Confessionário x Divã

faith

Martha Mendonça/Revista Época


Analista que foi padre – João Batista Ferreira revolucionou normas, indispôs-se com superiores e implorou para fazer análise: ‘Ia enlouquecer’ – diz que religião e psicanálise se encontram na força da palavra, mas se afastam na idéia da culpa e do perdão.


Mineiro radicado no Rio de Janeiro há mais de 30 anos, o psicanalista João Batista Ferreira, de 60, é um dos profissionais mais respeitados da cidade. Mas nem todos os que deitam em seu divã sabem que, durante boa parte de sua vida,Ferreira ouviu as lamúrias das pessoas atrás de um confessionário. Antes de virar psicanalista, ele foi padre até os 27 anos. Dirigiu seminários e foi professor em escolas religiosas. Sua imagem sobre a religião e seu papel se chocaram com seus superiores na Igreja Católica. ‘Eu sempre tive a imagem de um Jesus amigo, compreensivo, pautando as ações da Igreja’, critica, discreto.Ferreira largou a batina nos anos 70, por questões políticas. É casado há 30anos e tem dois filhos. Na semana passada, falou a ÉPOCA.

ÉPOCA – Religião e psicanálise têm algo em comum?

João Batista Ferreira – Sim. O psiquismo como coisa fundamental do ser humano sempre existiu. O que Freud fez foi esquematizar, transformar em ciência. A religião tem, de certa forma, o mesmo alvo da psicanálise, que é a evolução do homem. E ambas trabalham com a palavra. Mas as duas se afastam à medida que a palavra da religião é uma palavra pronta, e a psicanálise tem palavras por dizer. A religião tem a palavra escrita na tábua, como lei. A psicanálise não tem lei. Ela lida com o que está por ser dito, ela está sempre por acontecer. A religião lida com o indivíduo como objeto, a psicanálise como sujeito. O padre perdoa. O psicanalista nem sequer julga.

ÉPOCA – O senhor julgava muito?

Ferreira – Até que pouco. Eu me lembro que, num período em que dei aula na universidade, muitas moças vinham se confessar comigo, falar sobre a questão da castidade. Eu dizia: religião é justiça, é solidariedade. Você gosta do namorado? Ele gosta de você? Então, qual o seu pecado? Aí formava fila em meu confessionário. As freiras não gostavam nem um pouco.

ÉPOCA – Parece que o senhor já era um pouco psicanalista…

Ferreira – Talvez. Mas veja bem: eu era padre porque fui instituído. Hoje sou psicanalista não porque a sociedade ou a faculdade me fizeram assim. Quem me faz psicanalista é quem vem a meu consultório.

ÉPOCA – Como é o comportamento das pessoas diante do padre e do psicanalista?

Ferreira – A atitude de quem ä procura o padre é conseguir alento. A pessoa vai ao padre para ter certeza de que terá a vida após a morte e seu bom lugar garantido. Na psicanálise, a pessoa procura um bom lugar nesta vida, segundo a ética do seu desejo. Em ambas as situações é preciso confiar. É preciso acreditar no sigilo radical. No confessionário você tem a sensação de um banho,você sai lavado. Na psicanálise, nem sempre. Pode às vezes dar a sensação de que a água está turva. Eu faria uma comparação: o padre está mais para Dom Quixote, e o psicanalista para Sancho Pança.

ÉPOCA – Por quê?

Ferreira – Dom Quixote persegue o sonho impossível, acredita naquilo, não tem dúvidas de que há um exército vindo, vê os moinhos de vento. O psicanalista é um Sancho que fica repetindo: ‘Amo, o senhor acha que é isso mesmo?… Acha realmente que vêm exércitos?…’ Ele não diz nem que sim nem que não, apenas tenta fazer Dom Quixote pensar, fazer suas escolhas.

ÉPOCA – Quais as questões que mais afligem homens e mulheres hoje em dia?

Ferreira – As queixas básicas são a questão da falta e a da escolha. O desejo é uma cárie que não pode ser obturada, um buraco que não se preenche. As pessoas também não sabem como se realizar num mundo tão confuso, complexo,caótico. Não há mais verdades, não há mais palavras de ordem, modelos. Então as pessoas se perdem diante de tantas opções. O trabalho do psicanalista é ajudá-las a criar os próprios caminhos, descobri-los.

ÉPOCA – Por que o senhor decidiu ser padre?

Ferreira – Sou de uma família muito pobre, de Belo Horizonte. O quarto de seis filhos. Com 10 anos, meus pais me mandaram para o Seminário do Caraça, o célebre colégio mineiro que encaminhava candidatos ao sacerdócio. Mas é preciso dizer que, antes disso, quando eu era bem pequeno, costumavam me dar, no Dia de São João Batista, um retrato enorme do santo, quase do meu tamanho, para eu carregar na procissão. Atrás de mim, cantavam: ‘Meu São João Batista, querido de Deus, pede a Deus perdão pelos pecados meus…’. Imagine isso na cabeça de um garotinho do interior que tinha o mesmo nome do santo! Eu acreditava que aquele tinha de ser o meu caminho, e que minha missão só podia ser mesmo dar às pessoas o perdão por seus pecados.

ÉPOCA – E por que desistiu?

Ferreira – Sempre questionei, por onde passei, muitas das regras locais.Uma vez padre, eu tinha voto de castidade, pobreza e obediência. Seguia tudo.Mas, por onde passei, tentei dar minha visão da religião e do cristianismo e nem sempre fui compreendido. No seminário de Mariana, onde estive por muitos anos, fizemos uma grande revolução nas regras locais. Não foi bem vista. Fomos todos expulsos, eu e os outros padres. Então vim para o Rio de Janeiro, para o Colégio São Vicente, e foi aí que pedi para fazer análise.

É comum padre fazer análise?

Ferreira – Não. Muito menos naquele tempo. Eles me disseram que padre não podia. Eu disse que enlouqueceria. Então acabaram deixando. Com o tempo, eu me interessei pelo assunto, passei a conviver com pessoas muito interessantes da área e resolvi fazer faculdade de psicologia. Meus caminhos e os da Igreja foram se afastando. Um dia, com tantos problemas com os superiores, abandonei. Costumo dizer que eu não deixei a Igreja – foi ela que me deixou.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: