O Feminino e o Masculino

Feminino_MasculinoImagem: “As Bodas Do Casal Arnolfini” de Jan van Eyck (1390 — 1441)


Por Angelita Corrêa Scardua

Qual seria a diferença entre opor-se e complementar-se? Bem, podemos pensar que algo que se opõe não possui correlação e/ou afinidade com seu opositor. Por outro lado, aquilo que é complementar caracteriza-se por distinguir-se de sua contraparte ao apresentar traços que isoladamente são distintos, mas que em conjunto tendem a formar uma unidade. Tomemos como exemplo o dia e a noite, ora não resta dúvidas que esses dois ‘instantes’ temporais possuem características muito distintas: claro e escuro é apenas uma delas. Porém, é possível afirmar que nenhum de nós é capaz de pensar num período de 24 horas sem nos reportarmos automaticamente à distinção entre o dia e a noite. Logo, fica claro que embora diferentes, o dia e a noite constituem-se em representações distintas de um processo que é único.

Essa maneira de entender a complementação torna-se uma possibilidade de leitura da realidade. Para tanto, devemos partir da idéia de que diferenças aparentes podem ocultar um vínculo profundo entre si que as tornam parte indissociável de uma unidade/processo maior. Devemos ter em mente, contudo, que para trabalharmos com tal idéia torna-se fundamental entendermos que o vínculo existente, entre formas a princípio díspares, somente é possível a partir de suas diferenças. Parece um paradoxo, e é!

Um dia de sol e um dia de chuva são consideravelmente diferentes entre si, disso não há dúvidas! Mas ambos continuam a corresponder ao período de tempo dentro das 24hs diárias em que há a predominância da claridade. O que ocorre em função da posição da Terra em relação ao sol. Portanto, embora diferentes, eles não constituem algo que nos dê a noção de unidade, de totalidade. E isso ocorre porque as diferenças possíveis entre dois dias (períodos de 12hs) não são tão significativas a ponto de atribuir-lhes significados e funções distintas.

Com isso, podemos ver que quão mais significativa for a diferença entre duas “coisas”, mais essas duas “coisas” poderão se distinguir como algo portador de significado e conteúdo próprios. Se a unidade se caracteriza por conter em si as diferentes possibilidades de um mesmo processo: quão mais identificáveis forem estas possibilidades, mais integradas à unidade estas serão, porque é justamente a distinção entre elas que constitui a unidade como tal. Ou seja, como representação da totalidade.

Teria a complementaridade uma função? Parece que sim. Arranjos de alternância entre diferentes pólos, seja do ponto de vista psíquico ou biológico, parecem favorecer o equilíbrio afetivo e físico dos seres vivos. Esse equilíbrio ocorre a partir do momento em que as polaridades revelam-se portadoras de funções, elementos e características que separados não contribuem de forma significativa para a vida, mas em conjunto se mostram capazes de gerar, manter e aprimorá-la. É o que podemos ver claramente na união entre machos e fêmeas objetivando a procriação. Dentro de parâmetros estritamente humanos, não há como discordar do fato de que na ciranda da vida a reprodução assexuada está geralmente associada à formas de vida insípidas e menos evoluídas como bactérias e vírus.

A complementaridade, porém, não se constitui num veículo de aprimoramento apenas biológico, ao contrário, é no desenvolvimento psicológico que podemos ver suas mais evidentes contribuições. E tal qual o encontro entre macho e fêmea significa um avanço na evolução biológica dos seres, o encontro entre o masculino e o feminino representa uma (r)evolução no nosso desenvolvimento psicológico.

O feminino talvez seja nossa primeira referência arquetípica na vida. Antes de nascermos estamos submersos no corpo materno, literalmente afogados na anatomia feminina e, queiramos ou não, a condição biológica da mulher torna-a mais propensa ao estabelecimento de um vínculo com o feminino como instância psíquica. A nossa ligação com o masculino se dá após o nascimento, ao estabelecermos contato com a figura paterna e/ou outras figuras masculinas que passam a fazer parte de nossas vidas. Esse arranjo biológico nos diz muito a respeito da natureza do feminino e do masculino.

O feminino como uma instância psíquica – ou seja, como um conjunto de símbolos, conteúdos, experiências e significados biológicos, sociohistóricos, culturais e psicológicos – está intimamente associado à receptividade, à nutrição, ao recolhimento…enfim, a atributos que nos remetem ao estado embrionário do feto no útero materno. Por essa mesma razão, o feminino pode ser representado pelos processos germinativos da Terra e pelo trabalho criativo. O que o vincula ao mistério e ao encantamento, fazendo assim com que o feminino se estenda as atividades poéticas e criativas, ao mundo dos sonhos, da arte e da intuição, ao pensamento não linear e aos sentimentos. No nosso imaginário coletivo portanto, o feminino pertence ao reino da escuridão silenciosa dos processos corporais e da mente inconsciente, ao mesmo tempo em que estabelece a ponte entre o mundo material e a alma (Ânima).

O masculino, por sua vez, pertence ao reino diurno da consciência solar que se manifesta nos parâmetros civilizatórios do mundo externo, assim como na lógica expressa pela linguagem formal e pelos números que caracterizam as regras e as normas do grupo sociocultural. Podemos ver, assim,  que o masculino projeta-se para fora, em direção ao exterior, pela ação e pela confrontação, que são os recursos necessários para se ocupar e manter um lugar no mundo. O masculino, na condição de instância psíquica, simboliza os modos de expressão que visam atender aos anseios do espírito (Ânimus) humano lutando para sobreviver num corpo – que já não mais se alimenta do corpo da mãe – e, ao mesmo tempo, deseja transcender essa dependência do mundo físico. Por estar vinculado ao mundo exterior, o masculino expressa as regras e normas da ordem social e da cultura civilizadora, sedimentando-se no terreno das organizações hierárquicas como o exército, a lei e a igreja, ou na rigidez metodológica do pensamento científico que, ao contrário do pensamento mítico, visa desmistificar e a revelar a natureza das coisas.

A supervalorização dos aspectos representados pelo masculino tende a nos conduzir a uma inflação espiritual do ego (consciência). O que naturalmente nos conduz a um distanciamento de todas as qualidades simbólicas do feminino – e que são representadas pelo inconsciente. Esse distanciamento gera um desequilíbrio, no qual essas diferentes polaridades passam a ser vistas, sentidas e experienciadas como elementos divergentes e não como diferentes representações de uma mesma unidade.

Hoje vivemos as conseqüências desse desequilíbrio, fruto dos séculos passados em que homens e mulheres estiveram submissos a uma estrutura social focada na figura de poder absoluto do pai (patriarcal). Há autores que defendam a existência de uma estrutura social centrada na mãe (matriarcal) anterior ao patriarcado, há autores que preferem não ir tão longe e defendem apenas a existência de sociedades cooperativas em que homens e mulheres possuíam igual valor social. Eu prefiro me alinhar com estes últimos, não creio que no passado existiram sociedades dominadas por mulheres, até mesmo porque não há qualquer indício científico confiável sobre tal possibilidade, ao passo que temos evidências arqueológicas e documentais de sociedades cooperativas, como a Minóica por exemplo.

Seja como for, o fato é que hoje temos que lidar com o legado patriarcal tanto no sentido objetivo quanto subjetivo de nossas experiências. E para que possamos fazer uma transição dessa fase do desenvolvimento humano para uma outra mais justa e igualitária, torna-se fundamental o resgate dos aspectos femininos submersos no útero primordial de nossa psique. Adentrar esse universo silencioso do feminino – que se esconde em nosso inconsciente individual e coletivo – é o início da conquista do equilíbrio entre este e o masculino. Para tanto, torna-se imperioso o encontro e a aproximação das polaridades. Esse encontro deve antes de mais nada ser vivido internamente a fim de que possa ser externado, é um processo gestativo em que o masculino fecunda e é fecundado pelo feminino. Dessa cópula metafórica pode nascer nossa mais completa versão, fruto do entendimento e do reconhecimento de nossa natureza múltipla e dinâmica.

Ao encontrar-se com a fluidez dos sentimentos presente no feminino, a rigidez das leis masculinas representada pelas regras da civilização, pode tornar-se sensível às necessidades do outro, e com isso reconhecer e aceitar a diversidade e a diferença. Ao confrontar-se com a potencialidade criadora da Donzela, representada pela sensibilidade artística, o impulso autocentrado do Herói pode dar vida à lutas por causas coletivas, que logrem soluções criativas para os problemas humanos. Ao deparar-se com a generosidade da Mãe, representada pelo seio que alimenta, o código excludente do Pai Celestial pode reconhecer a todos como seus filhos… É assim que, na mitologia grega, o encontro entre o belicoso deus da guerra Ares e a bela deusa do amor Afrodite gera a doce Harmonia. Também nós podemos harmonizar a fúria egoísta e destrutiva – fruto da polarização excludente que carregamos dentro de nós – por meio da promoção do encontro das polaridades feminina e masculina.

O fluxo constante da natureza, a alternância entre o claro e o escuro, a passagem das estações, a bipartição dos caracteres sexuais e todas as formas de polarização encontradas no mundo que conhecemos contém uma verdade profunda sobre a existência: que é a constatação da necessidade da alteridade para que as coisas se manifestem. Por mais que tenhamos abandonado a natureza em função de nosso ingresso na cultura, há algo dentro de nós que nos liga indelevelmente ao mundo natural, e isso é a nossa origem.

A nossa origem como seres humanos está fundamentalmente associada ao feminino, representado pelo corpo de mulher que nos gera. Pois que esse corpo é nosso destino enquanto espécie, é através dele que conhecemos o mundo físico, é somente por meio desse corpo que nos é dada a chance de ingressar na vida. Contudo, não devemos nos esquecer que antes de nos desenvolvermos no corpo feminino somos centelha, promessa de vida, cujas chances jazem na semente (sêmen) dos homens e no solo fértil do útero das mulheres. É tão somente o encontro do espermatozóide com o óvulo que possibilita que a promessa de vida que nós somos torne-se um ser vivo. E não nos enganemos, é o encontro do masculino – presente na semente germinada de nossa consciência – como o feminino – adormecido no útero de nossa inconsciência – que pode transformar esse ser vivo numa pessoa harmônica.

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Uma resposta to “O Feminino e o Masculino”

  1. Rosane Mendonça Says:

    Parabéns pelo texto!!! Muito singelo, profundo,esclarecedor e poético ao mesmo tempo!!


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