A Expectativa Feminina do “Casamento Feliz” e Suas Implicações Psicológicas Através da Psicologia Analítica

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Ilustração: Marc Chagall

Por Aline Aquino

Revista Coniunctio nº 4 Volume 2


O casamento, apesar das várias transformações culturais e psicológicas da sociedade contemporânea, é um momento desejado por muitos… As mulheres em especial, costumam nutrir a fantasia de um encontro com um “príncipe encantado” que as desposará para viverem uma vida de contos de fada, em que serão “felizes para sempre”.

Essa idéia de que os casamentos constituem-se principalmente de felicidade é bastante complexa e gera expectativas que têm um forte peso no relacionamento do casal e no desenvolvimento psicológico dos cônjuges após as núpcias.

O que pode estar na base social e psicológica desse desejo e entusiasmo feminino por casar? Por que há uma idealização do casamento como um tempo de alegria e satisfação total de anseios? Objetivamos fazer algumas considerações acerca dessas questões, abordando possíveis implicações para a mulher que vivencia essa expectativa em seu caminho de individuação.

A sociedade patriarcal e as mulheres

Observamos em nossa sociedade patriarcal um movimento que prima pelo desenvolvimento exagerado de aspectos masculinos em detrimento dos femininos. Assim, a objetividade, a percepção, o pensamento, a iniciativa e a luta heróica são extremamente valorizados.
Já a intuição, o sentimento, a sensibilidade, a criatividade, a receptividade e o esforço paciente são aspectos geralmente relegados a um segundo plano, sendo mal compreendidos e utilizados de modo inadequado ou tendencioso.


Com a negação de algumas facetas do feminino, as mulheres acumularam um prejuízo na percepção de “seu próprio núcleo pessoal de identidade, do valor e de um ponto de vista femininos” (Perera, 1985, p.21).


Elas assumiram o papel que lhes foi dado, ou seja, adaptaram-se ao mundo dos homens, assimilando e desenvolvendo valores tipicamente masculinos. Perera (1985, p.21) as chamou de ‘filhas do patriarcado’ e explicou que, “Isto se dá por se terem valorizado, em relação às mulheres ocidentais, virtudes que freqüentemente apenas se definem por sua relação com o masculino: a mãe e esposa fecunda e bondosa; a filha agradável, dócil e delicada; a companheira diligente, discretamente encorajadora ou brilhante”.
Através da bandeira do Cristianismo, o patriarcado encontrou um meio de estigmatizar o feminino e encaixá-lo em padrões específicos. A mulher cristã deve possuir as virtudes de Maria, a mãe de Jesus. E quais são esses atributos? Maria é obediente, pura e virginal, ou seja, é tão casta que concebeu sem o intercurso sexual, de modo imaculado.

A mulher cristã, seguindo como pode o exemplo de Maria, só é autorizada à relação sexual com fins de reprodução da espécie, isto é, “o sexo é santificado se estiver a serviço da procriação, livre de desejos da carne e dentro de um clima de castidade” (Cavalcante, 1993, p.105). A maternidade, nessas condições, também é valorizada pelo patriarcado.

A “mulher-Maria” é incapaz de lidar com aspectos do mundo prático e lógico, mostrando-se inábil para a competição do mundo masculino. Cavalcante (1993, p.106) alerta para o perigo das mulheres incorporarem totalmente essas características cultuadas por essa sociedade patriarcal:


“Assumindo a identidade de um ser puro, frágil, desprotegido, incapaz de auto-suficiência, que precisa que o homem a ampare, a mulher cria para si mesma uma castração psíquica, que a alienará do mundo e a tornará realmente frágil e dependente, escondendo o seu real potencial”.
O valor da mulher é dado por sua submissão, ou não, a essa imagem fabricada de acordo com os desejos de controle patriarcal do feminino (Idem, 1993).


O casamento na sociedade patriarcal

Associado ao modelo cristão de mulher, está o modelo cristão da família feliz, composto por Maria, José e Jesus, sempre retratados sob uma áurea de harmonia, paz e amor mútuo (Guggenbhül-Craig, 1980).


Constituir, através do casamento, essa família cristã feliz, é uma das missões que a mulher herdou do patriarcado. É seu dever sustentar seu casamento a qualquer preço, negando, se for necessário, o que lhe é importante.


Muitas mulheres querem corresponder a essas expectativas da sociedade patriarcal em nome de uma ilusória e passageira sensação de bem-estar, segurança e aprovação. Por conta disso, vários casais aparentam ter um bom casamento, mas de fato, vivem uma paralisação do crescimento de um dos parceiros (ou de ambos) que se sacrifica, negligenciando seu próprio desenvolvimento em detrimento da demanda do outro (Idem, 1980).
Vargas (1989, p. 104), fala do quanto o vínculo conjugal pode estagnar a vida dos cônjuges quando mal conduzido:


“Quando um cônjuge só se expressa em função do outro, se “explica” como reação ao outro, é sinal que o vínculo se distorceu para o lado da definição em função do outro e se tornou sufocante e paralisante e o casamento uma ‘não-vida’”.


Todo ser humano caminha naturalmente em direção a uma individuação, processo de “manifestação, na vida, do potencial inato e congênito da pessoa” (Hall, 1992, p.62). Esse movimento se dá através da busca de um indivíduo para achar seu próprio sentido e seu destino de vida.


Essa busca é variada, mas sempre cheia de confrontos com sofrimentos e mortes simbólicas. A idéia (re)produzida culturalmente de que o casamento é uma instituição feliz entra em choque com esses caminhos, pois não levam em consideração as necessidades de amadurecimento psíquico dos cônjuges (Guggenbhül-Craig, 1980).
O casamento tradicional, estruturado pelo patriarcado, que atribui papéis aos cônjuges sem considerar suas individualidades, deve ser criativamente renovado ou haverá “um risco de regressão caótica nos relacionamentos conjugais” (Vargas, 1986, p. 118).

Um bom casamento não deve existir em função da manutenção do bem-estar, podendo ser entendido como um meio para a individuação. No entanto, esse é só um dos meios para individuar, não sendo para todos. Segundo Guggenbhül-Craig (1980, p. 72):

“Um casamento não é confortável e harmonioso; antes é um lugar de individuação onde uma pessoa entre em atrito consigo mesma e com um parceiro, choca-se com ele no amor e na rejeição e desta forma aprende a conhecer a si próprio, o mundo, bem e mal, as alturas e as profundezas”.

No casamento, a confrontação, regada de sofrimento, ódio, frustração, etc., é natural e saudável. A falta de oposições paralisa o desenvolvimento psicológico de cada um dos cônjuges e “pode reduzir a relação conjugal ao seu componente de amizade e solidariedade” (Vargas, 1989, p.106).


Muitos casamentos não dão certo porque os casais, apegando-se à idéia de “bem-estar” conjugal como última ordem, reprimem e excluem suas características mais importantes e essenciais sem perceber que quanto mais conflitos existirem, mais interessante e fecundo se torna o caminho para o encontro consigo mesmo (Guggenbhül-Craig, 1980).
No anseio de cumprir o dever que lhes foi dado pela sociedade patriarcal, muitas mulheres se casam, sem que esse seja o seu real desejo. Por que não, em nome de seu próprio sentido, buscar outras possibilidades para individuar, de buscar a “salvação” que não no casamento?

A mulher precisa ir ao encontro da sua identidade, buscando assim, separar os seus desejos da expectativa da sociedade. Se quiser individuar através do casamento, precisa desfazer-se de suas fantasias de que depois da lua-de-mel, sua vida será maravilhosa e confrontar-se com a realidade de que ela é responsável pelo seu próprio caminhar e que encontrará muitos confrontos nesse percurso.

Um aprofundamento da questão

Ao tratar da questão do casamento, Jung (1981, p.195) lembra que: “Sempre que tratamos do relacionamento psíquico, pressupomos a consciência. Não existe nenhum relacionamento psíquico entre dois seres humanos se ambos se encontrarem em estado inconsciente”.
Ele admite, no entanto, que há uma certa inconsciência parcial que não pode ser desconsiderada, pois é impossível se conhecer todo o inconsciente.

É certo que a quantidade de inconsciência de uma relação é inversamente proporcional ao relacionamento psíquico. É preciso ser consciente de si mesmo para poder distinguir-se do outro e, assim, relacionar-se com ele.

Quanto maior for a extensão da inconsciência, mais a escolha do parceiro é influenciada pelas imagens arquetípicas internas do animus e da anima.

Essas imagens são inconscientemente projetadas no parceiro por quem se apaixona de modo encantado, o que faz com que ele seja supervalorizado e sua realidade humana por detrás da projeção fique obscurecida (Sanford, 1987).

Esse “não é um sentimento maduro de respeito e de admiração pelo outro; pelo contrário, ama-se um aspecto de si mesmo” (Qualls-Corbett, 1990, p.93).

Quando uma mulher projeta em um homem seu animus, ocorre a paixão pelo parceiro ideal. Esse homem tem aparência de um Deus e a mulher, encantada, vai sendo seduzida por suas próprias fantasias românticas de que encontrou uma pessoa que vai realizar seus desejos, preencher seus anseios, proporcionar-lhe a verdadeira e infinita felicidade (Benedito, 1996).

No momento da paixão, tudo é felicidade e se espera que ela seja eterna (‘… e foram felizes para sempre’ dos contos de fada).
Até quando uma pessoa puder corresponder a uma imagem projetada, não haverá propriamente um conflito.


No entanto, esse estado idealizado e “lindo” precisa ser confrontado com a realidade e há que se realizar “a diferenciação entre a imagem interna e a pessoa externa” (Jung, 2003, p.25).
Ninguém pode concorrer com a magnitude dos deuses e, ver o parceiro como ele realmente é pode ser desinteressante e decepcionante (Sanford, 1987). Jung (2003, p.24) explica porque esse movimento ocorre:

“Um arquétipo, tal como o é o animus, nunca coincide com uma pessoa individual, tanto menos quanto mais individual for a pessoa. Na verdade a individualidade é o contrário do arquétipo, pois o individual é exatamente aquilo que de alguma forma não é típico, e sim talvez a mistura única e original de traços típicos”.

Há uma dificuldade de renunciar à retirada da projeção da imagem arquetípica devido ao enorme tamanho do fascínio por ela proporcionado. É por isso que as primeiras tentativas de resolver a questão são, geralmente, através de um esforço por enganar a si mesmo e fingir não ver o que está acontecendo (Jung, 2003).

Porém, para um casamento como caminho de individuação, é preciso maturidade para realizar o sacrifício da ilusão projetiva e, assim, tentar integrar seu animus à consciência.

A partir de uma integração do animus é atenuado o controle do mesmo sobre a identidade feminina, havendo maior liberdade pessoal e uma empatia mais profunda com os outros (Young-Eisendrath, 1995).

Quanto mais prática a mulher se tornar em uma relação ativa com seu animus, “mais efetivamente receptiva será a um homem verdadeiro quando assim o desejar” (Whitmont, 2002, p. 190). Segundo Benedito (1996, p.24):


“O desenvolvimento do vínculo conjugal dependerá da capacidade dos indivíduos de lidar com a frustração com que se deparam quando a imagem idealizada não corresponde mais ao comportamento do outro; e também dependerá da condição psicológica dos parceiros para reestruturarem o vínculo em bases mais reais”.


Em um casamento, findadas as expectativas inconscientes dos cônjuges, o animus pode funcionar criativamente, propiciando o desenvolvimento psicológico das personalidades do casal. Segundo Qualls-Corbett (1990, p.108), um matrimônio sagrado, a nível interpessoal ocorre quando:


“Projeções da anima ou do animus não se manifestam; o outro é mais claramente visto e querido por aquilo que verdadeiramente é. Experimenta-se a sensação de liberdade ao se explorar a profundidade do próprio e verdadeiro ser quando se está ligado a alguém a quem se ama, o que estimula o desenvolvimento e a criatividade”.
A mulher que deseja viver um bom casamento deve desvencilhar-se da expectativa do casamento de contos de fada e vivê-lo como um meio de individuação.

Para tanto, precisa se libertar externa e internamente. Ela deve procurar outras possibilidades de vida que não a previamente dada pela sociedade patriarcal. Deve também, reconhecer e integrar aspectos de seu inconsciente, o que só será possível através de dolorosas renúncias das suas fantasias infantis.

Esse movimento não acontecerá de uma única vez, mas permeará todo o período do matrimônio, pois o caminho de auto-conhecimento é infinito; é uma constante busca…

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