A Psicologia da Arte

psiarte

À primeira vista, este título é intrigante mas, todavia, sabemos que ele relaciona duas componentes conhecidas: a arte e a psicologia. Mas a Arte e a Psicologia parecem irreconciliáveis e, mais do que isso, são dois conceitos demasiado carregados para emparceirar num título de fusão.

O que é, afinal, a Psicologia das Artes? Quais são as suas possibilidades de existência como ciência social? Quais são as suas garantias de método? Qual é a relação que um psicólogo mantém com as obras de arte? O que levou a que sej untassem estes dois assuntos numa contracção tão incomum?

Antes de mais, entenda-se por Psicologia da Arte o exclusivo: Psicologia da Arte plástica, ou psicologia da forma (mesmo que não corresponda a uma forma estética), ou psicologia da conformação, ou psicologia da percepção visual(…).

(…)A primeira preocupação é entender o que é uma obra de arte. Como é que determinada obra conseguiu afectar o público/receptor de tal forma que, por existir, foi considerada artística? Antes de mais, devemos entender que todas as obras concebidas — com, ou sem pretensão artística — correspondem a estímulos e esses estímulos (desencadeantes) ficam à disposição dos nossos sentidos que os recebem (desta forma, e muito genericamente, os estímulos criados pela pintura apelam, ou revelam-se, ou entendem-se através da visão; os estímulos criados pela escultura revelam-se através do tacto, os estímulos musicais captam-se pelo ouvido, etc.). E como funcionam os nossos sentidos que, desdes empre, foram considerados enganadores? Será que as informações procedentes dos sentidos correspondem sempre à realidade? É que a realidade está em constante mutação e possui regras próprias que os sentidos não são capazes de recolher(este é, justamente, o fulcro dos debates que especulam sobre o valor e a possibilidade de existência de uma ciência empírica).

Em Psicologia da Arte, tentamos estudar como nos chegam os estímulos visuais(trata-se de uma psicologia de recepção, da contemplação, mais do que da criação), como e porque são eles desencadeados, como actuam, como se modificam e como são depois veiculados ao cérebro que os digere. É que, tradicionalmente,entendia-se que psicologia da arte seria uma área de conhecimento cujo objecto consistiria na decifração de tudo aquilo que o artista põe em obra, ou seja, a exegese das suas representações inconscientes. Tratava-se, enfim, de descobriras manifestações mais recônditas da personalidade do artista, através da leitura da sua obra mas, como seria levado a cabo este trabalho e qual seria o método objectivo (científico) que possibilitaria desempenhar esta tarefa tão imbuída de caracteres subjectivos e aleatórios? Este preconceito de que a Psicologia da Arte serviria para escrutinar e resolver os problemas interiores do artista serviu apenas para afastar os artistas do trabalho interdisciplinar com o psicólogo.

Devemos nós admitir que um pintor usou o amarelo para pintar um cão guiado pelo seu inconsciente, ou porque o amarelo tinha, indubitavelmente, um significado pessoal relacionado com um qualquer fundamento de ordem psíquica e emocional,ou devemos inquirir-nos sobre a possibilidade desse pintor não possuir, na sua paleta, outra cor que pudesse usar? Embora a primeira hipótese de trabalhoc onstitua um terreno à partida mais aliciante, ele colhe-se na suai mpraticabilidade científica. Constitui um erro tentarmos decifrar códigos interiores do autor servindo-nos apenas do diálogo (desapegado) com as obras de arte. (…)É este o perigo que corre a psicanálise da arte, quando se debruçan as pesquisas feitas em solo movediço. As obras de arte não podem constituir-se como alvos de terapia e o escrutínio deve ser outro, os inquéritos que a Psicologia da Arte leva a cabo são, ou deveriam ser, bastante diferentes. É aquilo que as obras provocam e, antes das obras, as configurações de uma forma geral, as formas, as imagens… Qual é o real poder das imagens?

É que uma obra de arte é o fruto de um complexo sistema de inter-relações que aplicam, para a sua conformação, factores de ordem psíquica e emocional, mas também de ordem prática, e de cariz cultural e sociológico. O ser humano é uma entidade comprometida com a sua individualidade (fenómeno indesmentível) mas também com o mundo, nas suas múltiplas disposições: culturais, religiosas,sociais, políticas, ideológicas, etc. E todas as obras que se produzem pelo homem, artísticas ou não-artísticas, são enformadas neste vasto e complexo contexto de ininterruptas relações. O fracasso da fortuna da Psicologia da Arte passaria por este entendimento da sua matriz subjectiva, aleatória e parcial mas, ao invés, regista-se que o objecto desta área do conhecimento não é o inquérito exclusivo do impulso artístico, ou dos caracteres mais recônditos que o artista pôs inconscientemente em obra.

A psicologia da arte interessa-se, então, pelo problema do que é uma obra de arte; o que é que caracteriza um objecto para que ele possa tornar-seartístico; interessa-se pelo estímulo que determinado objecto ou imagem desencadeia no receptor e como se processa este maquinismo de estímulo-resposta; interessa-se pelo facto de um receptor de uma determinada obra, no seu contacto, desencadear esta ou aquela emoção como resposta, isto é,como é que o mesmo objecto/imagem provoca amor num receptor e ódio noutro? A Psicologia da Arte preocupa-se, então, com os critérios de apreciação estética.

Fonte: Universidade Aberta de Portugal

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Uma resposta to “A Psicologia da Arte”

  1. ANA NERI Says:

    Fiquei maravilhada com o artigo.


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