O Despertar da Deusa (Parte I)

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‘Mona Lisa‘ por Leonardo Davinci


Filósofos relacionam a beleza com a arte; psicólogos consideram a sensação de prazer que desperta. Para o espectador comum trata-se apenas de uma questão de gosto. Quem está com a razão?

***POR CÁBOR PAÁL

Um menino dá um torrão de açúcar a um pônei e sente na palma da mão a maciez e o calor dos lábios do animal. Um escultor contempla a estátua recém-concluída que corresponde exatamente ao que desejava expressar. Um malabarista executa um novo número que, depois de um longo treinamento, está pronto para ser apresentado ao público. O que há em comum entre essas pessoas? Todas elas tiveram uma experiência que se poderia denominar ‘bela’, em diferentes sentidos.

A questão sobre o que é ou não belo acaba in­fluenciando muitos aspectos de nossa vida. Por quem vamos nos apaixonar, como decorar nossa casa, que roupa comprar – em todos esses casos considerações estéticas desempenham papel muito importante. O mesmo acontece com os assuntos discutidos com ou­tras pessoas: filmes, viagens, livros, bebidas, homens, mulheres, partidos políticos. Em todas essas conversas as opiniões variam entre os extremos ‘Adoro!’ e ‘Acho insuportável!’. Qualquer coisa pode ser bela.-a modelo mais requisitada do mundo, um jantar com amigos, o gol da vitória do time preferido no fim do campeonato ou uma conferência científica sobre a origem do Universo.

Muitos poderiam objetar contra o uso inflacionado da palavra ‘belo’ nesses contextos profanos, dizendo que se trata aqui de um tipo de beleza diferente do de uma cantata de Bach, um poema de Rilke ou ainda um quadro de Da Vinci. Essa opinião corresponde à teoria de uma ‘estética a partir do alto’ – defendida por filó­sofos e críticos literários -, que confina a beleza quase exclusivamente no contexto das produções artísticas, não admitindo o sublime de paisagens, pessoas, objetos de uso diário e teorias científicas. Entretanto, pela falta de comprovação empírica, os princípios dessa estética ficavam limitados ao domínio teórico-especulativo, não sendo possível convencer ninguém de sua validade.

Mas os cientistas que inves­tigam os processos cognitivos encontraram pistas indicando que faz sentido empregar o conceito de beleza na concepção mais am­pla utilizadada na linguagem co­tidiana. Estudos realizados com o auxílio de modernos métodos de imageamento cerebral mostram que o cérebro reage de forma semelhante diante de uma obra de arte, de uma boa conversa ou do rosto de uma supermodelo. A música – como as já mencionadas cantatas de Bach, por exemplo – ativa em parte as mesmas áreas cerebrais que uma boa relação se­xual, a saber, o centro de recom­pensa que produz o sentimento de bem-estar. Isso é no mínimo um sinal de que a experiência do belo não se reduz apenas à arte. Mas o que é, afinal, a be­leza? Um sentimento? E como se poderiam conciliar as novas descobertas de neurologistas e psicólogos com toda a sabedoria acumulada por filósofos sobre as percepções estéticas?

Um fundamento empírico já estava sendo buscado desde o século XIX pela chamada ‘estética a partir de baixo’. Essa estética considerava a experiência do belo do mesmo modo como ela é concebida hoje por muitos psicó­logos cognitivos: umfenômeno corriqueiro que pode ser inves­tigado experimentalmente, por meio do prazer que um indivíduo sente em determinada situação. Com esse método, a pesquisa psicológica descobriu muitas coisas sobre o efeito de deter­minadas cores ou motivos musi­cais, e pôde sondar quais figuras geométricas, rostos e paisagens nos agradam particularmente.

A biologia evolutiva também permite explicar a atratividade. É fato comprovado que pes­soas no mundo inteiro acham mais agradáveis regiões fluviais e lugares com vegetação verde e exuberante que desertos e mon­tanhas escarpadas. Para nossos antepassados, viver naquelas áreas representava uma vanta­gem, de um lado pela facilidade de conseguir alimento e água, de outro porque ofereciam defesa contra seus inimigos. Esse ‘ideal de beleza’, pela vantagem seletiva proporcionada, ficou programado de algum modo em nosso patri­mônio genético.

A explicação é plausível, mas, como a maioria das interpreta­ções evolutivas do comporta­mento humano, não está cienti­ficamente comprovada. Mesmo que a biologia molecular chegue algum dia a descobrir o gene da predileção pelos rios ou pelos rostos simétricos, será muito difícil esclarecer quando e como esses genes se estabeleceram em nossa herança genética.

Figuras atraentes

A psicologia experimental deu origem também à chamada es­tética informacional, campo que adquiriu grande popularidade nas décadas de 60 e 70. Com auxílio de gráficos gerados por computador, pesquisadores ave­riguaram quais formas e padrões nos proporcionam maior prazer. E demonstraram serem os padrões gráficos que estimulam a capaci­dade investigativa do observador, isto é, aqueles capazes de despertar sua curiosidade. Figuras muito simples nos parecem monótonas,-as muito complexas surgem como uma massa confusa e tampouco despertam interesse. As figuras consideradas mais atraentes pela maioria das pessoas têm exatamen­te o nível de complexidade capaz de produzir no aparelho perceptivo estruturas de ordem superior, chamadas ‘supersignos’. Ou seja, um padrão dotado de beleza é caracterizado por um grau ótimo de densidade informacional.

É possível explicar, segundo esse modelo, por que achamos belos os rostos simétricos. Mas a tentativa revela também a fragi­lidade da estética experimental. Para descobrir qual proporção e qual medida de ordem e comple­xidade são especialmente agradá­veis, os pesquisadores da estética informacional apresentaram aos participantes da experiência figuras geométricas simples. Mas círculos, ângulos retos e outros padrões elementares pouco têm a ver com os objetos da vida co­tidiana. É claro que a ordenação interna de um quadro pode ser levada em conta para avaliá-lo esteticamente, mas papel muito mais relevante desempenhado pelo que acrescemos a uma obra, o significado que ela assume para nós, os sentimentos e associações que desperta. E esses critérios, que tanto influem no julgamento estético, não são apreendidos em experiências de laboratório.

Além disso, muitas tentativas de fundamentar a estética partem de forma mais ou menos tácita de um pressuposto superado, ori­ginado com o filósofo alemão Alexander Baumgarten, o fundador da estética moderna. Ele definiu, já no século XVIII, a experiência estética como a forma ‘sensível’ do conhecimento — em oposição à forma ‘racional-conceitual’. O belo, portanto, representaria o pólo oposto da razão,- a produção intelectual e a sensibilidade estética estariam divididas em duas esferas separadas por completo. No en­tanto, todo matemático confirmará que o pensamento racional possui qualidades marcadamente estéticas: a elegância das fórmulas, a simetria dos teoremas, o rigor das provas. ‘Sem estética a ciência não fun­ciona’, afirmou Roger Penrose, da Universidade de Oxford junto com o físico Stephen Hawking, um dos pais da teoria dos buracos negros.

*** CÁBOR PAÁL é autor de textos científicos e jornalista da TV alemã. TRADUÇÃO: José Oscar de Almeida Marques


Fonte: Edição especial da revista
Mente&Cérebro

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