O Mal No Pensamento Moderno

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*Humberto Pereira da Silva


É inegável que eventos que provocam sofrimento inquietam as pessoas educadas de nosso tempo (no passado, o sofrimento de nossos semelhantes talvez exigisse uma outra prática discursiva: o modo como as pessoas se deleitavam quando alguém era crucificado ou servido em banquete para leões no Coliseum entre os romanos não encontra similar como fenômeno público em nossos dias, mesmo nas culturas mais distantes). Parece ser um padrão de nossa época o incômodo diante de situações que causam dor, sofrimento a nossos semelhantes. Daí o sentimento de que devemos buscar explicações acerca do porquê de sermos assaltados por situações que nos causam dor.


Não é surpresa, portanto, que o sofrimento seja um tema tratado por religiosos, por filósofos e por poetas em nosso tempo. Não é descabido, pois, que se tente traçar as linhas gerais do modo como ele tem sido concebido desde que entrou em cena o chamado modo moderno de vida, desde que a racionalidade iluminista reivindicou um espaço para explicar qual é a fonte das dores humanas e, por conseguinte, de seu nexo com o mal. Ou seja, está no escopo de nosso tempo refletir acerca do entrelaçamento entre o sofrimento humano e o papel do mal nesses três últimos séculos; de refletir como esse entrelaçamento foi feito por filósofos, a partir de acontecimentos históricos que lhes exigiram um posicionamento, à luz dos problemas filosóficos com os quais se depararam. Essa é a tarefa a que se propõe Susan Neiman em O mal no pensamento moderno (Difel, 338 págs).


(…)


Neiman e os filósofos

Neiman começa seu estudo sobre o mal dando destaque ao poeta Alexander Pope, que, com o poema “Ensaio sobre o homem”, de 1734, recoloca o problema filosófico (…) tratado por Leibniz nos Ensaios de Teodicéia, obra de 1710. Em defesa do Criador, quando posto diante da questão da origem do mal, Leibniz sustenta que o mundo criado por Deus não poderia ser melhor do que este em que vivemos(…).


(…)

Neiman defende que o que é moderno na explicação de Leibniz é a convicção de que os vínculos causais entre pecado e sofrimento só se tornam claros com o tempo, visto que todos os vínculos foram ordenados por Deus tendo por fim o bem. (…) Assim, para Leibniz, se não há mal genuíno, tampouco há o problema do mal.


(…)Neiman tece considerações deveras perspicazes sobre como o problema do mal atormentou filósofos como Hume, Voltaire, Kant, Hegel, Marx, Schopenhauer, Nietzsche e mesmo quem escapa ao catálogo dos que legaram obras reconhecidamente filosóficas, como o Marquês de Sade e Freud. Toda a sua preocupação foi a de estabelecer as balizas com as quais esses pensadores trataram o problema do sofrimento humano em suas vinculações com o mal.


Agora, se Leibniz defende Deus do problema do mal para assegurar que Ele é responsável pela ordem no mundo, Neiman destaca que o primeiro filósofo a defender o Criador, mas eximi-lo do mal que inequivocamente existe no mundo é Rousseau. (…)com Rousseau o problema ganha outro tratamento: o mal existe e a humanidade é responsável por sua existência (completamente fora, pois, tanto dos parâmetros de Leibniz quanto de seus antecessores).



Entretanto, a saída proposta por Rousseau absolve Deus na mesma medida em que condena os homens, os quais são tão naturalmente bons quanto responsáveis pelo mal que existe no mundo. Mas, se os homens são naturalmente bons, por que existe o mal? A resposta dada por Rousseau é: todo o catálogo de crimes e infortúnios que existe resulta de equívocos cometidos pelos homens. A idéia é que os homens fugiram de sua natureza original ao estabelecerem desigualdades entre si, por conta da maneira como passaram a viver com o que estava além do que lhes fora dado pela natureza. Com isso, Rousseau entende que tanto o problema do mal, quanto sua solução, depende da idéia de que o mal se desenvolveu com o tempo: a natureza humana foi alterada. Disso segue-se que se o mal resulta de uma alteração na natureza humana, então, igualmente, ele pode ser erradicado.


(…)


Em O mal no pensamento moderno, Neiman assevera que Rousseau criou a forma moderna do problema do mal. Ao focalizar a atenção na questão do mal moral, bem como de suas causas históricas e psicológicas, Rousseau acentua que devemos nos preocupar com os males pelos quais somos responsáveis. O Deus de Rousseau é benevolente, mas nós não precisamos Dele. O bom selvagem não precisa de Deus e sim de um tutor, e o papel do tutor(…) é o de corrigir as falhas da Providência(…).


O mal na história


Ao exibir argumentos de filósofos desses últimos trezentos anos, Neiman chegou às seguintes conclusões: para a mentalidade moderna o mal é inteligível e, como conseqüência do abandono da perspectiva teológica para tratar do vinculo entre sofrimento e mal, os filósofos não mais consideram males naturais como decorrência de males morais; ela conclui ainda que o problema do mal persiste até os dias de hoje, pois o que era entendido como um mal no século XVIII não é mais o que se entende como um mal nos últimos anos.


Em relação a essa última conclusão, Neiman justifica-se exibindo dois momentos históricos que nos levam a modificar nossa compreensão sobre o problema do mal: o terremoto de Lisboa, ocorrido no dia de Todos os Santos em 1755, e o Holocausto em Auschwitz, durante a II Grande Guerra. Neiman procura mostrar que esses dois acontecimentos nos levam a pensar sobre o significado do sofrimento – em seu nexo com o mal – e que esse significado se diferencia por conta dos efeitos sentidos.


O problema que se apresenta a ela é: por que Lisboa? Por que Auschwitz? Em relação a Lisboa, não podemos destacar inúmeros terremotos mais devastadores em nosso século? Em relação a Auschwitz, a Guerra dos 30 anos não foi tão bárbara e traumática?


As respostas dadas por Neiman são assim expressas. Até Lisboa, fazia sentido chamar um terremoto de mal natural; mas após Lisboa isso não mais faz sentido. (…)Lisboa desafiou o modo de pensar de seus contemporâneos(…) com o terremoto, milhares pereceram sob escombros de Igrejas Católicas, rezando para a Glória de Deus no dia de Todos os Santos.


(…)O terremoto de Lisboa fez tremer as estruturas da Fé, na mesma proporção em que levou ao questionamento da bondade da Criação, da idéia de que vivemos no melhor dos mundos possíveis.


Se o terremoto de Lisboa alterou a inteligibilidade sobre o problema do mal no século das luzes, o mesmo ocorreu com o Holocausto em Auschwitz.


(…)

O que choca e modifica nossa compreensão do mal em Auschwitz é que os assassinos não eram bestas e demônios e se comportavam como tais e sim seres humanos comuns, que levavam uma vida mundana como qualquer outro. Antes de Lisboa, os males dividiam-se em naturais e morais; depois de Lisboa o mal ficou restrito ao que antes era chamado de mal moral; Auschwitz simboliza o mal moral de forma diferente: malícia e premeditação, elementos que compõem a intenção(…).


(…)Se antes de Lisboa os homens tentavam entender as intenções de Deus para explicar a existência do mal, após Auschwitz os homens não dão sentido às suas próprias intenções.


Leia a resenha do livro na íntegra no Digestivo Cultural

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