O Despertar da Deusa (Parte II)

Mona Lisa

“Mona Lisa” por Andy Warhol



***POR CÁBOR PAÁL


Eficiência e elegância

Há 35 anos, o filósofo americano Nelson Goodman, em seu livro Languages of  art, censurava essa se­paração estrita entre as esferas cog­nitiva e emocional,  afirmando que ela está na origem da maior parte das dificuldades na busca de uma teoria da estética: ‘Colocamos, de um lado, impressões dos sentidos, percepções, deduções, hipóteses, fatos e verdade,- de outro, prazer, dor, interesse, satisfação, reações emocionais, simpatia e aversão. Com isso tornamo-nos incapa­zes de perceber que as emoções rancionam cognitivamente na experiência estética‘.

Uma confirmação disso é dada pela neurociência. Diversos experimentos revelam que os sentimentos acompanham quase todas as tarefas cognitivas. Mais ainda: sem essas marcas emocio­nais o cérebro não seria capaz de concluir um grande número de tarefas. Assim, pessoas com danos em áreas cerebrais responsáveis pela avaliação emocional ficam quase incapazes de julgar adequa­damente novas informações.

Se a cognição e a emoção estão tão unidas, não faz sentido separá-las na  experiência estética. Aquilo que nós consideramos belo não é sempre racional, embora a pura racionalidade, enquanto tal, possa ser muito bela. A eficiência e a elegância estão estreitamente ligadas, como mostram não ape­nas um escultor mas também um pizzaiolo iniciante aprendendo a dar forma perfeitamente circular a um pedaço de massa com um rápido movimento das mãos.

As duas estéticas – tanto a partir do alto quanto a partir de baixo – interromperam seu movimento no meio do caminho.Não seria possível prosseguirem em direção uma à outra e chegarem finalmente a um consenso?

Assim como em muitas outras questões de fronteira entre psicolo­gia e filosofia, a neurociência talvez signifique um novo impulso. Ela inicialmente se opõe à idéia da be­leza como pura sensação de prazer ou alegria. Por exemplo, quando são mostradas fotos de rostos fe­mininos atraentes a participantes de um experimento, o centro de recompensa no núcleo accumbens só é ativado se a beldade represen­tada estiver com os olhos fixos no observador. Quando não há o con­tato visual, aquela região cerebral permanece relativamente calma, mas ainda assim os indivíduos tes­tados acham os rostos bonitos. A beleza pode, portanto, prover um sentimento de prazer por meio da ativação do centro de recompensa, mas a decisão sobre se um rosto é atraente ou não independe disso.Outro ponto a favor de um componente racional do senti­mento de beleza é fornecido pelo chamado ‘paradoxo da feiúra’. Muitas coisas que à primeira vista parecem disformes, feias ou até repulsivas ganham, num plano mais elevado,qualidade estética. Dramas ou filmes trágicos entris­tecem o espectador, mas podem, apesar disso, ser belos e irresistíveis. Essas experiências costumeiras não se afinam com a idéia da beleza como simples sentimento de pra­zer. É possível que, na experiência estética, não esteja envolvido um sentimento na acepção clássica, mas um tipo de metaemoção: um sentimento contextualizado que se sobrepõe a outros sentimentos, incluindo os negativos, e adquire qualidade adicional.Experiência difusa.

Além disso, as emoções ‘comuns’ desencadeiam automaticamente, em maior ou menor grau, certas reações corporais características: a cólera é sentida no estômago e perturba o sono, a alegria acelera a pulsação e os músculos da face puxam os cantos da boca para cima em um sorriso. Mas isso não ocorre na experiência estética. Embora ela esteja sem dúvida alguma ligada a certo estado físico, a correlação não é clara. Podemos experimentar a beleza com lágri­mas nos olhos, êxtase incontido ou silêncio contemplativo.

Há ainda outra diferença mar­cante: alegria é um sentimento nebuloso, em parte inconsciente, de natureza visceral e não refletida. Já a experiência estética é mais consciente. Em geral, podemos identificar muito claramente o objeto que consideramos belo, e dizer isso – algo que não ocorre com o sentimento de bem-estar, cujo objeto apreendemos apenas de forma difusa.


A consciência emerge em espe­cial na camada exterior do cérebro (o córtex), ou seja, na parte desse órgão que se desenvolveu mais recentemente e exibiu o maior crescimento no decorrer da evolu­ção humana. Isso nos leva a supor que a experiência da beleza, por ser um processo tão consciente, deve estar também ligada à estrutura cortical do cérebro, ao contrário de outros sentimentos que provêm do sistema límbico, muito mais antigo do ponto de vista da história do de­senvolvimento cerebral. O córtex orbitofrontal, em particular, parece desempenhar um importante papel em nossas percepções de beleza. Nessa porção do lobo frontal, situada acima das órbitas oculares, são realizadas as avaliações das experiências vividas, para definir se algo é bom ou ruim, agradável ou desagradável. Essa área reage, por exemplo, a sabores e cheiros, mas também à música.


Retratos cubistas

Além disso, o córtex frontal ela­bora as representações contextuais que determinam nossos atos, e em relação aos quais ordenamos nossas experiências e ações. É exatamente o que fazemos na experiência estética. A própria palavra ‘estética’ caracteriza não determinada propriedade de um objeto, mas o modo pelo qual o percebemos. Em outras palavras, a mera visão de uma paisagem, de um revestimento de parede ou de um sofá não nos força em absoluto a perguntar se tais objetos são ou não belos. Essa questão envolve muito mais uma atitude consciente que assumimos ao situar esses obje­tos num contexto estético.Como desenvolver uma teoria estética universalmente válida para toda essa multiplicidade de belezas, especialmente quando se observa que, para quase todo valor estético até agora definido, existem casos contrários? A sime­tria, por exemplo, é tomada desde a Antigüidade como o critério de beleza por excelência e, no entanto, que dizer dos retratos cubistas de Picasso? E como conciliar o fato de que as pessoas preferem estru­turas simples e ordenadas com a constatação de que muitas vezes achamos belos certos padrões modernos complexos? Quer se trate de uma equação matemática, de um quadro de Bosch ou de um concerto de Rachmaninoff, os valores estéticos que influenciam o julgamento sempre dependem das preferências do observador. E é essa subjetividade que faz com que haja tantas disputas quanto à beleza.

*** CÁBOR PAÁL é autor de textos científicos e jornalista da TV alemã. TRADUÇÃO: José Oscar de Almeida Marques.

Fonte: Edição especial da revista Mente&Cérebro

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