Entrevista – Angelita Corrêa Scardua: Psicóloga da Felicidade

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“A felicidade está nas coisas simples da vida.”

Náira Malze – Jornal A Gazeta: Dezembro de 2007

Psicóloga diz que a felicidade está no auto conhecimento e na maneira como nos relacionamos com o mundo.

A felicidade, sempre desejada e cantada em verso e prosa, é mais do que um objetivo na vida da psicóloga Angelita Corrêa Scardua. É o tema sobre o qual ela faz pesquisas, seguindo a linha da psicologia positiva – não por acaso chamada também de “Ciência da Felicidade”. Nesses estudos, Angelita chegou a várias conclusões. Uma delas é de que o brasileiro não é tão feliz quanto se imagina. Outra é que a felicidade depende mais das relações que estabelecemos e menos do quanto temos na conta bancária para gastar.

O que é psicologia positiva?
É uma abordagem psicológica surgida nos Estados Unidos nos anos 80 sob a tutela do psicólogo Martin Seligman. Essa linha dedica-se a estudar os pensamentos, as emoções e as experiências positivas; e o que se pode fazer para ter experiências e emoções mais saudáveis e satisfatórias e, assim, viver uma vida mais feliz. Por isso também é chamada de psicologia da felicidade.

Na prática o que quer dizer?
Para a psicologia positiva, mesmo que você tenha aprendido a ter uma visão negativa da vida não está condenado a ser um adulto infeliz. Não importa quantos anos você tenha, é possível mudar a forma de perceber o mundo e a si mesmo. Para tanto, é necessário tomar consciência de como você está vivendo suas emoções, perceber o que te afeta emocionalmente, sejam fatores externos e/ou internos, e aprender a gerenciá-los. Obviamente, esse movimento de autoconhecimento passa por aprender a se observar e ao mundo à sua volta. E, é claro, aprender a reconhecer sua motivações exigirá mudanças na forma de você viver, sentir, pensar e agir.

O que isso tinha a ver com a sua pesquisa?
Eu já participava de uma pesquisa de neurociências sobre os estados afetivos, basicamente girando em torno de estudos sobre o quanto e como nosso humor varia ao longo do dia, e de como o ciclo vigília-sono influência nessa variabilidade. Porém, muito antes disso, eu já tinha certa afinidade com a psicologia junguiana (de Carl Jung, psiquiatra que defende que o desenvolvimento humano se dá ao longo de toda a vida e que o objetivo desse processo é nos levar à realização dos nossos potenciais como seres humanos). Ao estudar os afetos, o humor e o desenvolvimento humano me deparei com a questão essencial do porque algumas pessoas se sentem melhores com suas emoções. Isso me levou a pensar quais seriam os fatores que exercem influência no nosso bem-estar… afinal, qual seria o segredo de ser alguém feliz?! Ainda, naquele momento eu também fazia parte de um grupo que trabalhava com a teoria dos arquétipos de Jung, estávamos investigando os mitos presentes no imaginário cultural brasileiro sobre o que é ser brasileiro. E aí a questão sociocultural entrou em jogo. Era inevitável que eu começasse a pensar, também, em como o lugar étnico-geográfico afeta a nossa experiência de felicidade. Em relação ao brasileiro, por exemplo, há o mito de que ele é feliz, mas nos nossos estudos identificamos que o brasileiro não acredita que possa mudar a própria vida. Em vez disso, atribui essa responsabilidade a algo ou alguém externo como provedor das condições necessárias para uma vida boa.

Mas o brasileiro não se enxerga com positividade?
Quando é perguntado sobre o que é bom no país, ele se refere à natureza: praias, clima, mulheres… ou seja, a idéia é que o que temos de positivo não foi construído mas dado. Quando a pergunta é o que pode mudar o país, aparece uma contradição: a crença na educação. Quer dizer, o que temos de positivo não é construído, não é um mérito nosso, não é nosso trabalho. Já o necessário para mudar requer esforço pessoal, mas não é àquilo que nós valorizamos. Não nos reconhecemos como inteligentes, dedicados, não apontamos nossas obras, realizações, etc., como aspectos positivos da nação…a visão de que somos capazes de transformar a realidade por meio da nossa própria ação seria um fator essencial para a valorização da educação e do conhecimento. Como essa congruência não existe as pessoas tendem a buscar as alternativas mais cômodas, àquelas que se inserem na perspectiva de que o que é bom é dado, vem de fora! E, claro, essa visão de mundo compromete a felicidade.

Então o brasileiro não é feliz?
Aqui, e nas culturas latinas, é comum confundir alegria com felicidade. São coisas diferentes. A alegria é o estado emocional- afetivo de uma satisfação momentânea, como a festa de casamento ou comprar o carro dos sonhos.

E felicidade?
É um estado no qual você se sente de bem consigo mesmo e realizado com o que tem. É comum pensar que uma pessoa feliz não tem sofrimento mas não é verdade. A diferença está em funcionar positivamente e entender que problemas são temporários e superáveis.

Qual a relação de felicidade com qualidade de vida?
Por vivermos numa sociedade consumista há a fantasia de que o consumo traz felicidade. E aí quando se fala em qualidade de vida- e na pessoa ter lazer, ter uma alimentação saudável, se exercitar, fazer todos os check-ups é comum associar qualidade a um certo padrão socioeconômico, e riqueza à felicidade. Mas todas as pesquisas mostram que não existe relação direta entre riqueza e felicidade.

Mas a qualidade de vida pode variar com a riqueza?
Sim, ela é variável. Para uma pessoa pode significar pagar o melhor restaurante da cidade. Para outra, subir a laje e improvisar uma churrasqueira. A qualidade de vida varia em função das suas expectativas de vida. A questão é: se eu me imponho tarefas que me sobrecarregam, vou romper com a qualidade de vida. E sem qualidade a felicidade fica difícil.

Por que é tão difícil sair do discurso e incorporar qualidade no dia a dia?
Por causa do imediatismo, tendemos a associar satisfação com consumo. Então se não estou bem é porque falta algo que pode ser consumido e que me traz uma satisfação, que é temporária mas é imediata. Adotar um padrão assim demonstra profunda imaturidade psicológica e incapacidade para postergar a gratificação. Ou seja, de entender que o prazer vem depois de certo esforço. E a qualidade de vida depende disso.

A falta de tempo é uma justificativa para essa imaturidade?
Sim, dar desculpas por sua falta de tempo passa a idéia de uma pessoa com a agenda cheia de muitos compromissos, e alguém com esse perfil na nossa sociedade é valorizado. Pega bem dizer “eu não tenho tempo”, é uma desculpa padrão, mas na verdade tempo é uma questão de prioridade.

E é realmente possível se dedicar com qualidade a todas as áreas da vida?
Sim, acontece que por conta dessa percepção imediatista muitos não estão dispostos a fazer um compromisso consigo mesmo pela felicidade. Por exemplo, quem está infeliz no casamento, se parar e avaliar o que está errado percebe que precisa mudar alguns aspectos, e que dá trabalho, leva tempo. Mas a maioria não tem maturidade para se comprometer, o que demanda investimento de longo prazo. Então, busca-se uma saída imediata, que pode ser uma amante, uma cirurgia plástica, o trabalho…

Mas investir no casamento aumenta a chance de ser feliz?
Muito. Todas as pesquisas de felicidade comprovam isso. Numa relação estável em que haja cumplicidade, companheirismo, afinidade e intimidade, a pessoa se sente livre para se expressar integralmente,  tem-se a sensação de que se é amado(a) independentemente de quem somos. Isso é fundamental para a felicidade.

Você atende principalmente a pessoas na meia idade. Nessa faixa etária, a busca pela felicidade é mais urgente?
É, Jung traz a idéia de que a partir dos 35 anos vivenciamos um processo psicológico que seria o ápice do desenvolvimento humano. É a Metanóia ou “crise da meia idade”, quando a pessoa faz uma avaliação de tudo que viveu e passa a se perguntar se valeu a pena. Isso pode gerar um conflito intenso e, junto das marcas do tempo no corpo, mostra que a vida tem um prazo. É um momento crucial, hora de nos realizarmos como seres humanos.

Como uma segunda chance?
Sim, o momento de resgatar quem é você, o que quer, o que busca. E não o que os seus pais ou a igreja ou a sociedade determinaram. A re(avaliação) das prioridades de vida levam a tomada de decisões que, quase sempre, implicam rupturas e perdas e, por isso, gera uma crise. Por isso nem todos escolhem o caminho da felicidade, porque o caminho da felicidade é o de ser você mesmo, de aprender a se expressar integralmente de todas as formas mas de uma maneira responsável, consciente, equilibrada…bom, é claro, isso tem um preço!

Hoje, ao mesmo tempo em que se buscam avanços para o futuro, fala-se em resgatar valores simples. Como explicar essa contradição?
Mesmo com a desigualdade gerada pelo capitalismo – embora, é válido lembrar, a desigualdade não é uma particularidade da economia capitalista mas uma condição presente nas mais variadas formas de organização humana – nunca tantos tiveram acesso a tantas coisas como hoje, saúde, moradia, férias, bens de consumo… Ao mesmo tempo, nunca os índices de felicidade foram tão mornos. Para se ter uma idéia, pesquisas dos Estados Unidos e da Grã- Bretanha mostraram que, nesses países, hoje se consome cinco vezes mais do que consumia-se há cinco décadas atrás mas o índice de felicidade está estagnado desde a década de 50.

Por quê?
Com tantas promessas da tecnologia e da ciência, por um momento acreditamos que conseguir controlar o corpo, as doenças, o envelhecimento, morar em casas super confortáveis e dirigir carros velozes nos tornaria felizes. Mas pensar assim é focar na nossa porção animal preocupada com a sobrevivência da espécie.

E a outra porção?
O ser humano tem um lado que anseia pela divindade – entenda-se divindade aqui como a expressão daquilo que não é perecível, ordinário, comum – e por transcender a condição animal de trabalhar-reproduzir-sobreviver. O humano anseia pelo enlevo, pela satisfação, pela leveza, o que não pode ser plenamente contemplado pela ciência. Porque, em grande parte, o que satisfaz nossos anseios de ascensão são coisas muito simples como a visão do belo numa flor, num pôr-do-sol, aquele sentimento de que a vida pode ser mágica em alguns momentos…é o arrebatamento estético, por exemplo, que nos dá a sensação de que a vida pode ser maior e melhor, é a beleza da vida, a essência. A sensação de que a vida é mais do que apenas sobreviver, isso, na média, é dado pelas coisas simples da vida.

Posso dizer que elas promovem a felicidade?
Sim, coisas simples como ter uma vida afetiva estável, amigos de verdade, tomar um banho de chuva com vontade. Ter prazer pela vida. Ter uma atividade que traz satisfação e a sensação de que você faz algo por um mundo melhor. É acreditar em algo maior, num significado para a vida cotidiana, por isso a espiritualidade é tão importante para a felicidade. São coisas simples que nos dão a sensação de que a vida pode ser leve, suportável, mesmo nos momentos mais difíceis.

Mas mesmo as coisas simples podem ser confundidas pelo consumismo?
Podem. Quando nos distanciamos do sentido/significado original da experiência afetiva podemos confundir o elemento essencial que gerou a emoção com uma outra coisa qualquer. Nesse sentido, os objetos, as coisas materiais se prestam muito bem à confusão. Porque isso acontece? Porque o que é material é palpável e nós, seres humanos, somos muito sensoriais. É mais fácil ter contato com aquilo que pode ser tocado, cheirado, degustado, etc…Vou dar um exemplo bem simples: se você costumava ir à casa da sua avó quando criança, e se ela morava na roça, e se era uma avó típica, muito provavelmente você tomou leite queimado numa canequinha de esmalte, certo? Num dia chuvoso, tenho certeza de que a sua avó preparava o tal leite quente e doce e te servia na canequinha acompanhado de um beijo, abraço, afago, palavra afetuosa…carinho! Você, criança, se sentia aconchegada, acolhida, protegida, saciada, feliz! Muitas pessoas tentam recuperar uma experiência desse tipo quando adultas. Como fazem isso? Comprando canequinhas de esmalte numa loja descolada, alternativa e cara! Porque, de novo, devido a valores consumistas a gente tende a acreditar que pode comprar a felicidade, adotando determinados comportamentos como uma fórmula. Contudo, a felicidade não está na canequinha de esmalte mas na sensação de estar protegido, guardado, acolhido, amado!… O fato é que visitar a avó, a mãe, ou ser essa pessoa acolhedora para uma criança, oferecendo aconchego, doçura e afeto, promove muito mais felicidade do que o mais caro jogo de canecas de esmalte do mercado! Porque, no fim das contas, a principal fonte de felicidade, e de infelicidade, está nas relações que estabelecemos com as outras pessoas e com o mundo.

“Não existe felicidade se você não for capaz de reconhecer quem você é e o que é importante para si mesmo.”

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2 Respostas to “Entrevista – Angelita Corrêa Scardua: Psicóloga da Felicidade”

  1. Elisa Avelar Says:

    Excelente a matéria da Dra. Angelita Scárdua.
    Parabéns !

  2. Grupo Papeando Says:

    Olá Elisa,

    Que bom que gostou da matéria!! Caso queira ler mais artigos da Angelita acesse o site del…

    http://www.angelitascardua.wordpress.com

    Saudações,

    Grupo Papeando


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