O Casamento – Visões de Uma Revista Feminina

caminhofeliz


Por Cristina Flora


Revista Máxima – Especial Casamento (Portugal/2008)


Casamento: Até que a vida nos separe?

Apesar das inúmeras formas que os seres humanos encontraram para ficar juntos como parceiros, a verdade é que o casamento permanece um símbolo muito forte e único sinónimo de promessa eterna.


E, pela sua aura de conto de fadas – onde a noiva é princesa por um dia –, pela convicção religiosa de quem o pratica, mas talvez sobretudo pelo seu valor familiar, mantém-se como a instituição secular que é.


Mas então, o que é que mudou, se as pessoas continuam a casar? A mudança ocorreu nos próprios indivíduos e na forma como vêem hoje o casamento.


Ao passado, vai buscar aquilo que ainda inspira muitos casais: a possibilidade de assegurar um quadro estável às crianças, um lar seguro, onde estas possam filtrar o modelo ideal do pai e da mãe.


Aliás, no início, a função do casamento era a de assegurar a filiação e a perenidade dos patrimónios. O amor veio mais tarde…


Hoje, respeita-se a tradição – ou não tivesse a nossa sociedade o culto dos papéis –, mas o casamento ilude os românticos.


É certo que já ninguém se casa apenas para suprir carências afectivas ou para ter uma vida sexual activa, uma vez que isso é possível sem as implicações e as responsabilidades da vida conjugal.

Porém, apesar de exigir uma certa exclusividade, uma série de renúncias e uma dedicação maior ao outro, perdeu a imagem de elo inquebrável, sufocante e arrasador. Ao invés, assume-se como um caminho a percorrer a dois.


E como todos os caminhos, sujeito a desvios, terrenos mais ou menos firmes, saídas paralelas, buracos e fins abruptos. “Quem casa, amanhã descasa” poderia substituir um recente slogan publicitário.


É óbvio que ninguém casa a pensar no divórcio, mas o facto de ele existir exige uma articulação cuidadosa da vida em comum, essa mesma vida que, antecipando-se à morte, poderá um dia ter algo ou alguém a separar o casal.



Prevalecerá então o amor?

Os casais modernos já não se separam por incompatibilidade de feitios. Alegam a falta de comunicação, a prioridade que se dá à car-reira, o egoísmo que não permite renúncias, o desleixo, a inexistência da intimidade.


De acordo com a terapeuta familiar Teresa Dias de Carvalho, o que hoje mais separa um casal é “a vida profissional bastante activa”:


“As pessoas acabam por sentir que isso é um valor delas próprias enquanto pessoas e fazem um grande investimento na profissão, o que acarreta menor tempo para a família e outras áreas na vida, como o lazer.”


Viver juntos significa fazer tudo juntos?

O sociólogo e professor da Sorbonne, François de Singly, defende que a coabitação não obriga à fusão das práticas. No seu livro Livres Juntos– O Individualismo na Vida Comum, refere:

“As actividades diferenciadas são possíveis desde que os dois parceiros estejam de acordo quanto à estrutura da sua vida em conjunto. O indivíduo não se deve anular, mas também não pode desprezar/ignorar o companheiro.”


Assim, por exemplo, num casal, um dos parceiros pode levantar-se mais cedo e ir correr ou praticar outro tipo de desporto, enquanto o outro prefere ficar a dormir até mais tarde.

Para se atingir um equilíbrio entre o “estar juntos” e “fazer juntos”, é preciso que as regras de acção sejam definidas em conjunto.


Afinal, é isso que significa viver com alguém, ou seja, viver com regras que não são definidas apenas por si. “Ter em conta o outro assume, pelo menos, três formas:


Ouvir o parceiro quando protesta por alguma coisa que lhe foi imposta; ou aceitar que o parceiro faça como ele quer sem lhe pedir para se submeter ao seu sistema de preferências; ou elaborar a dois um projecto comum.” Tudo isto para manter e preservar a relação.


No estudo analisado, o sociólogo francês verificou que a televisão, a música e o telefone podem ser potenciais elementos de discussão entre marido e mulher.


Deste modo, para que a televisão não seja um intruso, sugere que se defina “o momento adequado para a ouvir, a natureza dos programas a ver, e a duração consagrada a esta actividade”.


Também o telefone, que em princípio deveria ser um instrumento de liberdade para se falar com os amigos, pode transformar-se num dispositivo de controlo:


“Onde estás? O que estás a fazer? Telefona-me quando chegares” – já todas ouvimos e dissemos isto…


Por sua vez, a música gera inúmeros conflitos, dado que pode estar muito alta e ser detestável aos nossos ouvidos.


Há que praticar-se o respeito alternativo: agora oiço Billie Holiday, a seguir ouves a tua lounge music e vice-versa.


A coabitação é mais exigente do que parece e produzem-se birras e situações de intolerância por coisas aparentemente pequenas. Até no que diz respeito à decoração do espaço:


“Qualquer que seja o autor ou a autora, a decoração deve poder ser assinada a dois nos espaços comuns. Quando não se estabelece um acordo para pôr em cena uma decoração comum, o casal pode decidir tornar visíveis os respectivos gostos e, assim, evidenciar um espírito de tolerância mútua.”


No fim de contas, o que ambos querem partilhar são bons momentos e, por isso, devem tornar a existência suportável e agradá-vel para cada um.


É vital ter em conta o outro, mas algumas actividades justificam o facto de não estarem juntos:

“Nas relações conjugais, coexistem de forma instável (e variável) duas normas de referência: o direito de ser o próprio e a reivindicação de uma vida a dois. A sua articulação não conduz nem à fusão nem à separação; pelo contrário, assenta na dupla negação destas duas soluções.

O entre-dois é construído como o horizonte normativo das famílias contemporâneas: demasiado ‘espaço seu’ traduz uma indiferença em relação ao outro; demasiado ‘espaço nosso’ representa um risco evidente de sufocamento”, conclui o sociólogo François de Singly.


Marido e mulher são inimigos íntimos?

De acordo com a terapeuta familiar Teresa Dias de Carvalho:


“eles são íntimos. Podem tornar-se inimigos porque a intimidade proporciona a vivência de sentimentos intensos. A expressão desses sentimentos, por vezes também de uma forma intensa, proporciona uma interdependência, uma relação de melhor conhecimento do próprio e do outro.


Nessa medida, se há desacordo, se há desajuste, no que são as expectativas e necessidades de cada um e na satisfação das mesmas, pode surgir um contexto propício ao surgimento de grandes conflitos e inimizades”.


O que dá então início às tensões na vida de um casal são justamente “as dificuldades de as pessoas se aceitarem uma à outra, de se entenderem, de se respeitarem, de olharem uma para a outra como seres independentes à partida, individuais. Quando um casal coloca a possibilidade de não ser casal, fica mais fácil a aproximação. Isto porque a relação não é sentida como imposta.


Mesmo depois de já serem companheiros, deve ser mantida esta margem de liberdade, com regras esclarecidas entre o casal”, defende Teresa Dias de Carvalho.


Por outro lado, também a relação com a sogra é quase sempre problemática. E, segundo Teresa Dias de Carvalho, este problema explica-se a partir da diferenciação das famílias.

“Quando as pessoas se casam, já têm de ter feito um processo de diferenciação da sua família de origem. Cada um deles deverá ter a sua independência estabelecida em relação aos pais.


As sogras são mulheres e, como tal, estão vocacionadas para as relações e aproximam-se. Se as fronteiras não estão bem definidas, é lógico que a sogra tem tendência a entrar na família. A nora queixa-se de que ela mexe nas gavetas, lava a roupa, faz as compras, o almoço. São queixas de interferência das sogras em assuntos que elas sentem ser da sua competência.”

A solução passará de novo por um diálogo tranquilo e esclarecedor. É triste um casamento deixar de funcionar só por causa de desentendimentos com a mãe do marido.


Para que o casamento sobreviva, é importante que marido e mulher façam concessões e adaptações, e que cada um as faça nas áreas do seu interesse.


A mulher privilegia a união da família e o marido, o bem-estar económico. Porém, já Freud dizia que nem mesmo o casamento mais feliz pode evitar uma certa porção de sentimentos hostis.

A verdade é que nenhum casal de adultos consegue provocar mais dano um ao outro do que marido e mulher.


Veja-se o caso da infidelidade. Mais do que as tradicionais disputas sobre falhas mútuas, expectativas goradas, necessidades não satisfeitas e díspares, discussões sobre dinheiro e sexo, a traição é mesmo a “facada” por excelência no matrimónio.


“A relação conjugal não se mantém a si própria só porque existe. Não controlamos as nossas emoções e pode acontecer voltar a apaixonarmo-nos por alguém.


O casal deve ter em conta que isto pode acontecer e, como prevenção, deve conversar sobre o assunto para perceber:


‘E se isto acontecer, como é que vamos os dois, como casal, lidar com esta situação?’”, explica Teresa Dias de Carvalho.


As pessoas traem por vários motivos. A traição pode ser uma consequência e não a causa de problemas na relação. Ou pode ser um envolvimento sexual sem amor. À partida, não há nada que possa conduzir mais depressa ao divórcio do que a existência de um caso extraconjugal, seja de uma noite ou de meses.

No entanto, quando se arrisca contar a verdade ao parceiro, avalia-se a capacidade de reconciliação de um casal:

“O estímulo do diálogo e da partilha, mas com a salvaguarda do respeito mútuo, são bases para a construção de uma relação mais satisfatória”, esclarece Teresa Dias de Carvalho.


O perdão é aplaudido por uns e desdenhado por outros. No entanto, se perdoar é a melhor maneira para a recuperação de um casamento atingido pela infidelidade, convém lembrar que aquele não causa amnésia.


Ou seja, não significa que a pessoa ofendida se esqueça da ofensa. O que acontece quando perdoamos a alguém, é que não utilizaremos qualquer estratégia para retribuir a dor e a agressão sofrida.


É preciso que o casal passe por um processo de reconquista mútua da confiança. O perdão não é uma senha para que as coisas voltem a ser como dantes.


Mas com esforços constantes e diários, pode restabelecer-se a harmonia. Os ingredientes principais para a recuperação são a honestidade, o diálogo e o respeito.

Hoje, as mulheres são independentes financeiramente, mas muitos casamentos
mantêm-se porque é o dinheiro de ambos que paga as despesas:


“Tem de se ter em conta o nível socioeconómico das pessoas. Nos níveis mais elevados, é mais fácil encontrarem-se situações em que as mulheres não dependem economicamente dos maridos e conseguem tomar uma decisão de separação, sem que o factor económico pese nessa decisão. Enquanto que, nos níveis médios, há uma situação de maior interdependência em termos económicos. Por isso, não existe tanta capacidade de as pessoas se autonomizarem de uma vida familiar que não correu bem.


Curiosamente, é nos níveis económicos mais elevados que registo uma maior relação de dependência porque também há muitos desníveis, ou seja, há maridos que ganham muito dinheiro, investem muito na carreira e as suas mulheres deixaram de investir na carreira delas e optaram por dedicar-se à casa e aos filhos”, explica Teresa Dias de Carvalho.

“Em qualquer classe, a dependência é um factor de risco para a agressão.”


Enumeradas todas estas dificuldades, seria bom pensarmos que as pessoas só se separam quando o amor entre elas acaba. Mas o amor só não basta. Uma vida em conjunto exige que ambos aprendam a “respeitar-se, a perceber-se como seres humanos independentes, perceber que, se calhar, o outro não pode satisfazer por completo as suas necessidades. Mas isto pode ser um processo negociado, em que ambos se vão descobrindo um ao outro e, nessa descoberta, podem sempre transformar o processo em qualquer coisa elevada e criativa, valorizando o seu conhecimento.


Num casal onde as emoções estão sempre ao de cima e são muito centrais, há a oportunidade de fazer esta caminhada e este conhecimento de uma forma distanciada de si próprio. Porque isto é um equilíbrio – um equilíbrio entre o estarmos em contacto com as nossas emoções e percebê-las, senti-las, um bocadinho mais de fora. Se conseguirmos fazer isso connosco e com o nosso companheiro, penso que talvez seja a chave para a manutenção de uma relação satisfatória”, argumenta Teresa Dias de Carvalho.


O nascimento do primeiro filho é muitas vezes palco de conflitos:


“Trata-se de um momento de crise na família porque, até aí, o casal vivia só a dois. O nascimento de uma criança, que é completamente dependente dos pais, implica que estes satisfaçam as suas necessidades. A mãe dedica-se mais ao filho e fica com menos tempo para o marido. Tem de haver uma divisão de papéis porque não vão os dois suprir as mesmas necessidades da criança. É bom ter um cuidador principal. O que acontece é que o pai fica arredado desta função e vive um vazio maior, enquanto a mãe está mais envolvida. O casal pode ressentir-se disso.”

Para ultrapassar esta fase, ambos deverão ver, para além da complexidade, o lado positivo que foi acrescentado à sua vida:


“O filho foi desejado pelos dois e eles vão ter de aprender a gerir a responsabilidade de serem pais e a gerir os maus momentos, como os problemas, as doenças, as dificuldades que a criança pode ter no desenvolvimento. É uma vida cujo sucesso os pais sentem que depende deles. A par disto, devem continuar a cuidar um do outro e das suas necessidades.”

Por outro lado, também nesta fase muitas mulheres se queixam da falta de desejo sexual. A verdade é que se passam noites sem dormir, o seu corpo está muito distante da forma anterior, é preciso mudar fraldas, o bebé chora e não se sabe o que fazer…


“Enquanto estão mais centradas no bebé e se sentem cansadas, é normal que o desejo sexual diminua, mas esta situação também é variável – depende um pouco de outros factores e circunstâncias do casal”, explica Teresa Dias de Carvalho.


Outro aspecto inquietante é a falta de privacidade, a qual condiciona o casal. Embora o recém-nascido até possa estar a dormir, acaba com a sua simples presença por constranger os pais:


“O bebé pode acordar a qualquer momento e passa a ser ele a gerir os ritmos de vida da família.”

Assim, neste caminho percorrido a dois, os problemas ou as soluções de um casamento estão nas opções que fazemos na vida, nas posições que assumimos, mais ou menos tolerantes, abertos ao diálogo e aos imprevistos do próprio dia-a-dia.


Um casal deve resolver os seus problemas a dois, mas só nós somos responsáveis pela nossa vida. E só nós sabemos quando ficar e quando partir.


Se vai casar…interrogue-se:


– Estou preparada para ser interrompida a meio de um tratamento de pele ou de uma elaborada depilação sem entrar em histerismo?


– E se ele considerar o seu gosto superior ao meu e pretender decorar sozinho o apartamento?

– Será que ele é a favor da repartição do trabalho doméstico? Quem cozinha não lava a louça e vice-versa?


– Acordarei todas as manhãs a ouvir música demasiado alta e a suplicar-lhe que baixe o som?

– Ele é uma pessoa aberta ao diálogo ou é preciso tirar-lhe as palavras a saca-rolhas?


– Conseguirei estar menos tempo com os meus pais, irmãos, amigos e amigas?


– Dar-me-ei bem com os meus sogros e a família dele?


– E se ele for desarrumado? Se deixar os seus objectos e roupas espalhados por todo o lado, a água no chão, os pêlos na banheira e as migalhas na cozinha e não estiver interessado em fazer qualquer esforço para se modificar?


– Será que ele quer ter filhos? Será que estou mentalizada para passar pela gravidez, pelo parto, por amamentar e dormir pouco?


– E se, após o bebé nascer, me passar a sentir desconfortável com o meu corpo e começar a perder o desejo sexual?


– O casamento é o principal objectivo da minha vida?


– Afinal, vou casar-me porquê?


Se já é casada…considere:


– O divórcio é uma das experiências mais traumáticas pelas quais podemos passar. Levamos anos a recuperar a confiança, o bem–estar e a capacidade de amar outra pessoa. Ou nós mesmas.

– Antes de se precipitar, tente perceber as razões e veja se o afecto não é maior do que o desentendimento.

– Recorrer a terapeutas familiares é uma ajuda externa que não deve ser desdenhada. Confidenciar a um amigo o quanto o seu casamento está mal pode ser um convite ao desastre.

– A infidelidade não é só beijar ou dormir com alguém. Cartas ou e-mails mais íntimos manifestam uma intenção de o ser.


– Os problemas começam a existir com a ausência de diálogo e a perda da intimidade.

– A traição traz sofrimento para todos os envolvidos e pode levar ao divórcio. Valerá a pena correr o risco?


– Quanto maiores forem as mentiras, mais difícil será recuperar a confiança.

– Um triângulo amoroso é sempre algo potencialmente perigoso. A felicidade estará no marido ou no amante? Ela deve estar em nós, naquilo que somos e fazemos e que partilhamos com os outros.


– A melhor prenda para os filhos é o amor entre os pais, mas se mantém um casamento falido apenas para os poupar, avalie o que será menos doloroso: a separação ou um dia-a-dia sem a presença do amor, da afectividade e do respeito?

Lidar com a sogra…


– Aprenda a combinar firmeza, amabilidade, paciência e mão firme.


– Se ela ralhar com os seus filhos, mantenha a calma e o sentido de humor.


– Se é visita assídua, não a receba de má vontade, mas dê a entender que, apesar de ela ser muito bem-vinda, gostava de ter mais tempo para estar com o seu núcleo familiar.


– Se ela a ignora – não referindo o seu nome ou não dialogando consigo – diga-lhe com tranquilidade que essa atitude a incomoda, mas evite os maus modos.


– Se rivaliza pelas crianças, imponha as suas próprias regras e diga-lhe que ninguém gosta mais dos seus filhos do que você, mas tente fazê-lo sem se aborrecer.


– Por último, trate a sua sogra como no futuro gostaria de ser tratada pela sua nora.

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