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	<title>Papeando Com a Psicologia</title>
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	<description>Temas Do Cotidiano!</description>
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		<title>Papeando Com a Psicologia</title>
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		<title>Imagens do Tempo</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 02:22:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[*Por Peter Coveney e Roger Highfield “A desgraça havia me ensinado a ruminar assim: Que o Tempo vai chegar e fugir com meu amor. Esse pensamento é como uma morte que não consegue fazer outra coisa senão lamentar e possuir o que teme perder.” William Shakspeare O tempo é uma das maiores fontes de mistério [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3723&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><a href="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/old_book_bindings.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3749" title="Old_book_bindings" src="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/old_book_bindings.jpg?w=780" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por Peter Coveney e Roger Highfield</strong></p>
<p style="text-align:left;">“<em>A desgraça havia me ensinado a ruminar assim: Que o Tempo vai chegar e fugir com meu amor. Esse pensamento é como uma morte que não consegue fazer outra coisa senão lamentar e possuir o que teme perder</em>.”</p>
<p style="text-align:left;">William Shakspeare</p>
<p style="text-align:justify;">O tempo é uma das maiores fontes de mistério para a humanidade. Pela história afora os seres humanos sempre se sentiram intrigados e inquietos com a natureza profunda mas inescrutável sua. É um assunto que cativou poetas, escritores e filósofos de todas as gerações. Mas parece que não cativou tanto os cientistas modernos. A ciência contemporânea (e a física em particular) procurou reprimir, senão eliminar, o papel do tempo na ordem das coisas. O tempo já foi descrito como a dimensão esquecida.<span id="more-3723"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Todos nós temos consciência da passagem irreversível do tempo que parece dominar a nossa existência, na qual o passado é fixo e o futuro é aberto. Talvez o nosso anseio seja fazer o relógio andar para trás para que possamos desfazer erros ou reviver algum momento maravilhoso; mas, infelizmente, o bom senso está contra nós: o tempo e a maré não esperam por ninguém. O tempo não consegue andar para trás.</p>
<p style="text-align:justify;">Ou será que consegue? É perturbador, mas em muitas teorias científicas em que a direção do tempo não faz diferença existe pouco apoio para encarar o tempo através do senso comum. Os grandes suportes da ciência moderna, tais como a mecânica de Newton, a relatividade de Einstein e a mecânica quântica de Heisenberg e Schrõdinger, parecem funcionar igualmente bem com o tempo andando às avessas. Para essas teorias, os acontecimentos registrados num filme seriam perfeitamente plausíveis, independentemente do sentido em que ele fosse passado num projetor. Na realidade, o tempo unidirecional chega a parecer uma simples ilusão criada pela nossa mente. Geralmente os cientistas que pesquisam este problema são um pouco sarcásticos quando falam do sentido comum que damos à passagem do tempo, chamando-o de &#8216;tempo psicológico&#8217; ou &#8216;tempo subjetivo&#8217;.</p>
<p style="text-align:justify;">Será possível que em algum lugar do universo a direção do tempo possa fluir contra o tempo com o qual estamos familiarizados, num mundo em que as pessoas se levantam do túmulo, perdem as rugas e acabam voltando ao útero?</p>
<p style="text-align:justify;">Seria um mundo em que o perfume se condensaria misteriosamente nos frascos; em que as ondas concêntricas da água de um lago convergiriam e ejetariam a pedra que as formou; em que o ar das salas se separaria espontaneamente nos seus componentes; em que um pedaço de borracha enrugada se expandiria e se fecharia na forma de balões; em que a luz sairia dos olhos dos astrónomos e seria absorvida pelas estrelas. Talvez as possibilidades não acabem por aí. Será que, se esta linha de pensamento estiver certa, é possível inverter o tempo aqui na Terra? Poderíamos, todos nós, ser sugados de volta ao passado?</p>
<p style="text-align:justify;">Isso contradiz todas as provas de que o tempo passa numa direção única. Por exemplo, compare o tempo com o espaço. O espaço nos rodeia, mas o tempo é sentido aos pouquinhos. A distinção entre direita e esquerda é banal em comparação com a diferença entre passado e futuro. Podemos ir e vir livremente pelo espaço, mas não conseguimos afetar nem o futuro nem o passado pelos nossos atos. Temos memória, não conhecimento prévio (clarividentes à parte). De modo geral, os materiais parecem decompor-se, mais do que se formam espontaneamente. Por isso parece que, embora o espaço não tenha uma direção preferencial característica, o tempo o tem. O tempo anda como uma flecha. A expressão evocativa &#8216;a flecha do tempo&#8217; foi cunhada pela primeira vez pelo astrofísico Arthur Eddington em 1927. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O Tempo na Literatura</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Do ponto de vista do bom senso, o conceito de tempo encontra a sua expressão mais eloquente em algumas das maiores obras da literatura. O tempo unidirecional nos dá a ideia de transitoriedade que foi captada magnificamente no título do romance autobiográfico de Proust, Em busca do tempo perdido. O que predomina na mente de autores desse quilate é saber que temos apenas uma quantidade finita e pequena de tempo para viver e que é impossível voltar atrás. &#8220;À medida que o tempo avança de forma inevitável, os momentos têm de ser agarrados e cada instante tem de ser apreciado com uma intensidade pungente. O mistério da vida torna-se mais maravilhoso justamente pela sua própria transitoriedade, ao passo que o nosso senso de irreversibilidade do tempo é intensificado pela morte. Não é coincidência o fato de a figura simbólica do Pai Tempo partilhar os próprios atributos (a foice e a ampulheta) com a Ceifadora Implacável, que é o arcabouço da morte, o qual nos ceifará a todos quando o nosso tempo se esgotar.</p>
<p style="text-align:justify;">O fluxo de tempo é descrito incessantemente na literatura e na poesia. Nos escritos do poeta-filósofo persa Ornar Khayyám (datados de 1123) podemos encontrar uma das meditações mais admiráveis sobre o tempo, imortalizada na tradução livre para o inglês de Edward Fitzgerald:</p>
<p style="text-align:justify;">O Dedo Movente escreve; e nesse intento continua: nem toda sua Piedade ou Bom Senso conseguirão trazê-lo de volta para cancelar nem meia Linha, nem todas as tuas Lágrimas lavarão Palavra do lenço.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui a irreversibilidade é revelada como a fonte final do patos da vida humana. O triunfo final da morte não é falado, mas está implícito. E temos aqui um elo com a ciência, pois o fato de toda criatura viva morrer é a prova mais tangível da passagem do tempo. Trata-se de um tema crucial, se quisermos extrair algum sentido do mundo que nos rodeia. Nas palavras de Arthur Eddington: &#8220;Em qualquer tentativa de estabelecer uma ponte entre os domínios das sensações pertencentes aos lados espiritual e físico da nossa natureza, o tempo ocupa a posição-chave&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O Tempo Cultural</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A ideia de um tempo direcional nem sempre existiu. As marés, os solstícios, as estações e os movimentos cíclicos dos corpos celestes levaram muitas sociedades primitivas a encarar o tempo em termos de ritmos orgânicos, como se tivesse uma natureza basicamente circular. Essas sociedades achavam que, já que o tempo era inseparável dos movimentos circulares dos céus, ele, em si, era circular. O dia vem depois da noite, a lua nova vem depois da cheia, o verão vem depois do inverno: por que não pode acontecer a mesma coisa com a história? Os maias da América Central achavam que a história se repetiria a cada 260 anos, período de tempo denominado o lamat, ou elemento fundamental, de seu calendário. Também acreditavam em catástrofes cíclicas: quando um grupo de espanhóis invasores aportou em 1698 em suas terras, os membros de uma tribo, os itzas, fugiram porque acreditavam que o ciclo havia completado um círculo e a calamidade estava chegando. Tinham razão, mas não por previsão, nem mesmo por coincidência: os espanhóis sabiam o que esperar porque 80 anos antes seus próprios missionários conheceram esta crença maia.</p>
<p style="text-align:justify;">No pensamento cosmológico grego, o padrão cíclico de tempo era um aspecto comum. No livro Física, Aristóteles observou que &#8220;existe um círculo em todas as outras coisas que têm um movimento natural, passando a existir e a morrer. Isso acontece porque todas as outras coisas são discriminadas pelo tempo e começam e acabam como se percorressem um círculo; o fato é que até o próprio tempo em si é considerado um círculo.&#8221; Os estóicos achavam que cada vez que os planetas voltavam às mesmas posições relativas que ocupavam no início do tempo o Cosmo se renovava. Nemésio, que era bispo de Emesa no século IV d.C, observou que &#8220;Sócrates, Platão e todos os indivíduos viverão de novo, com os mesmos amigos e os mesmos conterrâneos. Passarão pelas mesmas situações, sentirão as mesmas coisas e terão as mesmas atividades. Todas as cidades, aldeias e campos serão restaurados e voltarão a ficar como eram antes. E essa restauração do universo ocorre não apenas uma vez, mas várias: na verdade, acontece por toda a eternidade, infindavelmente&#8221;. É como se os acontecimentos históricos estivessem dispostos em torno de uma enorme roda celeste. Essa noção do eterno retorno reapareceu na matemática moderna como &#8220;a periodicidade de Poincaré&#8221;, em homenagem a Henri Poincaré, um dos mais brilhantes matemáticos em atividade na virada do século XX.</p>
<p style="text-align:justify;">A flecha do tempo suscitava um medo profundo, um terror, porque implicava instabilidade, fluxo e mudança. Também apontava para o fim do mundo, em vez de indicar renascimento e reflorescimento. No livro que escreveu sobre flechas do tempo, The myth of the eternal return (O mito do eterno retorno), o antropólogo e historiador de religiões romeno Mircea Eliade afirma que, pelo mundo afora, a maioria das pessoas apega-se ao consolo do ciclo do tempo segundo o qual o passado é o futuro, a &#8216;história&#8217; real não existe e a humanidade está resignada a renascer e a reflorescer. Significativamente, escreveu que &#8220;A vida do homem arcaico (&#8230;) embora ocorra no tempo, não registra a sua irreversibilidade; em outras palavras, deixa completamente de lado o que é especialmente característico e decisivo numa percepção consciente do tempo&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">Foi a tradição judaico-cristã que estabeleceu o tempo &#8216;linear&#8217; (irreversível) de uma vez por todas na cultura ocidental. Eliade escreveu que &#8220;O pensamento cristão tendeu a transcender de uma vez por todas os velhos temas da repetição eterna&#8221;. A partir da crença dos cristãos no nascimento e na morte de Cristo e na sua crucificação como fatos sem par que não podem se repetir, a civilização ocidental passou a considerar que o tempo é um percurso linear que se estende entre o passado e o futuro. Antes do advento do cristianismo só os hebreus e os persas zoroastrianos adotavam este ponto de vista progressivo do tempo.</p>
<p style="text-align:justify;">O tempo irreversível influenciou profundamente o pensamento ocidental. Preparou a mente humana para a ideia de progresso, para o conceito de &#8216;tempo profundo&#8217;, para a supreendente descoberta dos geólogos de que a evolução humana é apenas um episódio recente e curto na história da Terra. Preparou o caminho para a teoria da evolução de Darwin, que fala da nossa união com criaturas mais primitivas através dos tempos. Em resumo, o advento da ideia do tempo linear e da evolução intelectual desencadeada por essa ideia corroborou a ciência moderna e a promessa de melhoria da vida na Terra.</p>
<p style="text-align:justify;">Na biologia os aspectos do tempo são análogos ao que ocorre culturalmente, tanto de modo cíclico como linear. Aparecem tempos cíclicos na divisão celular e na orquestra de ritmos variados que existem no nosso corpo. Estes vão dos impulsos nervosos de alta frequência aos ciclos preguiçosos da transformação celular. A noção de tempo irreversível é manifestada pelo envelhecimento. Os relógios comuns exprimem estas duas facetas do tempo. Compõem uma sucessão de oscilações de um pêndulo ou de um cristal que revelam &#8216;o tempo&#8217; na Terra, expresso como um ciclo de 12 ou 24 horas. A passagem do tempo é manifestada indiretamente por dissipação: as baterias se gastam, os motivos que nos impulsionam vão diminuindo, os pesos caem.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O Tempo na Filosofia</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O tempo foi tema de pesquisas especulativas e frequentes de filósofos. No livro The natural philosophy of time (A filosofia natural do tempo), que tanta influência exerceu, o matemático Gerald Whitrow focaliza como as ideias de Arquimedes e de Aristóteles representam dois pontos de vista opostos sobre o tempo: Aristóteles, contrariamente à opinião de Arquimedes, dizia que o tempo era intrínseco e fundamental para o universo. O debate entre ambos continua através dos séculos, de um modo ou de outro.</p>
<p style="text-align:justify;">Na obra cosmológica de Platão, Timeu, o tempo nasceu quando um ferreiro divino impôs forma e ordem ao caos primordial. O Timeu começa com a distinção entre mundo inteligível e mundo sensível, dois conceitos que reaparecem de formas diversas nas teorias científicas modernas. Para Platão o mundo inteligível é o mundo real &#8220;que pode ser apreendido pela inteligência com o auxílio do raciocínio e é eternamente o mesmo&#8221;, ao passo que o mundo sensível (que constitui os domínios do tempo) &#8220;é o da opinião e da sensação irracionais, mundo que passa a existir e deixa de existir mas nunca é completamente real&#8221;. Platão estava fazendo a mesma distinção entre uma viagem (algo que vai acontecer ou que será gerado) e o destino dessa viagem (ser), afirmando que só o último era real. Toda a filosofia de Platão foi dominada por essa diferença segundo a qual o mundo sensível (incluindo o tempo) tem apenas uma realidade secundária. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;">Assim como a cor vermelha consegue induzir expressões subjetivas diferentes em diversos observadores sem deixar de ser um componente essencial da luz, o filósofo Immanuel Kant afirmava que o tempo, apesar de ser um componente essencial do nosso intelecto, é destituído de realidade objetiva: &#8220;O tempo não é uma coisa objetiva. Não é nem substância, nem acidente, nem relação; é uma condição subjetiva necessária por causa da natureza da mente hu-mana&#8221;. O ponto de vista &#8216;subjetivista&#8217; de Kant encontra paralelos íntimos na maneira pela qual alguns cientistas procuram explicar o tempo na ciência de hoje. Uma explicação muito simples e óbvia, apoiada entre os idealistas de todas as épocas, tais como Parmênides, Platão, Spinoza, Hegel, Bradley e McTaggart, é dizer que a noção de tempo inclui muitas contradições, por isso não pode ser real. O lógico M. Cleugh fez a seguinte observação fulminante a respeito desta espécie de evasão metafísica: &#8220;Dizer simplesmente que o tempo, pelo fato de ser autocontraditório, precisa ser apenas uma aparência, longe de resolver os problemas, não é sequer uma resposta&#8221;. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O Tempo: Newton e Einstein</strong></p>
<p style="text-align:justify;">(&#8230;). Podemos atribuir o nascimento de um tempo verdadeiramente científico a Isaac Newton, que descobriu as expressões matemáticas do movimento dos corpos. Foi um feito assombroso: a descrição matemática conseguiu descrever o movimento de objetos que iam de maçãs a luas e fundia os mecanismos celestes com os terrestres. A incrível capacidade das expressões que Newton usou para descrever o movimento dos céus usando apenas algumas suposições, juntamente com o encanto estético destas, rapidamente fez com que suas ideias fossem aceitas. Com isso Newton estabeleceu as bases da física moderna.</p>
<p style="text-align:justify;">Sem dúvida nenhuma Newton foi influenciado pelo matemático Isaac Barrow que, tendo se aposentado como professor lucasiano de Cambridge em 1669, tomou as providências necessárias para que Newton o substituísse. Barrow observara que, &#8220;já que os matemáticos usam tão frequentemente o tempo, deveriam ter uma ideia do significado dessa palavra; de outra forma, são charlatães&#8221;. No entanto, a despeito da grandeza do feito científico de Newton, o tempo só foi incorporado às equações newtonianas como uma quantidade primitiva e indefinida. Do mesmo modo que o espaço, o tempo era absoluto. Isso quer dizer que todos os acontecimentos podiam ser considerados como se tivessem uma posição distinta e diferente no espaço e ocorressem num instante de tempo particular. Qualquer lugar, do Observatório de Greenwich à ponta de uma galáxia espiral distante, estava ligado pelo mesmo momento do &#8216;agora&#8217;. Como disse Newton no livro Principia Mathematica: &#8220;O tempo absoluto, verdadeiro e matemático por si mesmo e proveniente da sua própria natureza (&#8230;) transcorre uniformemente sem relação com nada externo&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">A mecânica de Newton promete um poder de previsão vastíssimo que faz com que um instante forneça todas as informações possíveis sobre o passado e o futuro do universo. Considere as posições e velocidades de todas as estrelas do nosso universo em qualquer instante e introduza esses valores num computador cósmico capaz de resolver as equações de Newton. O passado e o futuro estão congelados naquele instante: o computador conseguiria calcular a posição e a velocidade de cada estrela em todos os tempos; mas o que as equações de Newton não conseguem fazer é decidir qual direção do tempo constitui o passado ou o futuro reais do nosso universo. Em vez disso, despojam o tempo do seu sentido de direção e não deixam espaço para a sua marcha implacável adiante. (&#8230;) Essa crença num mundo determinístico em que o tempo não tem direção e no qual o passado e o futuro estão pré-ordenados representou um papel proeminente no desenvolvimento da física. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje sabemos que a teoria do movimento de Newton não funciona quando é aplicada aos corpos que se movimentam com velocidade próxima à da luz, às massas muito grandes (incluindo os buracos negros, em que as forças gravitacionais ficam enormes) e às menores escalas de comprimento que se referem a partículas atómicas e subatômicas. Mas as duas grandes revoluções da física do século XX que reinam nesses regimes (ou seja, a relatividade de Einstein e a mecânica quântica) também se baseiam na mesma noção de tempo sem direção. Também elas continuam incapazes de estabelecer uma ponte entre o tempo irreversível da história e da literatura e o tempo simétrico das leis de Newton.</p>
<p style="text-align:justify;">Isso não quer dizer que essas revoluções não tenham trazido ideias interessantíssimas sobre o tempo. As teorias da relatividade de Einstein arrasaram o conceito de tempo absoluto baseado no bom senso e em Newton, isto é, o conceito de que devemos considerar que qualquer acontecimento do universo ocorreu num ponto particular do espaço e num dado instante do tempo, que é o mesmo em qualquer lugar. Em vez disso, Einstein ofereceu a ideia de haver uma exigência tetradimensional do espaço-tempo (três dimensões de espaço mais uma de tempo) em vez da evolução de uma existência tridimensional no tempo. A nossa percepção do tempo pode deturpar-se por drogas ou doenças, mas a teoria da relatividade de Einstein mostra que essa percepção também depende do ponto de vista de cada pessoa: quanto mais depressa um relógio se desloca, mais devagar bate. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Tempo Quântico</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A teoria quântica que rege o mundo atómico e molecular parece mais promissora na nossa busca de uma base científica para a direção do tempo. Ela dá uma descrição mais aceitável (se bem que desconcertante) das excentricidades dos átomos e das moléculas. Consegue explicar o comportamento dos lasers, das partículas subatômicas contidas nos reatores nucleares, dos elétrons nos computadores e muitas outras coisas. Baseados numa descrição quântica dos vastos aglomerados de átomos e moléculas que constituem o mundo, talvez conseguíssemos descrever a flecha do tempo de maneira tão sutil quanto a apreendemos pelos nossos sentidos. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;">(&#8230;) Do mesmo modo que a relatividade de Einstein, a teoria quântica também tem dificuldades intrínsecas profundas: pode explodir em infinidades incómodas quando aplicada em algum problema real, como, por exemplo, o modo pelo qual a luz é absorvida e emitida por átomos. Embora os físicos tenham aprendido truques engenhosos para contornar esses problemas, temos a impressão de que eles proporcionam mais provas de que alguma coisa está terrivelmente errada. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O Tempo e a Termodinâmica</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Há um segundo tipo de descrição que se faz no nível macroscópico e que tratados fenómenos numa escala que conseguimos ver, degustar, sentir e tocar. É nesse nível que se aplica a disciplina conhecida como termodinâmica. Desenvolvida por Black, Carnot, Clausius, Boltzmann, Gibbs e outras pessoas com o advento da força a vapor no decorrer do século XIX, inicialmente era destinada a estudar o desempenho de motores térmicos. Essa teoria estabeleceu a relação que existe entre calor e trabalho, esclarecendo como o primeiro pode ser transformado em outras formas de energia ou intercambiado com elas.</p>
<p style="text-align:justify;">A mecânica clássica, a relatividade e a mecânica quântica confundiram a nossa ideia de passagem do tempo, mas a termodinâmica veio em nosso auxílio. Assim como temos consciência de uma direção do tempo, a segunda lei da termodinâmica também a tem; trata-se da lei que diz que o calor só pode passar de um corpo mais quente para um mais frio, que os bonecos de neve se derretem e que as estátuas se fragmentam. A ligação que há entre a segunda lei e o nosso sentido de tempo pode ser ilustrada com um filme de um touro numa loja de louças. Se o tempo estivesse andando na direção certa, poderíamos esperar que o filme mostrasse uma bela porcelana chinesa indo pelos ares e muitas peças de cerâmica sendo pisoteadas pelos cascos. Mas se o touro voltasse sobre os próprios passos numa loja de louças arrasada e surgisse deixando todas as xícaras bem arrumadas no lugar, saberíamos que o filme estava sendo rodado do fim para o começo. A segunda lei contraria fatos como esse, assim como os fabricantes de máquinas motos-contínuos simplesmente demonstrando que em qualquer processo perde-se energia em forma de calor: nesse caso, embora a energia da louça quebrada seja transformada em calor e som, nunca consegue ser recuperada. Essa perda irreversível está ligada ao nosso sentido de passagem do tempo: pela segunda lei descobrimos que existe uma grandeza chamada entropia (medida da capacidade de mudança) que está intimamente ligada ao tempo. O aumento da entropia é um sinal que indica a direção do tempo. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;">Como já vimos, na mecânica de Newton qualquer momento do passado, do presente ou do futuro é como qualquer outro. Nesse sentido a mecânica é &#8216;intemporal&#8217; e a evolução só tem um significado banal. Mas na termodinâmica os momentos são distinguidos pela entropia de um universo que está realmente evoluindo. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;">(&#8230;) À primeira vista parece que a segunda lei é contrariada por outra descoberta que agitou o mundo do século XIX, ou seja, a teoria da evolução de Darwin. A mecânica clássica retratava o universo como uma máquina perfeita, ao passo que a termodinâmica parecia implicar que a máquina estava se encaminhando para uma desorganização completa. Por outro lado, a obra de Darwin mostra que a vida ficou mais (não menos) organizada com o correr dos tempos, à medida que criaturas simples originaram outras mais complexas. A evolução de muitos seres vivos que voam, nadam e andam na Terra poderia parecer incompatível com uma teoria que prega o declínio inexorável. Na realidade, não existe contradição. O fato é que na segunda lei da termodinâmica existe alguma coisa mágica escondida que possibilita a ocorrência de urna evolução criadora (em vez de puramente destrutiva). Talvez Boltzmann tenha visto isso de relance já em 1878, mas o desenvolvimento dessa ideia teria de esperar até que uma reavaliação mais recente da segunda lei mostrasse que ela não implica um declínio monótono para a desordem: ao contrário, o universo consegue aproveitar a termodinâmica para criar, desenvolver e expandir. Isso confere um novo grau de aperfeiçoamento e até uma credibilidade maior à flecha do tempo da segunda lei.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O Tempo Criador</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Usando uma termodinâmica do século XX apresentada pela primeira vez e desenvolvida em grande parte pelo grupo dirigido por Ilya Prigogine na Universidade Livre de Bruxelas, conseguimos ter uma ideia de como a ordem pode surgir da desordem em termos de um paradigma científico novo, que é o da &#8216;auto-organização&#8217;. Este paradigma argumenta que, ao contrário do legado de conhecimentos que recebemos, a segunda lei não é sinónimo de um desaparecimento inexorável na desordem. Embora isso pudesse ser o estado final da matéria e indicasse um universo corrupto e desintegrado no fim dos tempos, é certíssimo que a segunda lei não afirma que essa tendência ocorre uniformemente por todo o espaço e por todo o tempo.</p>
<p style="text-align:justify;">(&#8230;) Um exemplo de auto-organização que pode ser visto no laboratório é o &#8216;relógio químico&#8217;: um tipo particular de reação química que muda de cor em intervalos regulares e também pode apresentar estruturas espiraladas muito bonitas. Para manter tais figuras essas reações químicas precisam ser constantemente abastecidas. Também têm ingredientes especiais, isto é, uma série de reações químicas entrosadas (que envolvem ciclos de retroalimentação) nas quais os produtos resultantes também participam da mesma reação química ou então catalisam a sua própria formação. É admirável como, dos trilhões incontáveis de moléculas do relógio químico, todas parecem saber exatamente o que a outra está fazendo e conseguem se &#8216;comunicar&#8217; entre si.</p>
<p style="text-align:justify;">Estas ideias têm implicações de longo alcance na biologia, na qual o estado final de mudança (ou seja, o equilíbrio) é a morte. A termodinâmica oferece uma linguagem que pode ser usada para descrever os processos biológicos; para que ocorra alguma mudança, tais processos têm de ser mantidos longe do equilíbrio. Existimos graças a uma teia complexa de ritmos sincronizados de maneira intrincada. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;">Mais interessantes ainda são as implicações do tempo. A auto-organização (em particular, o exemplo do relógio químico) mostra que a segunda lei da termodinâmica não só proporciona uma flecha do tempo como tem dentro de si as sementes e os desenhos dos ciclos temporais que usamos para discernir o mundo que nos cerca. Esses dois aspectos são importantes. A flecha do tempo representa progresso: cada instante fica gravado com uma marca histórica individual. Mas quando procuramos figuras e desenhos nos fenómenos naturais regidos pelas mesmas leis, a metáfora do ciclo do tempo tem uma importância vital — do mesmo modo que as batidas e o ritmo estabelecem uma diferença entre música e um mero ruído. A segunda lei proporciona uma base para as duas imagens mais importantes que fazemos do tempo. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O Caos e a Flecha</strong></p>
<p style="text-align:justify;">No contexto dos processos irreversíveis, o caos não significa uma pura ação violenta; significa, antes, uma forma fantástica de ordem. O fato é que as equações que descrevem o comportamento do relógio químico oferecem um espectro de possibilidades riquíssimo que serve não só para expor a auto-organização mas também para explicar o &#8216;caos determinístico&#8217;, que é uma aleatoriedade paradoxal e previsível. No relógio químico o caos é visto como uma sequência aleatória de mudanças de cor. Chama-se determinístico porque os cientistas que estudam o caos destrincharam esse comportamento e revelaram a forma sutil de uma organização subjacente. Parece que o caos está subjacente ao tempo meteorológico, no qual as previsões podem funcionar a curto prazo mas não têm valor em intervalos de tempo maiores. Agora os cientistas do mundo inteiro estão tentando encontrar caos no aumento e diminuição das populações da mariposa branca europeia, na epilepsia e numa série de outros fenómenos, desde política até economia.</p>
<p style="text-align:justify;">Nas equações simétricas do tempo elaboradas por Newton também existe caos. Esta descoberta é bem surpreendente e tem implicações profundas. O físico Joseph Ford se autoproclamou o &#8216;evangelista do caos&#8217; e dizem ter dito o seguinte: &#8220;Estamos no início de uma revolução importante. De todos os modos vemos que a natureza vai se modificar&#8221;. Várias pesquisas demonstram que o caos consegue surgir até na mais simples das situações; por exemplo, quando só três partículas estão interagindo. Isso demole o mito secular da previsão e do determinismo e com ele a ideia de um universo de mecanismo de relógio. Se o passado é fixo, o futuro permanece aberto e redescobriremos a flecha do tempo. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Excertos do livro “<em>A Flecha do Tempo</em>” (Ed. Siciliano, 1993)</strong></p>
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		<title>Máscaras do Tempo</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 02:22:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Blocos de Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Percepção do Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Setas do Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Tempo nas Neurociências]]></category>

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		<description><![CDATA[Mecanismos pelos quais o cérebro percebe a passagem do tempo evocam princípios da física enunciados na teoria da relatividade e na mecânica quântica Por *Marcus Vinícius C. Baldo, **André M. Cravo e ***Hamilton Haddad Jr. Ao longo da história, questões acerca da origem e do significado da vida, da criação do Universo e livre-arbítrio têm [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3725&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><a href="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/seasons-changing-1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3752" title="seasons-changing-1" src="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/seasons-changing-1.jpg?w=780" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Mecanismos pelos quais o cérebro percebe a passagem do tempo evocam princípios da física enunciados na teoria da relatividade e na mecânica quântica</p>
<p style="text-align:right;"><strong>Por *Marcus Vinícius C. Baldo, **André M. Cravo e ***Hamilton Haddad Jr.</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Ao longo da história, questões acerca da origem e do significado da vida, da criação do Universo e livre-arbítrio têm roubado o sono de filósofos e cientistas. A indagação sobre a natureza do tempo, entretanto, parece ser o questionamento mais cotidiano e familiar. Considerado em suas diferentes acepções, o tempo está em toda parte: no calendário da parede, nos diversos relógios que pautam nossa vida, no nascer e no pôr-do-sol, nas fases da lua, nas estações do ano, bem como em nós mesmos &#8211; quando sentimos fome ou sono durante o dia ou testemunhamos no espelho as marcas da passagem dos anos. Antiga preocupação filosófica, mais recentemente o tempo passou a ocupar também a mente dos cientistas, interessados em medi-lo e compreendê-lo. Para enxergarmos com clareza suas múltiplas faces, é necessário encarar o tempo igualmente sob múltiplos ângulos. O desafio depende de um esforço conjunto do qual devem participar filósofos, físicos e neurocientistas.<span id="more-3725"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Segundo resultados teóricos e experimentais da física moderna, a velocidade da luz (e de qualquer onda eletromagnética) no vácuo é uma constante, sendo também a velocidade limite que não pode ser superada pela propagação de qualquer outro sinal. Quando admiramos o céu em noite estrelada, vemos algo que jamais existiu exatamente daquela forma, porque cada estrela encontra-se mais perto ou mais longe da Terra, portanto a luz de cada uma delas percorre uma determinada distância em um tempo distinto. A luz das mais próximas viaja alguns poucos anos, enquanto a das mais distantes leva bilhões de anos para atingir nossas retinas. Muitas estrelas que vemos hoje já não existem &#8211; explodiram e desapareceram há milhares ou milhões de anos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Fábrica de Ilusões</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Em uma escala de tempo muito menor, impulsos nervosos produzidos pelos estímulos que nos rodeiam &#8211; e que vão se transformar em sons, imagens, cheiros &#8211; também apresentam velocidade finita de propagação, bem como diferentes tempos de processamento neural. Olhar, ouvir, cheirar e sentir o mundo a nossa volta assemelha-se, portanto, a olhar um céu estrelado: as sensações chegam ao cérebro em momentos distintos, mesmo que tenham partido de um mesmo objeto no mesmo instante. Com alguma prática, o cérebro torna-se hábil em juntar estímulos assíncronos para fazê-los parecer simultâneos. Assim percebemos &#8211; ilusoriamente &#8211; como síncronos a imagem de lábios que se movem e o som da voz de quem fala.</p>
<p style="text-align:justify;">A ilusão de uma consciência instantânea e simultânea aos estímulos sensoriais que a evocam foi denominada &#8220;presente especioso&#8221; pelo psicólogo e filósofo americano William James (1842-1910). James considerava o presente ilusório não apenas pelo conteúdo temporal da consciência surgir com atraso em relação ao mundo, ou por dar coerência temporal a uma atividade neural inevitavelmente assíncrona. Ele percebia o presente como uma sensação estendida no tempo, possivelmente exigindo, de um lado, a reevocação de um passado recente guardado na memória de curtíssimo prazo e, de outro, a expectativa de um futuro iminente. A finitude, tanto da velocidade da luz quanto da propagação da informação no sistema nervoso, conduz a um segundo paralelo entre a física e a neurociência do tempo: a relatividade da simultaneidade.</p>
<p style="text-align:justify;">Segundo a teoria da relatividade proposta por Albert Einstein, se dois eventos A e B (por exemplo, o piscar de duas lâmpadas) são vistos por alguém como simultâneos, um segundo observador, em movimento retilíneo uniforme em relação ao primeiro, poderá vê-los como não simultâneos: a lâmpada A piscando antes da B se o observador estiver se deslocando em um sentido, ou o contrário quando ele se mover na direção oposta. Como ambos os observadores são totalmente equivalentes, já que não existe um &#8220;éter&#8221; preenchendo o espaço ou algo especial que torne absoluto algum local dele, as duas observações, embora contraditórias, são legítimas e também equivalentes.</p>
<p style="text-align:justify;">Da mesma forma, resultados obtidos em nosso laboratório na Universidade de São Paulo (USP) e por outros pesquisadores demonstram consistentemente que dois estímulos simultâneos &#8211; visuais, auditivos ou tácteis &#8211; poderão ser ou não percebidos simultaneamente dependendo de vários fatores psicofísicos, entre eles o foco de atenção. Em um típico experimento de julgamento de ordem temporal (JOT), um voluntário senta-se à frente do monitor do computador e fixa o olhar em um ponto demarcado da tela, onde será apresentada uma rápida sucessão entre dois estímulos visuais separados por certa distância. Sua tarefa é relatar qual estímulo foi percebido primeiro. Se prestar atenção ao local onde um dos estímulos será apresentado (mesmo que não dirija o olhar àquele local), as chances de que ele o perceba antes do outro estímulo são muito maiores, mesmo que ambos sejam simultâneos. Nesse caso, a alocação da atenção a um ou outro estímulo teria papel equivalente à mudança do referencial inercial do qual se faz a observação da ordem dos eventos &#8211; tal como enunciado pela teoria da relatividade.</p>
<p style="text-align:justify;">Não apenas a ordem e a simultaneidade de dois eventos podem ser relativas para a física e as neurociências, distâncias espaciais e intervalos temporais também são. Segundo a teoria da relatividade, o comprimento de um objeto ou a duração de um evento serão relativos ao referencial inercial em que se encontra o observador. Se ele estiver em movimento em relação ao objeto, seu comprimento será menor se comparado ao mesmo objeto medido por um observador estacionário. O fator de contração é dado pelas equações de transformação de Lorentz . Contração semelhante ocorre quando um observador, cujo referencial inercial está em movimento em relação a um evento, mede a duração deste e compara o resultado com o do observador estacionário.</p>
<p style="text-align:justify;">Experimentos psicofísicos semelhantes ao JOT mostram que a percepção de duração é relativa também ao estado do observador. Fisiologicamente, a incerteza de um julgamento temporal aumenta com a duração do intervalo julgado. Esse resultado, denominado propriedade escalar da percepção de tempo, parece decorrer de um fenômeno psicofísico mais geral, conhecido como lei de Weber (proposto por Ernst Weber, em 1831), segundo o qual para percebermos que um dado estímulo sensorial sofreu variação, o acréscimo (ou decréscimo) mínimo necessário deve ser proporcional à magnitude inicial do estímulo original. Isso talvez ajude a entender por que o tempo parece passar cada vez mais depressa à medida que envelhecemos.</p>
<p style="text-align:justify;">Todos nós também já experimentamos a sensação de o tempo &#8220;voar&#8221;, quando estamos em lugares ou situações agradáveis, ou de se &#8220;arrastar&#8221;, nos momentos em que esperamos com ansiedade algo acontecer. Novamente, parece ser a atenção que prestamos à sucessão de eventos em curso o fator determinante de nossa experiência temporal. Vários estudos demonstram que a duração de um estímulo sensorial, tal como percebida por um observador, é fortemente influenciada pela atenção que ele dispensa ao estímulo.</p>
<p style="text-align:justify;">A percepção temporal pode ser alterada também pela ação de drogas ou doenças que provavelmente modificam circuitos neurais cuja atividade determina nossa capacidade de julgar a duração de um intervalo temporal ou a ordem de dois eventos. A doença de Parkinson, por exemplo, caracteriza-se pela disfunção em certas via neurais que utilizam dopamina como neurotransmissor. Os pacientes manifestam comprometimento da organização temporal de ações motoras e nítido prejuízo no desempenho de tarefas que requerem exclusivamente a percepção de intervalos de tempo. Resultados de nosso laboratório mostram que pacientes com Parkinson exibem significativa redução da precisão no julgamento da ordem temporal de dois eventos visuais, quando comparados a voluntários saudáveis da mesma idade.</p>
<p style="text-align:justify;">Podemos novamente estabelecer um paralelo entre a mudança de referencial em que medidas de intervalos temporais são realizadas e a modificação na atividade de circuitos neurais responsáveis pela codificação do tempo, seja pela modulação fisiológica exercida pela atenção, seja pela interferência de fármacos ou por doenças. Em ambos os casos, o intervalo temporal medido fisicamente ou percebido fisiologicamente é relativo ao referencial em que se situa o observador.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Setas do Tempo</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Podemos dizer que, em essência, somos as nossas memórias. Aquilo que declaramos e contamos compõe a chamada memória declarativa, da qual fazem parte fatos sobre o mundo e sobre nossas próprias experiências.</p>
<p style="text-align:justify;">Estima-se que mais da metade das conversações adultas se refiram a eventos passados ou futuros, e essa habilidade de &#8220;viajar no tempo&#8221;, acreditam muitos neurocientistas, é exclusiva do ser humano. É possível que seu aparecimento tenha sido um passo decisivo no processo evolutivo da espécie. Viajando no tempo, entre memórias e projetos, podemos reavaliar experiências passadas, com suas possíveis causas, e ponderar cenários futuros, com suas eventuais conseqüências, o que aumenta a probabilidade de optarmos por decisões e ações mais adaptativas. Entretanto, existe nítida assimetria entre a memória de um evento passado, cristalizado e único em sua realidade, e a expectativa de um evento futuro, aberto e múltiplo em suas potencialidades. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;">O físico britânico Paul Davies acredita que o fluxo do tempo é resultado de um processo subjetivo, a ser explicado pelas neurociências e não pela física. Pelo menos duas interessantes conexões existem entre os objetos de estudo das duas disciplinas. A primeira é aquela, já mencionada, que vincula um observador consciente ao fenômeno por ele observado. É o ato da observação que transforma as probabilidades descritas pela função de onda em um valor ou estado físico definido e único. Nas palavras de John Wheeler, importante físico americano do século XX: &#8220;nenhum fenômeno elementar é um fenômeno até que ele seja um fenômeno observado ou registrado.&#8221; A segunda conexão entre física e neurociências é a semelhança matemática e conceitual existente entre a definição de entropia, proposta por Boltzmann, e a definição de informação, que o matemático americano Claude Shannon apresentou em meados do século XX. A entropia seria uma medida de nossa ignorância sobre um sistema, sendo a aquisição de informação sobre ele o equivalente a uma redução de sua entropia (negentropia). O atrativo dessa analogia é que, enquanto entropia é um clássico ingrediente de formulações termodinâmicas, informação é a matéria prima, por excelência, da atividade neural.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Percepção do Tempo</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Pouco depois do surgimento da teoria da relatividade, o professor de matemática de Einstein, Hermann Minkowski, propôs uma formalização em que tempo e espaço passam a fazer parte de uma única estrutura geométrica. Formada pela fusão de três dimensões espaciais e uma temporal, essa estrutura é conhecida desde então como espaço-tempo quadridimensional. Embora mantenha suas peculiaridades, espaço e tempo devem, de acordo com a relatividade, ser considerados em conjunto, oferecendo um arcabouço único para a descrição dos eventos físicos.</p>
<p style="text-align:justify;">Nossas percepções de espaço e tempo também não existem de forma independente, e tarefas perceptivas que exigem julgamento espaço-temporal possuem longa história nas neurociências. Em 1796, o astrônomo real do observatório de Greenwich, Reino Unido, despediu seu assistente em razão das constantes discrepâncias, da ordem de vários décimos de segundo, na observação do trânsito estelar. As observações exigiam o julgamento, em relação a um ponto de referência no observatório, da localização de uma estrela em um exato instante de tempo marcado pelo tique-taque audível de um relógio. A precisão dessas observações era crítica para as medidas astronômicas, o que levou o problema para os laboratórios sob a forma de procedimentos que ficaram conhecidos como experimentos de complicação, idealizados pelo pai da psicologia fisiológica, Wilhelm Wundt. Tais experimentos implicavam a comparação simultânea de estímulos em movimento contínuo e estímulos de apresentação súbita. (&#8230;)</p>
<p style="text-align:justify;">Mais recentemente, o interesse em experimentos de complicação foi reavivado pela descoberta de uma ilusão visual simples, porém ainda muito controversa: o efeito flash-lag. Um objeto em movimento é percebido como se estivesse à frente de sua real posição no instante em que um evento, que ocorre subitamente, é utilizado como referencial no tempo. Muito se tem debatido sobre as origens neurofisiológicas desse fenômeno, mas um aspecto que demonstramos com alguma segurança é sua modulação por fatores atencionais: a magnitude do efeito flash-lag aumenta ou diminui à medida que prestamos menos ou mais atenção aos estímulos em questão (o que pode parcialmente explicar a tendência dos árbitros auxiliares, em partidas de futebol, de indicar impedimentos inexistentes). A modulação atencional de uma ilusão que implica a percepção de tempo e espaço sugere, mais uma vez, que a atenção entra em cena como uma espécie de &#8220;mudança de referencial&#8221;, no qual eventos espaço-temporais tomam parte.</p>
<p style="text-align:justify;">Uma das razões pelas quais as percepções de tempo e espaço talvez se fundem em uma mesma estrutura espaço-temporal é que a determinação subjetiva de tempo possa depender mais de &#8220;como&#8221; é representada pelo sistema nervoso, e menos de &#8220;quando&#8221;. Steven Hillyard, da Universidade da Califórnia, mostrou recentemente que a modulação atencional da percepção de ordem temporal, produzida por dois estímulos sonoros, era codificada por variações nas amplitudes de potenciais elétricos observados nos respectivos circuitos neurais envolvidos, e não por suas latências ou qualquer outra variável temporal. Portanto, espaço e tempo não são traduzidos necessária e respectivamente por códigos espaciais e temporais, mas ambos poderiam ser representados pelo sistema nervoso como códigos neurais que nada têm a ver diretamente com as características espaciais e temporais daquilo que representam. Esses mecanismos sugerem um análogo neural, ainda que metafórico, ao espaço-tempo físico.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Blocos de Tempo</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Heráclito de Éfeso, que viveu na Grécia entre os séculos VI e V a.C., via o Universo como um processo contínuo de mudança: &#8220;todas as coisas estão em perpétuo estado de fluxo&#8221;. Um de seus mais famosos aforismos diz que &#8220;no mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos&#8221;. Ou seja, não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez as águas do rio &#8211; em perpétuo fluxo &#8211; já não serão as mesmas, assim como nós mesmos já teremos mudado.</p>
<p style="text-align:justify;">No entanto, o escrutínio filosófico e as formalizações físicas não conseguem determinar a existência de um fluxo temporal único, contínuo e objetivo. Não há resposta para certas perguntas, por exemplo, &#8220;qual a velocidade do tempo?&#8221; (exceto, talvez, para uma personagem do escritor português José Saramago, que afirma que o tempo passa a uma velocidade de 60 minutos por hora). Esse incômodo beco sem saída tem levado à concepção do tempo como um bloco. O espaço-tempo de Minkowski conteria toda a eternidade: passado, presente e futuro mapeados nesse bloco único. Embora a sensação de um &#8220;agora&#8221; desempenhe papel central em nossa vida, a intuição é subvertida por concepções relativísticas, segundo as quais todos os instantes desse &#8220;tempo blocado&#8221; são igualmente reais. O fluir do tempo, do passado ao futuro, passando pelo &#8220;agora&#8221; que nitidamente sentimos, surgiria em nosso cérebro como o resultado de fazermos, ativa e conscientemente, uma observação desse bloco espaço-temporal. Essa observação então corresponderia, para cada observador, a uma fatia do bloco, que contém a cota de espaço que chamamos &#8220;aqui&#8221; e o instante de tempo que chamamos &#8220;agora&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">Essa visão física se aproxima da concebida por Platão no século IV a.C. Em um de seus famosos diálogos, Timeu, o tempo seria uma &#8220;imagem móvel da eternidade&#8221;. Já a concepção neurocientífica nos leva ao pensamento de Santo Agostinho, que viveu oito séculos mais tarde, para quem passado e futuro não existem. Quando olhamos para o passado, ele já se foi: é uma memória. Quando procuramos o futuro, ele ainda não chegou: é uma expectativa. Portanto, somente o presente existe, conclui o filósofo. O tempo seria uma criação da mente humana &#8211; quando medimos uma extensão temporal, estamos na verdade medindo memórias do passado e expectativas do futuro. Santo Agostinho é o primeiro pensador ocidental a destacar claramente o caráter subjetivo do tempo.</p>
<p style="text-align:justify;">É possível que as múltiplas faces do tempo tenham individualidade própria. E que os múltiplos &#8220;tempos&#8221; tenham, portanto, de ser tratados de forma particularizada ou independente, pelo respectivo nível descritivo que o aborda. Seria preciso considerar por exemplo as diferentes naturezas da &#8220;fibra&#8221; do tempo, com a qual seriam tecidos, em diferentes planos, os múltiplos e distintos tempos físico, biológico, neural e social. Enquanto isso, continuaremos a enfrentar o desafio de compreender como o tempo flui através da mente, já que, fora dela, o rio de Heráclito existe, mas está congelado.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Tempo nas Neurociências</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O surgimento de mecanismos neurais que processam o tempo foi essencial para nossa evolução. O controle neural do tempo é crucial para atividades cuja escala varia entre milésimos de segundo a décadas. São elas: regulação de funções vegetativas e de comportamentos que oscilam periodicamente (ritmos biológicos); funções motoras nas quais a seqüência e coordenação de movimentos exigem grande precisão temporal, da ordem de milissegundos; percepção de sucessão, ordem, intervalos e durações temporais, que se estendem de frações de segundo às memórias que construímos ao longo da vida. Em seres humanos e outros animais, o processamento neural do tempo tem sido abordado por meio de técnicas como ensaios comportamentais, análises moleculares, métodos eletrofisiológicos, farmacológicos, clínicos e de neuroimagem. Os resultados mais recentes indicam que diferentes módulos neurais participam dos diversos tipos de processamento temporal, dependendo da escala de tempo e da natureza da tarefa.</p>
<p style="text-align:justify;">Ritmos circadianos, por exemplo, operam em períodos de 24 horas, determinando comportamentos tais como o ciclo vigília-sono e a alimentação. Seu controle depende de circuitos neurais localizados no núcleo supraquiasmático do hipotálamo, que oscilam sob a influência de ritmos externos, como o ciclo claro-escuro produzido pela rotação diária da Terra. Ritmos biológicos, produzidos endogenamente por osciladores neurais, são extremamente úteis no ajuste homeostático e na sincronização de comportamentos aos ritmos exógenos gerados pela natureza periódica de rotação e translação do planeta.</p>
<p style="text-align:justify;">Estudos recentes mostram a existência de dois outros sistemas neurais, relativamente independentes, do processamento temporal. O primeiro é um sistema automático do qual participa o cerebelo, opera na escala de milissegundos e se relaciona à marcação temporal de eventos discretos (descontínuos). O segundo sistema relaciona-se a eventos contínuos, é controlado por mecanismos cognitivos e atencionais e envolve os núcleos da base e várias áreas corticais no processamento de eventos temporais cuja escala de tempo iguala ou supera um segundo. Observações clínicas sugerem que lesões cerebelares comprometem aspectos temporais determinantes da transição de estados motores, enquanto lesões dos núcleos da base comprometeriam, temporalmente, a transição de estados atencionais. Esses núcleos subcorticais parecem estar envolvidos, junto com circuitos dos córtices pré-frontal e parietal posterior, na representação cognitiva de números, seqüências e magnitudes. Dessa forma, áreas neurais comuns participariam de tarefas cuja essência são contagem e o ordenamento, seja temporal, seja numérico. Um possível papel dos núcleos da base seria o de monitorar a atividade que circula entre eles, o tálamo e o córtex cerebral, agindo como detectores de coincidência que controlam o fluxo de informação.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O Tempo na Física</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Um dos pilares da física moderna é a obra monumental de Isaac Newton (1642-1727). Em um mesmo modelo teórico, Newton concebeu um sistema mecânico que unificou a física dos corpos em movimento &#8211; de maçãs caindo de árvores a órbitas de luas e planetas. A metafísica de Newton adotava a visão de tempo e espaço absolutos. Em relação ao espaço, ele defendia uma forma de &#8220;substantivalismo&#8221;, de um espaço como &#8220;substância&#8221; &#8211; visão oposta ao &#8220;relacionismo&#8221; adotado por Leibniz, seu contemporâneo. Newton percebeu que, em relação ao espaço absoluto, um movimento uniforme, com velocidade constante, exigiria o fluir de um tempo absoluto. Como afirmou em sua obra Principia mathematica, &#8220;O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, por si mesmo, e por sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com nenhuma coisa externa. [...] Todos os movimentos podem ser acelerados ou retardados, mas o fluxo do tempo absoluto não é sujeito a nenhuma mudança&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim, um único &#8220;agora&#8221; preencheria todo o espaço, desde o local em que você, leitor, se encontra lendo essas páginas, até uma estrela distante, na borda da galáxia ou nos confins do Universo. Embora tenha despertado o questionamento crítico de alguns físicos e filósofos, essa cosmovisão persistiu por mais de 200 anos, e ainda hoje se encontra entranhada nas concepções de muitos de nós. Em meados do século XIX, James Clerk Maxwell colocou, ao lado da mecânica de Newton, uma síntese do eletromagnetismo igualmente unificadora, que expressava, por meio de quatro elegantes equações, todo um conjunto de resultados empíricos relativos a fenômenos elétricos e magnéticos. Com base nas equações de Maxwell, e em experimentos muito precisos realizados no final do século XIX, mostrou-se que a velocidade de uma onda eletromagnética (e, portanto, da luz) no vácuo, era a mesma em qualquer direção: pouco mais de 1 bilhão de km/h. Os resultados conduziram a uma inconveniente contradição entre essas duas teorias físicas &#8211; as mais bem-sucedidas até então.</p>
<p style="text-align:justify;">O início do século XX foi marcado por abalos que dilaceraram os alicerces da física clássica. Personagem principal desse fecundo capítulo da história da ciência, Albert Einstein (1879-1955) protagonizou a demolição da física newtoniana. Com suas teorias da relatividade (a especial, de 1905, e a geral, de 1916), propôs um modelo de Universo no qual espaço e tempo não são independentes nem absolutos, mas se fundem em um único espaço-tempo quadridimensional, em que uma onda eletromagnética propaga-se com velocidade constante em relação a qualquer referencial inercial em que seja medida. Como conseqüência da constância da velocidade da luz, conceitos temporais como simultaneidade e duração ou espaciais, como distância e comprimento, tornam-se relativos a um dado referencial inercial. Com as teorias de Einstein, a unidade e a coerência da física foram preservadas e, de quebra, uma visão radicalmente nova do universo tomou o lugar das concepções usuais de espaço e tempo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Marcus Vinicius C. Baldo, médico e físico, é doutor em neurofisiologia pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorado pela Universidade da Califórnia, em Berkeley. Coordena o Laboratório de Fisiologia Sensorial Roberto Vieira, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, onde estuda os mecanismos da percepção humana por meio de métodos psicofísicos e modelagem matemática e computacional.</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>**André M. Cravo é psicólogo.</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>***Hamilton Haddad Jr, formado em bioquímica, é mestre em neurofisiologia e atualmente estuda filosofia; ambos são alunos de doutorado do mesmo laboratório.</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FONTE: <a href="http://www2.uol.com.br/sciam/" target="_blank">Scientific American Brasil</a></strong><a href="http://www2.uol.com.br/sciam/" target="_blank"> </a></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/grupopapeando.wordpress.com/3725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/grupopapeando.wordpress.com/3725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/grupopapeando.wordpress.com/3725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/grupopapeando.wordpress.com/3725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/grupopapeando.wordpress.com/3725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/grupopapeando.wordpress.com/3725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/grupopapeando.wordpress.com/3725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/grupopapeando.wordpress.com/3725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/grupopapeando.wordpress.com/3725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/grupopapeando.wordpress.com/3725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/grupopapeando.wordpress.com/3725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/grupopapeando.wordpress.com/3725/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/grupopapeando.wordpress.com/3725/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/grupopapeando.wordpress.com/3725/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3725&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Esticando o Tempo e Voltando ao Passado</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 02:22:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
				<category><![CDATA[...Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Dilatação do Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Física]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria da Relatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Viagem no Tempo]]></category>

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		<description><![CDATA[*Por Roberto Belisário Boa notícia para os atrasados e os apressados: é possível “dilatar” o tempo, de forma a transformar um dia em dez dias, e também viajar ao passado e depois voltar ao presente para contar a história! Não é ficção: trata-se de possibilidades teóricas previstas pela física moderna. A dilatação do tempo acontece [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3722&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><a href="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/mirror-of-life-6.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3753" title="Mirror of Life (6)" src="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/mirror-of-life-6.jpg?w=780" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por Roberto Belisário</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Boa notícia para os atrasados e os apressados: é possível “dilatar” o tempo, de forma a transformar um dia em dez dias, e também viajar ao passado e depois voltar ao presente para contar a história! Não é ficção: trata-se de possibilidades teóricas previstas pela física moderna. A dilatação do tempo acontece corriqueiramente na física subatômica; viagens para o futuro acontecem de forma natural e automática em viagens aéreas, ainda que através de intervalos de tempo minúsculos. Viagens para o passado são ainda apenas previsões teóricas, mas há quem aposte que aparecerão espontaneamente casos microscópicos e raros de “máquinas do tempo” naturais dentro do LCH, um acelerador de partículas que entrará em operação em maio de 2008.<span id="more-3722"></span></p>
<p style="text-align:justify;">É possível ousar mais e imaginar se, no futuro, não será possível implementar esses fenômenos em uma tecnologia cotidiana que ajude a diminuir um efeito nocivo que o próprio avanço tecnológico, indiretamente, produz: a falta de tempo, a cultura da pressa, o acúmulo de tarefas. Na verdade, a tecnologia está o tempo todo sendo usada para esse fim: máquinas para fazer serviços domésticos, computadores, automóveis e aviões, todas essas inovações têm a função principal de permitir concentrar mais tarefas em menos tempo e com menos esforço. Mas o que se pergunta aqui é se é possível usar os efeitos descritos anteriormente para manipular diretamente o tempo de modo a, ao invés de diminuir a demora das atividades humanas, “esticar” o próprio tempo, ou mesmo “andar para trás no tempo”, de modo a termos mais horas disponíveis para nossos caprichos.</p>
<p style="text-align:justify;">A resposta não é animadora: o uso prático de tais fenômenos na vida cotidiana requer quantidades tão grandes de energia e aglomerados de matéria tão densos – trilhões de vezes maior do que a das rochas mais duras – que é virtualmente impossível com a atual tecnologia à disposição. Mas nada impede que alguma idéia brilhante e nova possa eliminar algumas limitações, como tantas vezes já aconteceu. Algumas já foram imaginadas e aumentaram um pouco as possibilidades.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Como transformar um dia em duas semanas</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A dilatação do tempo chega a ser banal: acontece naturalmente e de forma automática quando se compara o ritmo do “passar do tempo” para duas pessoas deslocando-se uma em relação à outra. Trata-se de um efeito previsto pela teoria da relatividade especial, em 1905, produzida por Albert Einstein, Henri Poincaré, Hendrik Lorentz e outros, e que substituiu a mecânica de Newton, inconteste pelos 300 anos anteriores. Até então, imaginava-se o tempo como uma entidade absoluta, cujo “fluir” seria o mesmo para todos os observadores. Algo bem diferente de outros conceitos que sabemos que dependem de um referencial, como a velocidade. A rigor, a especificação da velocidade só é completa quando se diz em relação a quê. Um carro pode estar a 100 km/h em relação à estrada; mas, em relação ao Sol, estará a 180 mil km/h, acompanhando o movimento de translação da Terra ao redor dele.</p>
<p style="text-align:justify;">O que a teoria da relatividade mostrou sobre o tempo foi que ele é tão dependente de um referencial quanto a velocidade. Se eu olho para o relógio de alguém deslocando-se em relação à mim, vejo-o andar mais lentamente que o meu; os seus batimentos cardíacos parecem (e estão) mais vagarosos; suas palavras chegam até mim mais espaçadas e sua voz mais grave, vejo-a envelhecer mais devagar e assim por diante.</p>
<p style="text-align:justify;">Neste ponto, para os atrasados e apressados, há uma boa notícia e uma má. A má é que seria necessário que dois observadores se afastassem a 42% da velocidade da luz para produzir um atraso de apenas 10% no correr do tempo entre um e outro. Portanto, é muito difícil e caro produzir uma dilatação do tempo útil, que transforme horas em mais horas, de forma que eu não precisasse mais escrever este texto para amanhã, mas só para daqui a duas semanas. Além disso, trata-se de um efeito que acontece entre observadores. Se eu permaneço parado em relação ao editor desta revista, meu tempo flui necessariamente da mesma forma que o dele. A não ser que alguém tenha alguma idéia brilhante&#8230;</p>
<p style="text-align:justify;">Na verdade, alguém teve uma idéia brilhante: Einstein e o matemático francês Pierre Langevin. E esta é a “notícia boa” prometida acima. Trata-se de um efeito chamado “paradoxo dos gêmeos”; Einstein previu-o em 1905 e, em 1911, Langevin colocou-o nos termos dramáticos seguintes. Imaginemos dois irmãos gêmeos, Ulisses e Penélope, sendo que Ulisses realiza uma viagem espacial em alta velocidade e volta anos depois. Segundo a previsão da relatividade, durante a viagem, Penélope observaria daqui da Terra todos os fenômenos relacionados a Ulisses mais lentos que o normal, desde as batidas do seu coração até a velocidade do seu caminhar. E isso inclui o ritmo do seu envelhecimento. De forma que, quando Ulisses retornar à Terra, estará alguns dias mais novo que Penélope.</p>
<p style="text-align:justify;">Esse efeito já foi demonstrado substituindo-se os gêmeos por relógios atômicos, que são relógios de altíssima precisão. Em 1971, os físicos J. C. Hafele e R. E. Keating sincronizaram dois desses relógios e embarcou-se um deles em um vôo comercial ao redor do mundo, enquanto o outro permaneceu no Observatório Naval dos Estados Unidos, em Washington. O experimento foi feito duas vezes, uma num vôo de oeste para leste e outra de leste para oeste. Na primeira, o relógio atrasou-se 59 bilionésimos de segundo (59 nanossegundos) e, na segunda, adiantou 273 nanossegundos. Os resultados foram compatíveis com as previsões das equações da relatividade.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Viagens ao futuro e ao passado</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A idéia de Einstein e Langevin foi boa o suficiente para se poder observar a dilatação do tempo sem grande dificuldade com velocidades perfeitamente acessíveis e vencer completamente a limitação do referencial entre eu e meu editor. Mas ela não é boa o suficiente para resolver as urgências do dia-a-dia – a velocidade envolvida teria que ser colossal. Há, porém, projetos de naves espaciais que talvez possam alcançar tais velocidades acelerando constantemente durante um longo tempo – para isso, usam como fonte de energia os raios cósmicos, que existem em qualquer lugar do espaço.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas, se o problema é a velocidade, a teoria da relatividade geral, feita também por Einstein e por David Hilbert entre 1905 e 1916, sugere uma forma de dilatar o tempo com os dois observadores parados: com o auxílio de campos gravitacionais intensos. Pela teoria, um observador no espaço interestelar (praticamente sem gravidade) vê tudo o que acontece quando outro observador na superfície da Terra correr mais devagar, da mesma forma que no caso de observadores em movimento. O campo gravitacional tem um efeito sobre o tempo. Mas é necessário um campo muito intenso para produzir uma diferença sensível e, para produzi-lo, seria necessário dispor de um acúmulo de matéria muito grande. Em 1976, foi medida a dilatação do tempo gravitacional entre um relógio atômico na Terra e um outro em um foguete lançado a 10 mil quilômetros de altura pelo Observatório Astrofísico Smithsonian, em Cambridge, nos EUA. O resultado foi de 4,5 partes em 10 bilhões (um desvio de apenas 0,01% em relação à previsão da teoria). Para produzir uma diferença de 10%, um objeto do tamanho da Terra teria que ter 10 elevado à 26ª potência (“1” seguido de 26 zeros) vezes o peso do nosso planeta, o que significa uma densidade só superada por um buraco negro.</p>
<p style="text-align:justify;">E com relação à viagem no tempo? A coisa interessante com a idéia brilhante de Einstein e Langevin é que o paradoxo dos gêmeos não é apenas uma dilatação no tempo: é um deslocamento através do tempo. Podemos dizer que Ulisses, em seu périplo, viajou em direção ao futuro. Na verdade, sempre que alguém se desloca pelo espaço, desloca-se também no tempo, em relação a observadores que permanecem parados. Isso significa que estamos viajando para o futuro o tempo todo. O efeito é evidentemente diminuto demais em situações cotidianas – mas existe.</p>
<p style="text-align:justify;">Já a volta ao passado, que seria útil para as urgências da modernidade (se não cair em mãos erradas!), é de implementação muito mais difícil. Muitas vezes, tem-se a idéia popular de que uma viagem ao passado implicaria em uma velocidade superior à da luz. Não é verdade: pode-se fazer tais viagens sem ultrapassá-la. O que se precisa nesse caso, segundo a relatividade geral, é de um campo gravitacional de formato muito exótico – o que implica em uma porção de matéria com formato igualmente exótico e extremamente densa. Esse campo produziria uma espécie de “túnel” no espaço-tempo chamado “buraco de verme” ou “buraco de minhoca”. Ele permitiria deslocamentos em grandes distâncias e/ou através do tempo. Seriam necessárias também enormes quantidades de energia para impedir que esse túnel colapsasse e se fechasse quase instantaneamente. Foi esse efeito que inspirou a “velocidade warp” da série Jornada nas Estrelas e tantos outros saltos espaciais e temporais em filmes de ficção científica.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Se assim aconteceu, assim acontecerá</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Além disso, a teoria aparentemente não prevê a possibilidade de mudar o passado. Não seria possível, por exemplo, um homem voltar algumas décadas e matar a própria mãe antes de ele próprio nascer, pois esse filho não só estaria alterando um evento que já aconteceu (seu nascimento), como também impossibilitando a própria alteração. Mas as equações não impedem que essa pessoa volte no tempo e ajude sua mãe a conhecer seu pai, de modo que o nascimento ocorra. Tem-se aqui uma típica situação circular no tempo (tecnicamente, chamada “curva tipo tempo fechada” ou CTC), mas que quase não apresenta contradições lógicas (“quase” porque em algumas situações parece ser possível produzir informação a partir do nada). A ficção científica também explorou casos semelhantes, como no filme O Exterminador do Futuro, de 1984, e na sua continuação, de 1991, dirigidos por James Cameron.</p>
<p style="text-align:justify;">De qualquer forma, “buracos de minhoca” podem ser, teoricamente, produzidos em condições extremamente energéticas, como as que acontecem nas colisões subatômicas em aceleradores de partículas. Há cientistas que acreditam que eles poderão aparecer, ainda que raramente e microscópicos, no acelerador LHC, que está sendo construído no Centro Europeu de Pesquisas (CERN), perto Genebra, na fronteira entre França e Suíça. Tais buracos de minhoca, porém, seriam demasiadamente pequenos, da ordem de um “comprimento de Planck” (ou seja, de um centésimo de quintilionésimo do diâmetro de um próton). Além disso para transformar um deles em uma máquina do tempo boa para seres humanos, seria preciso colocar uma de suas pontas em um campo gravitacional extremamente intenso, como o de uma estrela de nêutrons – e aí volta o problema de se arrumar uma porção de matéria extremamente densa.</p>
<p style="text-align:justify;">Nada impede, porém, que alguma outra idéia brilhante e nova possa contornar algumas dessas limitações e permitir a produção de algum aparelho capaz de distorcer o tempo de forma a transformar 50 minutos em 60 minutos. Mas não terá essa possibilidade o mesmo destino dos outros “sucessos” da tecnologia no aumento do tempo livre das pessoas? Afinal, mesmo com todas essas máquinas, continuamos com falta de tempo! As pessoas continuam correndo, executivos trabalham com laptops em viagens à noite, empresários bem-sucedidos ficam em atividade 14 horas por dia. Se tivéssemos um dia de 48 horas, provavelmente a jornada de trabalho pularia para 32 horas diárias&#8230; O que pode melhorar o problema de gerenciamento do tempo não são novas inovações tecnológicas, mas uma mudança de atitude para com o trabalho e a vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao leitor interessado, o livro A evolução da física, escrito pelo próprio Einstein e por Leopold Infeld, explica as teorias da relatividade especial e geral de forma bastante compreensível para não-físicos. Uma quantidade de experimentos possíveis sobre relatividade especial utilizando material caseiro aparece no site da Feira de Ciências, de Luiz Ferraz Netto. Um especial sobre o tempo, incluindo artigos sobre física – e um de Paul Davies sobre como construir uma máquina do tempo –, apareceu na Scientific American Brasil de outubro de 2002, que foi republicada neste mês de outubro de 2007. Uma abordagem sobre viagens no tempo mais extensa e acessível a não-fisicos está no livro Máquina do tempo – um olhar científico, do físico brasileiro Mário Novello.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Roberto Belisário é doutor em física, professor de eletrônica digital e física nas Faculdades Integradas Pedro Leopoldo (MG).</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FONTE: <a href="http://www.comciencia.br/comciencia/?" target="_blank">Com Ciência</a></strong><a href="http://www.comciencia.br/comciencia/?" target="_blank"> </a></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/grupopapeando.wordpress.com/3722/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/grupopapeando.wordpress.com/3722/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/grupopapeando.wordpress.com/3722/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/grupopapeando.wordpress.com/3722/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/grupopapeando.wordpress.com/3722/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/grupopapeando.wordpress.com/3722/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/grupopapeando.wordpress.com/3722/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/grupopapeando.wordpress.com/3722/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/grupopapeando.wordpress.com/3722/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/grupopapeando.wordpress.com/3722/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/grupopapeando.wordpress.com/3722/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/grupopapeando.wordpress.com/3722/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/grupopapeando.wordpress.com/3722/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/grupopapeando.wordpress.com/3722/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3722&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Calendários e o Fluxo do Tempo</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 02:22:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Horas são definidas com o uso de relógios atômicos, de altíssima precisão, mas o calendário continua relacionado a fenômenos astronômicos, como a rotação da Terra e seu movimento em torno do Sol. *Por Oscar Matsuura O calendário é um sistema de contagem de dias inteiros que deve manter sincronia com algum ciclo relevante da natureza, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3720&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><a href="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/seed_sprout.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3756" title="seed_sprout" src="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/seed_sprout.jpg?w=780" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Horas são definidas com o uso de relógios atômicos, de altíssima precisão, mas o calendário continua relacionado a fenômenos astronômicos, como a rotação da Terra e seu movimento em torno do Sol.</p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por Oscar Matsuura</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O calendário é um sistema de contagem de dias inteiros que deve manter sincronia com algum ciclo relevante da natureza, para o controle quantitativo da passagem do tempo a longo prazo. Ele se concretiza na folhinha de parede, nas agendas etc. O nome vem de &#8220;calendas&#8221; que era o primeiro dia do mês para os romanos. Uma promessa para as calendas gregas só seria paga no dia de São Nunca. Em geral, todos os calendários são astronômicos, isto é, baseados no movimento aparente de astros. O movimento diurno do Sol define o dia solar cuja duração, na média anual, corresponde às 24 horas dos relógios comuns. Desde sempre ele regulou nosso descanso e atividade, a ponto de termos incorporado o ciclo circadiano. A contagem de intervalos de tempo mais curtos que o dia é feita por subdivisões como a hora, o minuto e o segundo de tempo, com instrumentos como a clepsidra, a ampulheta, o relógio ordinário etc.<span id="more-3720"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Mas as atividades humanas básicas, tanto práticas (cultivo da terra, criação de rebanhos, caça) quanto religiosas, demandam o controle da passagem do tempo a prazos mais longos. Para definir um conjunto natural de dias, os homens se valeram de outros movimentos aparentes. No movimento anual em relação às estrelas fixas e ao longo da eclíptica, o Sol cruza periodicamente o equador celeste, fato que define o ano das estações ou ano trópico de 365,2422&#8230; dias.</p>
<p style="text-align:justify;">Em aproximadamente 12 anos, Júpiter dá uma volta na esfera celeste. A menos dos laços com movimento retrógrado devidos à translação da Terra, a trajetória de Júpiter na esfera celeste se assemelha à eclíptica, e foi dividida pelos chineses em 12 mansões celestes. Júpiter reside numa delas cada ano. Sob a influência dos mongóis (séc. 8), cada mansão recebeu o nome de um animal que rege o ano chinês. O ciclo das fases da Lua, cujo período é o mês sinódico (29,53&#8230; dias), é um ciclo de mudanças do aspecto da Lua iluminada pelo Sol e vista da Terra. Há um movimento aparente correlacionado com as fases, mas ele é relativo ao Sol, não às estrelas fixas.</p>
<p style="text-align:justify;">O calendário islâmico é lunar, pois o mês nele definido mantém sincronia com as fases da Lua, mas não o ano em relação ao ano trópico. O período sinódico de Vênus com aproximada- mente 584 dias (583,92 dias), foi empregado no calendário maia. Durante uma metade desse período, Vênus é um astro matutino e durante a outra, vespertino. Mas o período de visibilidade como astro matutino ou vespertino é aproximadamente igual ao período da gestação humana. Talvez daí decorra a importância atribuída a esse planeta. Os maias sabiam que a cada 5 ciclos de 584 dias de Vênus, as aparições desse planeta voltavam a se repetir nas mesmas datas do ano. Com efeito, 584&#215;5=2920=365&#215;8, ou seja, cinco períodos sinódicos de Vênus correspondem a 8 anos de 365 dias. Seria, porém, muita coincidência que esses períodos astronômicos fossem múltiplos inteiros exatos do dia solar médio. Quase sempre, eles envolvem uma parte fracionária.</p>
<p style="text-align:justify;">O problema técnico do calendário é que, para ser prático, deve definir um período com um número inteiro de dias. Mas, esse período deve manter sincronia com um período astronômico que, geralmente, envolve uma parte fracionária do dia. A solução requer, de um lado, a determinação cada vez mais precisa da parte fracionária. De outro, uma representação aproximada, mas satisfatória dessa parte fracionária por meio de uma série finita de frações ordinárias. É essa série que prescreve as regras de inserção de um dia inteiro no calendário para manter a sincronia.</p>
<p style="text-align:justify;">O tempo hoje é controlado por relógios atômicos, cuja regularidade, baseada num fenômeno eletromagnético, é maior que a regularidade da rotação da Terra (fenômeno inercial) e da translação dos planetas ao redor do Sol (fenômeno gravitacional). No entanto, continuamos usando um calendário que ainda alude a fenômenos astronômicos, como que cumprindo o que Deus disse no quarto dia da criação: &#8220;Façam-se luzeiros no firmamento dos céus&#8230;; sirvam eles de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos&#8221;. (Gênesis, I, 14).</p>
<p style="text-align:justify;">Num calendário, a parte técnica, por ser racional, pode ser facilmente explanada. Mas há também elementos históricos e culturais, velhas tradições, superstições, designações obsoletas, equívocos, expressões de conhecimento incompleto dos antigos etc. Aqui trataremos também desta parte, pois ela explica muitos elementos obscuros e pouco lógicos do nosso calendário.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Calendários Antigos</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Dentre os calendários primitivos conhecidos, poderíamos falar do babilônico (sumério, assírio e caldeu), egípcio, chinês, hindu, hebraico, grego, maia, asteca, inca etc. Limitemo-nos ao calendário egípcio que está na origem do nosso. Na versão mais primitiva, o ano tinha 12 meses de 30 dias, totalizando 360 dias. Ainda no período pré-dinástico, por volta de 4200 a.C., foi criado um calendário lunar com 12 meses: 6 com 29 e 6 com 30 dias, totalizando 354 dias. O mês, em média, tinha 29,5 dias, uma boa aproximação para o mês sinódico. Um 13o mês era acrescentado cada 3, às vezes 2 anos, a critério dos vigilantes sacerdotes e astrônomos, para sincronizar esse calendário com o nascer helíaco de Sirius (Sótis para os egípcios), a mais brilhante estrela noturna. Esse evento denominado Iniciador do Ano, coincidia com a chegada da cheia do rio Nilo, em sincronia com as estações do ano.</p>
<p style="text-align:justify;">Por volta de 2900 a.C. foi oficializado um calendário com 365 dias. Mas o ano propriamente tinha apenas 12 meses de 30 dias (360 dias) divididos em três quadrimestres correspondentes às três estações regidas pelo Nilo: Cheia, Plantio e Colheita. No fim do 12o mês eram acrescentados cinco dias suplementares que não entravam no cômputo oficial dos dias. Esse era um calendário solar e o mês nele não mantinha sincronia com as fases da Lua. Mas um novo calendário lunar foi criado por volta de 2500 a.C. que procurava manter sincronia com o ano civil de 365 dias.</p>
<p style="text-align:justify;">Nessa época estiveram em vigor três calendários: os dois últimos e o antigo calendário lunar regulado pelo nascer helíaco de Sirius. Apesar de não manter sincronia com o ano trópico, o calendário solar com 365 dias ficou em vigor por mais de 4 mil anos, até mesmo depois da reforma juliana. Com base no nascer helíaco de Sirius, logo foi possível constatar que esse calendário ficava adiantado um dia a cada quatro anos, em relação ao ano trópico, de modo que uma duração mais precisa do ano seria (365+1/4) = 365,25 dias. Sendo supostamente a discrepância 0,25 dia, o número de anos desse calendário para acumular um erro igual a 1 ano de 365,25 dias é 365,25/0,25 = 1461 anos. Esse é o famoso &#8220;período sótico&#8221; de Fênix, ao cabo do qual essa ave mítica se imolava na pira do altar em Heliópolis. Das cinzas nascia uma outra Fênix para o período seguinte.</p>
<p style="text-align:justify;">Na época da fundação de Roma (753 a.C.), o calendário, de tradição etrusca, era bizarro e pouco prático. Tinha apenas 304 dias, distribuídos em dez meses: quatro com 31 dias e seis com 30 dias. O ano começava no mês de março com 31 dias e terminava em dezembro com 30 dias. A seqüência do número de dias dos meses era: 31, 30, 31, 30, 31, 30, 30, 31, 30 e 30. Esses meses não tinham relação com as fases da Lua. Os quatro primeiros meses tinham nomes próprios. A partir do quinto mês o nome era o seu número ordinal, de modo que o último mês, o décimo, era dezembro. O começo do ano em março estava relacionado com o começo da primavera no hemisfério norte. Os dias faltantes para o ano trópico, cerca de 61, eram desconsiderados. Correspondiam ao inverno quando não havia produção que devesse ser levada em conta.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas, já antes da fundação da República (509 a.C.), dois meses foram colocados no final do ano: janeiro e fevereiro, e o número de dias do ano deveria passar a ser 354. Esse número era baseado na tradição dos calendários lunares com 12 meses: seis com 29 dias e seis com 30 dias. O ano ficou com 355 dias porque aos deuses romanos agradavam os números ímpares! Dos 51 dias acrescentados, o mês de janeiro ficou com 29 dias e fevereiro com 28, sendo que seis destes provinham de um dia tirado de cada um dos seis meses que tinham 30 dias. A seqüência do número de dias dos meses, de março a fevereiro, ficou: 31, 29, 31, 29, 31, 29, 29, 31, 29, 29, 29, 28. O ano do calendário tinha agora uns dez dias a menos que o ano trópico. Para manter a sincronia com o ano trópico, foi criado um mês de 22 dias, Mercedonius, que era introduzido entre 23 e 24 de fevereiro, a cada dois anos. Mas assim, o ano do calendário ficou mais longo que o ano trópico.</p>
<p style="text-align:justify;">Tendo perdido o controle do calendário, a intercalação de Mercedonius passou a depender da decisão de oficiais do governo que se prevaleciam disso para favorecer os amigos. Esta era a situação nos tempos de Júlio César (100-44 a.C.). Para assessorá-lo na reforma, mandou chamar o astrônomo alexandrino Sosígenes.</p>
<p style="text-align:justify;">Na reforma em 45 a.C. (ano 708 da fundação de Roma), dez dias deveriam ser adicionados ao calendário. Janeiro, agosto e dezembro ganharam dois dias. Abril, junho, setembro e novembro ganharam um. Também ficou estabelecido que o novo ano começaria em 1o de janeiro, em vez de 1o de março. Assim, os meses de janeiro e fevereiro passaram a começar o ano. O número de dias dos meses, de janeiro a dezembro, ficou: 31, 28, 31, 30, 31, 30, 31, 31, 30, 31, 30, 31. O dia adicional do ano bissexto deveria ser inserido no mês de fevereiro que tinha 28 dias. Se fosse no fim desse mês, seria o dia 29, número ímpar. Mas sendo fevereiro um mês dos deuses subterrâneos do inferno, seu número de dias deveria continuar par. Então Júlio César fez o dia 24 de fevereiro se repetir duas vezes, sem contá-lo da segunda vez. O fato de esse ser o sexto dia antes das calendas de abril, deu origem ao nome bissexto.</p>
<p style="text-align:justify;">Também ficou estabelecido que o equinócio da primavera (no hemisfério norte) cairia no dia 25 de março. Para promover o acerto, o ano da reforma teve 455 dias e foi chamado o &#8220;ano da confusão&#8221;. O calendário juliano é solar. Nele, o mês não mantém sincronia com as fases da Lua.</p>
<p style="text-align:justify;">A semana é hoje adotada quase universalmente. Mas, por volta de 2500 a.C., o calendário lunar dos egípcios era dividido em décadas (dez dias). A origem do descanso semanal parece estar ligada aos babilônios que consideravam o número sete nefasto, de modo que nada devia ser feito no sétimo dia. Também eram sete os planetas na acepção primitiva, pois assim os antigos designavam os astros permanentes visíveis a olho nu, que se deslocam em relação às estrelas fixas. Teriam, portanto, dedicado cada dia da semana a um desses astros. Essa tradição foi assimilada pelo povo hebreu durante o cativeiro na Babilônia (587-538 a.C.). Trazida para o Ocidente, talvez no período alexandrino, a semana somente adquiriu status oficial no Concílio de Nicéia em 325.</p>
<p style="text-align:justify;">Os dias da semana eram originalmente designados pelos sete planetas, nesta ordem: Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. A língua portuguesa foi uma das que mais se afastou das designações primitivas, e as línguas anglo-saxônicas introduziram designações nórdicas. Por fim, o dia do Sol foi cristianizado e denominado domingo, Dia do Senhor (Dominica dies). O dia de Saturno foi chamado sábado, numa referência ao sabá judaico em que Deus descansou ao completar a criação (Gênesis, II, 1-3). Mas, diversamente dos judeus, sabatistas e adventistas do sétimo dia, os católicos descansam no domingo porque Cristo ressuscitou num domingo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Calendário Gregoriano</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O Concílio de Nicéia também estabeleceu as regras para definir a data da festa móvel da Páscoa. Várias outras celebrações atreladas à Páscoa também são móveis, como o Carnaval, a 4a. Feira de Cinzas, o Domingo de Ramos, a Sexta-Feira Santa, o Domingo de Pentecostes e Corpus Christi. Já no ano do Concílio, estando em vigor o calendário juliano, o início da primavera não ocorria em 25 de março, como pretendera Júlio César, mas no dia 21. A diferença era, portanto, de quatro dias. A Páscoa deveria ser celebrada no primeiro domingo depois da lua cheia que ocorre após ou no dia 21 de março, quando supostamente começaria a primavera no hemisfério norte.</p>
<p style="text-align:justify;">O ano do calendário juliano era mais longo que o ano trópico 365,25 &#8211; 365,2422&#8230; = 0,0078&#8230; dia. O erro acumulado era 0,78 dia por século ou um dia cada 128 anos. Hoje podemos saber que o erro acumulado até o Concílio de Nicéia não podia ultrapassar três dias. Portanto Sosígenes teria cometido um erro adicional de um dia já na implantação da reforma. Mas, sem saber da verdadeira duração do ano trópico, os membros do Concílio atribuíram todo o erro de quatro dias a Sosígenes, e decidiram adotar 21 de março para o início da primavera, como se daí para a frente o calendário mantivesse essa data indefinidamente. Ledo engano. Um novo descompasso de mais de três dias, a partir do Concílio, já foi notada em 730 pelo beneditino inglês, o Venerável Beda. Embora a imprecisão do calendário fosse óbvia e o descontentamento justificado, ainda não se conhecia bem a duração do ano trópico para se promover uma boa reforma.</p>
<p style="text-align:justify;">Beda foi o introdutor da sigla A.D. (anno Domini), mas a era cristã foi adotada pela Igreja em 532 por sugestão do monge Dionísio, o Pixote, e pela sociedade secular, pela primeira vez, na época carolíngea (século 9). Era é o instante igual a zero (não existe ano zero) escolhido para iniciar a contagem do tempo, por exemplo, a suposta data da criação do mundo segundo os judeus (3761 a.C.), a fundação de Roma (753 a.C.), o início das Olimpíadas gregas (776 a.C.), a Hégira (fuga de Maomé de Meca para Medina em 622). A era cristã é o nascimento de Cristo cuja data verdadeira seria pelo menos quatro anos anterior à proposta por Dionísio: 25 de dezembro do ano 753 da fundação de Roma. Além disso, os cronologistas retardaram sete dias o início da era cristã, para que coincidisse com o início do ano 754 da fundação de Roma. No fim das contas ficou consagrado que a era cristã é o instante que separa o fim do ano 753 da fundação de Roma (ou 1 a.C.), do início do ano 1 d.C..</p>
<p style="text-align:justify;">No século 15, já em pleno Renascimento, a discrepância entre o calendário e o início da primavera tinha triplicado e as queixas aumentaram. Então o papa Sisto IV chamou para Roma o astrônomo Johannes Miller, mais conhecido como Regiomontanus, pois era de Königsberg (Kaliningrado), para assessorá-lo. Mas Regiomontanus morreu em 1476 sem completar a reforma. Reivindicada no encerramento do Concílio de Trento em 1563, ela foi finalmente realizada pelo papa Gregório XIII, em 1582, com a assessoria do jesuíta e astrônomo alemão Christoph Clavius (1537-1612). Foram editadas as regras para o futuro e providenciadas as correções para os erros do passado. No ano da reforma, o equinócio caia no dia 11 de março, dez dias antes do dia prescrito pelo Concílio de Nicéia. O papa decretou em 24 de fevereiro de 1582 pela bula pontifícia, Inter gravissimas, que o dia seguinte à quinta-feira, 4 de outubro, seria a sexta-feira, 15 de outubro de 1582. Assim, a partir de 1583, o equinócio da primavera voltou a cair no dia 21 de março. As regras a serem seguidas se baseavam numa representação aproximada da parte fracionária do ano trópico através da seguinte série de frações ordinárias: 365,2422&#8230; ~ 365 + 1/4 &#8211; 1/100 + 1/400 = 365,2425.</p>
<p style="text-align:justify;">O termo + era o último da reforma juliana. O termo 1/100 com sinal negativo significa que a cada século um ano bissexto deve ser omitido, mas o termo 1/400 com sinal positivo indica que a exclusão anterior deve ser omitida a cada quatro séculos. Um excesso na aproximação de 0,0003 = 3/10000 significa que, em 10 milênios, o equinócio terá três dias de antecedência!</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Diminuição da rotação da Terra</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Eventuais variações do ano trópico são menos importantes que o aumento da duração do dia solar por causa da diminuição secular da rotação da Terra. Por isso, em 1900, o segundo de tempo, antes definido como 1/(24x60x60) = 1/86400 do dia solar médio, passou a ser definido como 1/31556925,9747 do ano trópico de 1900. Mas, com o advento dos relógios atômicos, a partir de 1967, o segundo passou a ser definido como a duração de 9192631770 períodos de oscilação da radiação correspondente à transição quântica entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo do isótopo 133 do Césio.</p>
<p style="text-align:justify;">Estima-se que a duração do dia solar médio aumenta atualmente cerca de 0,0005 segundo por século, tendo como causa principal a diminuição da rotação da Terra. Esta é causada pela transferência da rotação da Terra, via marés, ao movimento orbital da Lua. Conseqüentemente, a Lua afasta-se da Terra cerca de quatro centímetros por ano. Mas o efeito cumulativo da diminuição da rotação da Terra cresce proporcionalmente, não ao tempo, mas ao seu quadrado. As confirmações mais convincentes vêm da análise de registros de eclipses totais do Sol ocorridos há vários milênios. Há um milênio, o erro acumulado era da ordem de uma hora, há dois milênios, da ordem de quatro horas, e assim por diante. Sedimentos modulados pelas marés, portanto pelo movimento da Lua há 900 milhões de anos, indicam que o dia então durava apenas 18 horas e o ano tinha 480 dias. Em 10 mil anos, o erro acumulado será de 100 horas, isto é, mais de quatro dias. Portanto, não vale a pena encetar uma reforma do calendário para introduzir a fração seguinte pois, a atual diminuição da rotação da Terra já dará conta disso até em excesso.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FONTE: <a href="http://www2.uol.com.br/sciam/" target="_blank">Scientific American Brasil</a></strong><a href="http://www2.uol.com.br/sciam/" target="_blank"> </a></p>
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		<title>O Tempo e o Destino</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 02:20:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
				<category><![CDATA[...Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Carl Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Cronos e Kairos]]></category>
		<category><![CDATA[Individualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Subjetividade Contemporânea]]></category>

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		<description><![CDATA[*Por Angelita Corrêa Scardua Na mitologia grega Cronos é o deus do tempo e das estações, mas ele não era a única referência imaginária que os habitantes da Grécia utilizavam para classificar o tempo, Kairos era a outra. Significando “o momento certo” ou “oportuno”, Kairos opunha-se ao tempo cronológico, este tempo sequencial que medimos por [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3731&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><a href="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/earliest-possible-signs-of-pregnancy.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3745" title="Earliest-Possible-Signs-Of-Pregnancy" src="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/earliest-possible-signs-of-pregnancy.jpg?w=780" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por <a href="http://www.angelitascardua.wordpress.com" target="_blank">Angelita Corrêa Scardua</a></strong></p>
<p style="text-align:justify;">Na mitologia grega Cronos é o deus do tempo e das estações, mas ele não era a única referência imaginária que os habitantes da Grécia utilizavam para classificar o tempo, Kairos era a outra. Significando “o momento certo” ou “oportuno”, Kairos opunha-se ao tempo cronológico, este tempo sequencial que medimos por quantidades: em dias, números e horas. Kairos corresponde ao tempo existencial, à qualidade da experiência vivida e, nesse sentido, equivale a um momento indeterminado no tempo em que algo especial acontece. Por sua natureza adaptativa e circunstancial, Kairos era central para o pensamento sofista. Os sofistas acreditavam que a vida bem vivida dependia da capacidade de uma pessoa para se adaptar e tirar proveito da mudança e das circunstâncias contingentes. Essa diferenciação da vivência do tempo, entre qualitativo e quantitativo, é também utilizada na Teologia, onde Kairos é definido como o &#8220;tempo de Deus&#8221; enquanto Cronos é o &#8220;tempo dos homens&#8221;.<span id="more-3731"></span></p>
<p style="text-align:justify;">A diferenciação entre tempo qualitativo e quantitativo feita pelos antigos gregos já não faz parte do Imaginário humano. Não oficialmente, pelo menos! Vivemos indubitavelmente sob a égide do deus Cronos, com a vida classificada ordenadamente em períodos e estágios que se seguem numa sequência pré-definida do que deve ser, como e onde. Afinal, Cronos se adequa bem melhor à concepção de um mundo racional, no qual o planejamento de metas, o autocontrole e a adequada administração do tempo são definidos como ferramentas essenciais para uma vida bem sucedida. Kairos, com sua natureza essencialmente emocional e sensorial, que exige a fruição com a experiência, o acompanhar da oportunidade inesperada e do momento imprevisto, vai sendo paulatinamente varrido da consciência. Do dia e hora de nascimento das crianças à programação de lazer no fim de semana, em cada momento nos esforçamos para assumir o controle do tempo, alimentando assim a esperança de que estamos no comando da própria vida.</p>
<p style="text-align:justify;">A crença de que é possível prever, programar e planejar o tempo da vida tem suas vantagens, ela nos permite ordenar as tarefas do dia-a-dia, fazer poupança, constituir patrimônio, erigir uma carreira e muito mais. Por um lado, em qualquer circunstância na qual a realização de algo depende de um conjunto de ações encadeadas, a presença de Cronos se faz necessária e desejável. Por outro, o seu domínio pode escravizar, engessando a vida numa busca incessante por controle. A supremacia do tempo cronológico na regulação da experiência pode nos tornar temerosos a tudo que foge à ordem pré-estabelecida. Mais do que isso, ao priorizarmos Cronos em nossa consciência, corremos o risco de sufocar o potencial psicológico de kairos no inconsciente, negando à mente o espaço necessário para a fruição com o que não é planejado. Dessa forma, nossa percepção de Cronos, por não se beneficiar do contraponto adaptativo de Kairos, deixa de ser um instrumento de integração ao ciclo da vida. Esse desequilíbrio perceptivo nos leva a temer o fluxo temporal que assinala a experiência biológica e nos prepara física e emocionalmente para os diversos papeis que devemos representar no decorrer da existência. Assim, quando relegamos Kairos ao obscurantismo da inconsciência, Cronos emerge apenas como o ceifador terrível, aquele que nos rouba o tempo de viver devorando os dias e as experiências neles vividas.</p>
<p style="text-align:justify;">O temor da passagem do tempo como símbolo da dominância psicológica de Cronos nas mentes contemporâneas – afinal, só nos submetemos àquilo que nos aterroriza – pode ser percebido em vários aspectos. A obsessão com a juventude, e as inúmeras tentativas de tentar preservá-la em procedimentos cirúrgicos e na supervalorização de estilos de vida juvenis, é apenas um deles. A crescente empolgação de um número cada vez maior de pessoas com substâncias que alteram a percepção do tempo, sejam ilícitas como a cocaína ou a maconha, sejam lícitas como o álcool ou os antidepressivos, é outro. Na tentativa de fuga do poder avassalador de Cronos, a fantasia de um tempo não ordenado, não controlável, vem sendo alimentada compulsivamente em situações de “escape” da realidade objetiva: nos roteiros de livros e filmes celebrados, onde séculos e mundos entrelaçam-se magicamente no presente como cenário para seres imortais e jovens com superpoderes; em festas como o Carnaval ou as Raves, nas quais as noites e os dias se amalgamam num fluxo contínuo; na sedução do mundo virtual, onde as horas “voam” e as distâncias não existem&#8230; É assim que, em nossa época, Kairos tenta solapar seu banimento para o inconsciente, emergindo nesses intervalos forçados nos quais buscamos ludibriar a foice de Cronos e romper com a inevitabilidade da passagem do tempo.</p>
<p style="text-align:justify;">O kairos que emerge do inconsciente nas brechas temporais em que simulamos o distanciamento de Cronos, porém, não é suficiente para enfrentarmos o medo do avanço do tempo. Esse Kairos é apenas a pálida sombra de um momento capaz de se contrapor ao movimento irreversível do calendário, pois ele não oferece de fato a possibilidade de nos adaptarmos à oportunidade trazida pelo inesperado. Esse kairos, não reconhecido e não celebrado pela consciência, somente nutre a desconfortável sensação de que nos enredamos num tempo cuja extensão não somos realmente capazes de perceber. E, ao nos depararmos com a constatação de que já não vemos o tempo passar, sentimos que o “momento certo” mais uma vez nos escapou e que a vida nos atropela. Talvez por isso a mente contemporânea tema tanto quanto a passagem do tempo o destino. O temor ao destino, e até mesmo à ideia de sua existência, atormenta quem vive nos tempos atuais como talvez nunca antes tenha atormentado outro grupo humano. A dominância de Cronos não apenas nos rouba a confiança na capacidade de adaptação ao desconhecido e inesperado, ela também nos rouba o sentimento de que os eventos da vida, por mais inusitados que sejam, atendem a um propósito, a um sentido e a um significado que faz com que a nossa história seja a expressão do um destino individual.</p>
<p style="text-align:justify;">A ideia de que cada ser humano possa estar submetido a um destino, a um caminho no qual nossas escolhas apenas refletem aquilo que já está reservado para nós, é assustadora para a mente contemporânea. Assim como alimentamos a fantasia de que podemos controlar o tempo – manipulá-lo, ordená-lo e prolonga-lo ao nosso bel prazer – também nos apegamos à crença de que a vida é um livro em branco no qual redigimos a nossa história unicamente a partir do que desejamos fazer com ela. Com isso, psicologicamente falando, a luta do homem contemporâneo contra o tempo e o destino torna-se reflexo do seu incômodo diante do inevitável. A idade, a perda, o fim, a mudança, a transformação e todas as coisas que nos fazem perceber nossa vulnerabilidade diante dos fluxos da existência, são vistas como inimigas as quais devemos combater. O medo do desconhecido, do que não é controlável, sempre acompanhou a humanidade e ela sempre tentou enfrentá-lo.</p>
<p style="text-align:justify;">Do sacrifício de animais para negociar com a vontade inquestionável dos deuses à postergação da gratificação de uma vida mundana em troca da felicidade eterna. De muitas maneiras, no decorrer de sua história, os seres humanos tentaram lidar com e conter aquilo que não podem totalmente controlar ou prever. A diferença entre nós e os humanos de outras épocas é que acreditamos que com o uso da vontade e da razão podemos driblar as forças incontroláveis que desafiam o nosso desejo consciente. O tempo e o destino, duas dessas forças, são simbolicamente domados e adequados ao modelo de um mundo guiado pela racionalidade. Destituímos o tempo de seu caráter espontâneo e inesperado, que era próprio de Kairos, e privilegiamos sua face cronológica, ajustável e previsível. Despimos o destino de seu significado mítico, adornamo-lo com as cores da superstição e da ignorância, transformando-o em motivo de pilhéria e atribuindo-lhe o valor das mentes simplórias. Acreditávamos, assim, que estaríamos seguros, livres da angústia gerada pelas surpresas que podem nos pregar as circunstâncias que não antevemos ou planejamos. Ledo engano!</p>
<p style="text-align:justify;">A biologia com sua força cíclica nos confronta a todo o momento com nossa fragilidade diante dos ditames do tempo. O nascimento, o crescimento, o envelhecimento, a vida, enfim, nos lembra do destino particular de todo ser vivo e de toda criação que dele se origina: a morte. Cronos em sua magnitude ordenada e previsível nos leva ao encontro de Kairos, ainda que contra a nossa vontade. No imprevisto do tempo, seja da duração de um relacionamento ou de uma vida, seja no surgimento de um temporal ou no aparecimento de uma doença, Kairos emerge na esteira de Cronos e altera o ritmo das horas, dias e anos que havíamos cuidadosamente planejado. Infelizmente, nem sempre sabemos tocar as notas do momento rítmico de Kairos, e perdemos muitas chances de ouvir o destino que se anuncia. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Gustav_Jung" target="_blank">Carl Jung</a>, o psiquiatra suíço idealizador da Psicologia Analítica, acreditava que quando aceitamos o nosso destino tendemos a ver deus nele, mas quando travamos com ele um combate passamos a ver o diabo. O que ele queria dizer é que o destino de uma pessoa é tão somente a expressão da sua individualidade. Dito de outra forma, ao encontramos o sentido da nossa genuína individualidade, ao nos tornamos aquilo que somos ou podemos ser, adquirimos a sensação e o sentimento de que os <a href="http://angelitascardua.wordpress.com/2011/03/31/sincronicidade/" target="_blank">eventos inesperados da vida possuem um significado</a>, um objetivo, que pode ser vivenciado e aprendido em acordo com nossa capacidade de adaptação e de entendimento.</p>
<p style="text-align:justify;">Sendo assim, o destino seria um desdobramento do tempo, a causa do movimento de Cronos – que traz do passado a definição dos ciclos, instaurando o que é necessário e eliminando o que já não serve mais – e cuja consequência é a oportunidade trazida por Kairos, gerada principalmente por nossa capacidade de entrar em sintonia com o que vivemos no momento presente visando o instante futuro. Na visão junguiana, portanto, quanto mais nos afastamos de nós mesmos, quanto mais nos submetemos aos ditames das regras pré-ordenadas e dos padrões pré-definidos que visam controlar a experiência, seja em função das restrições coletivas ou individuais, menos nos sentimos um indivíduo. Ao abdicarmos de nossa individualidade, entramos em combate com o nosso destino, pois, negligenciamos a função de Cronos e perdemos o contato com Kairos. Dentro dessa perspectiva psicológica, podemos dizer que ao nos tornarmos indivíduos, nos tornamos capazes de exercer o livre arbítrio. O livre arbítrio, por sua vez, seria a capacidade de fazer de bom grado o que é preciso fazer. Melhor dizendo, o livre arbítrio seria a capacidade de vivenciar o tempo em sua duplicidade complementar: aceitando e acolhendo os ciclos de vida determinados por Cronos para aprender a reconhecer e usufruir das oportunidades inesperadas e instantâneas de Kairos. Adaptar-se! A regra de ouro dos Sofistas também parece ser o verbo da individualidade e a palavra na qual se narra um destino no ritmo dos tempos. E não somente para os antigos Gregos, mas também para nós.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Angelita Corrêa Scardua é Mestre em Psicologia Social pela USP/SP, Psicóloga especializada em Felicidade e Desenvolvimento Adulto e Professora.</strong></p>
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		<title>O Sentido do Tempo</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 02:20:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
				<category><![CDATA[...Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Cérebro]]></category>
		<category><![CDATA[Parkinson]]></category>
		<category><![CDATA[Percepção do Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Relógio Interno]]></category>

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		<description><![CDATA[Nosso cérebro recebe e interpreta informações com um ritmo particular, com base em referências mais ou menos realistas. *Por Alberto Oliverio Cada um de nós possui uma espécie de relógio interno que determina, por exemplo, a agilidade com que digitamos as teclas de um computador, a cadência da fala ou a velocidade com que um [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3729&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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<p style="text-align:justify;">Nosso cérebro recebe e interpreta informações com um ritmo particular, com base em referências mais ou menos realistas.</p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por Alberto Oliverio</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Cada um de nós possui uma espécie de relógio interno que determina, por exemplo, a agilidade com que digitamos as teclas de um computador, a cadência da fala ou a velocidade com que um pianista converte uma partitura em som. Em todos esses casos o cérebro recebe e interpreta informações com um ritmo particular, com base em referências mais ou menos realistas.<span id="more-3729"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Um teste simples permite observar como essa ritmicidade varia de indivíduo para indivíduo: peça para uma pessoa tamborilar as teclas de um piano usando apenas o dedo médio, primeiro de forma “rápida” (três batidas por segundo) e, depois, de um jeito mais “lento” (uma batida por segundo). Em seguida, oriente outra pessoa a fazer esse mesmo exercício: apesar da instrução de quantos toques devem ser dados por segundo, ela certamente baterá nas teclas do instrumento de forma antecipada ou retardada em relação à outra. Ambas nada mais fizeram do que distribuir as batidas de acordo com sua percepção do que são três ou um toque por segundo. Essa individualidade na forma de medir o tempo já havia sido descrita pelo fisiologista alemão Ernst Weber na primeira metade do século 19. Ele observou que todos temos uma escala de tempo similar, mas que invariavelmente pende para mais breve ou mais longa.</p>
<p style="text-align:justify;">Podemos descrever essa escala de tempo como uma espécie de régua de borracha que pode ser afrouxada ou esticada para abarcar cada intervalo de tempo, de segundos a dias. Os &#8220;números&#8221; da régua não fornecem uma medida objetiva, mas &#8220;elástica&#8221;, relativa. O “erro” de medição é proporcional a cada ritmo particular. Por exemplo, uma aceleração ou um retardamento de 10% se aplica tanto a curtos intervalos de tempo (segundos) como a longos períodos (horas ou dias), o que sugere a presença do relógio interno e impreciso que regula nosso cérebro.</p>
<p style="text-align:justify;">Estudos feitos com doentes de Parkinson têm ajudado a desvendar os mecanismos neurais subjacentes à forma de avaliar o tempo. O Parkinson é uma doença neurodegenerativa que, em estágio avançado, atinge os gânglios da base, estrutura neural que tem a dopamina como neutransmissor e está associada a funções como controle motor e cognição. Os principais sintomas do distúrbio são, portanto, problemas de motricidade (rigidez muscular, tremores, dificuldades para realizar movimentos) e de memória.</p>
<p style="text-align:justify;">O Parkinson apresenta, no entanto, um aspecto que, apesar de conhecido, é considerado secundário pelos clínicos: a distorção do sentido de tempo. Pessoas com a doença tendem a subestimar espaços de tempo inferiores a meio segundo e a superestimar períodos um pouco mais longos, de 30 segundos até um minuto. Ou seja, experimentam perda de precisão na estimativa de tempo, o que leva a uma desaceleração da maior parte das ações. Isto não envolve apenas dificuldades em executar movimentos, mas também uma percepção deturpada do mundo ao redor. Essa distorção pode ser corrigida com a administração de precursores de dopamina, que regularizam o funcionamento dos neurônios dos gânglios da base. Quando os níveis desse neurotransmissor estão normalizados, os espaços de tempo curtos se tornam mais longos e vice-versa. Dessa forma, a percepção do tempo vai encaixar-se novamente na descrição de Weber.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Alberto Oliverio psicobiólogo, é diretor do Centro de Neurobiologia da Universidade La Sapienza, na Itália.</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FONTE: <a href="http://www2.uol.com.br/vivermente/" target="_blank">Mente &amp; Cérebro</a></strong><a href="http://www2.uol.com.br/vivermente/" target="_blank"> </a></p>
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		<title>A Experiência Psicológica da Duração</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 02:18:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
				<category><![CDATA[...Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Cronobiologia]]></category>
		<category><![CDATA[Experiência de Duração]]></category>
		<category><![CDATA[Experiência Subjetiva]]></category>
		<category><![CDATA[Tempo Psicológico]]></category>

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		<description><![CDATA[*Por César Ades Ensa ezzamân uezzamân yensâk Esquece o tempo que ele te esquecerá Em O milagre secreto, Jorge Luis Borges conta a história do escritor checo Jaromir Hladík que, trazido diante do pelotão que irá executá-lo, no último instante vê o tempo paralizar-se, por um ano ou assim lhe parece, o suficiente para que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3717&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><a href="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/time-wallpaper.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3757" title="time-wallpaper" src="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/time-wallpaper.jpg?w=780" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por César Ades</strong></p>
<p><em>Ensa ezzamân uezzamân yensâk</em><br />
<em> Esquece o tempo que ele te esquecerá</em></p>
<p style="text-align:justify;">Em O milagre secreto, Jorge Luis Borges conta a história do escritor checo Jaromir Hladík que, trazido diante do pelotão que irá executá-lo, no último instante vê o tempo paralizar-se, por um ano ou assim lhe parece, o suficiente para que possa compor a peça de teatro que muito ambicionava escrever. Na verdade, a execução não demora mais do que alguns segundos. A ficção apresenta, em forma limite, um dos aspectos curiosos da vivência psicológica do tempo, que é de esticar-se ou comprimir-se de acordo com o contexto de afeto ou ação, em desrespeito aparente ao tempo do relógio.<span id="more-3717"></span></p>
<p style="text-align:justify;">O paradoxo do senso do tempo é que, constituindo uma característica geral e permanente do comportamento, ele não decorra, diretamente, de dados sensoriais. Não existe um órgão dos sentidos especializado em perceber o tempo. Temos experiência de coisas que permanecem e coisas que mudam, de coisas que se sucedem, de coisas que ocorrem juntas, a dimensão temporal vem, por assim dizer, incorporada nos eventos que lhe constituem o conteúdo. &#8220;O tempo&#8221;, dizia o filósofo Mach, &#8220;é uma abstração à qual chegamos através da mudança das coisas&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">Não estranha, então, que a avaliação da duração, dependa de dicas externas ao tempo enquanto tal, de eventos marcadores, e que esta avaliação possa sofrer o que, injustamente, porque nos colocando apenas do ponto de vista do tempo físico, chamaríamos de distorções. Os psicólogos, de James em diante, têm se mostrado fascinados pela subjetividade da estimativa da duração, pelas discrepâncias que o desejo e o desempenho criam, em relação a um tempo codificado socialmente, e têm se esforçado em determinar a causalidade envolvida.</p>
<p style="text-align:justify;">Neste trabalho, proponho-me retomar a questão da vivência psicológica da duração, indicando alguns dos modos mais relevantes através dos quais inflaciona-se ou encolhe-se o tempo percebido. Como muitos autores, considerarei a duração como uma construção, uma inferência efetuada pelo indivíduo a partir da informação disponível. Contudo, o fato de ser uma construção não a torna arbitrária ou aleatória, não a isola do complexo jogo de interações através das quais o indivíduo conhece seu ambiente e age sobre ele. Ao contrário, vejo, na capacidade de levar em conta o tempo, uma característica adaptativa essencial.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>A Água da panela parece que não vai ferver, se eu a observar.</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A densidade de eventos é um fator importante na determinação da vivência subjetiva. Um intervalo de tempo homogêneo, vazio de acontecimentos, um intervalo em que algo está para acontecer, mas não acontece parecem durar muito mais do que de fato duram. A fila num guichê de repartição pública, a espera de uma carta, e outras situações tediosas ou de expectativa ilustram a idéia. Diz o provérbio inglês &#8220;a watched pot never boils&#8221;, uma panela vigiada nunca chega a ferver.</p>
<p style="text-align:justify;">A estimativa de duração depende, contudo, da perspectiva em que se coloca a pessoa, se atenta ao tempo, durante sua passagem, se simplesmente vivenciando e julgando depois. Os psicólogos costumam distinguir uma situação de julgamento prospectivo, em que a pessoa tem consciência de que terá de fornecer um juízo sobre a duração de uma certa experiência, e uma situação de julgamento retrospectivo em que emite sua opinião a posteriori, sem ter sido avisada de que o tempo era dimensão relevante.</p>
<p style="text-align:justify;">Block, George e Reed usaram a própria panela do provérbio – e água – para testar a importância da densidade de eventos na percepção da duração. Os seus sujeitos tinham como tarefa, simplesmente esperar um pouco (270 segundos) olhando para um vidro pyrex sobre um aquecedor elétrico. Alguns (condição prospectiva) sabiam que teriam de julgar a duração do intervalo, outros não (condição retrospectiva). O conteúdo de eventos era manipulado da seguinte maneira : a) a água do recipiente podia ferver ou não, nos últimos segundos do intervalo (&#8220;ferver&#8221; representa maior riqueza de eventos do que &#8220;não ferver&#8221;); b) algumas perguntas podiam ser formuladas ou não durante a observação do recipiente.</p>
<p style="text-align:justify;">O intervalo subjetivo era geralmente maior quando os sujeitos tinham conhecimento prévio da tarefa (prestando, portanto, maior atenção ao tempo) do que na condição retrospectiva. Os 270 segundos do intervalo tornavam-se, em média, 289 segundos, no primeiro caso, 230 segundos no segundo, num dos experimentos. Mais interessante foi o resultado relativo ao &#8220;conteúdo&#8221; do intervalo: em condição prospectiva a estimativa era maior quando não ocorria nada durante o intervalo; em condição retrospectiva, ao contrário, menor.</p>
<p style="text-align:justify;">Como interpretar essa assimetria? Um evento, ocorrido num contexto vazio, parece distrair da duração e encurtar o tempo. Em condição retrospectiva, acrescenta material à memória, fornece mais uma dica para um julgamento do tipo &#8220;quanto mais eventos houver, maior o tempo passado&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O Duplo processo de julgamento: Prospectivo vs. Retrospectivo</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Dois seriam, portanto, os critérios para a mensuração subjetiva do tempo, critérios tomados dicotomicamente pela maioria dos estudiosos. Os julgamentos prospectivos seriam baseados no registro de unidades temporais, acumuladas e armazenadas na memória, em condições de competição de atenção com a atenção dedicada a informações não temporais do mesmo intervalo. Quanto mais complexa, quanto mais absorvente, quanto mais interessante a tarefa executada durante um intervalo, menor a atenção ao tempo, menor a duração subjetiva.</p>
<p style="text-align:justify;">Modelos relativos à duração lembrada (retrospectiva), não postulam a existência de um mecanismo temporizador, porque supõem que, sem pré-aviso, os indivíduos normalmente não prestam atenção à passagem do tempo. Para seus julgamentos, levam em conta apenas o conteúdo da informação lembrada. Quando mais complexa a informação, maior a duração subjetiva. De acordo com a hipótese arrojada de Ornstein a duração estimada seria proporcional à quantidade de estímulos armazenados na memória: equaciona-se, desta maneira, percepção de tempo e processamento mnêmico.</p>
<p style="text-align:justify;">Wilsoncroft e colaboradores, entre muitos outros, forneceram argumentos experimentais a favor da hipótese de uma divisão da atenção. Mostram que a execução de uma tarefa de cálculo mental, durante um intervalo entre 12 e 20 segundos, leva a uma subestimação do mesmo em relação a intervalos de controle; o mesmo acontece quando os indivíduos têm de executar uma tarefa de Stroop, ou seja, nomear a cor em que está escrita uma palavra referente a uma cor diferente – por exemplo, dizer azul diante da palavra amarelo impressa em cor azul.</p>
<p style="text-align:justify;">É interessante notar, neste último experimento, que os indivíduos que usavam uma estratégia de contagem, para estimar os intervalos, tinham julgamentos mais precisos do que os que não recebiam instrução para utilizá-la: o contar não distrai, oferece um instrumento para recortar, por assim dizer, o intervalo e favorece o armazenamento mnêmico do registro. O observador do tempo não é passivo receptáculo de informação a respeito das constâncias e mudanças ambientais, deve ser visto como impondo, através de eventos marcadores que ele próprio gera, uma estrutura temporal às coisas.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>A Teoria da Mudança/Segmentação: A estimação do tempo como processo ativo</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O uso de estratégias ativas de estimação é ressaltado, como aspecto central, na teoria da mudança/segmentação. Segundo Poynter, como também para Fraisse, &#8220;toda percepção de tempo é percepção de mudança&#8221;. Um tecido homogêneo de eventos carrega uma mensagem de parca duração; torna-se mais e mais imbuído de substância temporal à medida que se diferencia internamente. O julgamento de duração baseia-se na capacidade de o indivíduo lembrar-se da seqüência de eventos experienciados durante o intervalo e na capacidade de inferir a duração entre eventos sucessivos.</p>
<p style="text-align:justify;">A segmentação consiste nos recortes, na ritmicidade que o indivíduo cria para preencher e segmentar o tempo (mesmo um tempo &#8220;vazio&#8221;), nas estratégias como bater o pé, tamborilar com o dedo, contar, cantar. Essas estratégias talvez sejam um componente natural do mecanismo de espera e de avaliação espontânea do tempo: crianças de 7 anos de idade já usam, de forma espontânea, a contagem como método de avaliação temporal.</p>
<p style="text-align:justify;">Quando um indivíduo sabe que terá de estimar um certo intervalo, já vem pronto para segmentá-lo a fim de melhorar a sua atuação. Para escolher a unidade apropriada de recorte, parte de sua expectativa a respeito do intervalo global. Intervalos maiores justificarão o uso de segmentos maiores. &#8220;A estimação do tempo com relógios feitos pelo homem e os mecanismos perceptuais&#8221;, nota Poynter, &#8220;seguem a mesma regra simples: não se usa um cronômetro de milisegundos para medir durações de horas, nem um relógio solar para avaliar milisegundos&#8221;. A analogia é instrutiva: o tempo social e o tempo da ciência constituem modelos de segmentação – eu diria de ritmização, uma vez que recortar significa introduzir unidades recorrentes – através dos quais o homem conceitualiza e domina a duração.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Uma proposta de unificação entre os processos de avaliação, prospectivo e retrospectivo</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A distinção entre julgamentos prospectivos e retrospectivos, entre um tempo do qual o indivíduo tem plena consciência e que, por assim dizer, sente passar, e um tempo vivido espontaneamente, avaliado a posteriori, é uma distinção válida, na medida em que ajuda a discernir os fatores envolvidos na tarefa de captar a duração. Não me parece, contudo, que justifique entender-se os processos envolvidos como isentos de interação.</p>
<p style="text-align:justify;">Em condições prospectivas, o indivíduo obviamente tem de esperar que passe o intervalo para emitir seu julgamento: não levará apenas em conta uma contagem temporal efetuada durante a vivência do intervalo, como sugerem as teorias dicotômicas; poderá valer-se da estrutura de eventos que lhe compõe o conteúdo, uma vez que esta estrutura está em sua memória. No caso retrospectivo, de outro lado, ele não dispõe apenas da lembrança dos conteúdos, para efetuar seu julgamento; também terá acesso a um registro temporal, análogo, senão idêntico, ao efetuado, de acordo com essas teorias, em condição prospectiva. Mudará, entre condições, a influência relativa das dicas de conteúdo e das dicas de temporização.</p>
<p style="text-align:justify;">Predebon usou um delineamento engenhoso para verificar se, em situação retrospectiva, somente são levadas em conta informações quanto ao conteúdo de eventos ocorridos durante o intervalo a ser avaliado. Seus sujeitos eram expostos a dois intervalos de tempo (16 e 32 segundos), sendo cada um preenchido seja com a apresentação de 4 palavras, seja com a apresentação de 8 palavras, estas palavras servindo como eventos. O julgamento de duração era efetuado retrospectivamente. Os resultados confirmam a expectativa mostrando que a quantidade de eventos era tomada como dica da passagem do tempo : intervalos de 32 segundos eram avaliados como significativamente maiores quando continham 8 eventos do que quando continham apenas 4. Mas acrescentam um resultado que hipóteses correntes a respeito da dicotomia Prospectivo-Retrospectivo aparentemente não permitiriam prever: intervalos contendo o mesmo número de eventos eram avaliados como menores ou maiores, dependendo de sua duração objetiva. Um intervalo de 32 segundos era considerado mais demorado do que um de 16 segundos, apesar de ser igual o número de eventos (4 eventos) inserido em ambos.</p>
<p style="text-align:justify;">Poder-se-ia, para salvar a dicotomia Prospectivo-Retrospectivo, supor que os indivíduos não registram apenas os eventos apresentados pelo experimentador; em 32 segundos, teriam tempo de registrar mais eventos &#8220;informais&#8221; (pensamentos que passam pela cabeça, percepções do local onde ocorre o experimento, etc.) do que em 16 segundos e assim, teriam base para uma avaliação diferencial, mesmo que idêntica a quantidade &#8220;formal&#8221; de eventos.</p>
<p style="text-align:justify;">Prefiro supor que as pessoas, mesmo quando (como no paradigma retrospectivo) não foram levadas a prestar atenção à passagem do tempo, o avaliam assim mesmo através de um processador temporal automático. O que implica em considerar que os mesmos processos atuam em ambos os paradigmas, Prospectivo e Retrospectivo, uma posição teórica capaz de dar conta dos resultados conflitantes da pesquisa sobre percepção de duração.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Um relógio interno</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Dados cada vez mais numerosos da pesquisa básica com modelos animais levam a conceber a existência de uma estrutura neural capaz de gerar sinais temporais que o organismo interpretaria como indícios de duração. A idéia de relógio biológico ganhou destaque com as pesquisas cronobiológicas que demonstram a incrível generalidade dos fenômenos rítmicos endógenos, no comportamento ou na fisiologia dos organismos. Refiro-me aqui a outro tipo de relógio, um marca-passo que funcionaria em intervalos relativamente curtos e que teria sua vigência determinada, não através de fatores rítmicos ou zeitgebers, mas via eventos iniciadores e terminadores ambientais. Este relógio interno é que estaria envolvido, juntamente com a informação sobre a constância e a mudança das coisas, na avaliação dos intervalos de tempo. Sabemos muito pouco, ainda, sobre a fisiologia desse marca-passo hipotético e sobre sua relação com o relógio dos ritmos biológicos amplos. Há indícios de que a avaliação de duração, como outros fenômenos comportamentais, está sujeita a flutuações circadianas regulares, um indício de que os dois relógios mantêm-se conectados.</p>
<p style="text-align:justify;">Church, partindo de resultados do laboratório de psicologia experimental animal, propõe um modelo de relógio interno que inclui um marca-passo cujos pulsos teriam a taxa influenciada por diversos fatores, externos e internos. O haloperidol, por exemplo, diminuiria a freqüência dos pulsos por intervalo de tempo, a metanfetamina, assim como o stress do choque elétrico, ao contrário, a aumentariam. Comporta também um interruptor, estrutura que determina quando serão registrados os pulsos, e que possui uma latência para ser acionado, ligando ou desligando o registro. Os pulsos captados são somados num acumulador e têm seus valores retidos na memória operacional que funciona durante uma tarefa, não conservando a informação armazenada de uma oportunidade para outra. A memória de referência contém os parâmetros de experiência passada que são relevantes para uma determinada tarefa, por exemplo &#8220;responder somente se o estímulo tiver uma duração t&#8221;. Um dispositivo de comparação permite o cotejo entre a duração presente e a duração de referência.</p>
<p style="text-align:justify;">O estudo do modo de funcionamento do relógio interno, no ser humano, e de sua integração aos outros mecanismos temporizadores constitui uma via promissora e necessária para a pesquisa. Não me parece que uma teorização centrada apenas na informação externa como base para a avaliação da duração possa ir muito longe ou, para usar uma metáfora temporal, possa sustentar-se por muito tempo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Aspectos afetivos da avaliação de duração</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O tempo não é uma dimensão fria, de pura constatação; permeia-se de desejos e afetos. A duração contém os momentos disponíveis para o fazer, aponta para um futuro que se carrega de medos e esperanças; recua ao passado, que a memória veste das cores da saudade ou da rejeição. A duração é expectativa e é tédio.</p>
<p style="text-align:justify;">O fator emocional afeta os ponteiros subjetivos. Edmonds, Cahoon e Bridges, por exemplo, persuadiram seus sujeitos que uma espera seria seguida de um evento agradável ou de um evento desagradável ou, ainda, de uma experiência neutra. O grupo com expectativa positiva &#8211; nossa introspecção faz prever o resultado! &#8211; viu o tempo passar muito mais devagarinho do que os outros. Os grupos de expectativa neutra e negativa tenderam a subestimar o intervalo.</p>
<p style="text-align:justify;">Trechos de prosa, ouvidos por um minuto, eram considerados mais curtos quando mais interessantes, um resultado que seria interessante replicar em condição naturalística, tomando-se como base a opinião de nossos alunos sobre as aulas a que assistem. Thayer e Schiff criaram uma situação em que pessoas deveriam ficar, frente a estranhos sorridentes ou carrancudos. O sorriso do outro fez correr o tempo, sua carranca o brecou.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Saber a respeito do tempo psicológico</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Que a percepção da duração decorra de uma construção psicológica, acho que toda esta exposição permite crer. Mas construção não significa invento ou fantasia, a construção é a própria maneira de se chegar a uma realidade que não vem pronta através dos órgãos dos sentidos, que não jorra automática de fontes inatas. Não dispondo de um acesso imediato ao dado temporal (não cabe, por enquanto, pararmos sobre a questão de se há um dado temporal ou envolver-nos em discussão filosófica a respeito da existência do tempo ou de sua direção) o indivíduo aproveita a informação disponível, seja ela decorrente de processos internos ao seu organismo, seja ela proveniente de dicas ambientais, interpretando e apostando. Níveis diferentes de avaliação, da fração de segundo, ao mês e ao ano, exigirão estratégias diferentes e a padronização social se exercerá com toda a potência, estabelecendo quadros temporais que, se arbitrários do ponto de vista do tempo abstrato, não deixam de possuir a concreticidade exigida pela interação humana.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*César Ades, professor do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia (USP) In Memoriam</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FONTE: Ciência e Cultura</strong> <strong>(Cienc. Cult. vol.54 no.2 São Paulo Oct./Dec. 2002)</strong></p>
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		<title>Tempo é Dinheiro</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 02:17:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Capitalismo e Urbanização]]></category>
		<category><![CDATA[Contagem do Tempo]]></category>
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		<description><![CDATA[Como o tempo passou de unidade orgânica a organizador da produção e do consumo no capitalismo, modifi cando o cotidiano e a ordem das cidades *Por Helena Ladeira Werneck Nas suas primeiras noções, a contagem do tempo estava mais associada à periodicidade do poder e da finitude da existência humana. Isso levava a uma casta [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3734&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><a href="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/sands_of_time_wallpaper_91cbc.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3742" title="sands_of_time_wallpaper_91cbc" src="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/sands_of_time_wallpaper_91cbc.jpg?w=780" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Como o tempo passou de unidade orgânica a organizador da produção e do consumo no capitalismo, modifi cando o cotidiano e a ordem das cidades</p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por Helena Ladeira Werneck</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Nas suas primeiras noções, a contagem do tempo estava mais associada à periodicidade do poder e da finitude da existência humana. Isso levava a uma casta de sacerdotes à sua manifestação e até mesmo à sua manipulação. Os gregos, mestres em uma explicação romântica do universo, apresentam o tempo como um deus – Cronos – que, casado com a deusa Terra – Géia – termina por devorar todos os seus filhos. Géia, cansada de ver desaparecer toda a sua prole, engana o deus jogando em sua boca uma pedra em vez do seu filho Zeus. Com o tempo, Zeus cresceu, matou o pai e tornou-se o patriarca de uma raça de deuses que venceu a mortalidade.<span id="more-3734"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Durante a maior parte do tempo de sua existência na face terrestre, prevaleceu no seio da população a necessidade da separação entre os dias, identificando os períodos de claridade e de escuridão. Nesse sentido, o dia tornou-se a base de todas as medidas de tempo, sendo medido, em algumas culturas, a partir do nascer do sol e, para outras, a partir do pôr-dosol. A prática da adoção da contagem diária a partir da meia-noite tem origem nos tempos modernos.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>A Necessidade de Identificação do Claro e do Escuro</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Os primeiros fazendeiros constataram que o caminho percorrido pela sombra de um objeto sob o sol indicava o tempo disponível para o trabalho com a agricultura. Desse modo, mediam a hora necessária para o retorno seguro do abrigo. Coube aos chineses a primeira formatação do relógio de sol, substituindo, com sucesso, a sombra de pedras e de árvores por uma haste fincada em um plano, a partir da qual se traçavam riscos. A partir dessa subdivisão, surgiram os agrupamentos de minutos, divididos em quatro: do nascer do sol às 9:00 horas, das 9:00 horas até as 12:00 horas, das 12:00 horas às 15:00 e das 15:00 às 18:00, contando-se o período da escuridão entre o pôr-do-sol e o seu nascimento.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao mesmo tempo que se sentia a necessidade de controlar o tempo de luz, o imaginário popular temia o período da escuridão. Mais uma vez são os gregos que materializam essa inquietude que a ausência do sol implica: para gregos e romanos, a noite era filha do Caos, sendo esposa e irmã de Érebo – a personificação das trevas infernais. Seus filhos confirmavam a mesma tendência – Moira, o destino, Átropos, a morte, Hipnos, o sono, a Miséria, as Parcas, que regem os destinos humanos, as Hespérides, guerreiras, Nêmesis, a justiça, Apaté, a fraude, a Concupiscência, a Velhice e a Discórdia. A Lua, e como conseqüência, o luar, compunha outro poder, quase paralelo ao da luz. No ideário humano e em diversas culturas, apresentava-se como divindades distintas, talvez por representar o conhecimento de que são responsáveis por ciclos diferentes. O ciclo lunar guiou o primeiro conjunto de dias, juntados que foram pela regularidade do seu ciclo – de sete em sete dias, daí derivando o termo septimana, ou semana.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Transformações medievais e a permanência do pensamento clássico</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Por mais que a crise romana impusesse modifi- cações muito grandes ao inteiro contexto do Império, nenhuma se igualou à adoção da religião cristã pelo Imperador Constantino, que promoveu a cristianização do Estado depois da sua conversão e de sua vitória sobre Maxêncio na ponte Mílvia, em 312 d.C. Segundo Perry Anderson (1992:87), “caracteristicamente, a nova religião oriental somente conquistou o Império depois de adotada por um César no Ocidente. Foi um exército marchando da Gália que impôs um credo originado na Palestina, acidente significativo e paradoxal, ou um sintoma, da dominância política da pátria latina do sistema imperial romano”.</p>
<p style="text-align:justify;">A Idade Média é tida pela maioria da população como período de trevas, do esquecimento do conhecimento. O século XVI foi o responsável pela criação desta figura, que se transformou em preconceito. Segundo Franco Júnior (1986:19), “o termo expressava um desprezo indisfarçado pelos séculos localizados entre a Antiguidade Clássica e o próprio século XVI. Este se via como o Renascimento da civilização grecolatina, e, portanto, tudo o que estivesse entre esses picos de criatividade artístico-literária não passaria de um hiato, de um intervalo. Logo, de um tempo intermediário, de uma idade média”.</p>
<p style="text-align:justify;">A respeito da herança cultural da Idade Média e o papel da Igreja Católica, Anderson afirmou: “civilização da Antiguidade Clássica foi definida pelo desenvolvimento de superestruturas de sofisticação e complexidade sem precedentes sobre estruturas materiais de uma relativa rusticidade e simplicidade; existe sempre uma desproporção dramática no mundo greco-romano entre o exagerado firmamento intelectual e político e o acanhado mundo econômico que lhe era subjacente. Quando chegou o colapso final, nada era mais óbvio que o fato de que essa herança superestrutural – agora impossivelmente distanciada das realidades sociais imediatas – iria sobreviver a ela, embora de forma comprometida. Era necessário um recipiente específico para isso, suficientemente distanciado das instituições clássicas da antiguidade e ainda assim moldado por elas, e por isso capaz de fugir ao desmoronamento geral para transmitir as misteriosas mensagens do passado ao futuro próximo. A Igreja desempenhou objetivamente esse papel”.</p>
<p style="text-align:justify;">No entanto, a Idade Média serviu de berço à civilização ocidental, ofertando uma cultura que se denominou de moderna e que se apoiou nos termos da urbanização-industrialização e, por que não dizer, no capitalismo. Esse complexo entrecruzar de conceitos só foi possível pela intervenção continuada da Igreja Católica. Segundo o historiador francês Jacques Le Goff , a população que se juntou em várias partes do continente europeu a partir do século X não pensava, quando obtinha a independência dos senhores feudais – os forais – em criar uma cidade. Pensavam em formar uma comunidade capaz de fazer frente aos senhores, mas ainda sem nome próprio, usando várias denominações tais como cives, hospites, oppidani, qual seja cidadãos, hóspedes, habitantes de uma praça forte, ou ainda habitores, habitantes, ou mesmo incolae ou homines.</p>
<p style="text-align:justify;">Le Goff ainda explica: “O nome que esses beneficiários dos privilégios urbanos vão usar de preferência, burgueses, apenas continuará designando uma parte da população das cidades, mas a palavra francesa que o traduz, borjois, batizará uma classe social, a burguesia, que triunfará no século XIX com o capitalismo e uma nova revolução urbana, a da cidade nascida da revolução industrial”.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>A Revolução comercial e o tempo</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A sociedade que se forma nas bases urbanas recebe todos os cidadãos indistintamente, divide os custos pela manutenção das estruturas comuns e, já a partir dos séculos XI e XII, a erigir e identificar os seus espaços e a construir os seus monumentos. Com o crescente desenvolvimento econômico e a introdução de novas atividades urbanas, como o ensino – universitas – e a burocracia administrativa e financeira, o burgo se transforma em um motor cultural para a transmissão da nova formação social.</p>
<p style="text-align:justify;">Le Goff assim descreve esse período: “o domínio artístico essencial da Idade Média, o dos edifícios religiosos, ela criou uma arte urbana logo duplamente encarnada em produções sagradas e em produções profanas: a arte gótica. Pensou a si mesma como um lugar a ser construído e embelezado em harmonia com sua personalidade e seus valores, e produziu um urbanismo original e cada vez mais seguro de si”. E o valor que predomina é o dinheiro e suas representações, que tanto podem ser objetos de arte, artistas, construções e mesmo adereços. Deixada a penúria dos primeiros tempos da Idade Média, agora o luxo e a aparência predominavam.</p>
<p style="text-align:justify;">Agora o tempo passa a ter uma nova singularidade. Não é mais o tempo da religião, marcado pela presença dos sinos nos campanários, nem ao menos o tempo do agricultor, marcado pelo nascer e o pôrdo- sol. É o tempo de se produzirem mercadorias, gerar dinheiro e acumular bens. Ainda segundo Le Goff , “ o movimento urbano não se acomoda a esse tempo. Ele não se adapta nem à faina da cidade, nem ao ritmo de seu tempo passional, nem à satisfação de suas liberdades. A nova regularidade do trabalho urbano não é a dos camponeses conciliados com a natureza e as estações, mas a de artesãos e operários assalariados cujo labor mensurável em dinheiro deve sê-lo também em tempo, um tempo não mais natural, mas tecnológico”.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>A herança pré-religiosa da denominação dos dias</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Apesar de s Idade Média representar um período intermediário entre o conhecimento clássico e a modernidade, alguns elementos persistem na cultura ocidental – a denominação dos dias da semana, sabidamente uma das características pagãs mais evidentemente preservadas. O primeiro dia do agrupamento da semana foi dedicado ao Sol, patrocinador da luz, do calor e da vida. Para os romanos, era o dia dedicado às oferendas e homenagens. Passou somente a ser denominado de Dies Dominica por São Justino, fundador da primeira escola cristã em Roma no ano de 165. O segundo, à Lua, por sua influência sobre os meios líquidos e pela continuidade das suas transformações, por meio da sua presença benéfica, sendo representada pela melancólica rainha dos infernos – Presérpina – e pela solitária deusa Diana (Ártemis para os gregos).</p>
<p style="text-align:justify;">Dedicou-se ao deus Marte, o deus das guerras, o terceiro dia da semana. Em Roma, onde lhe deram um mês inteiro (março), esse deus era invocado quando havia a necessidade de se decidirem guerras e para o qual se ofereciam sacrifícios após jornadas vencedoras. Conta a mitologia que o rei Numa depositou aos pés de Marte os destinos da cidade e instituiu um corpo de sacerdotes – os sálios – para honrarem o poderoso guia da vitória humana. Tamanha honra impressionou o deus, que fez cair um escudo de bronze aos pés do rei quando este orava, dando a entender que a cidade sobreviveria tanto quanto o escudo. Entre outras medidas, o rei dedicou-lhe as preces desse dia.</p>
<p style="text-align:justify;">O quarto dia tem um caráter ambíguo. Tanto corresponde o respeito aos mercadores, quanto aos ladrões. Corresponde ao caráter eminentemente dual representado pelas práticas comerciais, denominadas, em latim, de mercarii. Assim, Mercúrio, arauto de Júpiter, protegia os negociantes e os seus negócios, figuras também muito importantes no mundo clássico. Ao pai de todos os deuses – Júpiter, comandante dos ventos e das tempestades, cujas mãos dirigiam os raios e os trovões – foi dedicado o quinto dia. A necessidade de se prestar homenagem a poderes tão fortes também se manteve na representação simbólica dos povos do norte, onde Thor (Thursday) adquire as mesmas funções que o figurativo greco-romano.</p>
<p style="text-align:justify;">O sexto dia da semana ficou consagrado a Vênus. Como as homenagens humanas foram dedicadas aos grandes poderes presentes nas sociedades humanas, não se faz necessária a explicação do porquê das homenagens à deusa do Amor, desde sempre considerado uma das mais fortes emoções humanas. A Saturno ou Cronos, pai do tempo, ficou destinado o sétimo dia. Segundo o mito, após destronado por Júpiter ou Zeus, foi exilado para o Lácio, na Itália (a origem da palavra deriva de latere que significa esconder-se, ocultar-se), onde dedicou-se à agricultura e ao pastoreio, dando início a uma fase de grande prosperidade. Por essas qualidades era bastante apreciado nos cultos latinos, especialmente em solo italiano. Mesmo o nome que posteriormente denominará a inteira península é decorrente da sua presença – Saturnia Tellus.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Tempo mecânico, calendário mercantil</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O avanço tecnológico, no entanto, veio dos árabes. Eles criaram um tipo de aparelho no qual eram mantidos o quadrante, o ponteiro e as rodas dentadas. O movimento, porém, já não era dado pela água ou pela areia, mas por um peso que vencia pouco a pouco, em um tempo mais ou menos igual, a resistência dos vários dentes das inúmeras rodas. Consta que o califa Harun-Al-Rachid mandou para Carlos Magno um maravilhoso relógio em que a marcação das horas era dada por bolas de ferro que caíam em um gongo enquanto soldados miniaturizados desfilavam.</p>
<p style="text-align:justify;">A racionalidade exigida pelas atividades mercantis fez com que a adoção desse novo tempo tomasse duas formas distintas: a primeira com a adoção de relógios, mais precisos, que mostrassem o correto transcurso das horas. O segundo foi a necessidade de reformulação do calendário. A partir do momento em que o contexto deixava de ser religioso e rural, obter uma contagem e disposição melhor dos dias se fazia urgente. Um calendário regulado por festas de datas móveis era eminentemente inadequado para os negociantes. O ano religioso começava numa data variável entre 22 de março e 25 de abril. Os mercadores tinham necessidade de pontos de partida, referências fixas para seus cálculos e para estabelecer seus orçamentos.</p>
<p style="text-align:justify;">Na análise de Le Goff , a Igreja também determinara as horas de acordo com as estações do ano e suas respectivas preces: matinas, primas e ângelus. Regulavam-se pelo Sol e variavam ao longo do ano. Os sinos respondiam aos quadrantes solares. Os mercadores tinham necessidade de um quadrante racional, dividido em 12 ou 24 partes iguais. Foi a necessidade comercial que impôs a presença do relógio nas principais áreas centrais das cidades. Florença teve esse relógio em 1325, Pádua em 1334, Milão em 1335, Gênova em 1353. Todas as demais cidades promoveram verdadeira corrida para a colocação de seus relógios. O mais famoso deste período foi o relógio de Estrasburgo, que causou admiração em toda a Europa por séculos. Chamava-se “Relógio dos três reis” e media 12 metros de altura, e foi construído junto com a catedral em 1352.</p>
<p style="text-align:justify;">Com relação ao calendário, sua reforma definitiva vai ocorrer em 1577 quando o papa Gregório XIII convoca o monge Dionísio, o pequeno, para conduzir as adequações necessárias ao calendário a partir das novas descobertas astronômicas. Suas conclusões ganharam personalidade jurídica mediante bula pontifícia em 24 de fevereiro de 1582.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>A Ascensão da Cidade Medieval</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A partir do século IX, o comércio volta a animar as antigas rotas de transporte, tendo como motor deste acontecimento, o comércio das cidades italianas, que para tal não só desobedeciam a ordens superiores – o Papa e o Imperador – ,como também tinham conseguido se afirmar no mar mediterrâneo por meio de acordos e de combates. Segundo o historiador belga Henry Pirenne (1862–1935), o progresso econômico de Veneza fará com que as principais famílias detentoras do poder se enriqueçam sobremaneira: “Essa riqueza se desenvolveu segundo um movimento ininterrupto. Por todos os meios ao seu alcance, a cidade dos canais trata com uma energia e uma atividade surpreendentes de impulsionar esse comércio marítimo, que é a condição essencial de sua existência”.</p>
<p style="text-align:justify;">O segundo grande passo dado pelos nascentes agrupamentos urbanos foi o de sua separação física com a área rural, ou seja, o da construção de muralhas. Essa separação formal, no entanto, não chegou a abolir a atividade rural. Em muitos casos, da mesma maneira das cidades fortificadas da Antiguidade, a muralha preservava uma série de áreas com atividades rurais como forma de sobrevivência em caso de sítios prolongados. No entanto, ainda que com a presença de áreas não edificadas, o clima manifesto na área urbana era de liberdade e predomínio de atividades não rurais, ou, para WIKIPEDIAser mais claro, de atividades comerciais.</p>
<p style="text-align:justify;">Segundo Le Goff , “a cidade medieval permanece mesclada de campo, deixando fora de suas muralhas subúrbios e um arrabalde plantados no campo, acolhendo no interior de seus muros, em compensação, pedaços de campo, terrenos cultivados, prados, espaços vazios e, ocasionalmente, camponeses refugiados”.</p>
<p style="text-align:justify;">Foi a necessidade comercial que impôs a presença do relógio nas áreas centrais das cidades. Como o erro comprovado nas contagens anteriores era de dez dias de atraso em relação ao Sol, tornava-se necessário que todos os países cristãos se pusessem atualizados a um só tempo. Assim, marcou-se o dia 4 de outubro para que os homens acertassem o passo com o Sol, bastando para tal a retirada de dez dias da folhinha, a partir do dia 4, quando o dia seguinte não seria o dia 5 e sim, o 15. Isto foi feito na maioria dos países cristãos e na totalidade dos Estados católicos. Gravura intitulada Scriptorium, faz parte de um manuscrito medieval e traz a imagem de um monge, Dionysius Exiguus, que desenvolveu o sistema do Anno Domini com base em seus cálculos sobre a Páscoa.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>A Revolução Industria, a Indústria e o Capitalismo</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Nenhum uso não rural marcou tanto a paisagem urbana e alterou os hábitos de vida da população mundial quanto a introdução da indústria nas cidades. Inicialmente, dando seqüência ao processo de esvaziamento do campo, promoveu um adensamento nunca visto na história das cidades.</p>
<p style="text-align:justify;">O processo de urbanização, se por um lado explodiu os mecanismos de vivência da cidade medieval, também proporcionou um avanço tecnológico na arte de morar em grupo, que, se não ocorreu ao mesmo tempo, ficou pouco a dever ao ritmo de crescimento das cidades. Data desse período a redescoberta dos sistemas de transporte de água e de coleta de esgotos e de lixo. Nesse sentido, a paisagem urbana marcada pelas chaminés industriais se torna o perfil dominante na maior parte das cidades inglesas e, a partir daí, se espraia para todo o globo.</p>
<p style="text-align:justify;">No caso do Brasil, onde sempre houve a necessidade de mão-de-obra para o desenvolvimento das atividades econômicas, a marca da ocupação industrial se dá por meio da formação de bairros operários, onde os trabalhadores habitavam ao lado das instalações fabris. Nesses locais, em grande parte em habitações providas pelos próprios patrões, a vida se regulava pelo início e o fim do trabalho – os apitos das fábricas –,além de assinalar os intervalos – quando havia – para descanso. Nesse caso, a contagem do tempo transformava-se em mais um instrumento para controle da vida coletiva, marcando e conformando a vida do operariado. O maravilhoso filme de Charles Chaplin, Tempos modernos, nos mostra uma visão caricatural desse processo em que o tempo da indústria conforma a vida cidadã.</p>
<p style="text-align:justify;">Talvez seja o caso de pensarmos aonde essa velocidade toda nos levará. Nos países que eles dispõem de mais recursos econômicos, o tempo tem andado na contramão de volta a um ritmo mais humano. No entanto, por hora, ainda estamos subordinados ao “tempo é dinheiro”, e não podemos nos arriscar a parar, até porque os relógios presentes em cada pedaço de rua e os que nos vigiam do alto dos prédios prenunciam que não temos saída. Temos de correr.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Helena Ladeira Werneck é arquiteta e urbanista pela Unisantos, mestre em Planejamento Metropolitano pela Universidade de Roma. Coordenadora do Curso de Arquitetura e urbanismo das Universidades de Guarulhos e do grande ABC.</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FONTE: <a href="http://portalcienciaevida.uol.com.br/ESCV/index.asp" target="_blank">Portal Ciência &amp; Vida</a></strong></p>
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		<title>Tempo, Indivíduo e Vida Social</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 02:17:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
				<category><![CDATA[...Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Passado Presente e Futuro]]></category>
		<category><![CDATA[Sociedade Contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[Tempo Social]]></category>
		<category><![CDATA[Tempo Tridimensional]]></category>

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		<description><![CDATA[*Por Maria Helena Oliva-Augusto Tendo como fio condutor as análises que procuram discutir como se dão as relações que as pessoas mantêm com o seu tempo, este texto busca examinar os vínculos entre tempo, indivíduo e vida social, acentuando, principalmente, as diferenças existentes entre uma vivência orientada pela perspectiva do futuro, característica da modernidade, e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3737&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><a href="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/old_photos_box.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3740" title="old_photos_box" src="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/old_photos_box.jpg?w=780" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por Maria Helena Oliva-Augusto</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Tendo como fio condutor as análises que procuram discutir como se dão as relações que as pessoas mantêm com o seu tempo, este texto busca examinar os vínculos entre tempo, indivíduo e vida social, acentuando, principalmente, as diferenças existentes entre uma vivência orientada pela perspectiva do futuro, característica da modernidade, e outra que, centrada no momento presente, para alguns analistas, indicaria o nascimento de uma nova ordem social. Será também avaliada a hipótese que aponta para a emergência de um novo tempo social dominante e de novas formas de manifestação da individualidade, elementos que caracterizariam o surgimento dessa nova ordem.<span id="more-3737"></span></p>
<p style="text-align:justify;">O tempo social dominante de uma sociedade é aquele que lhe permite cumprir os atos necessários para a produção dos meios que garantem sua sobrevivência, possibilitando a criação, manifestação, realização e atualização de seus valores fundamentais. Os procedimentos envolvidos nesse processo qualificam aqueles que os utilizam, a sociedade em que vigoram e as relações sociais que desencadeiam. Em cada tipo de coletividade, e em todos os níveis, a satisfação das existentes e a criação de novas necessidades, a transmissão à descendência do modo adequado de ser e da maneira desejável de agir, atribui significados, faz nascer valores que passam a ser compartilhados, constituindo modos de vida e tipos de sociabilidade.</p>
<p style="text-align:justify;">A forma pela qual uma dada sociedade garante a manutenção da vida, expressa no seu modo de produzir, nas regras que a organizam e nas principais atividades exigidas por essa produção, interfere sobre o seu ritmo temporal e indica qual é o tempo que nela predomina. Como as atividades que são secundárias para a definição desse processo articulam-se em torno dele, os tempos sociais em que essas atividades se desenvolvem: articulam-se em torno do tempo social dominante e submetem-se a seu ritmo.</p>
<p style="text-align:justify;">As mais diferentes teorias sociais qualificam a ordem social moderna como &#8220;sociedade do trabalho&#8221;, exatamente porque reconhecem na categoria trabalho sua dinâmica central. O tempo do trabalho – regular, homogêneo, contínuo, exterior, coercitivo, linear e abstrato – é o tempo social nela dominante. Por conseguinte, qualquer dos outros tempos sociais existentes, referentes a atividades que não são determinantes para sua caracterização, é penetrado por esses traços, que adquirem a conotação de identificadores do tempo. Pessoas e instituições lhe estão submetidos, fazendo com que a própria definição de ser social – individual e coletivo – sofra a mediação dos conceitos de trabalho e tempo de trabalho.</p>
<p style="text-align:justify;">Entretanto, atualmente, o trabalho vem sendo questionado como valor central da vida social, tanto objetiva como subjetivamente. É identificada uma crise, ligada ao fim da percepção da categoria trabalho como dimensão qualificadora da sociedade, e do tempo a ele referente, como tempo dominante, sugerida a transição para um novo conjunto de significados, a emergência de uma nova ordem e, em decorrência, de um novo tempo social dominante, ainda que não plenamente configurados.</p>
<p style="text-align:justify;">A perspectiva temporal, como a concebemos, só se concretizou quando, além da percepção de um ontem, referente ao passado, e de um hoje, relativo ao presente, tornou-se possível pensar a emergência de um amanhã que pudesse, realmente, representar uma alternativa futura ao que existia. A forma com que nos habituamos a perceber o mundo e nele viver tornou-se vigente somente quando, não apenas individualmente mas também em termos sociais, surgiu a possibilidade efetiva de apreensão dessa tripla dimensão temporal.</p>
<p style="text-align:justify;">Substituindo um andamento cíclico, o surgimento de um tempo tridimensional, marcado pela distinção entre passado, presente e futuro, é um dos elementos qualificadores da vida moderna. O presente identifica o momento no qual, amparada pela experiência do passado e lançando mão da razão, a humanidade projetaria o seu futuro. A própria relevância do tempo &#8220;depende[ria] da capacidade de interrelacionar o passado e o futuro no presente&#8221;. A emergência da possibilidade de uma visão histórica do (e no) mundo estaria, portanto, vinculada ao surgimento dessa forma de percepção temporal.</p>
<p style="text-align:justify;">Ainda mais importante, a idéia de progresso, a crença no planejamento como controle racional dos processos sociais e na possibilidade de construção de um projeto, coletivo ou individual, só passaram a atuar na orientação das condutas humanas a partir do momento em que o futuro passou a ser prefigurado, almejado, buscado. Dessa forma, a sociedade moderna e seus valores básicos estão referidos à crença na possibilidade de um futuro visualizado no presente e a partir deste construído, de um futuro pressentido como abertura – um possível configurado pela ação humana.</p>
<p style="text-align:justify;">Em contraste, atualmente, alguns autores afirmam que a memória histórica já não está viva. Para eles, a intensificação crescente do ritmo temporal implica que já não se tenha memória do passado e esteja cada vez mais distante a possibilidade de um futuro. O esforço para manter-se em dia com o seu próprio tempo provoca, nas pessoas, o afastamento dos padrões significativos do passado, sem que suas próprias referências de valor se enraízem; com isso, as perspectivas de um (possível) futuro ficam também obscurecidas. Do mesmo modo, a experiência do passado já não garante a base para atuação no presente.</p>
<p style="text-align:justify;">Beck afirma que, na sociedade contemporânea, entendida por ele como sociedade de risco, &#8220;o passado perde o poder de determinar o presente; seu lugar é tomado pelo futuro&#8221;. Dessa forma, algo inexistente, inventado, fictício aparece como causa de uma experiência atual. &#8220;Tornamo-nos ativos, hoje, para prevenir, aliviar ou tomar precauções contra crises e problemas de amanhã e de depois de amanhã&#8221; e é notável a rapidez com que ocorre a obsolescência das formas de fazer, de agir e/ou de pensar.</p>
<p style="text-align:justify;">Sua análise ressalta a transformação crucial em curso na própria noção de tempo, acentuando que a consciência do risco repousa não no presente, mas no futuro: em conseqüência, é necessário projetar o que virá depois a fim de determinar e organizar (agora) as ações. Esse segundo ponto deve ser enfatizado: para prevenir riscos, o futuro deve ser antecipado, de forma a gerar ações preventivas no presente. Dessa forma, mesmo considerando que, como no passado, o futuro ainda aparece como dimensão importante, hoje, é o presente o tempo acentuado, enquanto, anteriormente, o futuro a ser construído aparecia como a dimensão temporal forte.</p>
<p style="text-align:justify;">Paralelamente, a destruição do passado surge como um dos fenômenos mais terríveis do século XX – perdem-se os mecanismos sociais capazes de vincular a experiência pessoal da atual geração à das gerações passadas. Ao mesmo tempo, os jovens contemporâneos parecem habitar uma espécie de presente contínuo, expresso na vivência repetida do agora, a busca desenfreada do momento atual. Aliás, essa é uma característica da vida contemporânea: a busca intensificada do prazer, a necessidade de viver para o momento, &#8220;viver para si, não para os que virão a seguir, ou para a posteridade&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;">A intensificação dessa percepção do presente é também expressa na idéia de que &#8220;a categoria temporal do futuro é suprimida e substituída pela do presente prolongado&#8221;, um presente ampliado, que passa a absorvê-lo. Problemas que, antes, podiam ser remetidos a um tempo futuro, penetram o presente, impõem soluções que poderiam esperar o amanhã, mas exigem ser tratadas hoje mesmo. Dessa forma, o futuro não mais oferece o campo livre para a projeção dos desejos, esperanças e crenças, cada vez mais obscurecido pelas questões do momento, criando uma dinâmica própria do presente, que se torna seu próprio centro.</p>
<p style="text-align:justify;">Fala-se na falência da perspectiva do futuro, sentimento disseminado que estaria na raiz do desencantamento e da desesperança que caracteriza(ria)m não só a vivência das novas gerações mas contaminam a totalidade da vida contemporânea. Diferentemente das sociedades tradicionais, centradas no passado, ou daquelas orientadas para o futuro, o presente é(seria), atualmente, cada vez mais privilegiado.</p>
<p style="text-align:justify;">Eis aqui, portanto, o problema: o nosso seria um tempo de dissolução dos elementos que, há pelo menos três séculos, tem constituído a base temporal em que ocorrem os processos sociais. Essa constatação sugere estar em curso uma assustadora resignificação do tempo, caracterizada pela crescente desvalorização cultural do passado, a progressiva perda de perspectiva e de esperança em relação ao futuro, e a acentuação exasperada da vivência do presente, preenchido exaustivamente.</p>
<p style="text-align:justify;">Portanto, não haveria mais passado ou futuro, e, considerando que, sem conexão com o que foi e com o que está por vir, rigorosamente, o presente acaba por não ter existência e que um tempo unidimensional não pode, a rigor, receber essa qualificação, tampouco se poderia falar em presente, pois &#8220;um presente eterno não pode ser um presente&#8221;. Essa assertiva aplicar-se-ia tanto aos conjuntos quanto aos indivíduos. Lasch, por exemplo, salienta que o homem psicológico do século XX nega o passado e tem dificuldade de enfrentar o futuro, o que acarreta a perda de significado do próprio presente.</p>
<p style="text-align:justify;">Tem sido sugerido que atingimos um momento em que a própria sobrevivência da sociedade, da forma que aprendemos a percebê-la, está ameaçada. A desintegração dos velhos padrões de relacionamento humano e, com ela, a quebra dos elos entre gerações, entre passado e presente, foi a mudança mais perturbadora ocorrida no século XX. Castoriadis, entre outros, já havia tratado de questão semelhante, lembrando a necessidade do restabelecimento desses vínculos, a fim de que não naufraguem os valores da civilização, não se instale a barbárie nas relações humanas e possa ser superada a crise no processo de identificação, que se manifesta atualmente.</p>
<p style="text-align:justify;">Sem dúvida, as alterações que se processam nas formas de produção da vida, por um lado, e na percepção e vivência da temporalidade, bem como na dimensão temporal que é valorizada, por outro, repercutem no processo de constituição dos indivíduos do nosso tempo, na própria maneira como se vêm e àqueles com os quais compartilham o mesmo sentido de tempo.</p>
<p style="text-align:justify;">É necessário lembrar que um dos traços marcantes da relação entre indivíduo e tempo, característica da modernidade, era a possível construção do traçado da própria vida pelos indivíduos. Tratava-se, pois, da afirmação bem sucedida de suas próprias capacidades, implicando que seu futuro podia ser, pelo menos em parte, escolhido livremente, com a ênfase incidindo sobre a escolha livre.</p>
<p style="text-align:justify;">Essa forma de conceber a trajetória individual afastava a crença – atuante desde a antigüidade até o Renascimento –, em um destino inexorável, irrevogável e imutável que, mesmo conhecido previamente, não podia ser evitado, o que exigia das pessoas, para serem bem sucedidas, que atuassem de modo adequado, conformando-se a (e com) ele. A idéia da sociedade de/do risco, trabalhada por Beck, traz de volta a idéia do destino, ainda que de forma não idêntica. &#8220;Agora, na civilização desenvolvida, existe uma espécie de destino de risco, no interior do qual se nasce, do qual não se pode escapar, com a pequena diferença (que tem um grande efeito) que estamos todos igualmente confrontados com ele.&#8221;</p>
<p style="text-align:justify;">Presentemente, tem sido com freqüência questionada a possibilidade da existência de pessoas com as qualidades e características louvadas pelo discurso moderno, em seus primórdios: indivíduos capazes de serem livres para alcançarem um grau mais alto de verdade, condição que traduzia o ideal ocidental do que significava ser humano. Em outras palavras, cada vez mais, tem-se duvidado que, em nosso tempo, ainda seja factível a emergência de seres humanos racionais, livres e iguais, nos quais se tenham desenvolvido, de maneira equilibrada, os sentidos de alteridade e de pertença. Pessoas que sejam orientadas para o futuro, capazes de, mediante atos voluntários, sacrificarem a satisfação imediata de seus desejos, em nome da segurança e da preservação &#8211; material e moral &#8211; da própria existência.</p>
<p style="text-align:justify;">Na emergência da modernidade, a habilidade em utilizar a experiência do passado para conhecer o presente e, dessa forma, poder antecipar racionalmente uma sociedade alternativa futura, pela mediação de um projeto transformador, distinguia o indivíduo, era o cerne da manifestação da individualidade. Esta se caracterizava pela capacidade de pensar e de agir autonomamente, de dar início ao novo, pela capacidade de previsão e provisão do próprio futuro e daqueles que eram próximos, tendo um horizonte que ultrapassava, de longe, a expectativa de vida de alguém, tomado isoladamente.</p>
<p style="text-align:justify;">Ainda durante o período da II Grande Guerra, Horkheimer já havia sugerido serem cada vez mais difíceis as possibilidades de planejar o futuro. Acreditava que o &#8220;indivíduo contemporâneo pode[ria] ter mais oportunidades do que seus ancestrais, mas suas perspectivas concretas têm prazo cada vez mais curtos, [uma vez que o] futuro não entra rigorosamente em suas transações.&#8221;. Esse impedimento, já percebido em meados do século XX, desdobrou-se em uma situação incomparavelmente mais complexa, no início do século XXI. Hoje, é difícil visualizar um futuro factível, as perspectivas parecem inexistentes, circunstância vivenciada como ameaça de derrota, unida à sensação do retorno de um destino irrevogável, contra o qual não há oposição possível.</p>
<p style="text-align:justify;">Além dessa, uma outra questão está presente, ligada à crescente dificuldade que as pessoas têm de valorizar o tempo disponível como aquele em que se torna possível a realização de expectativas, a fruição do que se almeja, a expressão de si naquilo que é feito. No mesmo momento em que o valor realização de si emerge como um dos pontos principais de manifestação da individualidade, acentuam-se as contradições inerentes ao processo de individualização contemporâneo, atuante num processo societário que torna a autonomização individual crescentemente impossível.</p>
<p style="text-align:justify;">Explico-me. O indivíduo se efetiva, ao lado da identidade genérica derivada do fato de ser membro da espécie humana, pelo talento e possibilidade que demonstra de cultivar, em si, aquelas qualidades que o tornam único e singular. No século XIX, atingia o status de indivíduo, na acepção forte do termo, aquela pessoa capaz de constituir a si mesma enquanto obra, aplicando-se cotidiana e continuamente ao cultivo daqueles traços que a distinguissem das outras, sem qualquer equívoco. Essa tarefa, simultaneamente estressante e dignificadora, imprimia um sentido à vida de cada um, comportando busca consciente, planejamento deliberado e liberdade de escolha. Nesse registro, trabalhar era sinônimo de disciplina, dignidade, auto-estima, bem-estar, progresso, conquista de autonomia. Sucesso ou fracasso dependia do tipo de trabalho exercido e da atitude de cada um diante dele. A possibilidade de trabalhar (acreditava-se) estava aberta para todos os que se dispunham a conquistar seu lugar no mundo, (bem) utilizando suas capacidades e habilidades.</p>
<p style="text-align:justify;">A situação atual mudou, em vários sentidos. De um lado, ocorre que, hoje, cada vez mais intensamente, cresce o número de pessoas que, embora procurando trabalhar, não conseguem colocação e não contam com qualquer outra forma de sobrevivência. Assim, ainda que, objetivamente, haja condições para que disponham de mais tempo livre e possam preenchê-lo de forma mais independente, aumenta o número daqueles que, ao invés de tempo livre, vivem um tempo sem ocupação, sentem-se pressionados pela condição de não-trabalho e, portanto, impedidos de crescerem enquanto indivíduos. Por outro lado, a utilização do tempo livre com atividades prazerosas e significativas – vinculadas ao trabalho, ao estudo, à arte ou ao artesanato – não é mais capaz de preencher as expectativas das pessoas. Aparentemente, a dimensão do consumo ocupa todos os domínios, inclusive o tempo livre.</p>
<p style="text-align:justify;">Ainda no mesmo registro, é possível constatar que o foco preferencial no agora impõe uma vida social em que, quanto mais amigos se têm, menos tempo é possível dedicar a cada um, os relacionamentos são efêmeros, mesmo sendo intensos, os laços sociais são, continuamente, produzidos, reproduzidos e consumidos, e é muito difícil compartilhar narrativas e experiências.</p>
<p style="text-align:justify;">Tempo, individualidade, vida social. Aparentemente, dizendo respeito a processos ultrapassados, são noções que supostamente já não possibilitam compreender o momento histórico em que vivemos e, em conseqüência, interferir sobre as condições que o constituem. Entretanto, mesmo reconhecendo que as mudanças em curso não permitem, como parecia se dar anteriormente, que a apreensão das situações se processe em noções mais ou menos cristalizadas, é imensa a dificuldade de projetar uma nova percepção do tempo, uma estruturação diversa da vida social, uma noção de indivíduo radicalmente distinta.</p>
<p style="text-align:justify;">Sem dúvida, o momento em curso é crucial. Entretanto, o que talvez deva ser acentuado é que, hoje, está havendo uma radicalização tão intensa das características atribuídas ao tempo, ao indivíduo e à vida social, desde o início dos tempos modernos, que parece alterar sua qualidade. Em conseqüência, diferentemente do que, no passado, era anunciado como condição generalizável, o processo de individualização/individuação está agora restrito àqueles(as) poucos(as) capazes de sucesso na criação de suas personalidades e de atribuição de significado e dignidade às suas vidas.</p>
<p style="text-align:justify;">Diante das questões suscitadas pelas considerações acima, à guisa de conclusão, emprego palavras utilizadas num outro contexto: &#8220;No centro (&#8230;) [da profunda transformação da vida social contemporânea, de seus valores e significados, e do tempo no qual operam] não está um novo tipo de sociedade, mas um novo tipo de indivíduo, que não cultiva nem a nostalgia de um passado dourado, nem a esperança por um futuro redentor, mas que, possuindo uma &#8216;inflexibilidade treinada para enxergar as realidades da vida&#8217;, está apto para responder &#8216;às demandas do dia.&#8221;.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Maria Helena Oliva-Augusto é docente e pesquisadora do Departamento de Sociologia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (USP).</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FONTE: Ciência e Cultura (Cienc. Cult. vol.54 no.2 São Paulo Oct./Dec. 2002)</strong></p>
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		<title>Santo Agostinho e Sua Reflexão Sobre o Tempo</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 02:17:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Grupo Papeando</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Tempo e Memória]]></category>

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		<description><![CDATA[Costumamos dividir o tempo em três partes: passado, presente e futuro. Mas, segundo Santo Agostinho, só temos a capacidade de perceber e medir o tempo no momento em que decorre *Por Ranis Fonseca de Oliveira O tempo é, e sempre tem sido, um problema filosófico de grande interesse, principalmente em nossa época. Aliás, não só [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=grupopapeando.wordpress.com&#038;blog=5350779&#038;post=3733&#038;subd=grupopapeando&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><a href="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/04-time-aging.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-3744" title="04-Time---Aging" src="https://grupopapeando.files.wordpress.com/2012/04/04-time-aging.jpg?w=780" alt=""   /></a></p>
<p style="text-align:justify;">Costumamos dividir o tempo em três partes: passado, presente e futuro. Mas, segundo Santo Agostinho, só temos a capacidade de perceber e medir o tempo no momento em que decorre</p>
<p style="text-align:right;"><strong>*Por Ranis Fonseca de Oliveira</strong></p>
<p style="text-align:justify;">O tempo é, e sempre tem sido, um problema filosófico de grande interesse, principalmente em nossa época. Aliás, não só para filósofos e cientistas, mas também para o indivíduo comum, que está acostumado a organizar e realizar suas tarefas e experiências de acordo com a idéia de tempo concebida como sucessão de instantes traduzida em presente, passado e futuro. Agostinho de Hipona (354-430) foi um dos grandes pensadores a se preocupar com esta problemática.<span id="more-3733"></span></p>
<p style="text-align:justify;">A reflexão filosófica agostiniana sobre o tempo encontra-se no Livro XI da obra Confissões, texto belíssimo, autobiográfico, redigido entre os anos de 397 e 398, em que Agostinho revela-se admirável analista de problemas psicológicos íntimos, tanto quanto de questões puramente filosóficas.</p>
<p style="text-align:justify;">São perceptíveis três sentidos da palavra confissão no texto agostiniano: confissão de fé, confissão de pecado e de louvor a Deus. Nessa narrativa, o interlocutor privilegiado é o próprio Deus, ou seja, o Tu Divino. É este Tu que vai garantir a veracidade do relato de Agostinho, como ele próprio descreve: “Ó senhor meu – a quem a minha consciência cotidianamente se confessa, mais confiada na esperança da vossa misericórdia do que em sua inocência –, mostra-me, eu Vo-lo peço, que proveito, sim, que proveito haverá em confessar, neste livro, também aos homens, diante de Vós, não quem fui, mas quem sou? Já vi e recordei o fruto que daí se tira. Há muitos, porém, que desejam saber quem eu sou no momento atual em que escrevo as Confissões. Desses, uns conhecem-me, outros não; ou, simplesmente ouviram de mim ou de outros, a meu respeito, alguma coisa. Mas os seus ouvidos não me auscultam o coração, onde eu sou o que sou. Querem, pois, ouvir-me confessar quem sou no interior, para onde não podem lançar o olhar, o ouvido ou a mente. Querem-no, contudo, dispostos a acreditar. Poder-me-ão conhecer? A caridade, porém, que os torna justos, diz-lhes que eu, ao confessar-me, não minto. É ela quem os faz acreditar em mim.”</p>
<p style="text-align:justify;">Seu discurso autobiográfico passa sempre pela certeza do Tu me conheces. Uma passagem obrigatória do eu agostiniano por Deus, para depois voltar a si mesmo. Deste modo, em suas confissões, Agostinho não pode enganar seus leitores, já que também não pode enganar a Deus.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>O Que é o tempo?</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A reflexão filosófica de Agostinho sobre o tempo é uma de suas mais brilhantes análises filosóficas, a qual o torna, embora sendo um pensador medieval, muito mais contemporâneo do que muitos outros da atualidade. O modo como Agostinho expõe suas interrogações com relação ao tempo marca a reflexão ocidental até os dias de hoje.</p>
<p style="text-align:justify;">Questiona Agostinho: “Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”</p>
<p style="text-align:justify;">Agostinho defronta-se com algumas dificuldades principais ao falar sobre o tempo: não podemos apreendê-lo, pois o tempo nos escapa, não conseguimos medi-lo. E também não podemos percebê-lo.</p>
<p style="text-align:justify;">A nossa percepção do tempo permite dividi-lo em três partes: passado, presente e futuro. A partir de nossa experiência, sabemos que esses três tempos são bastante distintos entre si. O passado é o tempo que se afasta de nós, de nossa consciência, de nossa percepção; é tudo que já não é mais palpável, simplesmente porque já se foi. Chamamos de presente o “agora”, o tempo em que nossas experiências acontecem, no momento em que ocorrem. E o futuro, por sua vez, corresponde ao conjunto de todos os eventos que se concretizam na medida em que o tempo passa. Em outras palavras, o futuro é como o lugar onde estão prontos todos os fatos que presenciamos quando determinado período de tempo vier a transcorrer, por menos ou por mais extenso que seja.</p>
<p style="text-align:justify;">De acordo com nossa percepção, dividimos o tempo em três partes distintas: o presente, o passado e o futuro. Seria necessário, neste momento, lançar mão à seguinte questão levantada por Agostinho: É possível medir o tempo? “E, contudo, Senhor, percebemos os intervalos dos tempos, comparamo-los entre si e dizemos uns são mais longos e outros mais breves. Medimos também quando esse tempo é mais comprido ou mais curto do que o outro, e respondemos também que um é duplo ou triplo, ou que a relação entre eles é simples, ou que este é tão grande como aqueles. as não medimos os tempos que passam, quando os medimos pela sensibilidade. Quem pode medir os tempos passados que já não existem ou os futuros que ainda não chegaram? Só se alguém se atrever a dizer que pode medir o que não existe! Quando está decorrendo o tempo, pode percebê-lo e medi-lo. Quando, porém, já tiver decorrido, não o pode perceber nem medir, porque esse tempo já não existe”</p>
<p style="text-align:justify;">Desta forma, não conseguimos medir o tempo. O presente porque não tem nenhum espaço; o futuro porque ainda não veio e o passado porque já não existe mais. Podemos perceber e medi-lo apenas no momento em que está decorrendo.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Tempo e Memória</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A reflexão sobre a memória é um elemento importantíssimo na filosofia agostiniana, principalmente para falar do tempo. Ao falar da memória, Agostinho sempre usa as metáforas do lugar e do espaço como, por exemplo, “campos e vastos palácios”, “santuários infinitamente amplos”. Usa um vocabulário de beleza esplêndida, porém, não é o suficiente para dizer o que é a memória (a análise sobre a memória encontra-se no Livro X das Confissões).</p>
<p style="text-align:justify;">O mesmo acontece com o tempo, pois, como diz Jeanne Marie, professora do Departamento de Filosofia da PUC-SP: “é a nossa propensão, quase natural, de falar e de pensar no tempo em termos (em imagens, em conceitos) espaciais que nos impede de entender sua verdadeira natureza”4. A linguagem não é suficiente para dizer a memória, tanto quanto não é suficiente para dizer o tempo. Ou seja, não conseguimos ir além ao que diz respeito à memória e ao tempo por sermos impedidos pelas categorias espaciais que fazemos uso.</p>
<p style="text-align:justify;">Agostinho entende que existe outra maneira de pensar o tempo sem ser em termos espaciais, mas a partir de outro elemento, que é a linguagem, a fala. E por este motivo ainda continuamos pensando o tempo, mas sem a tentativa de explicar a sua essência. Podemos tentar apreendê-lo a partir de nossas práticas lingüísticas, porque a linguagem adquire sentido a partir do tempo. Em outras palavras, não se pode pensar um sem o outro, pois a linguagem articula o tempo, assim como o tempo articula a própria linguagem. “Pensar o tempo significa, portanto, a obrigação de pensar na linguagem que o diz e que nele se diz”.</p>
<p style="text-align:justify;">Neste sentido, percebe-se que memória e linguagem são de suma importância para Agostinho em sua tentativa de dizer o tempo, que ele pensa não só em termos cosmológicos, como medida de movimento, mas também como interioridade psíquica, “abrindo um novo campo de reflexão: o da temporalidade, da nossa condição específica de seres que não só nascem e morrem ‘no’ tempo, mas, sobretudo, que sabem, que têm consciência dessa sua condição temporal e mortal”.</p>
<p style="text-align:justify;">Em Agostinho, a alma é a sede das capacidades humanas de compreensão, percepção, raciocínio, sentimento, em suma, de todas as potencialidades do espírito. Da mesma forma, o filósofo afirmou que a sede do tempo está na alma. Para entender isso é preciso ter em mente a idéia de que o tempo faz parte da criação: o tempo é criatura. Fora da criação existe somente a eternidade de Deus, que consiste na imutabilidade, na ausência de tempo. A eternidade, assim, não é tempo infinitamente prolongado, mas uma existência sem nenhum limite, ao contrário de, por exemplo, a existência humana que é uma distensão, cujas fronteiras são o nascimento e a morte. “É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras. Existem, pois, estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras.”</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>A Alma</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Os tempos, como afirma Santo Agostinho, existem na mente – o que em sua reflexão equivale a dizer na alma. O passado não existe mais, só é possível na alma do ser humano, por meio da memória. É essa potencialidade humana que permite que as coisas passadas venham novamente à nossa presença. Apenas a recordação, portanto, é que torna possível falarmos em tempo passado. O presente, por sua vez, é o conjunto de nossas sensações e pensamentos do momento, aquilo que percebemos diante de nós e o que estamos cogitando; é a percepção e a consciência. Finalmente, o futuro é a resposta: nossas previsões, nossas esperanças.</p>
<p style="text-align:justify;">Os termos lembrança ou recordação, percepção ou atenção e espera são muito bem traduzidos na seguinte fala de Agostinho: “Vou recitar um hino que aprendi de cor. Antes de principiar, a minha expectação estende-se a todo ele. Porém, logo que começar a minha memória dilata-se, colhendo tudo que passa de expectação para o pretérito. A vida deste meu ato divide-se em memória, por causa do que já recitei, e em expectação, por causa do que hei de recitar. A minha atenção está presente e por ela passa o que era futuro para se tornar pretérito. Quanto mais o hino se aproxima do fim tanto mais a memória se alonga e a expectação se abrevia, esta que fica totalmente consumida, quando a ação, já toda acabada, passa inteiramente para o domínio da memória.”</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Construção do “EU”</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Desse modo, Agostinho, em todo momento, antes de falar do tempo remete primeiramente à memória. É como se a memória fosse um recurso que interiorizasse a temporalidade, os rastros de algo que já não existe mais, mas que está presente. Se o passado já se foi, o seu vestígio permanece atual na memória. O rastro é algo que existe em ausência do outro, “é presença de uma ausência”, como diz Derrida. Não há presença plena, nem uma ausência total. A imagem, vestígio, permanece gravada mesmo depois que algo já passou. Por isso Agostinho precisou da memória para falar do tempo.</p>
<p style="text-align:justify;">A questão do tempo ainda permanece obscura e controversa. Muitos autores que pensam sobre o tempo, pensam a partir de Santo Agostinho. Como é o caso de Paul Ricoeur, em Tempo e narrativa, que logo no início de seu texto diz: “A antítese principal em torno da qual nossa própria reflexão vai girar encontra sua expressão mais aguda lá no fim do Livro XI das Confissões de Santo Agostinho. Dois traços da alma humana se acham aí confrontados, os quais o autor com seu gosto marcante pelas antíteses sonoras dá o nome de intentio e de distentio anumi”.</p>
<p style="text-align:justify;">A análise agostiniana sobre o tempo, que não é realizada apenas em termos cosmológicos, como medida de movimento, mas também como inseparável da interioridade psíquica, é um elemento importante para a constituição do eu ou do sujeito, pois o eu agostiniano que começa a narrativa das confissões não é o mesmo que conclui. O tempo é a produção da identidade e da diferença consigo mesmo, pode ser ainda a dimensão de um sujeito que está se constituindo, pois ele exerce um papel fundamental na consciência humana, uma vez que tempo e consciência são indissociáveis.</p>
<p style="text-align:justify;">Agostinho em seu estilo de fazer Filosofia, de discutir questões, como o tempo, tão importantes para a cultura ocidental, tornou-se um pensador que vale a pena ser lido e discutido em muitas esferas do conhecimento. Neste sentido, concluímos com Jeanne Marie Gagnebin: “Permanece a seguinte questão: hoje, quando não podemos mais acreditar com a mesma certeza tranqüila que o Outro de nosso tempo, seja a eternidade divina, como conseguir, porém, uma compreensão diferenciada, inventiva da temporalidade – e da história! – humana em suas diversas intensidades? Questão essencial, à qual o pensamento teológico de Agostinho responde e à qual, em sua profundidade radical, a reflexão contemporânea, seja ela histórica, poética, ou filosófica, não pode se furtar.”</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>*Ranis Fonseca de Oliveira é Mestre em Filosofia pela PUC/SP</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>FONTE: <a href="http://portalcienciaevida.uol.com.br/ESCV/index.asp" target="_blank">Portal Ciência &amp; Vida</a></strong></p>
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