O Despertar da Deusa (Parte III)

carl-jung

*POR CÁBOR PAÁL

Isso torna difícil responder à questão sobre o significado do belo. Mesmo assim pensemos em um objeto estético de qualquer espécie apenas como um modelo formado por elementos individuais relacionados entre si de determina­da maneira. A questão é esta: como deve estar arranjado esse modelo, como devemos percebê-lo para julgá-lo belo? Com auxílio desse procedimento, os fenômenos de experiência estética descritos pela psicologia experimental podem ser classificados em quatro categorias:

Beleza do primeiro tipo. Decorre das propriedades que caracterizam as relações dos elementos no inte­rior de um modelo. Essas proprie­dades são a coerência, a simetria, o equilíbrio, a clareza, a  simplicidade, a harmonia, a elegância, a unidade, a continuidade, bem como—talvez o mais importante – a adequação. Elas descrevem um certo tipo de ordem no interior de um modelo, ou a correspondência entre dois modelos. Considere-se, por exem­plo, um discurso fúnebre em um sepultamento: pode ser belo, por estar adequado à situação.

Beleza do segundo tipo. Aqui se trata de propriedades que descrevem menos um objeto e mais a relação pessoal entre o objeto e quem o contempla. Ou seja, coisas como ligação, familiaridade, confiança, empatia, ou a possibilidade de participar pessoalmente de algo. Pensamentos e objetos adquirem valor estético quando nos tocam pessoalmente, nos emocionam, quando refletem algo de nós, quan­do nos identificamos com eles de alguma forma, ou projetamos neles nossos pensamentos e emoções. Esse tipo de beleza está na base de fenômenos tão distintos como a simpatia, a sensação de pertencer a um lugar, a empatia com os ani­mais, e também nossa predileção por teorias e idéias. Além disso, não é simplesmente a familiaridade que produz o valor estético, mas uma particular mistura do novo e do familiar. Nesse sentido podem ser belos não apenas objetos, mas também disposições de espírito, doutrinas e maneiras de pensar.

Beleza do terceiro tipo. A be­leza não se restringe a objetos, abrange também ações. Pode ser belo explorar coisas para fazer novas descobertas, produzir arte, escrever livros, ou expressar as próprias idéias. A beleza dessas ações não depende tanto de o objeto produzido ser belo, mas sim se a experiência foi estimulante. Os critérios de beleza associados são: estímulo, excitação, novidade, complexidade, mas também criati­vidade. E belo sentir-se criativo.

Estética elementar. Esta é a ca­tegoria que melhor corresponde à concepção da beleza como experiência sensorial e sensação de prazer. A estética elementar abrange o tipo de estímulo com que psicólogos e neurologistas têm principalmente lidado. Nossa preferência por sons harmônicos, paisagens fluviais, rostos simétri­cos ou corpos bem modelados faz parte desta categoria. A caracterís­tica central da teoria da estética elementar é que os objetos não possuem nenhum caráter simbó­lico adicional. Uma rosa, nesse aspecto, é realmente uma rosa, não um sinal de afeto, nem um símbolo romântico.

Mas para que servem, afinal, essas quatro gavetas? Em primeiro lugar, elas ajudam a descrever as sensações estéticas em toda sua amplitude, sem extrair conseqüên­cias normativas. Elas fornecem uma nomenclatura para valores de beleza, mas deixam espaço para preferências individuais. As pessoas podem, portanto, dispu­tar acerca do gosto, mas isso não significa que os valores estéticos sejam completamente  arbitrários.

Em segundo lugar, a diferen­ciação em quatro tipos de beleza permite solucionar de maneira conclusiva os paradoxos da feiúra. Assim, algo que é feio do ponto de vista da estética elementar – como, por exemplo, o modo de vestir dos punk, – pode ser considerado um caso de beleza do segundo tipo, pois estabelece uma identidade e incorpora determinados ideais.

Por fim, esse sistema de classi­ficação tem também uma utilidade prática para todos os que lidam com a produção e divulgação de conhecimentos. Pedagogos, cientistas, artistas, jornalistas, políticos ou publicitários podem, se quiserem realizar um bom tra­balho, levar em conta os valores estéticos fundamentais, ou de forma consciente ou intuitiva.

A estética artística e filosófica ‘a partir do alto’ e a estética cotidiana e experimental ‘ a par­tir de baixo’ estão, de fato, se aproximando. Mas ainda há um longo caminho até chegarmos a uma teoria abrangente da beleza, baseada nos conhecimentos da filosofia, da arte, da psicologia experimental e da pesquisa neu­rológica. O que não é, necessaria­mente, uma bela reflexão.

*** CÁBOR PAÁL é autor de textos científicos e jornalista da TV alemã. TRADUÇÃO: José Oscar de Almeida Marques.

Fonte: Edição especial da revista Mente&Cérebro

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