Da psicologia Na Arte

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“Veil” de Paul Cocksedge

Preocupada em decifrar e compreender os impulsos, reacções e comportamentos da psique, a psicologia enquanto ciência humana abrange muito mais do que se possa comummente pensar. Se por definição o seu objecto parece uno, os fenómenos e o próprio método de estudo diversificam-se grandemente, fazendo desta esfera um campo verdadeiramente multidisciplinar: aproximando-se tanto da antropologia como da medicina, engloba ainda outros sistemas como a psicanálise, neuropsicologia ou a psicopatologia (demasiadas vezes tomada como o todo da psicologia). Em suma trata-se de esboçar processos mentais.

Assim, como a comunicação ou qualquer outra actividade humana, a arte também acontece, mais ou menos nitidamente, subjugada a estes processos. Já a estética permitira (e permite) ampla discussão sobre a natureza da arte mas,provavelmente pelas suas raízes estritamente lógico-verbais, não será o suficiente para uma visão sã da globalidade da produção artística. Faz então sentido aplicar as questões levantadas em geral pela psicologia no campo particular da arte, desmistificando relações de produção e de interpretação(afinal interpretar também é produzir e vice-versa), não para concluir a superioridade de uma disciplina sobre a outra, o que seria absurdo, mas pelo contrário, compreender em que pontos se tocam realmente.

(…)Antes de mais temos a problemática da percepção, uma questão que apesar de não exclusiva, parece justificar-se mais do que nunca quando se trata de arte; segundamente a importância da já referida psicanálise para pensar as relações nesta área.


Não será pois difícil concordar que, apesar de todos nós sermos, a priori,dotados dos mesmos cinco sentidos, não percepcionamos o mundo que nos rodeia da mesma forma. Enquanto por um lado a unicidade de cada um trata de nos sensibilizar mais para uns sentidos do que outros, por outro, toda a experiência é influenciada por factores externos ao sujeito e ao objecto e inerentes ao momento da experimentação. Se em relação a estes últimos pouco podemos acrescentar (afinal tão variadas serão as consequências quanto as influências),podemos e devemos procurar a chave das diferenças a nível sensorial.

A este nível tornam-se relevantes os exemplos descritos em dois capítulos da obra do britânico Oliver Sacks. A história de Virgil, que sofre, entre outras coisas, de uma cegueira quase completa desde tenra idade e que apenas já adulto é submetido ao tratamento necessário revela, no mínimo, uma fase na definição do mecanismo sensorial definitivamente crucial. Ao contrário de outros pacientes que, tendo sido tocados pela doença com uma idade mais madura,viveram uma recuperação da visão quase total após intervenção cirúrgica, Virgil não teve a mesma sorte. De facto, chegou a reconhecer cores e letras, mas um acompanhamento mais prolongado demonstrou o falhanço: parecia efectivamente ter reavido o aparelho necessário ao usufruto da luz mas, apesar dos esforços e vontade dos seus próximos, nunca ganhou realmente a capacidade de ver, ou antes de processar a torrente de informação que lhe inundava as retinas.

O momento mais curioso do relato de Sacks é, na minha perspectiva, o momento em que o infeliz Virgil foi confrontado com fotografias de um qualquer periódico e, segundo as palavras do próprio autor, “não entendia sequer a ideia de representação”. Repare-se que toda a sua vida Virgil se deixara guiar pelo tacto e que mesmo depois do tratamento continuava a usá-lo como ferramenta de navegação e de verdade. E se Virgil não foi o único nesta situação a ser observado, o seu caso será aqui suficiente para tirar a conclusão prematura de que, assim como a fala engloba um conjunto de ligações cerebrais que só conseguem realmente ser obtidas até um certo estádio de desenvolvimento, a capacidade sensorial não se limita à presença ou ausência do órgão de aferição mas engloba sim um processo de aprendizagem e um processamento contínuo (o que explica que Virgil, fora do seu tempo, tenha enfrentado dificuldades colossais em apreender o novo fluxo de informação). Da mesma forma, toda e qualquer apreciação estética só existe se for minimamente estimulada ou, pelo menos,parte integrante do ambiente envolvente.

Mais surpreendente será o segundo episódio narrado por Oliver: diante da transmissão de um discurso do presidente são contrapostas as reacções de doentes afásicos e de Emily, que padecia de agnose tonal. Entenda-se que os primeiros, apesar de incapazes de “compreender uma palavra como tal”, revelamno final uma extrema capacidade em traduzir os complementos de linguagem como a postura ou entoação do locutor, e que Emily, em oposição, terá toda a facilidade em interpretar as construções linguísticas do que lhe é comunicado,permanecendo no entanto completamente alheia ao tom do que é dito. Notavelmente e contra qualquer expectativa, todos chegaram claramente à mesma conclusão: o presidente mentia. Emily achou-o completamente incoerente e os afásicos tiveram uma boa dose de gargalhada ao seguir-lhe a performance. Opondo-se à multidão que seguia o presidente, só os “doentes” pareceram conseguir tirar a “verdade”da situação.

O que pensar deste último exemplo? Afinal, e sem querer entrar em questões normativas, tão certas e evidentes serão certas leituras para nós (a quem, pelo menos por enquanto, ainda não foi diagnosticada afasia ou agnose) como outro tipo de linguagens para outras construções. Obviamente esta ideia implica multiplicidade: multiplicidade de realidades e multiplicidade de métodos para as definir, o que pode rimar demasiado para alguns com relativismo mas também ainda com diversidade ou riqueza experimental.

Aproveito ainda aqui para abrir um parêntesis sobre a questão da diversidade. Como disse antes, na minha opinião e talvez utópicamente, em arte,o papel do produtor e do interpretador acabam por não ser assim tão distintos:o artista interpreta para representar, o receptor cria uma nova ideia a partir da sua interpretação. Nesta direcção faz sentido pensar que o afásico tem uma vantagem perspética, por exemplo, e que talvez todos nós devêssemos experimentar regularmente quebrar a nossa visão viciada pelos preconceitos epelo logos. Note-se que no extremo se refuta com isto a ideia do filósofo norte-americano Arthur Danto que defende um “mundo das artes”, como cumular de conhecimento nessa mesma área, enquanto premissa para qualquer apreciação estética; talvez tenha mais poderio uma apreciação/produção realmente genuína.O facto do leigo parecer não compreender a obra não implica que esta não comunique.

Chegados a este ponto, estando relativamente claro o facto da percepção não ser algo universal em si, põe-se a questão do que constitui a construção de cada indivíduo e do que haverá, finalmente, de universal (ou próximo do conceito) nas relações que estabelecemos, neste caso em especial, com a arte.

Obviamente todos nós saberemos dizer que somos constituídos pela experiência acumulada e não serei eu a contradizer essa ideia. Contudo, neste problema de identidade, vale realmente a pena debruçarmo-nos sobre a visão de Mihály Csíkszentmihályi que, apesar de não ser completamente original, faz aqui todo o sentido e se torna idealmente sintética para compreender (compreender talvez nem seja a melhor palavra – leia-se lembrar) aquilo que ainda nos parece escapar (pense-se iludir) a todos. Em suma, o que vemos quando olhamos para aquela que temos por realidade são os vários “véus de Maia”. E porquê véus para esconder? Porque talvez não sejamos tão autónomos quanto nos cremos; porque existe efectivamente algo que nos comanda, mais ou menos subtilmente, que precisa desses véus para sobreviver e nos manter sob uma ilusão de autonomia.

Antes de mais os genes, que nos empurram ao longo de cada dia a tomar atitudes, na maior parte das vezes inconscientemente, de sobrevivência básica.Depois a influência da cultura, dos seus sistemas de símbolos e do seu etnocentrismo. Por fim temos o véu do ego, possibilitado pelo emergente pensamento auto-reflexivo, e que poderia ser em si a libertação dos dois anteriores em prol da defesa de verdadeiros sonhos (verdadeira e autonomamente escolhidos), mas que acabou no sentido mais directo de egoísmo. Para Mihály,levantar este último véu, ao invés, passa por prescindir dos bens não essenciais e de valores de competição, acabando isto por proporcionar uma visão e bem estar muito mais globais.

Parece então contornada a questão da percepção: por um lado “ver” exige um esforço e hábito superiores a “olhar”, por outro, todos nós somos regularmente distraídos do nosso caminho pelos genes, todos nós nos deixamos influenciar pela cultura em que nos inserimos e todos nós enfrentamos por vezes ambições inexplicáveis.Não quer isto dizer que nada possamos fazer para fugir a este ciclo: podemos efectivamente, num processo auto-reflexivo e voluntário, tender à sã libertação destes véus, aproximando-nos serenamente de uma realidade (mais satisfatória?);almejar a verdade pura talvez seja mais delirante.

Se o que acaba de ser dito parece uma visão demasiado abrangente ou generalizante, a verdade é que, como grande parte da psicologia, é facilmente transportável para outras disciplinas ou até situações do quotidiano. Em aproximação à estética, o que me parece realmente fulcral reter até aqui é então o trio – ilusão, multiplicidade e perspectiva. Poderia isto até ser uma fórmula de sucesso ou originalidade.

É exactamente o mesmo tipo de associação que conseguimos facilmente arriscar sobre o trabalho daquele que é conhecido como o pai da psicanálise – Sigmund Freud. Não vou aqui estender-me num resumo do seu trabalho pois parece-me já amplamente divulgado. O que é realmente importante aqui compreender é que,sobretudo pela sua Interpretação dos Sonhos, em que são esboçados pela primeira vez os mecanismos inconscientes ocorridos durante o sono, mas também, mais tarde, pelos seus escritos sobre chistes (e outras “psicopatologias da vida quotidiana”), acaba por estar, sem o saber propriamente, a dar-nos as pistas necessárias para a formação de uma interessante perspectiva analítica da criação artística. Por outras palavras trata-se de entender como no processo criativo poderão ser vistos exactamente os mesmos mecanismos do sonho.

Deslocamento, condensação, dramatização ou representabilidade são alguns desses mecanismos e se a máxima deste pensamento é de que o sonho é a realização do desejo recalcado, a mesma ideia foi já aplicada ao cinema e daí para os restantes meios artísticos será apenas um deslize.

Afinal o criador também transporta algo para a sua criação, seja isso voluntário, consciente, ou não. Porém, quanto mais espontânea ou inconsciente a sua actividade mais encriptado podemos esperar o seu conteúdo também (mas que não se tome isto por axioma!). A psicologia trata de temas que nos são comuns a todos e, apesar de não acreditar que dois humanos possam ter exactamente o mesmo sonho, é certo que os mecanismos se aproximam relativamente. Como já o disse, o artista é também um intérprete e, enquanto tal, passa também pela problemática da percepção e vê-se também à partida vedado pelos véus de Csíkszentmihályi, ou seja, por um lado, a sua capacidade natural de encriptar a mensagem acrescida da sua capacidade técnica permitem-lhe produções “de sonho”,por outro, a possibilidade de este se encontrar demasiado enraizado numa cultura (ou num mundo das artes de Danto) acaba por tornar evidentes os traços simbólicos, os símbolos em si, que afinal são comuns a essa audiência.

Seria esse o panorama mais interessante? A primeira imagem que me ocorre são quatro pessoas a jogar um jogo de cartas mas com peças de dominó ou pauzinhos de mikado, sem que isso provoque qualquer entrave ao desenrolar da partida e bom entendimento entre os jogadores. De fora a audiência tem sérias dificuldades em seguir a estratégia de uma ou outra equipa e acaba mesmo por se desinteressar do jogo por completo. Talvez a analogia seja exagerada, ou talvez não. Isso seria o “mundo das artes”.

A verdade é que o artista é sempre uma vanguarda, ou pelo menos devia ser.Não é pelo logos nem pelo discurso que se afirma mas sim pela sua unicidade e originalidade e, ao longo dos tempos, os mais bem sucedidos terão compreendido que se uma parte de si não ficar na obra então talvez esta não seja arte. Ao longo dos tempos, parecem efectivamente ter sabido tirar proveito daquilo que são, proveito de todas as suas características e experiências, proveito de tudo o que faz deles uma construção única.

Mais uma vez Freud é aqui da maior importância, tendendo a demonstrar como a forma como é vivida a tenra fase do processo ontogénico marca toda a construção e vivência do indivíduo. Isto está fortemente ligado às ideias de prazer e sexualidade que, pelo “princípio de conservação do psiquismo”, serão determinantes na formação de imaginários, mais ou menos recalcados e mais ou menos reflectidos em fases adultas, dependendo da cultura envolvente.

Fundamentalmente, se a psicanálise de Sigmund parece poder ajudar no entendimento do eu e do outro, o que aqui mais importa é definitivamente o levantamento de mecanismos feito, por vezes de clara analogia em relação à forma de “pensar” a arte, por outras apenas como pano de fundo para a complexa rede de relações internas, sociais e culturais na qual se insere a produção artística.

Gostaria ainda de lembrar que Freud desenvolveu o seu trabalho sobre os sonhos apoiando-se no método a que se chama de “associação livre”, em que é o próprio paciente ou sujeito a decifrar o conteúdo onírico. Isto é o suficiente para mais modernamente ser criticado, sobretudo por amantes da ciência (bem objectiva) como Popper. Sem entrar em detalhes sobre a proposição deste último,afirma que a psicanálise de Sigmund Freud não é uma ciência: não se comprova a si mesma nem pode ser falseada matematicamente. Isto poderá parecer uma visão atractiva para os apologistas da razão pela razão, e até pode ter um fundo simpático ao ocidente em que nos inserimos, mas não me parece de todo anulação do que antes aqui foi dito: a arte não se comprova factualmente, assim como nos sonhos a gravidade não pesa o mesmo. Importante é compreender que mais do que fruto divino ou da loucura, a arte rege-se por leis das quais provavelmente não estamos ainda sequer próximos (assim como outras esferas), e que o simples facto de lhe conceder o benefício da dúvida já é em si uma posição crítica(fortemente aconselhada por Mihályi) e talvez o primeiro esforço no sentido de levantar os “véus de Maia” que cada vez mais pesam sobre as nossas (leia-se: de quem “auto-reflecte”) consciências.

FONTE: http://oldblo.dardna.com/massivo/psicologia-na-arte

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