Volta ao lar sem culpa

vermeer-milkmaidImagem: “A Leiteira” por Jan Vermeer (1632-1675)

Mais brasileiras decidem interromper deliberadamente a vida profissional em busca do equilíbrio familiar

Por Chantal Brissac e Eliane Trindade

As mulheres descobriram um novo caminho de volta para casa. Dito assim, há quem pense que, depois de tantos anos de lutas e uma inegável presença no mercado de trabalho, elas estejam abdicando de suas conquistas e retornando à inglória vida doméstica. Mas a questão agora não é voltar à condição de rainha do lar, e sim ter liberdade para decidir quando e como retornar, sem culpa ou patrulhamento feminista. Até as americanas, precursoras da emancipação, estão engrossando o time das novas donas de casa. Segundo o Departamento de Estatística de Saúde dos Estados Unidos, 30% das profissionais liberais da costa oeste americana voltaram para casa ao longo desta década. Os fatores para essa debandada geral são de ordem prática e emocional. A busca desenfreada do sucesso, típica dos anos 80, foi substituída por um desejo de fortalecer laços afetivos. Ao mesmo tempo, as mulheres entre 30 e 40 anos que adiaram a maternidade sentem agora a pressão do relógio biológico. O apelo doméstico fica mais forte quando se sabe que uma baby-sitter custa em Nova York, por exemplo, US$ 12 a hora. Embora no Brasil o salário de uma babá oscile em torno de R$ 400, a tendência não é diferente. E até aquelas brasileiras que se equilibram entre os vários papéis estão pedindo uma trégua. A atriz Patrícia Travassos, 44 anos, casada pela segunda vez e mãe de Nicolau, sete anos, se despiu definitivamente da fantasia de supermulher. “Às vezes surto e reconheço que só consigo tocar minha vida de mulher emancipada porque minha condição financeira me permite ter uma babá e uma empregada”, afirma.

Depois de correr o Brasil com a peça Capital estrangeiro e ter participado de duas novelas globais, fase em que vivia “en-lou-que-ci-da” com celular à mão para gerenciar o dia-a-dia e monitorar a vida do filho, ela curte uma temporada caseira em seu apartamento de Ipanema, no Rio de Janeiro. “Se o homem chega atrasado ao trabalho porque foi levar o filho ao dentista, ele é bom chefe de família. Se acontece com a gente, somos pouco profissionais ao trazer problemas domésticos para o trabalho”, compara. A difícil arte de conciliar trabalho e casa é ainda mais pesada para as 9,6 milhões de brasileiras que são chefes de família. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada pelo IBGE em 95, uma em cada quatro famílias é gerida por mulheres. A advogada Valéria Maculan Sodré, 54 anos, mãe de seis filhos, é o símbolo desse modelo heróico e ao mesmo tempo escravizante. Após dois divórcios e sem receber pensão alimentícia dos ex-companheiros, ela nunca pôde se dar o luxo de escolher. “Considero minha vida um milagre. Consegui criar meus filhos praticamente sozinha e com recursos limitados”, orgulha-se Valéria. Ela ganha hoje cerca de R$ 2 mil como funcionária da Advocacia Geral da União, em Brasília. “Não me sinto cansada de trabalhar, mas de atuar em várias frentes, ser tudo ao mesmo tempo”, desabafa.

Há quem consiga não passar por essa angústia. Recém-casada com o jogador de vôlei Tande, da seleção brasileira, a atriz Lizandra Souto, 21 anos, decidiu interromper a carreira para se dedicar ao casamento, sonho que acalentava desde menina. “Quero curtir o meu marido, me dedicar à casa e aproveitar essa nova fase”, diz Lizandra. “Não se trata de uma vida ociosa, mas estou apostando na minha felicidade.” Ela trocou o Rio de Janeiro por Campinas, no interior de São Paulo para acompanhar Tande que joga num time daquela cidade. Nem sequer batalhou pela renovação do seu contrato com a Rede Globo, onde atuou em 1995 na novela Quatro por quatro. Planeja apenas gastar duas horas diárias apresentando um telejornal local do SBT. Pretende ainda fazer vestibular para Jornalismo na Unicamp na metade do próximo ano.

Tanto as mulheres famosas quanto as profissionais da classe média começam a ver com naturalidade o vaivém e o intenso leque de opções que cabe em um projeto de vida. Ainda assim, a psicóloga Carolina Ribeiro observa em seu consultório um número considerável de clientes ansiosas por não corresponder a um padrão inalcançável de perfeição. “Ela deve cumprir sua própria história e não ficar à mercê do que se espera dela, porque, afinal, se espera tudo. É impossível ser perfeito e completo”, diz. A publicitária mineira Vânia Ribeiro, 30 anos, resolveu, ao menos, tentar ser perfeita em uma coisa só – no caso, como mãe e esposa. Parou de trabalhar após o nascimento da primeira filha, hoje com sete meses, quando abandonou sem pestanejar o antigo perfil de ferrenha defensora da emancipação feminina. “Acho importante a mulher ter uma carreira, mas, se é para ter um filho, a dedicação deve ser completa. É difícil ser perfeita quando não há entrega total”, observa. Grávida do segundo filho e com planos de um terceiro em seguida, ela só vai voltar à ativa quando a criançada estiver em idade escolar.

A recusa em terceirizar totalmente a criação dos filhos é mais que uma boa razão para o eventual retorno. No Brasil, a licença maternidade é de quatro meses. Nos Estados Unidos, porém, ela varia de uma semana a um mês, o que faz com que as mulheres interrompam a carreira até os primeiros três anos de vida do bebê, em média. Tal atitude é vista com bons olhos até por figuras polêmicas, como a escritora Camille Paglia, odiada por algumas de suas idéias antifeministas. “Acho que a mulher realmente deve parar para acompanhar o crescimento e a educação dos filhos e depois voltar. Não dá para ser mãe pela metade e nos Estados Unidos não há a facilidade de babás e empregadas”, diz Paglia. Na classe baixa americana, as mulheres resolvem esse problema porque dispõem de uma rede informal de solidariedade, na qual vizinhos e parentes se ajudam mutuamente.

A deputada Telma de Souza (PT-SP), que vai disputar o segundo turno pela Prefeitura de Santos, não fez essa parada estratégica. Sente-se uma mãe ausente, tendo de passar quatro dias da semana em Brasília. “Ao mesmo tempo somos e deixamos de ser mães por uma imposição social”. Com dois filhos adolescentes, Telma, 51 anos, conta com a ajuda do marido, Alberto Vieira, 41 anos, na tarefa de educá-los. A digitadora gaúcha Leda Valéria Mastrascusa, 39 anos, também sente culpa ao se ausentar de casa para trabalhar, mesmo com três filhos adolescentes, que podem muito bem se virar sozinhos. Ela enfrenta uma tripla jornada, pois ainda faz faculdade noturna de pedagogia. “Faço almoço à noite para o dia seguinte. Quando não consigo, meu marido e meus filhos se viram. Eles são fundamentais para o bom andamento da casa.”

Mesmo as feministas mais convictas vêem a importância do homem nesse processo de equilíbrio. “A mulher só deixa de ser escravizada quando tem um homem que divide o profissional, a casa e a rua”, afirma a socióloga Rose Marie Muraro, feminista histórica, que não esconde a irritação frente à chiadeira das que se sentem escravizadas pelo trabalho. “Nós éramos escravas antes, quando estávamos em casa desenvolvendo apenas o lado do útero, sem a possibilidade de exercer todas as nossas potencialidades”, esperneia a militante de 65 anos, mãe de cinco filhos. Ela faz parte da primeira geração de brasileiras que colocaram como meta de suas vidas o sucesso profissional. A socióloga Maria Carneiro da Cunha discorda. “A mulher não se emancipou de fato. O trabalho acrescentou novas contradições às existentes. Muitas saíram do tacão do marido chato para o do patrão autoritário”, analisa a pesquisadora, em fase de conclusão de uma tese de doutorado sobre as utopias femininas pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo.

Para o psicanalista carioca Sócrates Nolasco, o homem também assume a necessidade de se voltar para a casa em busca de mais afeto e proteção. No mesmo processo, começa a se despir da imagem de super-homem, o infalível e eterno provedor. “Os homens querem sair de um contrato formal de casamento, em que só têm obrigações, em busca de mais cumplicidade”, diz Nolasco. A empresária e socióloga Vera Aldrighi, 45 anos, encontrou no marido o parceiro para a sua arrancada profissional. Enquanto ela dava saltos na carreira de analista de pesquisas em grandes agências de publicidade, ele ia às reuniões de escola e fazia a casa funcionar. “Hoje, ele é considerado o companheiro ideal, mas na época o seu papel de dono de casa era motivo de chacota”, relata Vera. O apoio do marido aliviou o stress, mas não a culpa. Há cinco anos, ela teve uma crise existencial e foi parar num terapeuta. “Joguei tudo no trabalho, entrei em crise, mas no final concluí que valeu a pena. Se tivesse ficado em casa passaria pelo mesmo acerto de contas comigo mesma”, analisa.

A insatisfação não pára por aí. Existe ainda quem sinta necessidade de desenvolver outras potencialidades, que vão além da família e do trabalho. A paulista Renata Rizkallah, 34 anos, vice-presidente da corretora Novação, não quer se transformar numa “máquina do trabalho”, embora não cogite ser exclusivamente dona de casa. Após 13 anos de uma vitoriosa carreira no mercado financeiro e ao final de um casamento de quatro anos, encontrou como válvula de escape os cursos de filosofia, artes, pintura e meditação. “Não adianta ser uma ótima profissional frustrada. Tento humanizar a minha rotina mesclando várias atividades. Hoje tenho uma vida emocional gratificante”, receita a executiva. O fato de Renata ter chegado ao topo de uma carreira, que até há bem pouco tempo era reduto masculino, demonstra a participação crescente da mulher no mercado de trabalho. Até o ano 2000, elas serão donas de 40% dos empregos do País. Infelizmente, a conquista de espaço ainda não se traduz em melhora de salários. De acordo com os dados da ONU, a mulher brasileira ganha 24% menos do que os homens. Ao longo das últimas décadas, enquanto o desafio de se lançar no mercado profissional se tornava um massacrante sinônimo de modernidade, a hipótese de ser “apenas” dona de casa virou motivo de vergonha. “Quem sustenta, manda. Nunca mais quero ser dependente de alguém”, sentencia a empresária Paula Schbel, 40 anos, que viveu sob a tutela da histórica figura do provedor no primeiro casamento. Não deu certo.

A permanência no lar não significa necessariamente uma relação desigual entre um marido-provedor e uma mulher-dependente. Maria de Fátima Sevieri, 38 anos, nunca trabalhou fora de casa, mas controla as finanças do marido, da empresa e da família. “Antes eu ficava incomodada por ter de pedir dinheiro para tudo e ele, irritado de ter de abastecer a minha conta bancária a todo momento”, lembra ela. “Trocamos de papel. Agora sou eu quem peço quando preciso. Nem sequer tenho um cartão de crédito individual”, relata José Roberto, empresário da área de segurança do trabalho. Sua atitude, embora figurativa por ser ele o real provedor, demonstra uma abertura a padrões de comportamento alternativos.

A idéia do homem provedor, descartada veementemente pelas feministas, hoje volta reciclada. “Simpatizo com a idéia de ter um provedor, não pela condição financeira, mas pelo aspecto emocional”, admite a advogada paulista Beatriz Belém, 38 anos. Solteira e independente financeiramente, ela faz um mea culpa. “Buscamos tanto conquistar um lugar na sociedade dos homens e hoje nos sentimos sobrecarregadas e com dificuldades de sermos providas de afeto e proteção”, completa. Para ela, a mulher precisa abandonar definitivamente a idéia de que o homem é total responsável pelos seus males e tampouco permitir que a sociedade julgue continuamente suas atitudes. A consultora de comportamento Iara Grottera acha que as mulheres venceram várias batalhas, mas estão fadadas a perder a guerra. “O prêmio pela emancipação é altamente questionável, pois se perdeu muito nas relações afetivas. Depois dos vários desencontros entre o homem e a mulher, agora se tenta recuperar esse hiato, se voltando para o lado emocional e para a família”, avalia.

A administradora de empresas Regina Cavalcanti, 39 anos, pode ser considerada a síntese desse novo modelo, que rejeita tanto a escravização da carreira quanto a monotonia do cotidiano doméstico. Casada há 14 anos, mãe de dois filhos, ela saiu de campo justamente quando colhia as glórias de sua carreira como executiva de um banco em Fortaleza, no Ceará, e ganhava mais que o marido. “Fui dondoca durante quase dois anos sem culpa, pois não precisava mais provar nada para ninguém. Nem para mim mesma.” No começo deste ano, a família se mudou para Brasília e ela aceitou uma boa proposta para trabalhar na Embratur. No seu balanço, a pausa valeu a pena e pode ser reconsiderada no futuro, quando bem entender. A única desvantagem da volta para a casa, segundo Regina, é o risco de virar “Jackie”. “É o já que você está aí, não quer ir ao banco? Já que você não está fazendo nada, não quer passar na padaria”, ela explica, sorrindo. Para evitar esse risco, que afeta não apenas donas de casa tradicionais, mas também o crescente número de pessoas que trabalham em suas residências, é preciso preservar ao máximo a rotina própria. A revolução tecnológica – que fez o mundo profissional invadir o espaço doméstico – pode ser, de fato, um alento para homens e mulheres presos a um ciclo produtivo massacrante, que lhes rouba o tempo para o prazer e o afeto.

Colaboraram: Osmar Freitas Jr., de Nova York; Patrícia Andrade, de Brasília; Ivan Padilla, de Belo Horizonte; Valéria Propato, do Rio; e André Jockyman, de Porto Alegre

Fonte: Revista ISTOÉ

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