Dê sua resposta à vida

relogio-tempo

Carol Scolforo

Sangue de barata, inexpressividade, inércia mórbida e falta de vontade de sentir a vida pulsar. Some todos esses ingredientes, cozinhe em banho maria e pronto. Está aí um apático dos bons. Ou melhor, dos ruins: o comportamento não expressa nem tristeza, nem alegria. Se trata, na verdade, de uma anestesia perante a vida.

Na verdade, é preciso recorrer ao latim para entender o que a apatia realmente provoca: o termo deriva de pathos, que significa algo que apaixona, que toca, que liga, que afeta. Só que seu sufixo indica o contrário disso tudo. ‘É como se houvesse um descompasso entre o que a pessoa vive, e o que ela pode viver’, resume a psicóloga Angelita Corrêa Scárdua.

A morna sensação se instala e pode até imobilizar a rotina. E é aí que mora o problema: como a apatia anula nosso poder de sentir, de transformar, de criar, é fácil mente confundida com preguiça. ‘Mas não é, nem de longe, a mesma coisa’,conclui Angelita. Isso porque o preguiçoso ainda faz as coisas, mesmo que seja nos minutos finais do prazo. Já o apático pensa que nada do que fizer vai mudar seu destino. Fica imerso nos lemas ‘tanto faz’, ‘fazer o quê?’… uma leseira sem fim.

É bom lembrar, no entanto, que apatia e preguiça variam da mesma improdutividade. E não levam ninguém a lugar algum. Moral da história: dormência emocional, o que não faz bem à ninguém.

MOTIVOS

Entre as várias causas, podemos dizer que o problema vem de quando vemos pouco resultado em lutar por alguma coisa. Assim, acionamos o mecanismo de cruzar os braços, como se pudéssemos evitar essas frustrações.

A esse ponto, você deve estar aí se perguntando se a sua indiferença em relação à camada de ozônio pode ser a patologia de que se trata essa matéria. Pois saiba que são duas coisas bem distintas. A apatia patológica acontece quando você se sente inerte a todas as esferas da sua vida – tanto num plano mais social quanto no mais íntimo.

‘Fiquei três anos na inércia’

‘Estava tudo bem comigo. Tinha namorado, estava na faculdade, tudo era bem confortável. Mas passava o dia todo no sofá. Sem vontade de levantar para nada. Já passei por depressão, e não era a mesma coisa. Fiquei assim por uns três anos, nessa inércia. Parecia que eu apenas assistia a uma peça, não fazia parte dela. Só que o palco era da minha própria vida. Por mais que pensem que era preguiça, sei que não era. Eu realmente não tinha via objetivo nenhum em fazer qualquer coisa. Na preguiça, a pessoa até faz as coisas, por mais que prorrogue ao máximo.Sabe quando nem vontade de rir você tem? Na apatia você pensa: ‘Pra quê fazer isso?’ E foi o que me levou a procurar ajuda, por conta própria.Ainda não acho que saí completamente disso. Mas o que me ajudou muito a sair do sofá foi uma viagem que fiz a Aracaju, sozinha. Foi muito ousado para mim, que em outras épocas nunca viajaria só. Foi um grande passo não ter ninguém para me puxar pela mão. E é muito melhor tomar atitudes por mim mesma. Isso me fez mais capaz de sentir as coisas.Acho que era isso que eu precisava para deixar a apatia. Mas hoje, só de ter olhado mais pra mim mesma nessa viagem e de ter saído do sofá já me sinto muito melhor!’

Juliana Cardinali, 23, estudante de design de interiores.


Ele faz tudo com muita emoção

Conversar com o motociclista Ronaldo Batista é uma agulhada na bola murcha que costumamos encher de apatia. Ele vivencia cada um de seus dias com muita emoção. Cheio de expressividade, fala das vitórias que já saboreou. ‘Ganhei algumas coisas na Justiça, mas é só porque fui atrás.Não deixo passar mesmo! A vida me ensinou assim’. Ele não luta por que tem tempo livre de ir ao Procon – onde é líder de reclamações. Se reclama de R$ 0,10 centavos, é porque se sentiu lesado e não se conforma em cruzar os braços e dizer ‘não vai dar em nada mesmo…’

Sua perda mais recente, no entanto, faria qualquer um desanimar de tudo.Por falta de suporte técnico, um funcionário deletou mais de 15 mil cadastros de rua e 8 mil fichas de clientes, indispensáveis ao seu trabalho com telemensagens. Assim como ele, mais duas pessoas foram lesadas. Adivinhe se elas foram atrás dos prejuízos? ‘Elas acharam que não ia dar em nada e me aconselharam a deixar pra lá. Eu fiquei 3 dias sem comer por isso! Imagina se deixaria?!’

O que leva alguém à apatia?

Pela descrição do apático, ele parece estar bem distante de você, não é? Mas embora seja difícil admitir, a psicóloga Angelita Scárdua diz que o problema pode atingir qualquer um e é simples de ser identificado. ‘O apático até reconhece a importância das experiências afetivas, mas realmente não consegue sentir nada. E, se sente, não tem a motivação intrínseca necessária para enfrentar a experiência’.

Já no aspecto físico, a apatia provoca desgaste físico, enfraquecimento dos músculos e falta de energia. Embora possa ser um estágio leve da depressão, estar apático não significa necessariamente estar deprimido.

A realidade é que a apatia pode ser bem normal em algumas fases da vida. Superar a morte de alguém, por exemplo, pode gerar uma postura apática por um período. Seguem o mesmo rumo pessoas que se frustram como fim de um casamento, filhos que se sentem impotentes diante do divórcio dos pais, ou um aluno que não passa em um certo teste diversas vezes. ‘São situações comuns que podem gerar esse quadro, desde que sejam desestabilizadoras e pareçam insuperáveis’, conclui a psicóloga Angelita Scárdua.

Mas ela não ataca não só nesses furacões. Pode vir também do estresse rotineiro aliado a uma privação afetiva. ‘Há duas formas de lidar com a falta de uma base emocional: uma é a ansiedade, a outra é a apatia’.

Se envolver em projetos ajuda a sair da apatia

Para cortar os tentáculos imobilizantes dessa falta de emoções, não há outro caminho a não ser enfrentar o problema. Nessa busca, como diz a psicóloga Angelita Scárdua, um psicoterapeuta pode ajudar a entender o contexto em que ela se criou, avaliando as emoções e situações que estão sendo negligenciadas.

Depois de saber o que provoca essa letargia, é preciso mesmo afiar as garras e partir para cima dela. ‘O remédio para a apatia é encarar o medo. Para isso é importante fortalecer a auto-confiança e resgatar a capacidade de lidar com os desafios’, orienta Angelita.

Além de investir nas emoções, é bom também se dedicar a atividades que equilibrem a energia e a vitalidade do corpo. ‘Algo lúdico como a dança, a arte, o investimento num sonho profissional, uma conquista pessoal podem ajudar a superar o problema’.

Nessa hora, se inserir em um contexto mais coletivo também pode aumentar nossa disposição de agir. E é por isso que as Ongs tiveram uma multiplicação efervescente, nos últimos anos: ver alguém com a mesma luta que a sua pode fazer as coisas ganharem um novo sentido. Quer um empurrão maior? Estabeleça um prazo para botar um projeto em prática.Pode ser o pontapé que faltava para você pular da cama e partir para a luta.

Jornal A Gazeta – Caderno Leve A Vida (13/04/2008)

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