SOMBRA

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Imagem: Aster-oid


1. INTRODUÇÃO

Muitas coisas que nós considerávamos bênçãos tornam-se maldições; a larga estrada estreitou-se, a luz escureceu e, nas trevas a santa em nós, tão bem cuidada e tratada, encontrou a pecadora. Nosso fascínio pela luz, nosso vivo otimismo em relação aos resultados, minha fé implícita em relação aos outros, nosso compromisso com a meditação e com um caminho de iluminação, tudo isso deixou de ser uma graça salvadora e tornou-se uma sutil maldição, um estranhado hábito de pensar e sentir que parecia trazer-nos face a face com o seu oposto, com o sofrimento de ideais fracassados, com o tormento da ingenuidade, o lado escuro, com o do Diabo. Mas o lado escuro aparece sob muitos disfarces. Nosso confronto com ele, na meia-idade, foi chocante e devastador, uma terrível desilusão. Antigas e íntimas amizades pareciam se debilitar e romper, privadas da vitalidade e da elasticidade. Nossos pontos fortes começaram a se fazer sentir como fraquezas, obstruindo o crescimento em vez de promovê-lo. Ao mesmo tempo, insuspeitadas aptidões adormecidas despertaram e vieram à superfície, destruindo a auto-imagem com a qual nós havíamos nos acostumado.


1.1 A apresentação da sombra

A sombra pessoal desenvolve-se naturalmente em todas as crianças. À medida que nos identificamos com as características idéias de personalidade, tais como polidez e generosidade, que são encorajadas pelo nosso ambiente. Ao mesmo tempo, vamos enterrando na sombra aquelas qualidades que não são adequadas à nossa auto-imagem, como a rudeza e o egoísmo. O ego e a sombra, portanto, desenvolvem-se aos pares, criando-se mutuamente a partir da mesma experiência de vida. Muitas forças estão em jogo na formação da nossa sombra e, em última análise, determinam o que pode e o que não pode ser expresso. Pais, irmãos, professores, clérigos e amigos criam um ambiente complexo no qual aprendemos aquilo que representa comportamento gentil, conveniente e moral e, aquilo que é mesquinho, vergonhoso e pecaminoso. A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definido o que é eu e o que é não-eu. Pessoas diferentes, em diferentes famílias e culturas, consideram de modos diversos aquilo que pertence ao ego e aquilo que pertence à sombra. Todos os sentimentos e capacidades que são rejeitados pelo ego e exilados na sombra contribuem para o poder oculto do lado escuro da natureza humana, no entanto, nem todos eles são aquilo que se considera traços negativos.


1.2 A rejeição da sombra

Não podemos olhar diretamente para esse domínio oculto. A sombra é, por natureza, difícil de ser aprendida. Ela é perigosa, desordenada e eternamente oculta, como se a luz da consciência pudesse roubar-lhe a vida. Por essa razão, em geral vemos a sombra indiretamente, nos traços e ações desagradáveis das outras pessoas, lá fora, onde é mais seguro observa-la. Quando reagimos de modo intenso a uma qualidade qualquer, quer seja: preguiça, estupidez, sensualidade, espiritualidade, etc., de uma pessoa ou grupo, e nos enchemos de grande aversão ou admiração, essa reação talvez seja a nossa sombra se revelando. Nós nos projetamos ao atribuir essa qualidade à outra pessoa, num esforço inconsciente de bani-la de nós mesmos, de evitar vê-la dentro de nós. A sombra pessoal contém, portanto, todos os tipos de potencialidades não desenvolvidas e não-expressas. Ela é aquela parte do inconsciente que complementa o ego e representa as características que a personalidade consciente recusa-se a admitir e, portanto, negligencia, esquece e enterra… até redescobri-las em confrontos desagradáveis com os outros.


1.4 A sombra coletiva

Hoje em dia, defrontamo-nos com o lado escuro da natureza humana toda vez que abrimos um jornal ou ouvimos o noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na esmagadora diária dos meios de comunicação, transmitida em massa para toda a nossa moderna aldeia global eletrônica. O mundo tornou-se um palco para a sombra coletiva. A sombra coletiva, a maldade humana, nos encara de praticamente todas as partes: ela salta das manchetes dos jornais, vagueia pelas ruas sem lar, dorme no vão das portas, entoca-se nas chamativas sex-shops das nossas cidades, desvia o dinheiro do sistema financeiro, corrompe os políticos famintos de poder e perverte os sistema judiciário, conduz exércitos invasores através de densas florestas e áridos desertos, vende armamentos a líderes ensandecidos e repassa os lucros a insurgentes reacionários, por canos ocultos, despeja a poluição em nossos rios e oceanos, com invisíveis pesticidas, envenena o nosso alimento.


Enquanto a maioria das pessoas e grupos vive o lado socialmente aceitável da vida, outras parecem viver as porções socialmente rejeitadas pela vida. Quando essas últimas tornam-se objeto de projeções grupais negativas, a sombra coletiva toma a forma de racismo, de busca de “bode expiatório” ou de criação do “inimigo”. Ao longo da história, a sombra tem surgido, através da imaginação humana, como um monstro, um dragão, um Frankenstein, uma baleia branca, um extraterrestre ou um homem tão vil que não podemos nos espelhar nele, ele está tão distante de nós quanto uma górgona. Revelar o lado escuro da natureza humana tem sido, então, um dos propósitos básicos da arte e da literatura. Como disse Nietzshe: “Temos arte para que a realidade não nos mate.” A projeção também pode ajudar a explicar a imensa popularidade dos filmes e romances de terror. Através de uma representação simbólica do lado da sombra, nossos impulsos para o mal podem ser encorajadas, ou talvez aliviados, na segurança do livro ou da tela.


1.5 Conhece-te a ti mesmo

Em tempos remotos, o ser humano reconhecia as diversas dimensões da sombra: a pessoal, a coletiva, a familiar e a biológica. “Conheça-te a ti mesmo”, tem ampla aplicação neste livro. Conheça tudo sobre você mesmo, aconselhavam os sacerdotes do deus da luz, Apolo, poderíamos dizer: Conheça especialmente o lado escuro de você mesmo.


Se não agora, quando?

Para proteger-nos da maldade humana que essas forças inconscientes de massa podem representar, dispomos de uma única arma: maior conscientização individual. Se deixarmos de aprender ou se deixamos de agir com base naquilo que aprendemos com o drama do comportamento humano, perdemos nosso poder, enquanto indivíduos, de alterar a nós mesmos e, assim, salvar o nosso mundo; sim o mal estará sempre conosco, contudo as conseqüências do mal não refreado não precisam ser toleradas.


1.7 A aceitação da sombra

O objetivo de encontrar a sombra é desenvolver um relacionamento progressivo com ela e expandir o nosso senso do eu alcançando o equilíbrio entre a unilateralidade das nossas atitudes conscientes e as nossas profundezas inconscientes. Um relacionamento correto com a sombra nos oferece um presente valioso: leva-nos ao reencontro de nossas potencialidades e talentos enterrados.(…)


2. CONCEITO

O conceito de sombra deriva das descobertas feitas por Sigmund Freud e Carl Gustav Jung, guardando o devido respeito ao seu antigo mestre, Jung reconheceu que o trabalho revolucionário de Freud foi à análise mais detalhada e profunda da cisão que existe entre o lado da luz e o lado da sombra na psique humana. A sombra é o outro em nós, a personalidade inconsciente do nosso mesmo sexo, o inferior repreensível, o outro que nos embaraça ou envergonha: “por sombra”, quero dizer o lado ‘negativo’ da personalidade, a soma de todas aquelas qualidades desagradáveis que preferimos ocultar, junto com as funções insuficientemente desenvolvidas e o conteúdo do inconsciente pessoal, a função inferior. A sombra aproxima-se mais daquilo que Freud entendia como “o conteúdo reprimido”, porém em contraste com a visão de Freud, a sombra de Jung é uma personalidade inferior que tem seus próprios conteúdos, tais como pensamento autônomo, idéias, imagens e julgamentos de valor, que são semelhantes aos da personalidade consciente superior. Jung disse: “ A sombra é simplesmente todo o inconsciente! ”.


1. O QUE É A SOMBRA?

Tudo o que tem substância lança uma sombra; o ego está para a sombra como a luz está para as trevas. Essa é a qualidade que nos torna humanos. Por mais que o queiramos negar, somos imperfeitos. E talvez seja naquilo que não aceitamos em nós mesmos, a nossa agressividade e vergonha, a nossa culpa e a nossa dor, que descobrimos a nossa humanidade. A sombra é conhecida por muitos nomes: o eu reprimido, o self inferior, o gêmeo ( ou irmão ) escuro das escrituras e mitos, o duplo, o eu rejeitado, o alter ego, o id, a função inferior. Quando nos vemos face a face com o nosso lado mais escuro, usamos metáforas para descrever esse encontro com a sombra: confronto com os nossos demônios, luta contra o diabo, descida aos infernos, noite escura da alma, crise de meia-idade, etc.


A sombra negativa apenas a partir do ponto de vista da consciência: ela não é como insistia Freud, totalmente imoral e incompatível com a nossa personalidade consciente, pelo contrário, ela contém em potencial valores da mais elevada moralidade, ou seja, é o ouro puro da nossa alma. Isso é particularmente verdadeiro, quando existe um lado oculto da sombra que a sociedade considera como positivo, ainda que a própria pessoa o veja como inferior. Hoje em dia, entendemos por sombra aquela parte da psique inconsciente que está mais próxima da consciência, mesmo que não seja completamente aceita pr ela. Por ser contrária à atitude consciente que escolhemos, não permitimos que a sombra encontre expressão na nossa vida; assim ela se organiza em uma personalidade relativamente autônoma no inconsciente, onde fica protegida e oculta. Esse processo compensa a identificação unilateral que fazemos com aquilo que é aceitável à nossa mente consciente.


Para Jung e seus seguidores, a psicoterapia oferece um ritual de renovação pelo qual a personalidade da sombra pode ser percebida e assimilada, reduzindo assim seus potenciais inibidores ou destrutivos e liberando a energia vital positiva que estava aprisionada. Jung continuou a ocupar-se com os problemas correlatos de destrutividade pessoal e mal coletivo durante toda a sua longa e ilustre carreira. Suas investigações mostraram que lidar com a sombra e o mal é, em última analisem um segredo individual, igual àquele de experimentar Deus, e uma experiência tão poderosa que pode transformar a pessoa como um todo.


(…)Jung classificou a sombra como um dos principais ARQUÉTIPOS do inconsciente pessoal e coletivo. Os arquétipos são estruturas inatas e herdadas no inconsciente, impressões digitais psicológicas, que contém características formadas de antemão, qualidades pessoais e traços compartilhados com todos os outros seres humanos. Eles são forças psíquicas vivas dentro da psique humana. Os deuses, os mitos, do inconsciente coletivo; os ancestrais, bisavós, avós e, pais, tios e irmãos do inconsciente pessoal são metáforas de comportamentos arquétipicos e os mitos são representações arquetípicas. O decurso da análise junguiana envolve uma percepção crescente dessa dimensão arquetípica da vida de uma pessoa.


Um pequeno livro sobre a sombra humana, à medida que vamos crescendo, o eu reprimido transforma-se num saco amortecedor, a comprida sacola que arrastamos atrás de nós, que contém as nossas porções e outros tipos de sacolas: as sombras familiares e coletivas. (…)Tão logo começamos a desenvolver a percepção de porções da personalidade inconsciente, a sombra assume uma forma pessoal identificável, e isso inicia o processo de trabalho com a sombra. Esse procedimento acabará por levar-nos a uma profunda percepção de quem realmente somos.


Excertos de Tese organizados por Roque Perrone, leia na íntegra AQUI.

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6 Respostas to “SOMBRA”

  1. volney henrique passos brandão Says:

    O CANCER NA BOCA DE FREUD PRODUZIDO POR UMA SOMBRA INCONSCIENTE REBELADA DE UM HOMEM QUE QUERIA ESTUDAR MAIS PARPSICOLOGIA,QUE QUERIA FALAR CONTRA A GUERRA EXTERNA E INTERNA DE CADA UM DE NÓS,SE FALA-SE SERIA DESTRUIDO COM TUDO QUE LUTARA,COMO JESUS BEN DAVID NÃO PODERIA FALAR A VERDADE PERGUNTADA POR PILATOS,SUA SOMBRA QUERIA URGENTEMENTE FALAR,DESTRUIR BARREIRAS,MAS SUBJUGADA A BEM DE UMA PSICANALISE ACEITAVEL O DEVORU COMO CANCER,DECIFRA-ME OU TE DEVORO..VOLNEY HENRIQUE PSICANALISTA DE 60 ANOS DE TRABALHO

  2. Grupo Papeando Says:

    Olá Volney,
    seja bem-vindo, sempre!

    Interessante a analogia que você estabeleceu entre o câncer de Freud e a impossibilidade de expressão do desejo pela fala. Pensando junguianamente, é, a Sombra, tem inúmeras maneiras de se fazer ver!

  3. antonio pinto de andrade neto Says:

    sobre o uzo conciente da sombra no dia a dia existe pessoas que fazem? obrigado

  4. antonio pinto de andrade neto Says:

    sobre freud o uzo de cocaina por longo periodo não o fez dependente?

  5. antonio pinto de andrade neto Says:

    devemos nos dedicar em entender o funcionamento da sombra com calma e aos poucos pois é de uma importância ilimitada para os seres humanos tenho feito leituras sobre a sombra e por um tempo paro para refletir e voltar e cada vez fica mais tranquilo lidar com este assunto fascinante de uma utilidade sem fim.

  6. antonio pinto de andrade neto Says:

    temos material bastante para estudo sobre psicologia mas mesmo assim tudo que já foi estudado falado não é definitivo tudo muda os grandes pensadores sabiam e deram o pontapé inicial agora é com os senhores boa sorte


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