A Psicanálise e a Narrativa Popular: o uso terapêutico dos contos de fadas

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Imagem: “Os Três Cães” – Enciclopédia da Fantasia

*Por Carlos Brito

(…)Freud, desde muito cedo, em sua experiência clínica, destacou a importância e o valor dos contos de fadas, chamando a atenção para o fato de que, assim como nos mitos e nas lendas, essas narrativas referem-se à parte mais primitiva do psiquismo. Não é surpreendente descobrir que a psicanálise confirma nosso reconhecimento do lugar importante que os contos de fadas populares alcançaram na vida mental de nossos filhos. Em algumas pessoas, a rememoração de seus contos de fadas favoritos ocupa o lugar das lembranças de sua própria infância; elas transformaram esses contos em lembranças encobridoras […] Elementos e situações derivadas de contos de fadas podem também ser encontrados em sonhos. Interpretando as passagens em apreço, o paciente produzirá o conto de fadas significativo como associação (Freud, 1925:355).

(…)Em alguns casos clínicos descritos na obra citada, Freud traz, várias vezes, à baila a pertinência de alguns símbolos presentes em alguns contos de fadas, encontrados em sonhos de seus pacientes. Acho particularmente interessante sua referência a um conto de Hans Andersen — A Roupa Nova do Imperador — encontrada na seção Sonhos embaraçados de estar despido.

Nessa referência, ele acredita que os sonhos em que a pessoa se vê nua, ou insuficientemente vestida na presença de estranhos, ocorrem, por vezes, com a característica adicional de haver completa ausência de moralidade por parte de quem sonha. Ora, num dos contos de Andersen, vislumbra-se a trajetória de dois impostores ao tecerem, para um rico imperador, um traje muito caro que, segundo eles, só seria visível para as pessoas de virtude e lealdade. O imperador desfila nu pelas ruas de sua cidade, e todos os seus súditos, intimidados, fingem não reparar a nudez de seu monarca. No final da trama, é uma pequena criança que, observando a nudez do rei, começa a gritar que ele está nu.

(…)Se observamos cuidadosamente, a partir de exemplos claros, a maneira pela qual os sonhadores utilizam os contos de fadas e o momento no qual os trazem à baila, podemos talvez conseguir recolher algumas sugestões que os ajudarão a interpretar obscuridades remanescentes nos próprios contos de fadas (Freud, 1925:359). Na realidade, ele acreditava que essas histórias, enquanto relatos populares, perpassavam o sagrado e o profano, o trágico e o humorístico, caracterizando-se pela presença de seres, objetos e lugares sobrenaturais e que eram facilmente adaptáveis à mentalidade infantil, assim como à dos adultos.

Freud, frente a um caso clínico, aponta para o fato de o Lobo Mau ser simplesmente um primeiro representante paterno a encontrar sua relação com o conteúdo oculto nos contos de fadas em que o Lobo come cabritinhos e Chapeuzinho Vermelho, fato que o leva a pensar no medo infantil da figura paterna e na questão do desamparo. Assunto explorado por ele, sob o ponto de vista psíquico, como fazendo parte da própria natureza humana. Essas referências surgem a partir do caso clínico O Homem dos Lobos, quando o paciente substituía simbolicamente o lobo pelo pai, a partir de seu desejo.

Jung e Von Franz: o Mergulho no Universo das Imagens Arquetípicas

Um outro teórico da psicanálise, não menos famoso, Jung, deixa margem para estudiosos da psicologia analítica verem, no conto de fadas, a possibilidade de trabalhar questões relativas à existencialidade humana, que estão no plano do inconsciente — enquanto imagens arquetípicas —, levando o ser humano a entrar em contato com o seu processo de individuação, encorajando-o para a vida, criando sempre novas possibilidades que dariam continuidade ao fluxo da existência. Na realidade, Jung se aprofunda de forma detalhada no estudo dos contos de fadas, motivado, obviamente, pelo seu interesse acerca da questão do simbolismo universal e arquetípico como influenciador da história individual das pessoas.

(…)Carl G. Jung, na verdade, trabalhou na decodificação dos contos infantis para melhor diagnosticar e entender as doenças psicológicas, acreditando que os contos de fadas representavam as etapas do processo de individuação: a realização, pelo ego, das potencialidades de si mesmo. Segundo ele, os contos de fadas nada mais seriam do que a versão contemporânea da transmutação alquímica, em que a matéria bruta seria transformada em algo de maior valor.

Essas narrativas, assim como os mitos e rituais iniciáticos, são para Jung (1964) os tesouros da humanidade utilizados para atravessar momentos de crise. São experiências iniciáticas disfarçadas, a fim de poderem escapar da censura de uma época antimítica. São as expressões mais transparentes dos arquétipos do inconsciente coletivo. De acordo com o teórico, o inconsciente coletivo seria um reservatório de imagens latentes, em geral chamadas de imagens primordiais. O homem herdaria essas imagens do passado ancestral, passado esse que inclui todos os antecedentes humanos, bem como os antecedentes pré-humanos ou animais. Essas imagens nada mais seriam que predisposições, no lidar e no responder ao mundo tal como os antepassados.

Por sua vez, os conteúdos do inconsciente coletivo, chamados de arquétipos, estimulam um padrão pré-formado de comportamento pessoal, que o indivíduo seguirá desde o dia do seu nascimento. São de natureza universal, o que justifica a crença defendida por Jung de que todos os homens herdariam as mesmas imagens arquetípicas básicas. (…)Em suas reflexões, Jung procurou mostrar o quanto é necessário para um psicanalista um conhecimento sólido e profundo da questão dos arquétipos e da mitologia, para poder compreender e utilizar os contos de fadas e sua simbologia universal enquanto material clínico. Segundo ele, a presença de animais na quase maioria dos contos parece sugerir a natureza primitiva e instintiva do homem. Concordando com Freud, afirma que, para poder rememorar o seu lado perverso, o homem lança mão da figura de animais, às vezes demoníacos, como cobras, dragões, leões, lobos…

Pode-se constatar, em sua obra mais conhecida, O Homem e seus Símbolos (1964), uma referência ao famoso conto A Bela e a Fera. De acordo com sua leitura, esse conto encarna nosso medo primitivo frente às questões sexuais, que, no conto, traduzem-se na pele de um feroz animal. Nesse conto, a figura masculina parece se dividir em: o pai-bom e o homem-fera, divisão essa que obriga Bela a viver com o segundo, para que, com essa escolha, possa salvar o primeiro. O conto se desenvolve como processo de amadurecimento da heroína graças a um rito de passagem, o que a leva a conscientizar-se da figura masculina através de seus desejos. Do pai à fera, da fera ao príncipe. “Há um mito universal que expressa bem esse tipo de despertar — o conto da Bela e a Fera. A versão mais conhecida conta como Bela, a mais jovem de quatro irmãs, tornou-se, graças à sua bondade e abnegação, a preferida do pai” (Jung, 1964:138). Existem muitas versões dessa história romântica que, há séculos, vêm sendo transmitidas. No entanto, a versão mais conhecida é o texto clássico de Madame Jeanne Marie de Reaumont, datado de 1756.

(…)Para vários estudiosos da psicologia analítica, cada conto de fadas representa um drama no qual os personagens arquetípicos — que povoam o inconsciente — movimentam o psiquismo, estabelecendo a ponte entre o consciente e o inconsciente, obtendo, a partir desse momento, efeitos catárticos e projetivos. Assim, a bruxa seria uma das várias manifestações do aspecto negativo do arquétipo mãe. Em João e Maria, por exemplo, ela parece ser o símbolo da mãe dominadora que controla e prende seus filhos no nível obscuro da imaturidade, usando, por sua vez, docinhos como armadilha. Já em o Pequeno Polegar, sete irmãos são expulsos da casa paterna porque os pais não têm como alimentá-los e vão parar na casa de um ogro faminto. Para Jung, uma espécie de pai devorador.

O trabalho de Marie Louise Von Franz (1979), colaboradora de Jung, sobre a utilização dos contos de fadas na clínica é amplo e profundo. Ela acredita que o simbolismo encontrado nos contos de fadas, chamados por ela de textos alquímicos, não poderia ficar isolado de pesquisas referentes a outras modalidades do inconsciente–sonhos. Mitos e lendas. Ela compara a procura do sentido dos contos de fadas à tentativa de alcançar, seguindo-lhe as pegadas, um cervo fugitivo particularmente ágil. Contos de fadas são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo. Conseqüentemente, o valor deles para a investigação científica do inconsciente é sobejamente superior a qualquer outro material. Eles representam os arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa. Os camponeses suíços experienciam-nos constantemente, e eles formam a base das crenças folclóricas. Quando alguma coisa acontece, ela é cochichada e corre, como correm os boatos; então, sob condições favoráveis, o fato emerge enriquecido de representações arquetípicas já existentes e, progressivamente, transforma-se num conto (Von Franz, 1990:29, 30).

(…)Nos mitos, nas lendas ou em qualquer outro material mitológico mais elaborado, atingimos as estruturas básicas da psique humana através de uma exposição do material cultural. Mas, nos contos de fadas, existe um material cultural consciente muito menos específico e, conseqüentemente, eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique (Von Franz, 1990:9). Em suas especulações sobre o papel dos contos de fadas no processo terapêutico, Von Franz (1979) parece afirmar que a linguagem dos símbolos permite mergulhar-se nas camadas do inconsciente, pelo fato de essas narrativas serem portadoras de um sentido que cobra uma leitura para além de uma visão puramente racional.

Com base nessas especulações, chega-se à constatação de que os contos de fadas tentam, na realidade, descrever, em suas entrelinhas simbólicas, apenas um fato psíquico. Trata-se, na realidade, do que Jung denominou de processo de individuação que, segundo o teórico, seria, pelo ego das potencialidades de si mesmo, o arquétipo comum do psiquismo humano. Em outras palavras, seria a versão moderna da transmutação alquímica em que a matéria-prima sem valor era transformada em ouro ou na “pedra filosofal”, o símbolo do tesouro oculto que aparece nos mais variados contos de fadas. Ora, esse tesouro oculto, na realidade, encontra-se dentro de cada homem, e só é possível desvendá-lo a partir de um diálogo sistemático entre consciente e inconsciente.

*Carlos Brito é psicólogo, fonoaudiólogo, especialista em Metodologia do Ensino Superior (Unicap/PE), Mestre em Fonoaudiologia (PUC/SP), professor adjunto do Departamento de Psicologia da Unicap/PE e professor de Literatura Infantil.

Leia o artigo na íntegra aqui

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Uma resposta to “A Psicanálise e a Narrativa Popular: o uso terapêutico dos contos de fadas”

  1. Rosilene Says:

    Gostei da matéria, estou fazendo um curso de neuropedagogia e temos tal conteúdo como uma das disciplinas, acho “encantador”.
    Grata, Rosilene


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