Modo de morar e modo de cuidar: uma proposta de tipologia

morar_cuidar

*Elaine Pedreira Rabinovich; Ana Maria Almeida Carvalho

Universidade de São Paulo

Para Winnicott (1982), o espaço potencial seria o espaço cultural e os objetos transicionais seriam os intermediários entre os objetos da fantasia e os da realidade. Tais objetos tanto ajudam a fazer a ponte entre a realidade subjetiva e a realidade objetiva quanto ao fazê-lo, permitem a criação da própria cultura através da criatividade que decorre do aspecto potencial. O espaço potencial é o espaço possível, não do evento certo, mas o que decorre e onde ocorre o encontro, o início e o prosseguimento da vida subjetiva.

Duas vertentes, “lugar” e “espaço” (Tuan, 1983) podem ser vistas como representadas no espaço potencial: “lugar” como um centro de afeto, de pertencimento, de apego, de encontro consigo no outro, do lugar de “si”; e “espaciosidade”, como possibilidade de sair, de viajar, de encontrar o mundo, de ter a capacidade real e mental de locomoção. Corresponderiam a conceitos básicos em psicologia: apego e exploração; dependência e independência; pertencimento e autonomia; ou aos “dois sistemas motivacionais que a evolução moldou em primatas incluindo os seres humanos: a necessidade de se relacionar com os outros e o impulso para a exploração” (Zach & Keller, 1999).

Para Winnicott (1982), a “mãe suficientemente boa” tanto oferece continência ao bebê quanto o frusta na medida das capacidades da criança de suportar o sofrimento, ou seja, tanto se dá como “lugar”, quanto se retira e oferece o mundo, como “espaciosidade”. (…)

Propomos que espaços potenciais resultantes e formadores de culturas podem ser identificados no modo de cuidar pelos indicadores sistema de aleitamento, sistema de locomoção e sistemas de organização temporal conforme vistos na rotina e no esquema de aleitamento; e, concomitantemente, são visíveis no modo de morar pelos indicadores: tipo de ornamentação; tipo de ordenação (organização poli ou mono-funcional) e tipo de arrumação.

O Estudo

60 crianças de 0-1 ano e de suas famílias moradoras no subdistrito paulistano de Vila Madalena foram acompanhadas durante um ano através de visitas domiciliares. Este acompanhamento se deu através de vários recursos metodológicos(…).

Os dados foram analisados quanto às seguintes variáveis do modo de cuidar:

• esquema de aleitamento (a pedido ou com horário);

• presença ou ausência de rotinas;

• início do sentar sem apoio e da marcha independente, correlacionados com o conceito de autonomia;

• relações entre o sistema de amamentação e o início da marcha.

O modo de morar foi visto segundo os seguintes descritores:

• o quarto de dormir, o berço e suas circunstâncias;

• a arrumação da casa;

• a organização espaço-temporal (polifuncionalidade e monofuncionalidade);

• a organização sócio-familiar (coletivização e privatização).

Foram investigados paralelos entre o modo de morar, o sistema de cuidados e o desenvolvimento infantil. (…)

Tipologia: Modo de Morar e Modo de Cuidar

Comparando-se os vários indicadores utilizados, pode-se propor uma tipologia de relação mãe-bebê que consiste em um conjunto de aspectos representados, de um lado, por indicadores do modo de morar – ordenação, berço, enfeites – , e de outro por indicadores do modo de cuidar – aleitamento (esquema e rotina) e autonomia. (…)

O tipo rígido é sem autonomia, desmame precoce, com enfeites, arrumação boa, com tendência à ordenação, tem horário de mamada e rotina. O tipo simbiótico é não ordenado, não arrumado e não tem rotina, nem horário de mamada. A criança não tem autonomia, o desmame é tardio e a casa não tem enfeites. O tipo flexível apresenta tendência à ordenação, tem enfeites e a casa é arrumada. A criança tem autonomia, há rotina, mas o aleitamento é a pedido e o desmame médio.

O tipo instável é flexível porém não há arrumação nem enfeites. Há horário de mamada. Ele é chamado de “instável” porque tende a se transformar em outro tipo, pois há elementos incongruentes interiormente à sua constituição. Por exemplo: ser semi-organizado e não ter enfeites ou ter rotina e não ter arrumação; com horário para mamada e desmame médio etc. Desse modo ele deve evoluir para um outro tipo, o flexível ou rígido. Por outro lado, ele pode indicar uma instabilidade na organização da casa no sentido de alternância de padrões.

Cultura, Modo de Vida e Desenvolvimento

(…)

Em sociedades coletivizadas as crianças crescem em íntimo contato corporal com os adultos participando de suas atividades. A própria organização grupal, mais a ausência de posses, favorece o altruísmo primário: as crianças “aprendem” a dividir e a se importar com o outro desde os primeiros momentos de vida. Esse modo de proceder resulta das próprias contingências da vida comunitária, onde da ação afiliativa depende a sobrevivência do grupo. O modo de morar é coerente com esse modo de vida: sem portas, sem paredes, sem divisões de espaços, sem hierarquias (a não ser, cremos, o espaço profano e o sagrado).

No polo oposto, as sociedades privatizadas dependem de portas, paredes, trancas, grades, guardas para proteger as propriedades e as vidas. Em caso de escassez, há um reforço de agressão individual através da competição entre indivíduos. É a livre iniciativa, a ênfase na autonomia no poder auferido pelas posses. Esse sistema de valores privilegia o egoísmo como melhor modo de sobreviver. A educação é feita por estimulação distal e as pessoas são substituídas por objetos e esses passam a receber forte carga afetiva. A escassez é sentida como frustração individual, com perda de identidade, sentimentos de desvalia e perda de autonomia. Consequentemente, há uma sensação de perda do espaço.

Lugar e Espaço, como observado no sistema de aleitamento e autonomia, compõem o “Espaço Potencial”. Neste espaço, estariam representados os valores sócio-culturais responsáveis pelo contexto onde ocorre o desenvolvimento da criança, tanto em função dos tipos de interações que dele decorrem quanto da internalização dos padrões que a ele presidem.(…)

Conclusões

Modo de morar e modo de cuidar puderam ser correlacionados porque o modo como a mãe está disponível para a criança e como coloca o mundo à disposição dela estão relacionados a modos mais ou menos coletivizados de vida e de morar.

O espaço potencial é um espaço dentro/fora, de transição. Os cuidados estão neste espaço potencial sendo gestados e gestando transicional e transacionalmente. Através disto, podemos entender como o ambiente faz parte do aparelho psíquico materno e do bebê, mesmo antes do nascimento. (…)

Leia o artigo na íntegra AQUI

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