Valorizações Afetivas nas Representações de Contos de Fadas: Um Olhar Piagetiano

contosdefadas_piaget_maxfieldparrish_inocencia Imagem: Maxfield Parrish – Inocencia

Instituto de Psicologia da USP

Apresentação

O construtivismo de Piaget e sua teoria da inteligência dispensam apresentações. Menos conhecidas, contudo, são as concepções do autor sobre o papel das valorizações afetivas na construção do conhecimento e no desenvolvimento da inteligência e da moralidade. Para este autor, as escolhas de objetos, ações e aspectos da realidade para interagir, assim como as modalidades de julgamento moral, sofrem a influência das valorizações afetivas. Assim sendo, a configuração e seleção de qualidades admiráveis (materiais ou abstratas) nos outros e em si mesmo, necessariamente se relaciona ao desenvolvimento do juízo moral, da inteligência e da afetividade. (…) É importante ressaltar que Piaget não pesquisou a afetividade diretamente, optando por descrever sua evolução, em correspondência com o desenvolvimento da inteligência, considerando indissociáveis nas condutas os elementos afetivos e os cognitivos, ainda que tenham naturezas diferentes. Considerou tarefa difícil estabelecer indicadores empíricos objetivos para a afetividade, uma vez que a mesma se organiza em sistemas abertos e mais suscetíveis de transformações, se comparados ao sistema intelectual/lógico. Contudo, suas concepções permitem aos pesquisadores seguir “pistas” sobre como investigar as relações entre afetividade e inteligência.

O Construtivismo Genético-Dialético De Piaget

Nunca é demais lembrar que o interesse de Piaget foi sempre pela construção do conhecimento e suas transformações ao longo da vida. Como ela começa? Que fatores a influenciam? O autor buscou sua origem nos reflexos do recém-nascido, seu “arsenal” inato, ponto de partida para sua adaptação ao mundo. A teoria psicológica da inteligência, construída a partir das indagações epistemológicas, é o produto científico que pretende demonstrar como se dá a evolução da inteligência desde o nascimento até a vida adulta. Esta evolução ocorre na interdependência entre sujeito e objeto; entre estrutura e gênese, os quais se transformam e, ao mesmo tempo, se conservam no jogo de interações com o mundo.

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Assim, o autor se mantém fiel à busca pela gênese das construções, acrescentando a isto o aspecto dialético (da interdependência), isto é, a impossibilidade de se pensar o desenvolvimento como decorrente de uma só variável, de uma só estrutura. Para ele, estrutura e gênese se relacionam, no sentido de que uma estrutura que num nível é a melhor e mais abrangente, no nível imediatamente superior é sub-estrutura de uma nova forma (estrutura) construída e assim sucessivamente. Igualmente, sujeito e objeto se relacionam dialeticamente em termos de um engendrar transformações no outro e reciprocamente. Este contexto de interdependência entre sujeito e objeto, entre estrutura e gênese confere ao seu construtivismo o caráter genético-dialético.

Ação, Operação, Interação

Um dos meios para diferenciar as perspectivas construtivistas e interacionistas é buscar o tipo privilegiado de mediação que cada abordagem focaliza, já que para todas elas, o conhecimento não está nem unicamente no sujeito, nem somente nos objetos ou no meio, mas é construído a partir das relações entre um pólo e outro da interação sujeito objeto. Mas, nessa interação, qual mediação é privilegiada? Para algumas, é a interação social enquanto fonte de elementos que permite ao sujeito construir a sua subjetividade. Para outras, a linguagem faz a mediação privilegiada, pois permite ao individuo ter referências iniciais para suas construções lingüística e psicológica individuais. E ainda, para outras perspectivas, a cultura faz a mediação central entre indivíduo e mundo transformando-o e sendo transformada por ele.

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Estrutura e Conteúdo, Inteligência e Afetividade

Para finalizar esta apresentação geral a respeito do construtivismo de Piaget temos que mencionar as relações entre estrutura e conteúdo; entre inteligência e afetividade, as quais estão diretamente ligadas à sua visão dialética. Sabemos que sua teoria interessou-se mais pelas estruturas da inteligência, isto é, pelas formas de organização da atividade (física e mental), do que pelos conteúdos presentes nas diferentes formas, ou seja, os domínios de onde podemos inferir essas estruturas. No limite poderíamos dizer que, para Piaget, as estruturas se constroem sobre quaisquer conteúdos, não se podendo privilegiar uns em detrimento de outros. Contudo, não se pode estudar o desenvolvimento apenas com a noção de estruturas, uma vez que estas são deduzidas pelo pesquisador a partir dos conteúdos (observáveis) aos quais se aplicam. Esta necessidade dos conteúdos é evidente no modelo piagetiano ainda que esses conteúdos não se confundam com as estruturas que os organizam. Um exemplo clássico é o dos esquemas motores, as formas de organização da atividade sensório-motora. Estes esquemas gerais (pegar, por exemplo) podem se aplicar a diferentes conteúdos (pegar objetos, pegar na mão da mãe, pegar o urso de pelúcia, etc), mas tem a mesma forma de organização: o “pegar”, que é generalizável a partir de seqüências de ações semelhantes.

Raciocínio semelhante foi aplicado por Piaget para tratar das relações entre inteligência e afetividade. Ambas são importantes para a construção do conhecimento e estão sempre presentes nas condutas humanas. A inteligência é responsável por organizar estruturalmente as condutas e a afetividade por conferir-lhes conteúdos, apresentando-lhes metas para suas escolhas. Não há, para Piaget, conduta nem unicamente afetiva, nem somente cognitiva ou racional, da mesma maneira que não há desenvolvimento nem unicamente estrutural, nem apenas baseado em conteúdos. Estes últimos são perfeitamente observáveis, quando focalizamos os interesses manifestados pelos indivíduos, sejam estes essencialmente materiais ou abstratos. A afetividade como reguladora de interesses e de valores afetivos é enfatizada nas concepções de Piaget e evolui contemporaneamente à inteligência, oferecendo ao sistema das condutas a abertura que as estruturas intelectuais não possuem. Isto não significa, no entanto, que a afetividade não possa ser estável ou se conservar em sistemas de regulação, equivalentes para Piaget, à organização em hierarquias de valores. É possível concluir, portanto, que para Piaget, para se pesquisar a afetividade, teremos que nos dedicar aos conteúdos e à energética das ações ou condutas e, assim, ao estudo das valorizações afetivas (Piaget, 1953-1954).

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Valorizações Afetivas: Do Valor da Ação aos Valores Morais

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A noção de “valor” inicialmente “prático”, depois representado (ligado à moral da obediência) e, por fim lógico (deduzido) e relacionado à moral da justiça, é central nas concepções piagetianas sobre a moralidade na criança. Junte-se a isso a possibilidade de agir de acordo com uma hierarquia de valores, construída graças à inteligência operatória e a afetividade por regulações e força de vontade. Esta última assume um estatuto importante nas concepções piagetianas, na medida em que é um regulador de outras regulações, tendo um papel equivalente ao da operação racional, quanto ao desenvolvimento do pensamento. Essa dupla regulação afetivo-cognitiva permite articular os interesses com o interesse prioritário, a moral da obediência com a moral da justiça, e passar da heteronomia à autonomia, dos sentimentos semi-normativos aos sentimentos normativos (Piaget, 1953-1954).

Para Piaget, a moralidade é o campo do desenvolvimento no qual as relações entre afetividade e inteligência ficam mais evidentes, já que os juízos de valor racionais estarão sempre inseridos em contextos de relações sociais e de sentimentos. Essa “ponte” entre inteligência e afetividade é objeto de pesquisas no âmbito da Psicologia Moral, a qual tem se dedicado, entre outras coisas, ao estudo dos sentimentos, da personalidade e dos valores morais.

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As Virtudes: Escolhas por Admiração

Os estudos sobre os valores morais levam também às pesquisas sobre as virtudes, principalmente as virtudes morais. Uma definição possível para “virtude” é a de um aprimoramento de uma qualidade, que por tocar a excelência merece a admiração por parte do outro. O contexto da admiração depende daquele que manifesta a qualidade (virtude) e também daquele que a observa e a admira. Ser capaz de admiração é condição necessária para refletir sobre virtudes, o que demanda certo grau de bem-estar e satisfação consigo próprio. Um risco freqüente, se isto não ocorrer, é passar da admiração à inveja (De La Taille, 2001).

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A Literatura dos Contos de fadas: Origem e Características

Os contos de fadas, desde há muito tempo, constituem literatura atraente para crianças de várias idades e também para os adultos. Estes últimos, ouvintes de histórias de fadas em sua infância, muitas vezes tornam-se contadores destes mesmos contos na idade adulta, mantendo a mesma atenção (ou até mais) em relação aos personagens fantásticos destes enredos.

Coelho (1987) distinguiu os contos de fadas dos contos maravilhosos por possuírem como eixo gerador uma problemática existencial; o herói deve vencer provas para que alcance sua auto-realização. Nos contos de fadas, é imprescindível a presença do maravilhoso, com ou sem a presença das fadas. Os contos maravilhosos, por sua vez, são narrativas sem a presença das fadas e que enfatizam uma problemática social ou relacionada à vida prática. Estes últimos têm origem oriental e realçam a parte material, sensorial e ética do ser humano. Os contos de fadas são de origem celta e apareceram inicialmente como poemas. Os contos clássicos infantis tiveram suas origens bem antes da faustosa corte do rei Luis XIV, no século XVII na França, e nasceram para falar aos adultos. Os estudos da literatura folclórica e popular de cada nação iniciaram-se a partir do século XIX, sendo que a França teve um papel importante no processo de transformação da literatura maravilhosa e na sua migração para o resto da Europa. No século XVII, deve ser destacado Charles Perrault, que buscou redescobrir os relatos maravilhosos numa época em que as narrativas maravilhosas entraram em declínio. De início, não estava preocupado com as crianças; apenas mais tarde pretendeu diverti-las e orientar a formação moral das meninas. Sua primeira seleção de contos é composta de seis contos de fadas e dois contos maravilhosos e recebeu o nome de Histórias do tempo passado com suas moralidades: contos de minha mãe gansa (1697). Os contos aí incluídos são: A Bela Adormecida no Bosque, Chapeuzinho Vermelho, O Barba Azul, O Gato de Botas, As Fadas, A Gata Borralheira, Henrique do Topete e O Pequeno Polegar.

No século XVIII, as fadas passaram a um segundo plano no interesse dos adultos e se recolheram ao mundo infantil. Mais tarde, no século XIX, retornaram, mas não por uma preocupação com as crianças e um entretenimento dos homens, mas sim por uma preocupação lingüística. Foi nesse contexto que os irmãos Jacob e Wilheelm Grimm, estudiosos da mitologia germânica e da história do Direito alemão passaram a coletar e estudar uma grande massa de textos. Como conseqüência, publicaram os Contos de fadas para crianças e adultos (1812-1822). Destacam-se dentre os contos que foram traduzidos para o português: A Bela Adormecida, Os Músicos de Bremen, Os Sete Anões e a Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, A Gata Borralheira, O Corvo, As Aventuras do Irmão Folgazão, A Dama e o Leão. Também como representantes da literatura infantil desse século XIX, temos Hans Christian Andersen, poeta e novelista dinamarquês, a Condessa de Segur (1856), Lewis Carroll (1865), com Alice no país das maravilhas e, finalmente, Collodi, que em 1883, publica Pinóquio.

A Psicologia e os Contos de Fadas

Muitas considerações sobre a literatura dos contos de fadas foram feitas do ponto de vista da Psicologia. Autores tais como, Marie-Louise Von-Franz, Bruno Bettelheim e René Diatkine, apoiados em conceitos da teoria junguiana (no caso da primeira autora) e da teoria psicanalítica (no caso dos dois últimos autores) buscaram compreender o significado dos contos de fadas no desenvolvimento intelectual e afetivo das crianças.

Von-Franz (1985) destaca os símbolos presentes nos contos de fadas, especialmente os relatados pelos Irmãos Grimm. Destaca temas como a sombra, a destruição e renovação do rei, a renovação da consciência dominante, a ânima e a renovação, a rendição do ego e a grande mãe e a unicidade. Estes temas são apresentados, tendo como pano de fundo a idéia junguiana de que “a sombra é tudo aquilo que faz parte da pessoa, mas que ela desconhece” e “consiste em partes de elementos pessoais e em parte de elementos coletivos” (Von-Franz, p.12). No que diz respeito aos contos de fada, a autora se pergunta se eles representariam ou não material psicológico e qual sua provável origem e sua função em nossa civilização. Assim, relembra que “antigamente, até mais ou menos o século XVII, os contos de fadas não eram destinados apenas às crianças, mas também aos adultos das classes mais baixas da população como lenhadores e camponeses, divertindo-se suas mulheres a ouvi-los enquanto fiavam” (p.18). Nesta época, havia narradores profissionais de contos de fadas, os quais herdavam essa função dos antepassados ou como uma tradição transmitida de pessoa para pessoa. Segundo Von Franz, os contos estariam relegados atualmente às crianças por se referirem a “material arquetípico” e este é encarado em nossa civilização como algo infantil. Para ela, a interpretação do conto sempre lhe será inferior, assim como ocorre com a interpretação dos sonhos e mitos. Contudo, é necessária porque traz objetividade, abrindo o quadro de referência do sujeito.

Bettelheim (1978/1980) analisou os contos de fadas quanto à sua importância para o desenvolvimento psicológico das crianças e escolheu alguns contos para ilustrar suas idéias, as quais se baseiam na teoria psicanalítica freudiana. Diz Bettelheim:

Esses contos (referindo-se especificamente aos contos de Perrault), quando éramos crianças, nos introduziram num universo encantado cuja admirável magia nos permitiu dar impulso à nossa imaginação cada vez que as dificuldades da vida real ameaçavam nos abater, o que era freqüentemente o caso” … “as esperanças, mantidas pelos contos de fadas, nos permitiam superar corajosamente as adversidades, fossem elas reais ou imaginárias” …”se tivéssemos ficado por conta própria, nossos sonhos seriam limitados por imagens de cólera e vingança, por satisfações que teriam sido limitadas ao campo muito restrito de nossa experiência. Os contos de fadas graças à sua imensa variedade de acontecimentos e situações, graças às suas ricas – e muitas vezes ricas demais – descrições de prazeres, nos permitiram tecer à sua imagem fantasias otimistas que nos arrancavam de uma mundo no qual nós estaríamos bem mais descontentes de habitar” (p. 7-9).

Para o autor, todos nós necessitamos do reconforto proporcionado pela imaginação para que possamos viver o mundo das realidades quotidianas, as quais, sem a contribuição dos sonhos noturnos e diurnos nos pareceriam talvez muito penosas para poderem ser suportadas. Mas nós as toleramos porque esperamos a chegada de dias mais favoráveis. São essas esperanças que os contos de fadas inculcam na criança, num período de sua vida no qual ela não pode vislumbrar ainda a confiança de que seus esforços valerão a pena para a realização de seus anseios mais caros, de seus desejos mais ardentes. Referese ainda ao valor dos contos para o adulto que os conta às crianças. Para ele, essas histórias ou aquilo que retemos delas, nos fazem viver intensamente não somente as alegrias, mas também os medos de nossa infância. Bettelheim nos diz que a origem dos contos é, ao mesmo tempo, antiga e moderna. Antiga, porque os contos sempre foram transmitidos por tradição oral, e são, por isso, tão antigos como qualquer outro tipo de invenção literária. Contudo, os contos são também tão modernos quanto outros gêneros literários, pois continuamos a criá-los hoje, como se fazia desde o início da história da humanidade. O mesmo autor também menciona o fato, tal como Von-Franz, que os contos não foram originalmente uma literatura voltada exclusivamente para as crianças; eram contados por adultos pelo prazer e edificação dos jovens e dos velhos; falavam do destino do homem, de suas provas e tribulações, de seus medos e esperanças, de suas relações com seu próximo e com o sobrenatural, e isto sob uma forma que permitia a cada um executar o conto com prazer e, ao mesmo tempo, meditar sobre seu sentido mais profundo.

O autor lamenta o fato de que, nos dois últimos séculos (e ocidental), tenha passado a vigorar a idéia de que esta literatura diga crianças e não traga nada de importante para os adultos. A este respeito, que esta diferenciação de gostos literários só tende a alargar o que chama separa as experiências ricas de significações para uns e para outros.

Ainda que os contos possam variar nos detalhes segundo as diferentes culturas, pode-se, ainda segundo o mesmo autor, encontrar as mesmas intrigas fundamentais no mundo todo. A este respeito, Hétier (1999) demonstra essa universalidade dos temas apresentados pelos contos. Isto nos mostra que o homem não foi capaz jamais, em parte alguma, de afrontar os caprichos da vida sem recorrer às fantasias que, divertindo-o e reconfortando-o, lhe traziam alívio imaginário para as tensões e angústias que o oprimiam.

Os contos poderiam propiciar, então, ajuda particular à criança. Esta é, muitas vezes, incapaz de visualizar concretamente, com seus próprios meios, seus medos e esperanças. Os contos a ajudam no sentido de apresentar-lhe personagens sobre os quais ela pode projetar suas esperanças e suas angústias. Porque os contos de fadas colocam em cena as angústias, alguns acham erradamente, segundo Bettelheim (1978), que eles insinuam o medo na criança. Na opinião do autor, quem assim pensa esquece que “o homem tem excelentes razões para inventar os contos de fadas e que estes não existiriam se não fossem contados e escutados com prazer, por motivos igualmente válidos” (p. 12). Os contos possuem, então um papel muito importante: fornecer ocasião para concretização das angústias e também da possibilidade de dominá-las. Além disso, afirmam para a criança que cada espectro mau tem o seu inverso, e que o segundo é mais poderoso para fazer o bem do que o primeiro para fazer o mal. Aí está alguma coisa que a criança dificilmente consegue imaginar sozinha quando está dominada pela angústia. Até os ogros têm esposas que tentam proteger deles seus filhos e que, no final das contas lhes dão a prata e o ouro do ogro, como acontece no Pequeno Polegar.

Em suas considerações, Bettelheim destaca ainda a importância do contar o conto de fadas, classificando esta experiência de duplamente pessoal. Em primeiro lugar, do ponto de vista do narrador, pois o contar é modelado pela personalidade do narrador, que insiste sobre certos detalhes mais que sobre outros. Em segundo lugar, do ponto de vista do ouvinte, que pede para que determinado trecho da história seja aprofundada ou explicada. O conto deixa aflorar tanto a imaginação do contador como do ouvinte, o que lhes permite adaptar suas idéias e sentimentos. A história pode corresponder às necessidades e às aspirações do momento, as quais se expressarão numa ou noutra interpretação. Esta poderá mudar com o tempo, à medida em que as necessidades e os desejos tomarem um curso diferente. Ainda segundo o autor, conforme a criança vai crescendo e aprofundando sua experiência do mundo, o mesmo conto ganhará em significação. Com isto, quer destacar a importância do adulto contar histórias às crianças, uma vez que estes, mais amadurecidos que as primeiras, podem apresentar as histórias de múltiplas maneiras. Se, por um lado, o adulto pode enriquecer os contos ao contá-los às crianças, ele pode também empobrecê-los ou desvirtuá-los. Isso é o que as versões ou adaptações para televisão ou cinema fazem em geral. Quanto a este assunto, Bettelheim é enfático:

não deixam grande coisa para a imaginação da criança e insistem demais em coisas secundárias em detrimento da significação profunda. Assaltando ao mesmo tempo os olhos e os ouvidos, passando muito rápido de uma cena à outra, insistindo sobre o espetacular e o sensacional, essas versões submergem a criança em um entretenimento tão rápido que ela não tem tempo para refletir sobre o sentido profundo da história que se esconde sob a superfície. Ela é obrigada a aceitar o conto tal como o fez o diretor, para agradar ao maior número de pessoas e para fazer dela um sucesso imediato. Mas trata-se de histórias que só demonstram toda sua riqueza com o tempo e que devem ser contadas freqüentemente e lentamente para as crianças” (p. 23).

O mesmo autor (Bettelheim,1980), destaca que, para produzir seu efeito benéfico sobre a criança, o conto deverá ter um final feliz, porque assim, representará para ela o que será o desenvolvimento psicológico saudável, apesar de todas as dificuldades que possam surgir.

As idéias de Bettelheim foram compartilhadas pelo psicanalista francês René Diatkine (1993), o qual procurou explicar o fascínio das crianças pelos vilões dos contos infantis, defendendo a leitura dessa literatura para a formação de adultos saudáveis. Trabalhando no Centro de Saúde Mental do XIII distrito de Paris, fez durante muitos anos o acompanhamento de crianças, sobretudo psicóticas, por meio de contos infantis. Dizia Diatkine:

É o jogo entre a linguagem do cotidiano e a do texto dos contos que enriquece o imaginário infantil… o que fazemos não é uma terapia, é algo muito maior. É uma bela higiene mental, uma preparação para o futuro.” (Diatkine, 1993).

Contudo, o autor alertava que a leitura dos contos não deve ser encarada como aprendizado escolar, pois, para ele, ler o conto é uma brincadeira que deve ser repartida com prazer. Assim, considera que os pais, que forçam seus filhos a ler para acelerar o seu aprendizado, cometem um grande erro. E acrescenta que a TV não é a maior inimiga dos livros, como se pensa. Isto porque a entonação tranqüila da voz dos pais ou daquele que lê uma boa história para a criança, sempre prevalece sobre a diversão eletrônica. Nesse sentido costumava ser enfático: “São os pais que tem preguiça de ler para os filhos e preferem colocá-los diante da TV”. Sobre a atração que os contos exercem sobre as crianças ao longo da história dos povos, o autor considerava que o imaginário infantil se enriquece com as narrativas, com começo, meio e fim. A criança sabe distinguir a linguagem do cotidiano da dos contos e ao ouvir as histórias, ou ao lê-las, ela cria um espaço em sua cabeça para um mundo mágico literalmente fabuloso. Aprende assim, a reagir a situações desagradáveis e a resolver seus conflitos pessoais.

E concluía: “O que nós psicanalistas fazemos, com conhecimento, porque já estudamos, deveria ser feito pelos pais: acompanhar os filhos, sentar para ler e narrar histórias. Simples assim. As descobertas serão surpreendentes.” (Diatkine, 1993).

Leia o texto na íntegra aqui

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3 Respostas to “Valorizações Afetivas nas Representações de Contos de Fadas: Um Olhar Piagetiano”

  1. jane rafaela Says:

    nao pude analisar na íntegra o que eu estou procurando exatamente,porém o texto por está muito fragmentado,está também bastante compreensível.Sou aluna do curso de padagogia e estou concluindo em dezembro de 2010.OBRIGADO…

  2. jane rafaela moura dos santos Says:

    ………Agradeço batante, pois já sou pedagoga e estou construindo uma outra monografia com o mesmo tema só mudando algumas palavras………Estou adorando, pois sou fascinada por contos de fada……….

  3. maia Says:

    Eu gosto muito de contos,penso que e otimo para trabalhar valores


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