser descobertas e experimentadas. As decisões ou escolhas, bem como a realização do caminho vocacional, devem ser iluminadas e sustentadas por estas características, de outra forma tornam-se superficiais e frágeis. A dimensão profissional é apenas um aspecto da vocação humana e, portanto, a ela deve estar submetida.</p>
<p style="text-align:justify;">A possibilidade de um acompanhamento e ajuda eficaz nos processos de Orientação Vocacional está vinculada à compreensão da vocação antropológica do homem, que possibilita uma visão essencial e abrangente da questão. Quem é homem? Para que educar? Existe um ideal, que sociedade formar? Estas são questões fundamentais para um trabalho eficiente nas áreas da psicologia, pedagogia, sociologia. A Antropologia Filosófica deve estar na base de qualquer trabalho junto ao ser humano.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Excerto de Artigo de Sílvia Regina Rocha Brandão. Leia na íntegra <a href="http://www.hottopos.com/vidlib7/sb.htm" target="_blank">AQUI</a></strong><a href="http://www.hottopos.com/vidlib7/sb.htm" target="_blank"> </a></p>
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		<title>Trabalho Como Fonte De Prazer (ou não)</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Nov 2009 14:33:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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&#8220;Chorinho&#8221; por Candido Portinari(1903-1962)

*Por Antonio Roberto Fava
É preciso trabalhar para ser feliz? O que há no trabalho que torna as pessoas felizes ou infelizes? As questões foram tema central da conferência do professor e sociólogo Christian Baudelot, nos últimos dias 29 e 30, durante as comemorações dos 30 anos de criação da Faculdade de Educação [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&blog=5350779&post=1437&subd=grupopapeando&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;">
<p style="text-align:center;"><a href="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/candido-portinari-chorinho1942.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1440" title="candido-portinari-chorinho1942" src="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/candido-portinari-chorinho1942.jpg?w=500&#038;h=373" alt="" width="500" height="373" /></a>&#8220;Chorinho&#8221; por Candido Portinari(1903-1962)</p>
<p style="text-align:center;">
<p style="text-align:right;"><strong>*Por Antonio Roberto Fava</strong></p>
<p style="text-align:justify;">É preciso trabalhar para ser feliz? O que há no trabalho que torna as pessoas felizes ou infelizes? As questões foram tema central da conferência do professor e sociólogo Christian Baudelot, nos últimos dias 29 e 30, durante as comemorações dos 30 anos de criação da Faculdade de Educação (FE) da Unicamp, e constam do livro Bonheur et Travail (Felicidade e Trabalho), a ser lançado brevemente no Brasil, em parceria com Roger Establet. No livro, os autores concluem que a felicidade no trabalho se dá com a realização profissional, a criatividade, o trabalho bem feito e o sentimento de ser útil.</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;A infelicidade se vive quando as pessoas se sentem ultrapassadas, abandonadas, submetidas a pressões contraditórias, ameaçadas e sem futuro: é a selva, a prisão&#8221;, diz Baudelot, professor da École Normale Supérieure de Paris, autor também de L´École capitaliste en France (1971), L´École primaire divise (1975), Le niveau monte (1989), Allez les filles! (1992) e Avoir 30 ans en 1968 et en 1998 (2000).</p>
<p style="text-align:justify;">Para o professor Baudelot, o trabalho se configura numa felicidade para uma certa categoria de pessoas, com diploma, boa renda, e um bom ambiente de trabalho. Ele diz que, para outro grupo de pessoas, há, porém, uma conotação de grande sofrimento e de infelicidade. &#8220;São sintomas ou sentimentos que atingem a todas as categorias sociais: as que sofrem com o trabalho por várias razões individuais, que podem ser sociais ou econômicas. Ou ambas. Uma situação de desacordo entre a trajetória do período de estudos concluídos e o tipo de emprego que poderão conseguir no futuro, nem sempre satisfatório&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">E mais: quando não estão bem num ambiente de trabalho, é natural, diz ele, que se viva numa situação de pressão desagradável muito forte. Muitas vezes esse sofrimento citado por Baudelot vem de uma situação delicada no trabalho quando patrões ou superiores exigem do funcionário mais dedicação às tarefas a ele atribuídas. Por conseqüência, são freqüentemente ameaçados pela precarização do emprego, e os profissionais são submetidos a uma intensificação do trabalho. Essa é uma situação que tanto pode ocorrer na França quanto no Brasil.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Investimento</strong> &#8211; Quem é mais feliz profissionalmente: o homem ou a mulher? E Baudelot responde que quando homem e mulher falam de seu próprio trabalho deixam transparecer que o sentimento em relação ao seu serviço é praticamente o mesmo. A grande diferença é que os homens se interessam muito mais, lutam mais por melhores salários, por um melhor padrão de vida, enquanto as mulheres se preocupam com mais freqüência por estabelecer horários mais condizentes, mais flexíveis, às vezes lhe trazendo certo desconforto.</p>
<p style="text-align:justify;">Trata-se de um processo que talvez possa trazer algum tipo de felicidade tanto para um quanto para o outro. Ou de infelicidade. Existem vestígios muito fortes de uma antiga divisão de trabalho entre homens e mulheres: os homens geralmente são apresentados como se fossem os ladrões do fogo. Um tipo de Prometeu, da mitologia grega, o deus que lutou pelo bem-estar dos homens, dando-lhes fogo, aqueles que vão conquistar a sobrevivência de si próprio e dos seus familiares, garantindo-lhes a subsistência.</p>
<p style="text-align:justify;">E a mulher vai ocupar-se das tarefas tradicionais de uma dona-de-casa como educar, socorrer e cuidar dos familiares. &#8220;A generalização do trabalho feminino, contudo, é um fato, mas as mulheres não podem ser liberadas das tarefas domésticas.&#8221;, diz Baudelot.</p>
<p style="text-align:justify;">Há uma série de fatores que interferem para que o indivíduo seja infeliz no trabalho. Primeiro, as más condições, tarefas intensas e repetitivas, entre tantas outras coisas; depois, há as razões subjetivas, quando as pessoas não se realizam dentro de determinado ofício ou ocupação, avalia o sociólogo. &#8220;Quando uma pessoa não se realiza no trabalho é porque não é o que gostaria de estar fazendo ou porque o trabalho que faz, com o tempo, tornou-se insuportável&#8221;, conclui.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O homem visto como &#8216;coisa&#8217;</strong></p>
<p style="text-align:justify;">As novas formas de gerenciamento, que são muito individualizadas, fazem da felicidade e do bem-estar no trabalho, um dever, na opinião do professor. Em certo momento, esse dever, portanto, é praticamente impossível de ser realizado. É uma característica própria dos novos modelos de gerenciamento exigirem investimento e dedicação intensos por parte do funcionário. A chave para entender isso é a intensificação das tarefas que, hoje em dia, dispõem de meios tecnológicos que reforçam o trabalho, como a informática, por exemplo. &#8220;O tempo social e profissional foi encurtado, e tudo começou a andar muito mais rápido que o homem mal pôde acompanhar, exigindo dele uma dedicação extrema&#8221;, diz.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma das questões discutidas pelo professor francês relaciona-se à questão de quem é que ganha mais no mercado competitivo contemporâneo. E o mercado brasileiro praticamente tem mais ou menos o mesmo perfil do francês no que se refere a esse particular. As mulheres, de forma geral, recebem de 25% a 30% menos que os homens. Pode-se dizer que isso ocorre porque as mulheres geralmente não fazem o mesmo trabalho que os homens. São mais freqüentemente empregadas nos serviços gerais do que aos cargos de executivas. Quando se comparam as mulheres com as mesmas qualificações que os homens, confrontam-se salários dessas mulheres com os dos homens com as mesmas qualificações, e verifica-se, nesse caso, que elas ganham até 11% a menos.</p>
<p style="text-align:justify;">Há um sociólogo francês, Maurice Halbwachs, que estudou a questão do que é ter um relacionamento dignificante ou coisificante com a empresa em que o profissional trabalha, na França. Mas que bem poderia ser uma situação também vivida pelo Brasil. Ele distinguiu diferentes tipos de trabalhadores e verificou que o camponês tinha um relacionamento mais íntimo com a matéria viva, que é a terra, enquanto que os operários lidavam mais com a matéria inerte, que é o ferro, a madeira e tantos outros. Estes eram considerados por eles mesmos como coisa. Havia uma outra categoria, os empregados, que consideram os homens como simples números. Tinham relações no seu local de trabalho com homens e mulheres. Mas era um relacionamento frio, inerte, feito atrás de um guichê, sem qualquer comunicação entre si. Geralmente era um trabalho de caráter puramente administrativo.</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;Posso dizer que essas pessoas que se relacionam no trabalho não são nada mais que um número, são consideradas como coisa, indiferentes. Um profissional que tem um relacionamento coisificante com a empresa está, na verdade, sendo desrespeitado por ela e por seus líderes&#8221; acentua Baudelot.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois de 1968, na França &#8211; talvez em virtude de uma série de manifestações em geral contra o chamado &#8220;establishment&#8221; (o sistema político estabelecido) &#8211; os patrões passaram a interiorizar a idéia de que não havia cabimento fazer um exercício duro de autoridade, mas sim usar de uma autoridade mais leve, que funcione melhor e é mais saudável, tanto para o profissional quanto para a empresa. &#8220;Já o relacionamento dignificante se dá quando a pessoa tem sua dignidade preservada. Com isso, ela se torna autônoma e luta por sua realização profissional e a da empresa, tornando-se mais produtivo e feliz&#8221;, conclui.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FONTE: <a href="http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/novembro2009/capa447.php" target="_blank">Jornal da Unicamp</a> (198 &#8211; ANO XVII &#8211; 11 a 17 de novembro de 2002)</strong></p>
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		<title>O Significado do Trabalho</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 22:04:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Café&#8221; por Candido Portinari (1903-1962)

*Por Susan Cavallet, Cristiane Denardi, Edenir Dirken e Maria Elizabeth Haro.
As atuais mudanças desen-cadeadas pela globalização são de tal forma revolucionárias que ultrapassam o boom tecnológico. O ser humano está sendo forçado a dar um salto evolucionário para o qual não teve tempo de se preparar. A História nos mostra períodos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&blog=5350779&post=1426&subd=grupopapeando&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;"><a href="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/cafe_portinari.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1427" title="Cafe_Portinari" src="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/cafe_portinari.jpg?w=500&#038;h=331" alt="" width="500" height="331" /></a>&#8220;<em>Café</em>&#8221; por Candido Portinari (1903-1962)</p>
<p style="text-align:center;">
<p style="text-align:right;"><strong>*Por Susan Cavallet, Cristiane Denardi, Edenir Dirken e Maria Elizabeth Haro.</strong></p>
<p style="text-align:justify;">As atuais mudanças desen-cadeadas pela globalização são de tal forma revolucionárias que ultrapassam o boom tecnológico. O ser humano está sendo forçado a dar um salto evolucionário para o qual não teve tempo de se preparar. A História nos mostra períodos de inovações que exigiram adaptações quanto a conhecimentos, atitudes e habilidades, mais ou menos intensas, todas sem precedentes. A Revolução Industrial é um exemplo clássico. Entretanto, a presente metamorfose nos impõe exigências de tal forma urgentes e volumosas que o impacto psicológico e social não pode ser ainda completamente avaliado ou previsto, pois estamos em meio ao processo. Pode-se apenas senti-lo e observá-lo à flor da pele das pessoas e das instituições sociais na forma de insegurança, opressão, e remotas esperanças de um futuro melhor.</p>
<p style="text-align:justify;">A busca desta adaptação tem sido colocada como prioritária pelo homem moderno, como condição de sobrevivência. Parecem não haver alternativas a curto prazo, a não ser a de interagir com o movimento. Empresas e empregados respondem procurando se antecipar às necessidades, antevendo novas regras de mercado, propondo outras realidades, concretas e virtuais. É preciso desenvolver novos valores, tecnologias e produtos, a fim de alcançar parâmetros mínimos de competitividade e subsistência. Uma palavra constantemente pronunciada, e que se tornou lei, é velocidade. Não basta saber, é preciso saber antes. Não basta fazer, é preciso fazer antes. Até mesmo o vocabulário de alguém que se pretende atualizado é foco de atenção cuidadosa, visto que num período curtíssimo de tempo se torna obsoleto, diferenciando informados e &#8220;des&#8221;-informados.</p>
<p style="text-align:justify;">É neste meio ambiente que surge a questão da relação do homem com o seu produto. Afirma CODO (1995,p. 141)  que trabalho é o ato de depositar significado humano à natureza. Complementa a afirmação ao apontar que, numa sociedade baseada na cooperação e na troca, trabalho é o ato de depositar significado social à natureza. Ao produzir, o homem transforma a natureza e é por ela transformado. Seu produto o representa e o reapresenta. A própria sociedade é criada e tem seus valores modelados pelas formas de produção.</p>
<p style="text-align:justify;">Como forma de expressão do homem, o trabalho pode ser comparado à arte. É a manifestação de algo interno que se apresenta na concretização do esforço despendido, expondo crenças, atitudes e valores. Este princípio é válido tanto para aquele satisfeito com seu trabalho quanto para o insatisfeito. No primeiro caso, o sujeito alienado de si mesmo exterioriza seus preceitos de submissão ou acomodação ao sistema. No segundo, atualiza seu potencial, no dizer de ROGERS (1961) o que o coloca no caminho da individuação, e, portanto da realização pessoal.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O trabalho como autoexpressão &#8211; origens</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A noção de que o trabalho é uma das formas mais profundas de expressão humana em contrapartida a de que seria apenas um ato de sobrevivência, não é nova, e está profundamente arraigada em hipóteses criadas, testadas e sedi-mentadas pelo indivíduo no decorrer de sua história. A teoria do desenvolvimento de  ERICKSON (1976, p.227) mostra que em sucessivas etapas da elaboração da identidade surge o aspecto da produção individual. À medida que o ser humano se desenvolve e entra em contato com a realidade dos papéis sociais, percebe que sua inserção na sociedade pressupõe desempenhos. Ser alguém está intimamente associado a fazer algo.</p>
<p style="text-align:justify;">A necessidade de reconhecimento ou confirmação surge muito cedo. Os movimentos inicialmente desordenados do recém-nascido, respondendo basicamente a estímulos biológicos, vão aos poucos sendo substituídos por ações intencionais em tentativas de comunicação organizada, isto é, com o objetivo de traduzir conteúdos internos &#8211; sensações, desejos, necessidades. Os feedbacks fornecem referências que auxiliam a criança a se situar no mundo. É através desta interação que se passa de um estado de indiferença com o meio para o de diferenciação, dando lugar ao reconhecimento do ser individual, separado do todo. O processo é longo, está fundamentado no agir e na percepção particular da ação, e culmina com a construção da base da identidade individual.</p>
<p style="text-align:justify;">Nestes primeiros anos, o agir se dá em função do prazer da exploração e do movimento, as descobertas são surpresas e a intencionalidade decorre de uma exuberante imaginação. A meta é conhecer o ambiente, seu conteúdo e funcionamento, sendo estas  experiências as que dão origem aos traços primários da auto-imagem. Segundo a teoria, o sucesso ou fracasso nestas  empreitadas trarão consigo os sentimentos de confiança ou desconfiança básicas, autonomia ou vergonha e dúvida, e iniciativa ou culpa. São o alicerce da identidade, protótipos de futuras elaborações. As próximas etapas estão já, portanto, influenciadas por este substrato.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma vez que a exploração do meio permita um certo nível de domínio, a criança entra numa nova fase. Descobre que ao desenvolver &#8220;habilidades e tarefas que excedem em muito os limites da mera expressão prazerosa de seus modos orgânicos ou o prazer que lhe causa o funcionamento de seus membros&#8221; (ERICKSON, 1976,p.238) encontra aceitação e aprovação. No período que corresponde ao que FREUD identificou como latência, inicia a busca da industriosidade. Substitui o brincar desordenado por atividades mais planejadas, e aprende que  fazer coisas conquista consideração. Coincide com a época em que começa a receber instrução escolar mais sistematizada, e percebe que os limites de seu ego incluem suas ferramentas e habilidades (ERICKSON). Produzir passa a ser ao mesmo tempo um prazer e um meio. O agir intencionalmente para atingir um objetivo é em si agradável, ao mesmo tempo que proporciona a abertura para situações também gratificantes &#8211; o intercâmbio com o grupo, a concretização de um ideal através do produto elaborado, e a aprovação individual e social. É o primeiro contato objetivo com o mundo do trabalho. A criança estará exposta a oportunidades que tanto poderão comprovar suas possibilidades de industriosidade quanto de conduzi-la a sentimentos de inadequação e inferioridade. A comprovação de que  é capaz de produzir facilita a inserção e locomoção no grupo social, e o fracasso nas habilidades de produção desencoraja a participação no grupo e no mundo das ferramentas. O insucesso traz à tona raivas submersas decorrentes da frustração dos impulsos. Ao completar esta etapa, o indivíduo terá acrescentado à sua identidade ou a condição de capacidade de produção ou a de sentimento de mediocridade e inadequação, já agregados de frustração e raiva.</p>
<p style="text-align:justify;">Na adolescência, a soma de mudanças biopsicossociais levam a um verdadeiro tumulto. Novas maneiras de ver, sentir e pensar o mundo pressionam no sentido de uma definição, e o sujeito se cobra e é cobrado quanto a posiciona-mentos. É preciso agora saber quem ele é realmente, o quê quer e para quê quer. Uma gama de papéis deve se tornar nítida para o indivíduo e para a sociedade. É indiscutível a importância da sexualidade nesta fase, cuja atividade ocorre no sentido de delinear parâmetros de comportamento que virão a interferir inclusive no campo profissional. A outra questão que surge como fundamental é &#8220;o quê ele vai ser&#8221; &#8211; profissionalmente. A escolha do futuro campo de trabalho pretende conciliar fatores tão diferentes quanto habilidades, tendências, necessidades, preferências e busca de status social. A força da expectativa dos ideais edificados nesta fase será forte impulso durante toda a vida produtiva. Como na infância se desenvolveram protótipos de alguns sentimentos ligados à identidade, também aqui são elaborados os ideais em estado puro. A perda do contato com estes sonhos, o fracasso, distanciamento ou a impossibilidade de levá-los adiante é o que no futuro gerará frustração e mediocridade profissionais. É o ideal construído nesta fase que permeará o trabalho vocacionado, mesmo que este venha a sofrer redirecionamentos no decorrer da vida laboral, porque fornece o sentido e a razão de uma busca. É a crença que oferece significado aos futuros empreendimentos.</p>
<p style="text-align:justify;">A partir da entrada efetiva no mundo do trabalho, o adulto começa a testar e validar as expectativas criadas. Os ideais traçados nas fases anteriores, ainda em estado bruto, passam por uma verificação, podendo sofrer adaptações de acordo com as circunstâncias. Permanecendo a essência intacta, isto é, podendo o sujeito utilizar seu potencial, somado à automotivação, o fazer profissional poderá se encaminhar para uma resolução satisfatória. Isto só se realiza se, no dizer de KIERKGAARD (in ROGERS, 1961), pode-se &#8220;ser o que realmente se é&#8221;, e quando nos referimos a trabalho, isto significa atuar de forma a explorar e desenvolver as próprias capacidades e interesses inerentes.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O trabalho hoje</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Os avanços tecnológicos, em princípio com objetivos de &#8220;humanizar&#8221; a vida, têm colocado o homem numa situação paradoxal. Se, por um lado, é verdade que hoje é possível trabalhar em condições mais amenas fisicamente, e até mesmo por vezes bastante agradáveis, também é verdade que &#8220;a ciência manipulada das relações humanas, que tenta precisamente dar uma imagem agradável ao labor, pretende afastar somente o sentido de alienação e não a própria alienação&#8221; (HELLER, 1997, p.170).</p>
<p style="text-align:justify;">Dentro do contexto atual, onde a ameaça à territorialidade profissional está presente, a competência é infinita e constantemente testada e os mais fortes impulsos competitivos são estimulados, como é possível  esperar que se mantenha o contato consigo mesmo, como fazia o artesão da Idade Média ou o agricultor, através da sintonia com produto? Será que o homem ainda espera encontrar sentido naquilo que faz ou está definitivamente cindido? Há sintomas evidentes de que a ação mecânica sem significação tem sido tolerada somente dentro do ambiente de trabalho, provavelmente pelo que MASLOW apontaria como ligado à satisfação da necessidade de sobrevivência. Fora deste ambiente, entretanto, é que a grande massa de trabalhadores dá o melhor de si, executando atividades automotivadas que realmente preenchem e conduzem à satisfação interna.</p>
<p style="text-align:justify;">&#8220;<em>Trabalho é mais do que emprego, é o ato de atribuir significado ao meio, portanto a si mesmo e ao outro</em>&#8220;. CODO (in DAVEL, 1995, p.165).</p>
<p style="text-align:justify;">Segundo CODO (in DAVEL, 1995, p.142) para que o indivíduo se reconheça e ao outro, é preciso que esteja conectado a seu produto e, dessa forma, a si mesmo. Já na infância aprendeu a valorizar o que faz para interagir, e ao mesmo tempo conquistar espaço e afirmação. Ao desconectar-se, a individualidade se dilui, perante o outro e perante o mundo. Sem estes contatos é difícil sentir a si próprio. A crise contemporânea, verdadeira epidemia, revela um momento histórico ultrapassado, cujas premissas básicas que fundamentaram a produção em massa característica de nosso século caem por terra. Outro século começa a despontar, trazendo consigo muito mais buscas do que respostas, já que a alienação permanece subjacente.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Conclusão</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O que fornece significado ao trabalho é o propósito pelo qual ele é executado. É individual e intransferível, sendo, portanto, claramente específico para cada ser humano. O que diferencia uma simples atividade do trabalho em si é a razão de sua realização. O trabalho deve preencher um porquê, uma finalidade e um valor (ANGERS, 1998, on line). A razão pela qual executamos algo está vinculada a quem somos e como estamos no mundo: como nos sentimos a respeito de nós mesmos, e de que forma aquilo que fazemos impacta no mundo. O trabalho tem em si um valor intrínseco. Não é necessário que o produto seja &#8220;útil&#8221; ou &#8220;prático&#8221;. A arte é também trabalho porque expressa seu criador, interfere no ambiente e é automotivada. O que o sujeito faz expressa o que ele é no mundo, definindo-o parcialmente &#8211; levando em conta que a realização não se determina somente a partir do trabalho. A ação com significado possibilita o respeito para consigo mesmo e para com o outro, e sentimentos como esperança, dignidade, mutualidade e oportunidade de acesso a outras áreas.</p>
<p style="text-align:justify;">Em 1990, o <em>American Psychologist</em> publicou que o <em>The National Institute for Ocupational Safety and Health </em>(NIOSH), nos EUA, reconhece as desordens psicológicas ocupacionais como um problema prioritário. Dentre os fatores determinantes desta situação está sem dúvida a questão do significado, pois é ele quem diferencia o trabalho compulsório daquele natural e agradável. Esta parece ser uma idéia atemporal, que independe de cultura, nível social ou local.</p>
<p style="text-align:justify;">De acordo com BONSUCESSO (1997, p.16), ao atribuir valor a seu fazer profissional, o indivíduo leva em conta:</p>
<p style="text-align:justify;">• opção pessoal &#8211; a escolha da profissão (por vezes compulsória);<br />
• montante de esforço físico e intelectual;<br />
• monotonia ou variação;<br />
• relação entre o que faz e o todo;<br />
• possibilidade de criação e auto-realização;<br />
• status na organização e na sociedade;<br />
• nível de remuneração.</p>
<p style="text-align:justify;">O vínculo se dá a partir do momento em que o trabalho mostra relação com as expectativas, interesses pessoais, e perspectivas de crescimento pessoal e profissional. O nível de comprometimento, e porquanto da qualidade do produto, estão diretamente afetados pelo sentido que faz na vida do sujeito o objeto de seu trabalho. O fato de que a maioria dos trabalhadores hoje não consegue visualizar sentido em seu trabalho, não significa que a simples sobrevivência basta. O indivíduo deixa para &#8220;viver a vida&#8221; fora do contexto ocupacional, indicando que o vazio precisa ser preenchido de alguma forma. Defronta-se com conflitos como: não dever esperar do trabalho mais do que ele lhe pode oferecer, pois é apenas uma parte da vida, ao mesmo tempo em que se obriga a ter que se dedicar cada vez mais a ele, em tempo e energia. O desequilíbrio ocasionado pelo peso maior colocado neste papel traz conseqüências pessoais e sociais, atingindo diretamente a qualidade de vida pessoal, familiar e comunitária. Em última instância, o próprio trabalho tende a ser prejudicado porque é mantido a partir de um superfuncionamento, em detrimento do subfuncionamento dos aspectos pessoais do indivíduo. A repercussão, seja em nível técnico, seja em nível interpessoal, é inevitável.</p>
<p style="text-align:justify;">A crise atual de valores, as buscas de respostas mágicas, a corrida ao misticismo, a procura do significado da vida, por vezes de formas tão tortuosas, demonstram claramente que anseios profundos do ser humano têm sido amplamente desconsiderados pela sociedade atual. Longe de reduzir a problemática humana às questões do trabalho, não se pode, entretanto, negar que é basicamente a partir dele que o homem se expressa e sobrevive. O espaço que o trabalho ocupa na vida de qualquer ser humano produtivo é imensamente maior do que o de subsistência pura e simples. Quer a ele seja agregado prazer ou desprazer, jamais passa desapercebido. Ou é uma carga a ser angustiadamente carregada, ou um meio de se atingir uma meta maior, parte de um objetivo de vida.</p>
<p style="text-align:justify;">*<strong>Susan Regina Raittz Cavallet</strong> é administradora pela FUOC, especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho pela PUC-PR, consultora em desenvolvimento pessoal e organizacional.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Cristiane Denardi</strong> é psicóloga pela Universidade Tuiuti, especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho pela PUC-PR, consultora autônoma.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Edenir Cristina Dirken </strong>é psicóloga pela UFPR, especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho pela PUC-PR, consultora pelo Senac.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Maria Elizabeth Nickel Haro</strong> é psicóloga pela PUC-PR, psicoterapeuta sistêmica – clínica comportamental, formação em psicodrama e terapia comporta-mental, especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho pela PUC-PR, consultora em desenvolvimento pessoal e organizacional – Interpess Assessoria.</p>
<p style="text-align:right;"><strong>Fonte: <a href="http://www.sanepar.com.br" target="_blank">Sanepar </a></strong></p>
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		<title>Saúde Mental e Psicologia do Trabalho_Parte I</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Nov 2009 21:48:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;Linha de Produção&#8221; por Di Cavalcanti (1897-1976)
*Por José Roberto Heloani e Cláudio Garcia Capitão
Um dos objetivos mais recentes da saúde mental não se restringe apenas à cura das doenças ou a sua prevenção, mas envidar esforços para a balhar em excesso e a divertir-se muito pouco; outras, pelo contrário, passam os dias a divertirem-se; outras [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&blog=5350779&post=1420&subd=grupopapeando&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:center;"><a href="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/di-cavalcanti_linha_de_producao.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-1421" title="Di cavalcanti_linha_de_producao" src="http://grupopapeando.files.wordpress.com/2009/11/di-cavalcanti_linha_de_producao.jpg?w=500&#038;h=404" alt="" width="500" height="404" /></a>&#8220;Linha de Produção&#8221; por Di Cavalcanti (1897-1976)</p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por José Roberto Heloani e Cláudio Garcia Capitão</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Um dos objetivos mais recentes da saúde mental não se restringe apenas à cura das doenças ou a sua prevenção, mas envidar esforços para a balhar em excesso e a divertir-se muito pouco; outras, pelo contrário, passam os dias a divertirem-se; outras ainda não conseguem fazer nem uma coisa nem outra. Sabe-se hoje que tanto o trabalho, quanto a diversão em proporções satisfatórias são critérios para avaliar um funcionamento psíquico saudável. Na realidade, ao contrário do que muitos possam supor, a organização do trabalho não cria doenças mentais específicas. Os surtos psicóticos e a formação das neuroses dependem da estrutura da personalidade que a pessoa desenvolve desde o início da sua vida, chegando a certa configuração relativamente estável, após o período de ebulição da adolescência – quando as condições sociais são relativamente favoráveis –, antes mesmo da pessoa entrar no processo produtivo. No entanto, “o defeito crônico de uma vida mental sem saída mantido pela organização do trabalho, tem provavelmente um efeito que favorece as descompensações psiconeuróticas” (Dejours, 1992:122).</p>
<p style="text-align:justify;">Atualmente, observa-se uma pressão constante contra a grande massa de trabalhadores existente em quase todo o mundo. Uma ameaça com objetivo certeiro faz com que milhares de pessoas sintam-se sobressaltadas, pois a úniimplementação de recursos que tenham como resultado melhores condições de saúde para a população. Na visão de Bleger (1984), não interessa apenas a ausência de doenças, mas o desenvolvimento integral das pessoas e da comunidade. A ênfase, então, na saúde mental, desloca-se da doença à saúde e à observação de como os seres humanos vivem em seu cotidiano. Para Dejours (1994), a psicopatologia tradicional está alicerçada no modelo clássico da fisiopatologia das doenças que afetam o corpo. Dedica-se, exclusivamente, ao diagnóstico das doenças mentais, dos transtornos mentais orgânicos, da esquizofrenia, dos transtornos do humor e dos inúmeros transtornos de personalidade. O debate, porém, que este artigo pretende explorar abrange as condições de milhares de pessoas sem imunidade que, embora suportem as pressões, conseguem, de alguma forma, escapar de um transtorno psicótico severo, mas que se mantêm, por assim dizer, no campo da normalidade. Não é raro encontrar pessoas que, por uma condição de sua psicodinâmica interna, possuem a propensão a tra ca ferramenta de que dispõem, sua força de trabalho, pode ser dispensada a qualquer momento.</p>
<p style="text-align:justify;">O desprezo assola o universo do trabalho e traz conseqüências drásticas para todos os que têm em seu trabalho sua única forma de sobrevivência. Contudo, a força de trabalho exigida precisa de especial qualificação, mesmo que seja, como antigamente, para apertar um simples botão. Assim, para a maior parte das atividades, exige-se um trabalhador complexo, que saiba muito mais além do que seria preciso para a execução de determinada tarefa. Acompanhando a tecnicidade do mundo, vai-se,  paulatinamente, necessitando de um trabalhador com maiores habilidades, ágil, que saiba lidar com uma nova representação de mundo, mesmo que seja para ocupar um cargo simples como o de telefonista. Essa pessoa tem de dominar sua língua, em alguns casos outro idioma, tem de ter rapidez tanto manual, como na voz e na mente, além de uma bagagem de informação disponível enquanto recurso pessoal para, ante qualquer dificuldade, utilizá-la.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim, o mundo do trabalho torna-se, de forma rápida e surpreendente, um complexo monstruoso, que se por um lado poderia ajudar, auxiliar o homem em sua qualidade de vida, por outro lado – patrocinado pelos que mantêm o controle do capital, da ferramenta diária que movimenta a escolha de prioridades –, avassala o homem em todos os seus aspectos.  Alguns são absorvidos, exigidos, sugados. Outros alçados a postos de poder e de liderança que reproduzem o capital virtual. Outros, por assim dizer, alguns milhões, são jogados como a escória cuja água benta do emprego, da possibilidade do trabalho, não veio a salvar.  Esse princípio de realidade adentra e fere o psiquismo humano, fazendo com que as pessoas sintam-se exigidas; o sentimento de impotência e de desvalorização, que leva as pessoas pouco resistentes a degenerar-se rapidamente, avilta de si qualquer potencial humano que pudesse se somar às conquistas da civilização.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Paradoxos do Trabalho</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A barbárie do capital instaura na contemporaneidade a desumanidade das relações humanas, que se desqualificam quase totalmente, surpreendendo com a forma e a fôrma na qual o homem atual vai colocando-se. O capital, por meio do trabalho, organiza e estrutura o mundo. Só que hoje ele não tem mais nomes, expressa-se por Fundos. As empresas são gerenciadas por executivos, não mais por seus donos. Podem mudar de cidade, de nome, de país, de ramo de atividade, deixando seus trabalhadores em pleno mar de incertezas e retirando-lhes a identificação com sua prática diária e com a empresa para a qual trabalham.</p>
<p style="text-align:justify;">No pensamento e análise precisos e pontuais de Ianni (2000), é principalmente no neoliberalismo que se dá a dissociação entre o Estado e a sociedade civil, adquirindo o primeiro características de um aparelho administrativo das classes e grupos que detêm o poder, configurando-se como blocos dominantes em escala mundial. O que se observa é um Estado comprometido com a possibilidade de facilitação da produção e dos mercados, tendo em seu bojo a fluidez do capital produtivo e especulativo, da alta tecnologia, da informática, etc. No entanto, sempre em sintonia com as políticas geradas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (Bird), Organização Mundial do Comércio (OMC), Grupo dos 7, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) comprometidas em facilitar e incrementar a produção, com praticamente nenhum cuidado em relação aos resultados de suas políticas, sua repercussão social ou conseqüências diretas na vida de milhões de pessoas.</p>
<p style="text-align:justify;">Se o homem passa a maior parte de seu tempo trabalhando, suas relações pessoais fora de casa deveriam ter um valor afetivo de extrema importância. No entanto, as relações de companheirismo e de amizade no trabalho não se concretizam, pois elas são passageiras, imediatas, competitivas e as ligações afetivas, os vínculos não podem estabelecer-se, já que com cada alteração rompem-se os laços, perdem-se as pessoas e daí, além do castigo do desemprego, há a solidão, a perda irreparável. Fala-se em corrosão do caráter porque ninguém, nem os que teriam todas as razões para estarem satisfeitos com o sistema já que representam seu próprio ideal, encara seu emprego num horizonte a longo prazo. O comportamento de curto prazo, como Sennett (1998) observou, distorceu qualquer senso de realidade, confiança e comprometimento mútuo. As empresas descartam seus funcionários e os que podem fazem o mesmo. As pessoas parecem não mais estarem preocupadas com o significado do seu trabalho ou com a oportunidade de vivência e troca coletiva. A preocupação volta-se para a acumulação de um valor de troca, como se todos se convertessem em uma ação de mercado, cujo preço é julgado por outrem. A verdadeira identificação com o trabalho parece viver de um objetivo que não chega a concretizar-se: acumula-se aprendizado, dinheiro, experiência, aumentam-se as páginas do currículo, tudo para o próximo processo seletivo já que o trabalho atual será apenas momentâneo.</p>
<p style="text-align:justify;">No presente, ao contrário da classe de mineiros descrita em Germinal, por Zola, o que encontra-se são pessoas isoladas, esquizóides, que olham o colega como alguém não confiável, não só pelo fato do que o outro realmente é, mas, muito mais, pelo que representa: sofrimento e dor. No universo pós-moderno “são muitos os que colocam em plano muito secundário, ou simplesmente esquecem, o povo, as classes, os grupos e os movimentos sociais, assim como as correntes de opinião pública e os jogos das forças sociais [...] Em especial, esquecem as formas de organização social e técnica do trabalho, compreendendo as condições sob as quais se desenvolvem e realizam a produção, distribuição, troca e consumo, processos com os quais se funda uma parte fundamental da ‘fábrica’ da sociedade, em escala nacional e mundial” (Ianni, 2000).</p>
<p style="text-align:justify;">Retrocedendo na História, assim como sugere Marx (1996), mais dependente aparece o indivíduo, e, conseqüentemente também o indivíduo produtor e o conjunto ao qual pertence. De início, esse aparece de um modo ainda bastante natural, no seio da família e da tribo, esta uma família ampliada. Mais tarde, surge nas inúmeras formas de comunidade resultantes do antagonismo e da fusão das tribos. Somente no século XVIII, na “sociedade burguesa”, é que as diversas formas do conjunto social passaram a apresentar-se ao indivíduo como simples meio de realizar seus fins privados, como necessidade exterior. Todavia, a época que produz esse ponto de vista, o do indivíduo isolado, é precisamente aquela na qual as relações sociais (e, desse ponto de vista, gerais) alcançaram o mais alto grau de desenvolvimento.</p>
<p style="text-align:justify;">Não pretende-se nesse breve artigo sobrepor o homem atual àquele encontrado no século XVIII, no que se refere, por exemplo, ao trabalho e à forma como ele se organiza. Mas, ao contrário, esclarecer algumas das determinações históricas que fizeram com que o trabalho fosse e tivesse a forma atual e porque a relação com o trabalho deve ser de sofrimento, de pena a ser cumprida, de trabalho forçado e não algo ego-sintônico, motivado e prazeroso. Seriam apenas as relações de propriedade e de exploração? Ou a própria produção cria aquele que consome, que, por sinal, cria a própria Produção. Para Marx (1996:31), “a produção é também imediatamente consumo. Consumo duplo, subjetivo e objetivo. O indivíduo, que ao produzir desenvolve suas faculdades, também as gasta, as consome, no ato da produção, exatamente como a reprodução natural é um consumo de forças vitais”. Se a produção coincide com o consumo dos meios que obrigatoriamente foram utilizados e gastos para que ela ocorresse, o próprio ato de produção vai ser, como se verá, em todos os seus momentos, também ato de consumo. O resultado, em síntese, é que a produção é consumo, e que, imediatamente, é produção. “Cada qual é imediatamente seu contrário. Mas, ao mesmo tempo, opera-se um movimento mediador entre ambos. A produção é mediadora do consumo, cujos materiais cria e sem os quais não terá objeto. Mas o consumo é também mediador da produção ao criar para os produtos o sujeito, para o qual são os produtos” (Marx, 1996:32).</p>
<p style="text-align:justify;">Para entender quais as determinações históricas da relação homem x trabalho na modernidade, tem-se de penetrar na “máquina” que tece sua trama nevrálgica, a produção que cria seu produtor e consumidor, com base no momento em que foi gerada. Então, o trabalho configura-se como o representante da força dos impulsos que o homem emprega para executálo, para poder ou não consumir o que foi por ele produzido, abrindo possibilidades de constituição de subjetividades, correspondentes a cada época histórica, que tem, por domínio, uma forma de produção.</p>
<p style="text-align:justify;">Sujeito, trabalho, produto, consumo, lucro. Elementos constitutivos de um intrigante eixo gravitacional, em que consumidor e produto mantêm uma relação eqüidistante. Para Adorno e Horkheimer (apud Rouanet, 1983:147) “a atrofia da imaginação e da espontaneidade do consumidor cultural moderno não precisa ser reconduzida a mecanismos psicológicos. Os produtos mesmos, a partir do mais típico, o filme falado, paralisam aquelas faculdades por sua própria constituição objetiva. São feitos de tal forma que sua compreensão adequada exige rapidez de reflexos, dotes de observação, competência específica, mas também a absoluta suspensão da atividade mental do espectador, se este não quer perder os fatos que se desenrolam diante de seus olhos&#8230; o espectador não deve trabalhar com a própria cabeça; o produto prescreve todas as reações: não por seu contexto objetivo – este se esvai no momento em que é submetido ao pensamento – mas através de sinais. Toda conexão lógica, que exija esforço intelectual, é escrupulosamente evitada”. O produto posiciona o consumidor na mesma situação de uma linha de montagem e não se restringe apenas a filmes, mas a amplo universo de necessidades criadas, consumidas sem qualquer reflexão, como se os efeitos da paralisia mental sofrida na produção fosse transferida em gênero, número e grau, para aquele que o adquire.</p>
<p style="text-align:justify;">No que se refere à produção, e por que não dizer o mesmo para o consumo, a situação que se encontra na atualidade não surgiu por geração espontânea, mas ocorreram marcos no capitalismo, que, para melhor rendimento e maior produção, desenvolveu métodos, muitos dos quais, aperfeiçoados em diversas versões. Taylor (apud Heloani, 1994) formulou uma forma de organização do trabalho caracterizada pelo amplo funcionamento das tarefas e concomitante o monitoramento dos movimentos dos trabalhadores. Tal forma rígida de controle objetivava a eficiência como meta e princípio. O modelo de Taylor, por seu lado, foi aperfeiçoado por Henry Ford, que desenvolveu a concepção de linha de montagem. O trabalho, então, é dividido de tal forma que o trabalhador possa a ser abastecido de peças e componentes através de esteiras, sem precisar, desse modo, movimentar-se. A administração do tempo passa a se dar de forma coletiva, pela adaptação do conjunto dos trabalhadores ao ritmo imposto pela esteira. O fordismo não se limitará apenas à questão disciplinar no interior da fábrica. Ele incorporará, tal como o taylorismo, um projeto social de “melhoria das condições de vida do trabalhador”. O projeto social fordista revela-se um projeto político que objetivava assimilar o saber e a percepção política do trabalhador para a organização.</p>
<p style="text-align:justify;">Até a crise do paradigma taylorista-fordista de produção, o modelo de Recursos Humanos e a própria concepção de administração estiveram articulados com concepções oriundas da engenharia, especialmente com a de produção, como também, com a lógica militar, expressa tão bem pela utilização de vocábulos pertencentes à caserna, tais como: logística, tática, estratégia, etc. Em conseqüência das transformações sociais e das ocorridas no cerne do capitalismo, a abordagem da engenharia foi perdendo espaço e começou a ser questionada à medida que o modelo fordista de desenvolvimento entra em crise – perde sua eficácia – em fins dos anos 60 e começo dos 70. Tal mudança não foi produto simples e acabado de uma visão mais humanista ou de um longo e bem-cuidado processo de conscientização, mas conseqüência de uma necessidade premente de responder a uma nova estrutura econômica e a um novo modo de regulamentação social; em suma, a uma nova realidade que se apresentava e que exigia respostas rápidas por parte do capital.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*José Roberto Heloani </strong>é Professor e Pesquisador da Universidade Estadual de Campinas e na FGV-SP(jheloani@fgvsp.br).</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Cláudio Garcia Capitão </strong>é Psicólogo Clínico, Professor e Pesquisador em Psicologia na Universidade São Francisco (cgcapitao@uol.com.br).</p>
<p style="text-align:right;"><strong>Fonte: Revista <a href="http://www.seade.gov.br/produtos/spp/" target="_blank">São Paulo em Perspectiva</a> 17(2): 102-108, 2003</strong></p>
<p style="text-align:right;"><strong><span style="color:#888888;">Leia a segunda parte deste artigo</span> <a href="http://grupopapeando.wordpress.com/2009/11/16/saude-mental-e-psicologia-do-trabalho_parte-i/" target="_blank">AQUI</a><br />
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