O Caminho da Floresta nos Contos de Fada: Amadurecimento e Autonomia

snowwhite_rackham1

Imagem: Branca de Neve por Arthur Rackam

Por Angelita Corrêa Scardua


O espaço geográfico no qual os Contos de Fada se desenrolam é regido por leis totalmente diferentes daquelas que dominam o mundo cotidiano. O modo de funcionamento desse espaço constitui-se pela lógica do sobrenatural e do imaginário, ou seja, pela lógica dos conteúdos simbólicos do Inconsciente Coletivo. Da mesma forma que o inconsciente se organiza à revelia do tempo-espaço cronológico – estabelecendo suas próprias relações de causa e efeito a partir da vivência afetiva, e não dos pontos cardeais e das horas – na geografia fantástica não existem distâncias que possam ser metricamente medidas ou tempo que os dias marcados nos calendários possa delimitar. Assim, o deslocamento físico dos personagens nos Contos de Fada segue a necessidade de desenvolvimento emocional do protagonista e dos coadjuvantes. Essa condição não-física da mobilidade no mundo da fantasia permite aos personagens deslocarem-se por reinos, céus, oceanos, mundos inferiores e superiores num “piscar de olhos”.


Dentre os muitos espaços habitados e percorridos pelos personagens de Contos de Fada um, sem sombra de dúvidas, se destaca, a Floresta. A floresta pode ser escura, iluminada, densa, com clareira ou sem, povoada por seres amistosos ou não, mas invariavelmente ela estará lá. A floresta, no mundo fantástico, constituirá passagem quase obrigatória no caminho daqueles que precisam libertar, transformar, aprender, resgatar, e/ou superar a si mesmos ou aos outros. Porque isso? Porque a Floresta, e suas variações como o bosque, por exemplo, é espaço tão onipresente nas narrativas fantásticas?


A Floresta é um símbolo universal, associa-se à origem da vida, ao útero, ao feminino, ao mundo emocional caracterizado pela ambigüidade e pelo conflito entre tudo o que é luminoso e sombrio na nossa psiquê. Mas como surgem essas associações? Para entendermos como essa associação simbólica – entre Floresta e feminino, Floresta e Vida, Floresta e emoção – se dá, é fundamental pensarmos no significado prático da floresta na vida humana. Ou seja, qualquer associação simbólica só pode ser compreendida quando entendemos o papel do elemento que gera os símbolos na vida cotidiana. Melhor dizendo, pensemos juntos: para que serve a floresta? Qual tem sido o papel da floresta na manutenção da vida? Qual o lugar que a floresta ocupava na vida de nossos antepassados?…Perguntas como essas podem nos ajudar a traçar o itinerário percorrido pela floresta no Inconsciente Coletivo, desde sua existência física/real até o seu papel simbólico/Imaginário.


Então vamos lá! De forma bem sucinta: desde os primórdios da existência humana a floresta está associada á nossa sobrevivência. Os ciclos naturais, de crescimento e morte da floresta, estão profundamente vinculados ao ciclo das águas (chuvas, rios, etc.,), à incidência de luz solar e à circulação dos ventos. Ora, toda a vida animal e vegetal depende desse ciclo de alternância dos elementos, que é tão perceptível na dinâmica da floresta. A caça, a coleta de frutos e raízes, por exemplo, fundamentais para a subsistência dos primeiros humanos, atrelavam-se à presença das florestas. Quanto mais ricas e diversificadas as áreas florestadas, maiores as fontes de alimento e de água; e é assim até hoje, veja a Amazônia, por exemplo. No entanto, esse mesmo espaço que favorecia a sobrevivência das espécies, guardava inúmeros perigos: animais selvagens, bichos peçonhentos, plantas venenosas, rios de corredeiras mortais e toda a sorte de ameaças à vida. Tanto é que, mesmo hoje, inúmeras histórias de desaparecimentos e mortes em florestas se inscrevem nos registros da história humana.


Logo, fica mais fácil compreender como a Floresta ocupou em nosso Imaginário um espaço de ambigüidade/ambivalência. Mas porque a relação com o feminino, com o útero? O útero como lugar de gestação da vida – guardado, protegido e escondido – associa-se à formação própria da floresta, igualmente protegida, quase sempre escura, úmida e fomentadora de todas as forma de vida. Por isso, símbolo feminino por excelência, representante imaginária da Mãe Terra, a fonte da vida. Dessa forma, a ambivalência da Floresta que oferece a vida e a morte, o sossego e a desesperança, a salvação e o abandono, nos remete ao vai-e-vem característico das emoções, do desafio afetivo que é reconhecer nossas próprias variações emocionais frente à vida. A vida que é gestada no útero materno, no corpo feminino, e nos confronta com as limitações da sobrevivência regida pelas demandas corpóreas e pela inquietação emocional.


Portanto, no campo simbólico a Floresta corresponderá às exigências características do enfrentamento da vida. No plano psicológico, viver não é apenas satisfazer as demandas fisiológicas do corpo. Viver é aprender a conjugar as demandas do corpo e da mente, ou seja encontrar formas de gerenciar as emoções que nos compele a ser o que somos. Esse é o caminho do desenvolvimento humano pleno, é o que podemos chamar de maturidade. Psicologicamente falando, atravessar a Floresta é mergulhar nos nossos medos, é enfrentar nossos conflitos emocionais e nossas resistências psíquicas, àquelas que nos tentam com a aparente segurança do mundo infantil. A suposta inocência da infância nos acena com a promessa de uma vida sem sofrimentos e sem dúvidas, mas não se pode ser inocente para sempre. A felicidade, para ser usufruída, implica o reconhecimento das dúvidas e o enfrentamento do sofrimento, o que só é possível com a perda da inocência, com o amadurecimento.


O caminho da Floresta nos Contos de Fada leva à descoberta de que o mundo não é tão perfeito quanto esperávamos mas, em compensação, nos mostra que ele é muito mais rico e diversificado do que a vida “segura” da casa paterna. É nessa diversidade que a criança pode reconhecer as infinitas possibilidades da vida, aprendendo a utilizar os seus próprios recursos emocionais para transformar-se num adulto capaz de fazer escolhas e decidir o próprio destino. Essa transformação psicológica, gestada no ambiente florestal, pode ser vista em muitos Contos: João e Maria, Peter Pan, Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, A Bela Adormecida, O Príncipe Sapo, Pele de Urso, Os Seis Cisnes e muitos outros. Os elementos naturais que condicionam o ambiente florestal no campo imaginário – a presença de água, sol, animais, monstros, bruxas, fadas, anciãos, etc., – revelam o tipo de desafio emocional que é necessário ao amadurecimento do personagem. Nesse sentido, podemos usar a estória de Branca de Neve como ferramenta de análise:


Branca de Neve deixa o castelo e refugia-se na floresta, não por vontade própria! Ela é levada à floresta para ser morta. A mando de sua madrasta, Branca de Neve é levada por um serviçal do castelo para que este lhe arranque o coração! É o despertar da consciência emocional de Branca de Neve que a Rainha Má teme, é o coração da menina que acorda para o mundo adulto e feminino que deve ser silenciado, é a mulher que emerge na pequena princesa que ameaça o poder de sedução da mãe que envelhece. Esse movimento de levar Branca de Neve à floresta para arrancar-lhe o coração (os sentimentos), fala da tentativa de impedir que a menina abandone a infância e ingresse na vida adulta. Pois, é essa passagem que é parte do substrato psicológico da historia. O que se tenta evitar aqui é que a menina cresça, que ela entre em contato com suas emoções particulares, àquelas que a definirão como mulher, e rival da bela Rainha.


A Rainha habita o castelo. O castelo, como toda construção simboliza o mundo social, o universo adulto padrão da sociedade humana. Logo o castelo simboliza para a Branca de Neve o mundo dos pais dela, mais propriamente da madrasta. Ou seja, para se tornar uma pessoa adulta, deixar de ser uma menina, para se tornar uma mulher, Branca de Neve precisa romper com as regras e o universo materno e buscar seu próprio caminho. Para tanto, Branca de Neve precisa conectar-se com sua própria essência feminina, com seu universo emocional. A fuga para a floresta marca o início dessa jornada. Como símbolo de origem da vida, a floresta esta intimamente relacionada ao inconsciente (origem da vida psíquica). A floresta associa-se ao desconhecido, em contraponto às construções humanas – o castelo – das quais conhecemos todos os detalhes, já que foram feitas por nós, e por nós são controladas. A floresta, a natureza, é o reino do que é animal, indomável, obscuro, autêntico… divino. A cidade, a civilização é o reino do familiar, do que é humano, domesticável.


Todos nós sabemos que amadurecer não é fácil, e todo mundo já experimentou a dor de buscar os seus próprios caminhos, romper com os valores que lhes foram ensinados e definidos como certos e/ou errados, não é mesmo?! Pois é isso que a Branca de Neve faz ao correr para a floresta escura. Ou seja, Branca de Neve embarca numa viagem interior que a levará a um processo de auto-conhecimento. O encontro com os sete anões, do ponto de vista psicológico, fala de aspectos emocionais e cognitivos que precisam ser confrontados, vivenciados e equilibrados para que Branca de Neve possa se tornar uma mulher, um ser completo. O fato de cada anão corresponder a um comportamento especifico explicita isso, porém, uma pessoa emocionalmente amadurecida não pode lidar com suas emoções de forma tão crua, como se cada emoção fosse independente da outra.


Ao contrário das crianças que vivenciam as emoções de forma estanque alternando-as abruptamente – ou se está feliz ou triste, irritada ou receptiva – a pessoa madura emocionalmente equilibra as várias nuances da vida afetiva combinando-as num mosaico sútil e dinâmico em que cada experiência afetiva é vivenciada em toda a sua diversidade e abrangência.


A chegada à cabana dos anões, no coração da floresta, representa o encontro da Branca de Neve com o núcleo do seu inconsciente. É muito revelador o fato dela dormir depois de chegar a cabana. Nós sabemos que os sonhos são um caminho seguro para os processos inconscientes. A estada de Branca de Neve na floresta, possui o mesmo significado simbólico da descida de Perséfone ao reino de Hades. Ambas, meninas que após mergulharem no próprio inconsciente se tornam mulheres! Ou seja, tanto Branca de Neve quanto Perséfone, renascem para a vida amadurecidas, donas do próprio nariz, e Mulheres! A diferença básica é que Perséfone tinha uma relação amistosa com a mãe, mas não menos dependente. Por essa razão ela “precisou” ser raptada e estuprada por Hades. Ao ser levada para o reino de Hades(Plutão), Perséfone simbolicamente mergulhou no próprio inconsciente, e foi justamente esse processo de auto-conhecimento que permitiu que ela se tornasse uma mulher adulta, capaz de escolher sozinha o destino que queria dar a sua vida.


Ao contrario de Perséfone, a relação de Branca de Neve com sua mãe/madrasta não era nada amigável, muito pelo contrário. Por essa razão, Branca de Neve “precisou” fugir para a floresta e encontrar-se com ela mesma. O fato é que, tanto uma como a outra empreendeu uma viagem interior que lhes trouxe o auto-conhecimento e o encontro com a Mulher que desejava desabrochar. De qualquer forma, há um aspecto similar entre as duas estorias que merece ser destacado. Tanto a boa mãe de Perséfone quanto a mãe má de Branca de Neve temiam a maturidade de suas filhas. Ou seja, essa “inveja” materna é um sentimento comum quando as filhas se tornam adolescentes e deixam de ser meninas para se tornarem mulheres. Mas isso é uma outra historia…


…a propósito, o filme “Branca de Neve – Uma historia de Terror (Snow White)”, que tem direção de Michael Cohn e Sigourney Weaver no papel de madrasta, é uma versão muito boa do Conto de Fada, principalmente porque traça uma imagem muito humana da madrasta. No filme, o conflito/inveja entre a mulher que envelhece e a mulher que desabrocha é muito bem tratado. Além disso, as imagens são lindas e a produção é impecável. Vale à pena!

Anúncios

Uma resposta to “O Caminho da Floresta nos Contos de Fada: Amadurecimento e Autonomia”


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: