A Relação da Criação Artística Com a Psicologia Profunda

ss15Nigredo, albedo e  rubedo representados como três pássaros encerrados dentro do vaso alquímico

(de Splendor Solis, London, 1500s)

*Por Elisabeth Bauch Zimmermann

Em seu livro “Jung,Vida e Obra”, Nise da Silveira escreve:


Os místicos sempre entenderam que o verdadeiro laboratório alquímico era o próprio homem. O homem natural era comparável aos metais vis. A meta seria transformá-lo no novo homem, que corresponderia ao ouro, o metal puro por excelência.”


Mais adiante, coloca que Jung ficou surpreso ao se dar conta que o “grande trabalho” descrito pelos alquimistas – a opus -, correspondia exatamente ao processo de individuação que ele experimentara nas profundezas do inconsciente. Ao criar o artista se transforma. Dentro desse enfoque é possível perceber uma analogia com o processo de transformação da opus alquímica. Quando se trabalha com o processo de criação artística, é possível observar as três etapas do trabalho alquímico: nigredo, albedo e rubedo.

A nigredo manifesta-se na preparação do material que vai ser trabalhado,seja ele pedra, madeira ou corpo; é, em sua natureza, uma mistura de elementos físicos e orgânicos que precisa ser trabalhada antes que o processo de criação propriamente dito possa se instalar. Todo ceramista amassa bem a argila antes de usá-la, o escultor verifica o fio de seus instrumentos de incisão. Antes de tocar ou dançar o dançarino ou o músico preparam o instrumento e o corpo, esquentam ambos, experimentam a afinação das notas e o alongamento dos músculo se tendões. Fazem vibrar o que lhes vai servir de instrumento. Então, o artista está diante de um universo de possibilidades à espera da atualização de idéias muitas vezes já esboçadas, de sentimentos e imagens, as vezes intuídos. Ele se vê, na maioria das vezes, na condição de veículo para que a obra surja.


Se passarmos a considerar a segunda fase do processo alquímico (albedo), em termos psicológicos há o encontro entre as duas dimensões da psique – consciência e inconsciente – e inicia-se o processo de criação propriamente dito, onde o material, ainda sem forma, assume um corpo. Na terceira etapa, o aquecimento intenso do processo muda a albedo em rubedo.


A consciência se amplia e é obtida a pedra filosofal, cuja unidade resulta da fusão dos opostos extremos. O alquimista realizou por um momento a integração psíquica, ou seja,a individuação. E a opus continua. Podemos falar de momentos análogos no processo de criação artística. “O fazer arte implica no único momento, em que se fundem memória e intenção (que significam passado e futuro) e intuição (que indica o eterno presente). O ferro está sempre em brasa.”


A alquimia sempre foi praticada experimentalmente. Marie-Louise Von Franz coloca que “o verdadeiro conhecimento de si mesmo é o conhecimento da psique objetiva, tal como ela se manifesta nos sonhos e nas manifestações do inconsciente. Examinando seus sonhos pode-se saber qual a situação interna de uma pessoa, algo que está objetivamente lá’.Ao abordar a questão da sincronicidade diz que podemos “considerar muitos eventos exteriores como pertencentes à mesma classe de eventos que as revelações dos sonhos.”


O que acontece em nossa vida e o que produzimos parece possuir uma unidade simbólica com os acontecimentos interiores. Segundo a autora, Dorn, como todo alquimista vivenciou a realidade externa ligada a efeitos objetivos no inconsciente. Ela fala que “todo o procedimento alquímico assemelha-se a uma imaginação ativa executada com substâncias simbolicamente significativas”. A criatividade ocupa um papel central na psicologia de Jung. A necessidade interior do núcleo criativo do inconsciente emergir ao nível consciente ecoa tanto nos psicólogos como nos artistas que se empenham na reflexão sobre o processo de criação. Para eles a expressão visível do desenvolvimento criativo é o símbolo, que pode ser objetivado de várias maneiras. “De todos os psicólogos que lançaram uma luz nova aos mistérios da alma humana, Jung com certeza foi o que explorou mais profundamente sua própria vida interior, com o auxílio da imaginação. Desta maneira, pôde reavaliar as experiências internas…como uma fonte inesgotável de conteúdos com uma linguagem própria”.


Quando se cria alguma coisa nem sempre se tem a exata noção do que ela vai se tornar. O que nos conecta a ela é algo invisível que cresce e toma corpo posteriormente. Ao encararmos a arte como conhecimento, temos que levar em conta que esse conhecimento se traduz na obra e não é produzido nem entra na consciência de forma linear. Também não se chega até ele só através da razão, do pensamento. Ao se falar em arte como conhecimento, supõem-se uma prática, um relacionamento obra-espectador ou obra-autor. São as vivências, os conteúdos internos que têm importância. A teorização pode ou não, vir posteriormente á essa experiência. Jung entende os símbolos como representação de alguma coisa para a qual não existe conceito verbal ou que é melhor representada pela imagem simbólica. “Um símbolo não traz explicações; impulsiona para além de si mesmo na direção de um sentido ainda distante, inapreensível, obscuramente pressentido e que nenhuma palavra de língua falada poderia exprimir de maneira satisfatória”.


Ao reproduzirmos uma imagem interna, devemos ser os mais fiéis possíveis, resistindo a qualquer pressão consciente para ajustá-la ou colocar um sentido definido a priori. Quando se pensa em imagens internas, Jung diz que estamos sendo instruídos por elas,mesmo que não saibamos o que elas signifiquem. Segundo ele, o requisito fundamental para a experiência da psique objetiva seria a capacidade de diálogo interior.“A esse fenômeno da psique que promove a união entre os conteúdos da consciência e do inconsciente chamou de função transcendente”.


FONTE:
Instituto de Psicologia Analítica de Campinas

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