A Relação da Criação Artística Com a Psicologia Profunda_II

divine_imagination

*Por Elisabeth Bauch Zimmermann

Sobre a obra de arte Jung considera que:


seu sentido e sua arte específica lhe são inerentes e não se baseiam em suas condições prévias externas; aliás poderíamos até falar de um ser que utiliza o homem e suas disposições pessoais apenas como solo nutritivo, cujas forças ordena conforme suas próprias leis, configurando-se a si mesma de acordo com o que pretende ser”


Não há arte sem o diálogo consciente-inconsciente; o artista pode se sentir como um canal, um porta-voz de algo que é muito maior do que ele. O símbolo é polivalente, representa várias coisas tanto para quem produz como para quem entra em contato depois.Quanto mais amplo, mais geral, mais coletivo for o símbolo, mais profunda a obra e maior o seu alcance em sensibilizar o público. O psicólogo pode analisar e interpretar o processo de criação, mas não o resultado. O resultado, o que atinge e sensibiliza o espectador é tratado pelo crítico ou mais raramente pelo próprio artista.

Nos dizeres de Jung, não é função do artista analisar a própria obra, ela deve falar por si. “faríamos bem em considerar o processo criativo como uma essência viva implantada na alma do homem. A psicologia analítica denomina isso complexo autônomo. Este, como parte separada da alma e retirada da hierarquia do consciente, leva uma vida psíquica independente e, de acordo com seu valor energético e sua força, aparece ou como simples distúrbio de arbitrários processos do consciente, ou como instância superior que pode tomar a seu serviço o próprio Eu.”8 “É independente do arbítrio da consciência. O complexo criativo compartilha esta peculiaridade com todos os outros complexos autônomos”


Para o artista há um momento em que a necessidade de materialização é muito grande. Esse momento, na imaginação ativa é chamado “fase de objetivação”, onde o artista concretiza por meios plásticos, corporais, musicais, poéticos, as idéias ou imagens que surgiram ou vêm surgindo. Nessa fase, consciente e inconsciente dialogam, ora com predominância de um, ora de outro.


“O artista plástico, o poeta, ou alguém que se manifeste de forma criativa, normalmente não está preocupado em contar a realidade como ela é, mas sim transpor o mundo interior para sua obra. Criando, o artista projeta seus conteúdos psíquicos no material, como o faziam os alquimistas, que usavam uma base empírica para projetar seus processos interiores. Na imaginação ativa, a pessoa projeta suas imagens, que podem também ser chamadas de símbolos na objetivação, uma forma de dar materialidade e expressão a essas imagens. O inconsciente se expressa e está constantemente nos mandando mensagens que não mentem nem têm a “intenção”de nos enganar, mas que geram fortes afetos. As imagens simbólicas são absolutamente autenticas, mas o ego muitas vezes se sente ameaçado e tende a se defender.


O que se poderia chamar de verdade profunda e histórica reside no inconsciente,não apenas em um nível pessoal e egóico, mas vindas do inconsciente coletivo através de manifestações arquetípicas. Podemos fazer uma relação do processo artístico com os relatos mitológicos. A arte consegue desvelar uma região do inconsciente que é real, embora se manifeste pela fantasia, pela imaginação,pela emoção.”


O requisito para que se pratique realmente a imaginação ativa é o envolvimento: a imagem ou a situação produz um efeito emocional, uma vivencia do símbolo. Esse envolvimento consiste em se colocar de frente a uma parte de si mesmo, muitas vezes até então desconhecida. Na produção artística, a técnica e o conteúdo racional podem ser controlados. Mas há o momento em que algo quer se manifestar o artista deve deixar-se conduzir pela intuição.


Assim, a obra de arte deverá ser considerada uma realização criativa, aproveitando livremente todas as condições prévias. Seu sentido e sua arte específica lhe são inerentes e não se baseiam em suas condições prévias externas; aliás, poderíamos até falar de um ser que utiliza o homem e suas disposições pessoais apenas como solo nutritivo, cujas forças ordena conforme suas próprias leis,configurando-se a si mesma de acordo com o que pretende ser.”

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FONTE: Instituto de Psicologia Analítica de Campinas

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