Obesidade: Fatores Psicológicos

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Por Simone Peixoto Conejo

A obesidade é uma doença crônica, que não escolhe sexo, idade ou classe social. Ela tem etiologias múltiplas: genética, sedentarismo, fenômenos psíquicos, comportamentais, culturais, sociais, econômicos e fatores demográficos, que influem também em sua manutenção. Aqui estaremos nos aprofundando nos fatores psicológicos, pois no desenvolvimento humano podemos perceber o quanto o alimento pode tomar importância na vida do indivíduo. Ele permeia a constituição das primeiras relações de cada um de nós e inegavelmente está ligado à condição de sobrevivência humana.

Quando o bebê é alimentado, além do leite, com os nutrientes ideais, em temperatura agradável, que acaba com uma sensação desconfortável, posteriormente reconhecida como fome, ele deve receber o aconchego materno, o toque, o som conhecido do batimento do coração e principalmente o olhar materno, que são prazerosos, emocionantes e necessários para o início da constituição psíquica, segundo Freud (1914 – 1923).

Em um momento muito primitivo do desenvolvimento o ser humano conhece de forma associada o alimento e a emoção. Neste início ainda tem poucos recursos, tanto físicos, como psíquicos, mas durante o desenvolvimento são feitas inúmeras aquisições e quanto mais amadurecido, maior deveria ser a condição de distinção e separação dos elementos: alimento e sentimentos.

No entanto, de muitas formas, os alimentos acabam sendo associados às emoções. A comida é utilizada em rituais festivos: Natais, casamentos etc. São desenvolvidas receitas e “poções” capazes de “curar” do medo de pesadelos até doenças, ligando mais ainda a comida a momentos de prazer, de desprazer e de sobrevivência, fazendo com que ela participe do cotidiano, mesmo fora dos períodos de refeição.

E parece ser justamente por meio da comida que o obeso procura, em um infrutífero esforço, saciar a fome de suas necessidades internas. Segundo Loli (2000) a compreensão da obesidade como um sintoma de distúrbio emocional começou a ser discutida pela medicina, na França, no século XIX, ligando a obesidade a eventos e períodos de grande estresse emocional. Depois com as grandes Guerras Mundiais se observou que mulheres que passaram um período longo de incerteza ou vivenciaram a perda de seus entes queridos, tinham uma tendência a aumentar de peso, não explicada somente pelas questões calóricas. Nesta época, era comum o uso da palavra Kummerspeck, que quer dizer “gordo de tristeza”.

Na prática clínica que vivenciei foi possível compreender que os homens também estão expostos a esta relação com o alimento, pois a perda de entes queridos, muitas vezes, significou um marco disparador do descontrole de peso. Foi possível compreender que os obesos têm a impressão de estarem se gratificando de alguma forma quando comem, mas, em geral, quando nos aprofundamos percebemos que está muito mais ligada a uma forma de auto-agressão. A destruição do alimento se mostra mais importante do que a possibilidade de nutrição, então por mais que comam a sensação de vazio permanece. Agravada pela sensação de culpa e outras emoções sentidas como hostis.

A manifestação da agressividade pode ser sentida como uma ameaça de destruir, na realidade, o objeto amado, que também é odiado, pois amor e ódio caminham na mesma estrada, mesmo que seja uma experiência intolerável para muitos. Para Dallera e Sorrentino (1997) o alimento é um objeto do mundo exterior, que é introduzido na tentativa de modificar o mundo interno. Eles fazem uma articulação com diferentes elementos, como: solidão, vulnerabilidade, dificuldades sexuais, necessidade de espaço e estresse. Para eles o comportamento alimentar é influenciado por diferentes aspectos da história pessoal. A atitude de comer pode remeter a um apelo para expressar uma fragilidade e a sensação de estarem desprovidas de recursos internos que lhes permita lidar com determinados fatos. A obesidade aparece, então, como uma pretensão de trazer para o concreto a tentativa psíquica de ser alguém “forte”.

A obesidade atua tanto como disparadora, quanto como sintoma secundário, em diversos transtornos, como: depressão e comportamentos de esquiva social. Mas é importante destacar a ligação com as relações interpessoais, principalmente as familiares. Para Mello e Burd (2004) a obesidade pode assumir funções importantes na dinâmica familiar. Pode atuar como mecanismo de defesa, de identificação e outros. E abranger a sensação de necessidade de um amadurecimento precoce; a tentativa de manutenção de relacionamentos empobrecidos; a lealdade e a tentativa de impedir um membro de se diferenciar. De qualquer forma aspectos emocionais podem ser passados pela cultura familiar. Mas também podem ser transformados.

Devemos buscar quais são as condições emocionais, como ocorre a relação do indivíduo com a comida, seus recursos para lidar com limites internos e externos, ou expor sua agressividade e a capacidade de tolerar frustrações, entre outros. Temos que voltar nosso olhar para o humano e tentarmos encontrar suas verdadeiras demandas.

A questão da obesidade pode se tornar uma fonte de conhecimentos importantes sobre a história de vida das pessoas. O que deveria ser um conflito psíquico pode ter apenas um equivalente concreto. Estes processos impulsionam as pessoas para longe do processo psicoterápico, pois os conflitos são freqüentemente dissipados e não atingem uma expressão mental. Contudo, os fatores psicológicos devem provocar algum tipo de incômodo ao próprio indivíduo, mesmo que seja expresso apenas pela concretude da insatisfação com o corpo obeso, pois é o ponto inicial para que ele deseje e busque algum tipo de mudança. Este movimento contribui para ampliar sua percepção e a possibilidade de envolvimento com sua condição emocional, pois o mobilizará para o trabalho que leva a uma ampliação da consciência de si, em relação ao mundo interno e externo.

Fonte: Psicologia no Cotidiano

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2 Respostas to “Obesidade: Fatores Psicológicos”

  1. nicollefontanela Says:

    Muito legal este texto! Serve para refletirmos a relação da obesidade e as emoções.
    Também convido você a visitar meu blog sobre
    PSICOLOGIA E SAÚDE!!!
    http://www.tornarser.wordpress.com
    Está imperdível!
    Beijos Nicolle Fontanela

  2. Grupo Papeando Says:

    Olá Nicolle,

    que bom que você gostou do texto, essa é a nossa intenção, a de oferecer textos que possam, de alguma forma, contribuir para as buscas de nossos leitores. Visitaremos seu blog e declaramos nossa satisfação em recebê-la por aqui. Seja sempre muito bem-vinda!


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