Espaço Doméstico: Contributos para uma leitura integrada de Habitat

espao-domstico

Por Ana Serra e Moura Salvado**


Introdução: A diversidade do espaço residencial


A evolução demográfica ocorrida nas últimas décadas(…)tem vindo a operar transformações na configuração das estruturas familiares e conseqüentemente no domínio das formas de habitar. As mudanças ocorridas ao nível das estruturas familiares traduzem-se, sucintamente, num aumento generalizado do número de pessoas que vivem sozinhas (jovens ou viúvos), no acentuar do número de famílias monoparentais, no aumento de casais que vivem em união de facto e num número crescente de casais sem crianças.


Estas “mudanças” ou transformações no seio da estrutura social,(…)têm vindo ao longo dos anos a assumir uma importância substancial, por um lado, na consciencialização de que o modelo tradicional de família já não se apresenta como uma realidade assim tão generalizada e por outro, de que qualquer estudo que assente na procura de novas respostas para soluções habitacionais, não se pode reduzir a um único modelo residencial.


Assim, as transformações demográficas e sociais(…)podem ser lidas numa perspectiva dita compreensiva, na medida em que não existe um modelo único de família e de habitação, mas sobretudo vários, podendo-se, assim, falar numa diversidade de composições familiares e de normas residenciais bem como numa diversidade de modos ou estilos de vida associados à vivência num habitat.


A forma de como se analisa o espaço residencial, à luz destas alterações, deverá ser feito por uma análise que contemple as relações sociais e as práticas que nele ocorrem em termos de uso e apropriação do espaço, para que se possa perceber as afinidades e os significados inerentes ao modo como o indivíduo constrói condições de existência, identidades individuais e posicionamentos sociais, partindo do pressuposto de que no centro desta análise, figura o sujeito ou o habitante nas suas dimensões mais subjectivas ou idiossincráticas.(…)


O espaço habitacional é também um meio comunicacional, uma linguagem falada através do uso e da apropriação do habitat. Essa linguagem é expressa através das práticas ou usos, do mobiliário e da sua disposição visual, como códigos que os “protagonistas” emitem acerca do “território” que dominam, podendo representar formas de exercício desse poder, mas também podendo ser vistos como estratégias de inserção e de pertença social.


2. O que poderá significar uma casa?


Abordar a questão do espaço habitacional na vertente dos usos e das práticas, é também inserir o tema da qualidade habitacional, uma vez que esta última assume um papel importante no quadro de relações significantes e simbólicas. Estas relações integram os cenários domésticos, nos quais estão representados os espaços e os indivíduos que neles agem de forma processual na definição do seu habitat. (…)


Habitar não é uma mera função residencial e como tal, todos os sentidos que pudermos inscrever nas suas várias funções dependem da compreensão que se tem desses sentidos, objectificados em contextos diversos na acção social (onde o indivíduo pode partilhar ou não registos colectivos em jogo no campo social). Diversos autores, como Jacqueline Palmade, Korosec-Serfaty, Dovey Kimberley começaram por estudar o tema da habitação segundo uma perspectiva fenomenológica. (…)


No âmbito da fenomenologia, o espaço era perspectivado segundo duas leituras, o que desde logo veio contribuir para o surgimento de duas concepções de espaço habitacional: house e home. A primeira contribuiu para chamar à atenção do papel fundamental que a casa tem enquanto lugar de “ordem” e de reconhecimento na medida em que passa a ser um elemento mediador de cognição (Home), a segunda, acrescentando, que existem funções objectivas, onde se garantem necessidades comuns a todos os indivíduos (House).


Este foi talvez o momento que marcou o início da discussão, em torno deste objecto,(…)e uma sociologia mais compreensiva e fenomenológica que apreende um objecto desta natureza através das suas declinações subjectivas, partindo do princípio de que o sujeito tem autonomia e pode ser uma fonte de conhecimento importante para a análise dos comportamentos e das práticas quotidianas em contextos domésticos e residenciais.


Para Palmade coloca-se a seguinte hipótese: habitar nos tempos de infância orienta os tempos das relações sociais, que por sua vez estruturam o sentido do espaço doméstico ao conferirem-lhe valor de habitação protectora (cosmogonia) – tendo ao longo do ciclo de vida uma importância vital para a formação de identidades espacializadas, onde cada um se reconhece. O imaginário investido na habitação é mediado através do simbólico e das determinações sociais e pessoais, aquelas que fazem parte da história dos contactos sociais, nomeadamente os de infância.


Por sua vez, Korosec-Serfaty visionou no conceito de residir duas ideias fundamentais, que assentavam numa posição dialéctica de Interioridade vs Visibilidade, sendo que a primeira remetia para uma noção de segredo e individualidade e a segunda para o palco das relações com os outros.


O que se revela interessante nesta bipolarização do conceito é a semelhança que tem com a distinção feita por Goffman (1959) entre stage e backstage, em que a casa também pode assumir, na forma como é vivida, espaços visíveis e espaços máscara, isto é, a casa pode ser .uma apresentação ou representação, em termos de performance por parte daqueles que a habitam.


K. Dovey, traça novos contornos acerca deste objecto, uma vez que a casa surge como jogo dialéctico no qual o indivíduo se posiciona face às representações em torno do que significa a casa e, por sua vez, do que lhe é exterior. Neste sentido podemos falar de oposições sociais, tais como: outro/ego; público/privado; comunidade/identidade e de oposições espaciais: dentro/fora; ordem/caos; casa/exterior e dentro destes eixos principais: casa/cidade; familiar/estranho; seguro/perigoso. Assim, o significado da casa emerge da dialéctica ou da interacção entre estas oposições binárias enraizadas numa concepção de casa como território.


A casa passaria a ser um objecto processual, uma unidade totalizante de regras sociais, de funções utilitárias, lugar de apropriações e práticas, onde se podem inscrever dinâmicas de confluência entre pessoas, lugares e processos psicológicos. Para além disso, reflecte igualmente valores sociais e culturais tendo em conta as identidades individuais e familiares.


As mais recentes análises sobre o tema da habitação e do habitat consistem numa tentativa de olhar este objecto para além da sua dimensão filosófica de territorialidade percepcionada, mas sobretudo como sendo um dos grandes temas de inclusão social, na medida em que a habitação é um dos garantes da qualidade de vida e do bem-estar em geral.


Enquanto domínio privado privilegiado do actor social, o espaço doméstico assume um papel de expressão individual perante as esferas públicas, representando uma afirmação e legitimação das suas estratégias individuais.


A casa enquanto edifício fronteiriço entre domínios públicos e privados, pode desvendar diferentes estratégias perante esta realidade, na qual o indivíduo exerce e gere diferentes graus de abertura e de permeabilidade entre ambos os lados da sua vivência. (Freitas, 2002:276). (…)


A noção de “vivido”, enquanto conjunto incorporado de experiências e práticas residenciais passadas, revela-se de extrema relevância para a análise de situações vividas no presente. (…)


O que está em causa, é a própria representação que o indivíduo faz do espaço doméstico, segundo uma perspectiva temporal. Durante um longo período da vida dos indivíduos, a casa não é mais senão um acompanhamento da sua própria evolução estrutural. A partir de certa altura, a casa passa a ser um elemento menos abstracto e é preponderante para a concretização de outro tipo de aspirações, nomeadamente, com o bem-estar e com a qualidade de vida. (…)


Para a maioria dos indivíduos, sobretudo no caso daqueles que desempenham uma actividade profissional, a casa é um lugar quotidiano de “retorno”, isto é, os indivíduos passam a maior parte do tempo diário fora dos limites residenciais, estando quase sempre confinados aos tempos de trabalho e outras formas de vida social. A gestão de tempos pessoais diários condiciona, de forma rigorosa, a vivência e os tempos dedicados às possíveis actividades domésticas. (…)


Uma outra conclusão a retirar prende-se com as dicotomias associadas ao espaço doméstico, tais como a noção de público e privado. A casa assume um novo papel no jogo das relações dos sujeitos com os outros espaços. Tem um novo posicionamento face a determinadas dicotomias tradicionais(…).


As necessidades ao nível dos espaços domésticos são cada vez mais alargadas, sendo que não é apenas a casa que importa para a obtenção de níveis de satisfação positivos. Por vezes, existe mesmo a preferência por determinados ambientes residenciais, colocando num lugar mais secundário as preferências sobre determinado alojamento.


Os modos de habitar o futuro reenviam-nos por um lado para a afirmação e autonomia do sujeito no que concerne às práticas e escolhas residências, por outro lado uma compreensão do meio residencial como um espaço articulado e não como um somatório de partes.


É necessário perceber também que não são somente as questões do uso e das necessidades, que devem ser asseguradas para potenciar os níveis de qualidade habitacional. O reconhecimento de determinado espaço residencial passa primeiramente pela representação que o indivíduo tem desse espaço, mediado pelas experiências passadas e pelas projecções futuras.


*Resumo de Artigo feito a partir da tese de licenciatura sob o título: Modos de Habitar o futuro: uma prospectiva para a análise dos cenários domésticos e residenciais, ISCTE, 2004


** Investigadora do Instituto de Estudos Sociais e Económicos de Lisboa


Actas dos ateliers do Vº Congresso Português de Sociologia “Sociedades Contemporâneas: Reflexividade e Acção Atelier: Cidades, Campos e Territórios”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: