A Religiosidade e o Desenvolvimento Humano

large_praying_hands

Angelita Corrêa Scardua

Há muitas diferenças na forma como pessoas de diversas faixas etárias lidam com a religiosidade.

Segundo Mauro Martins Amatuzzi(2000), podemos entender o desenvolvimento religioso relacionando-o com as fases do desenvolvimento pessoal. Assim, de forma simplificada, para a criança a questão religiosa só existe no núcleo familiar, sendo que a religião da família começa a ser apropriada através de símbolos (imagens sintéticas) que resumem seu significado.

Na adolescência, porém, a pessoa começa a questionar a religião dos pais juntamente com toda a identidade que lhe foi dada. Há uma busca por uma religiosidade definida a partir de escolhas pessoais. Durante a adolescência, o desafio central é passar de uma indefinição (ou definição a partir de fora), para uma definição a partir de dentro, descobrir uma verdade pessoal mais profunda. A percepção de incoerência religiosa na família de origem pode ser visceralmente questionada nessa fase.

Na idade adulta, o desafio central é passar da esterilidade à fecundidade, descobrir-se gerador, criar os filhos e transmitir os cuidados necessários. No caso da religião, esses cuidados se referem à transmissão da religiosidade dos pais para os filhos. O enraizamento religioso tende a se aprofundar. Desse modo, esse enraizamento contribui para aproximar o sistema de crenças à vida cotidiana da pessoa.

No caso do adulto maduro, o avanço da maturidade psicológica, advindo com a crise da meia-idade, pode conduzir a uma fé mais pessoal, resultante do sentimento de libertação promovido pelas reviravoltas psicológicas típicas dessa fase da vida. Esse sentimento de libertação seria desencadeado por um questionamento de tudo, um recomeço cujo desafio central consiste em superar as rotinas e os padrões assumidos anteriormente, e que poderiam ser impeditivos da emergência de um sentido mais pessoal para a vida.

Do ponto de vista religioso, essa emergência pode tanto levar a uma vivência religiosa mais aprofundada em direção aos anseios do próprio indivíduo, ou a ruptura coma antiga fé professada.

Quando marcada pela imaturidade psicológica, a meia-idade pode oferecer tão somente afixação em formas anteriores, impedindo assim a abertura do caminho para experiências novas no campo da religiosidade. Esse último quadro revelaria,então, a não integração dos conflitos psicológicos ao nível da psiquê, e o não desenvolvimento do processo de individuação. Processo esse indissociável do reconhecimento de si-mesmo e do abandono dos modos de vida limitadores das próprias potencialidades.

Anúncios

5 Respostas to “A Religiosidade e o Desenvolvimento Humano”

  1. erickfigueiredo Says:

    Magnífica análise! Gostei muito.
    Podemos até, por analogia, descrever a religiosidade da raça humana durante os tempos. Vasculhando a própria Bíblia nos deparamos com várias fases de Deus: desde quando “falava” com os homens, como foi no caso de Abraão ou Moisés, até um momento no qual foi mais sutil, quando do advento do Cristianismo. Nestes tempos Ele não falava mais através da voz, fisicamente.
    Assim você descreve a visão de Deus e o desenvolvimento da religiosidade à medida que se acumulam experiências de um indivíduo. Parabéns pelo texto e pela análise.

  2. João Batista da Cunha Says:

    Dentre todas fases citadas a que me pareceu muito lógica é a da adolescência.
    Até os quaotrze anos de idade podemos conduzir a religiosidade de nossos filhos. A partir dessa idade, difilmente, acredito, os pais conseguem a proeza de mantê-los seguidores da religião que professam. Foi o que aconteceu com os meus filhos, que deixaram de fretquentar as nossos cultos religiosos na adolescência, mas a semente foi plantada nos seus corações para germinar em outras fases da vida.
    João

  3. Grupo Papeando Says:

    Olá Erick,
    seja bem-vindo! Muito interessante a sua proposição, realmente é possível estabelecer uma analogia desse tipo: o desenvolvimento da percepção religiosa em nossa espécie ao longo de sua evolução e o desenvolvimento do senso religioso no indivíduo ao longo da vida. Dá um artigo! Há certas correntes antropológicas que traçam um paralelo entre o desenvolvimento individual e o da espécie, associando, por exemplo, a infância aos estágios mais primitivos da história humana e, assim, progressivamente. Tais correntes, contudo, estão em desuso atualmente, já que as arbodagens da históra de nossa espécie mais celebradas atualmente evitam trabalhar com conceitos como “evolução”, ou mesmo com a possibilidade de comparar duas culturas diferentes atribuindo-lhes valor. Coisas da moderna ciência.
    Nós é que agradecemos a visita, a leitura, a reflexão e os elogios!

  4. Grupo Papeando Says:

    Olá João Batista,
    seja muito bem-vindo! Você tem razão, o que importa realmente é a referência afetiva com a qual nos desenvolvemos. Se a experiência familiar é marcada por uma fetividade positiva, e os exemplos dos pais são coerentes com aquilo que eles costumam falar para os filhos, então a semente estará plantada em solo fértil. Psicologicamente falando, a experiência é fundamental para que possamos desenvolver a nossa própria percepção do mundo e de nós mesmos. Em função disso, o afastamento dos filhos em relação aos pais na juventude é parte desse processo de busca e autoconhecimento. E esse processo se dá em todas as áreas da vida e não apenas no âmbito religioso. O que difere cada indivíduo é a intensidade do processo e o nível de importância com que cada área é percebida, ou seja, para alguns o questionamento do que foi ensinado pelos pais será mais intenso na escolha profissional, para outros na sexualidade, para alguns nas relações de amizade e para muitos na religião. Seja como for, o que realmente parece importar, do ponto de vista psicológico, é o quanto nós, os seres humanos, estamos em constante processo de aprendizagem, mudança e transformação.

  5. joana Says:

    rtyret


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: