Arte na Psicoterapia Sob a Perspectiva da Psicologia Analítica Junguiana

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Máscara‘ Escultura de Jonathan Hayter (da Instalação Arquétipo)


Por Erika Antunes e Joel Giglio

(…)os estudos de Jung influenciaram amplamente o campo da arteterapia, trazendo à tona discussões mais profundas em torno da importância do mundo imagético na compreensão do psiquismo e, conseqüentemente, valorizando a análise das imagens simbólicas projetadas nas produções artísticas dos pacientes dentro do enquadre psicoterapêutico. Suas descobertas e reflexões abalaram os paradigmas do pensamento ocidental pela inclusão de novos enfoques a respeito dos processos psíquicos e da dimensão transcendente do ser humano.

Segundo Jung, o princípio originário que rege a natureza humana é o mundo das imagens e, portanto, toda experiência humana tem seu desdobramento a partir dessa premissa. Ele atribui à imagem arquetípica – que também foi nomeada como imagem primordial – papel fundamental na constituição de todos os processos mentais, considerando que aí se configuram as vivências primordiais da humanidade (Kugler, 2002).

Jung (1921/1991, p.418) estabelece diferenciação entre imagens de caráter pessoal e de caráter impessoal. A primeira nos remete a conteúdos do inconsciente pessoal e da experiência consciente. A última, entretanto, diz respeito à imagem primordial quando representa manifestação de ordem coletiva, apresentando características mitológicas. Nessa perspectiva, ele define o fenômeno imagético como ‘uma expressão concentrada da situação psíquica como um todo‘, distinguindo-o de qualquer manifestação patológica(onde costuma ocorrer distorção da realidade), sendo um processo interno. A expressão imagética, portanto, agrega apenas conteúdos do inconsciente constelados naquele momento, visto que a seleção dos conteúdos relevantes e irrelevantes à formação da imagem é um processo consciente.

Quanto aos arquétipos, esses apresentam certa autonomia e carga energética que atrai conteúdos do consciente que lhes revestem com roupagens adequadas à época e à circunstância pela qual são evocados. São, portanto, ‘elementos estruturais numinosos’ que dão a fôrma para que conteúdos do consciente se moldem e, assim, possam tornar-se perceptíveis. Dessa maneira, considerando o limiar entre inconsciente coletivo, inconsciente pessoal e consciente,vislumbramos a formação da imagem simbólica. Aliás ‘nunca se pode encontrar o arquétipo em si de maneira direta, mas apenas indiretamente, quando se manifesta no símbolo ou no sintoma ou no complexo’ (Jacobi, 1995,p.73).

Portanto é importante destacar que arquétipo e símbolo não são conceitos equivalentes. O arquétipo é o centro energético que poderá ser constelado ao emergir na forma de símbolo. Esse último, entretanto, requer um esboço arquetípico, exercendo função transformadora da energia psíquica. O símbolo também agrega função terapêutica que não se restringe à imagem em si,contemplando o significado que transcende a própria imagem (Tommasi, 2003).

Estando ligado à vida e ao ser vivo, o arquétipo condensa imagem e emoção,sendo conseqüentemente revestido por sentimento e dinamismo. Nesse sentido, sua compreensão apenas é possível levando-se em consideração a maneira indicada pelo sujeito que o constela, não podendo ser isolado e nem entendido arbitrariamente (Jung, 1935/1998).

Ao interpretarmos um símbolo, procuramos decifrar a realidade invisível que se oculta através do que nos é perceptível. No entanto, mesmo sendo interpretado, os significados nele implícitos nunca se esgotam, pois quando seu significado é completamente decifrado, ocorre a morte do símbolo (Kast, 1997a).

Na historia da humanidade, a presença de símbolos sempre foi marcante. Tudo é passível de se tornar símbolo, desde os elementos da natureza ou os próprios produtos da ação humana, até os elementos abstratos. Jaffé (1964), ao abordar o simbolismo nas artes plásticas, retrata o longo trajeto histórico dessa forma de expressão, identificando aspectos simbólicos desde a pré-história, a partir dos registros de pinturas rupestres, até os tempos atuais.

Nas artes, em geral, observam-se inúmeras projeções do simbolismo humano,nos remetendo às imagens pessoais e impessoais (arquetípicas) descritas tão amplamente por Jung, o que justifica a grande influência do pensamento junguiano no desenvolvimento das práticas arteterapêuticas. Tanto na produção de um artista quanto na produção de um paciente dentro de um contexto psicoterapêutico, a imagem que emerge durante o processo expressivo reúne aspectos da psique do sujeito que são constelados naquele específico momento(Giglio, 1992; Zimmermann, 1992).

O próprio Jung experienciou a arte tanto na vida pessoal (Jung, 1963/1984)quanto na intervenção com seus pacientes em psicoterapia. Segundo ele:

Os elementos pictóricos que não correspondem a nenhum lado externo devem provir do ‘íntimo’… Como esse ‘íntimo’ é invisível e inimaginável mas pode influenciar a consciência de um modo muito eficaz, levo os meus pacientes,sobretudo os que sofrem de tais efeitos, a reproduzi-los da melhor maneira possível, através da forma pictórica. A finalidade desse ‘método de expressão ‘é tornar os conteúdos inconscientes acessíveis e, assim, aproximá-los da compreensão. Com essa terapêutica consegue-se impedir a perigosa cisão entre a consciência e os processos inconscientes. Todos os processos e efeitos de profundidade psíquica, representados pictoricamente, são, em oposição à representação objetiva ou ‘consciente’, simbólicos, quer dizer, indicam da melhor maneira possível, e de forma aproximada, um sentido que, por enquanto,ainda é desconhecido (Jung, 1935/1985, p.120) .

Como podemos compreender a partir dos estudos de Nise da Silveira (1992), as imagens internas são subjetivas por retratarem a realidade psíquica em sua amplitude (consciente e inconsciente pessoal), mas podem ser universais, poismuitas vezes apresentam motivos arquetípicos compartilhados com toda a humanidade (inconsciente coletivo). Essa autora valorizou a análise da série de produções artísticas de pacientes psiquiátricos (como Jung propunha com a análise da seqüência de sonhos), observando a repetição de motivos e a presença do fluxo de imagens do inconsciente carregadas de energia psíquica, inclusive na representação de temas mitológicos.

Outra autora que estudou os aspectos terapêuticos do ato de pintar e desenhar foi Zimmermann (1992). Ela destacou que neste processo terapêutico ocorre a canalização da energia contida por meio da catarse, podendo desencadear a redistribuição da energia psíquica durante a elaboração artística, mencionando a oportunidade de oferecimento de espaço continente às projeções de conteúdos inconscientes durante o processo expressivo, discutindo também a questão da análise e interpretação das produções dos pacientes. Sobre esse último tema,considera que uma imagem pictoricamente produzida não é possível de ser compreendida e, portanto, interpretada de maneira adequada, se não tivermos informações prévias sobre a história de vida do sujeito que a elaborou(Zimmermann, 1992).

Leia o Artigo na íntegra AQUI

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2 Respostas to “Arte na Psicoterapia Sob a Perspectiva da Psicologia Analítica Junguiana”

  1. Cristina Says:

    Olá

    o link pra o artigo completo está quebrado

  2. Grupo Papeando Says:

    Olá Cristina,
    o link já foi corrigido!
    Agradecemos a visita e o aviso. Seja bem-vinda, sempre!


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