A construção do corpo e as estratégias da moda I

Construcao_do_Corpo_I_Javier_VallhonratImagem: Foto de Javier Vallhonrat

*Por Nízia Maria Souza Villaça

Ser humano é um esforço histórico, afirma Edward Bond na Folha de S. Paulo, e ressalta a importância do gênero dramático como expressão de nossa inquieta e fraturada humanidade. A edição do corpo humano faz parte do diálogo entre nossas expectativas, nossas apostas, descrenças e decepções. É necessário refletir as estratégias identitárias, individuais e coletivas, inseridas na edição do corpo na mídia, considerando, sobretudo, o desenvolvimento de novas tecnologias comunicacionais e biológicas por meio das quais a ciência, a arte e a moda, progressivamente, cruzam-se na tarefa dramática de ressemantizar o estatuto corporal.

Num cenário globalizante gerido pelo mercado, as narrativas, despidas dos fatores de transcendência e as identidades sociais formadas em torno dos conceitos de nação, etnia e classe, perdem crescentemente seu poder aglutinador e reassegurador. O corpo, com suas expressões, envelopes e próteses, oferece versões singulares, fora da ótica macro dos grandes sistemas classificatórios predominantes no imaginário moderno. Como num hipertexto, diversos registros semióticos sem relações hierárquicas fixas concorrem para a gestão de uma nova sensibilidade e de novos processos de subjetivação. Diferentes discursos discutem a dinâmica corporal em relação aos dispositivos que, na sociedade do consumo e das novas tecnologias, propiciam linhas de sedimentação e controle ou linhas de atualização e criatividade direcionadas para um corpo comunicativo. Impõe-se, então, a avaliação crítica das novas estratégias de produção do sentido corporal no âmbito do mercado de bens materiais e/ou simbólicos. Até que ponto a desregulamentação global é agente de democratização, de participação e, até que ponto, é veículo de disseminação de pseudomovimentos de subjetivação, pseudo-acontecimentos, em que a velocidade e as fantasias de interação constituem questões para reflexão sobre manipulação/recriação corporal.

No diálogo instaurado entre o discurso científico, o discurso artístico, a moda e a mídia nos perguntam como o corpo vem sendo pautado e editado no contemporâneo. Quais aspectos da cultura corporal vêm sendo enfatizados? Perfeccionismo estético? Saúde? Metamorfoses e hibridização? Desmaterialização utópica? Materialidade trágica?

Da biologia às neurociências, da genética às pesquisas cognitivas, a inteligência contemporânea trabalha para desconstruir certezas às quais estamos arraigados. Debates inumeráveis fazem nascer, tanto na mídia quanto diante dos tribunais, avanços da biociência (clonagem, procriação artificial, pesquisas sobre embrião, manipulações genéticas, transplantes de órgãos), e uma verdadeira reengenharia do corpo impõe a pergunta sobre os limites do humano. A genética parece aproximar-se de uma comunidade indiferenciada entre o homem e o animal; as ciências cognitivas apontam o cérebro-computador; a inteligência artificial aproxima o homem da máquina e crescem os debates a respeito desses limites.

A emergência da questão comunicacional se dá justamente quando os quadros de referência em que se inseriam os procedimentos das ciências modernas entram em crise. Ela coincide com a tecnicização das ciências humanas como poderoso instrumento de legitimação do poder e aplicação técnica dos saberes produzidos. A política intervém sobre o saber, procedendo por neutralização estratégica dos conflitos. É nesse contexto que a problemática comunicacional emerge no pensamento científico como quadro epistémico de uma abordagem crítica que ultrapasse a normatividade dos humanismos e suas narrativas, e não se resuma numa proliferação performática aleatória.

Nossa proposta é discutir, com o foco nos discursos em torno da corporeidade, os limites e versões que vão do antigo paradigma transcendente e normalizador aos novos fluxos da imanência nas redes virtuais e suas apostas na liberdade da vida digital conectada com as redes sinápticas do cérebro, vida coletiva, interativa, democrática. As novas tecnologias informáticas, segundo Adriano Duarte Rodrigues, não são instrumentos de percepção ou utensílios de produção, mas dispositivos de conexão e/ou de desconexão de formas em que o saber transforma-se num gigantesco mecano. Uma reciclagem serializante atinge praticamente todos os domínios da cultura contemporânea, notadamente da tecnociência, da moda e das artes, com grande exuberância de processos de agenciamento das singularidades diferenciais, fato que será objeto de discussão.

Em virtude do declínio das velhas identidades relacionadas ao pertencimento a culturas étnicas, raciais, lingüísticas, religiosas e nacionais, a questão da identidade está sendo extensamente discutida na teoria social. A moda, na esteira da arte, articulada com o consumo e a globalização, caminha no bojo do referido descentramento, propondo identidades provisórias, performances que vão mudando a cada momento.

Laura Bovone, a propósito da pós-modernidade, chama atenção para o fato de que a informação torna-se o mais importante meio de produção e que o sistema de comunicação e a tecnologia passam a ocupar o centro dos interesses econômicos mundiais. Paralelamente, os atores envolvidos nesse sistema, sejam os destinatários ou os mais potentes emissores, tornam-se conscientes de sua própria importância no momento em que a “prática comunicativa modifica a informação, e a informação não pode ser isolada do processo que a transmite” (Bovone, 2000). A tendência à pluralidade, à ambivalência e à reflexividade marca o contemporâneo, o que provoca uma instabilidade do conhecimento e da consciência. Constroem-se novos modos de dar voz ao social. Ainda para a autora, os novos intermediários culturais seriam os protagonistas do pós-moderno, como a burguesia e a classe operária foram os protagonistas do moderno: promovem a cultura como mercadoria, provocam um novo gosto para a produção e o consumo, bem como pressentem o ar do tempo.

Como veremos, a moda torna-se progressivamente um espaço sempre mais abrangente, para o qual convergem as mais diversas áreas: ciência, tecnologia e arte desfilam na passarela. As categorias étnicas de gênero, etárias, éticas são discutidas em seu fórum global entre drogados elegantes, camisetas contra o câncer, dráculas, sadomasoquistas, neo-punks, neo-hippies, neo-românticos, ciborgs da moda-tecno, etc. Forma-se uma longa cadeia comunicativa e cultural, composta por criadores, estilistas, empresários, fotógrafos, distribuidores, compradores, e compõem a classe de consumidores. É discutível falar da atividade dos produtores versus a passividade dos consumidores. Na era da moda como distinção, comandada do alto, soma-se a importância da reflexão criativa em que o consumo implica trânsito entre papéis sociais. A dinâmica não é uniforme, como no caso de um best-seller, porém marca um movimento social em que os grupos disputam estilos de vida e o processo de apropriação exige tempo e dedicação como acentua Mike Featherstone (1995). A cultura de consumo, baseada numa proliferação de informações e imagens, não permite a hierarquização nem o sistema de divisões sociais fixas. Em compensação, o conceito de estilo de vida, construído sobre a base do consumo das preferências ético-morais dos comportamentos permite uma compreensão das práticas sociais dos diversos grupos sociais, completa Emanuela Mora (1994, pp. 158-192).

A globalização traz em seu bojo uma abertura dos processos de identidade, uma grande variedade de “posições de sujeito”. Nas sociedades da modernidade tardia, a concepção de identidade é mais perturbadora e provisória, caracterizada por rupturas, descontinuidades e deslocamentos em oposição às sociedades tradicionais que perpetuavam o passado. Áreas diferentes do globo são postas em interconexão, desalojando o sistema social de suas relações espaço-temporais tradicionais, provocando novas articulações e uma concepção problemática de identidade. Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação, mais podem ser observadas identidades que parecem flutuar livremente numa espécie de supermercado cultural.

É no interior dessa dinâmica que o imaginário da moda vai, progressivamente, contaminando de homogeneização global lugares mais afastados e, simultaneamente, dotando de variedade locais a linguagem globalizada.

Diante do enfraquecimento dos paradigmas que orientaram o projeto moderno de cunho essencialista, a moda se produz como arquivo e vitrine do ser/parecer, sugerindo comportamentos e atitudes, fabricando selfs performáticos por meio de sutis recriações dos conceitos de verdade, de bem e de belo. Torna-se o veículo, por excelência, do prognóstico que Calvino (1990) sugeriu para o próximo milênio: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade. Num incessante deslocamento de valores, essa capacidade de tudo transformar em objeto de consumo faz com que mercado e moda se liguem sempre mais.

Com sua agenda veloz, a moda oferece uma permanente negociação de novos estilos que não se restringem ao vestuário, mas que criam um clima constituído pela gestualidade e pela forma do corpo, tom de voz, roupas, discurso, escolhas no campo do lazer, da comida, da bebida ou do carro, etc. Forma-se o perfil do indivíduo consumidor como estrato a ser considerado nos processos de subjetivação, tendo em vista o fato decisivo de que vivemos numa sociedade de consumo pós-massivo e personalizado.

Diferentemente da década de 1950, era de maior conformismo, de consumo de massa, as mudanças nas técnicas de produção, a segmentação do mercado oferecem maior possibilidade de escolhas, o que ainda é considerado por alguns autores manipulação de marketing. Na realidade, a escolha pode implicar tanto seguir cegamente os hypes da moda, como virar as costas à questão ou misturar com criatividade a oferta dos bens e produtos, violando códigos como fizeram, por exemplo, os jovens nos anos 60.

A manipulação não é óbvia até pela profusão de informações e proliferação de imagens cuja decodificação passa freqüentemente por mediadores como a família, o bairro e o grupo de trabalho. Os vínculos entre aqueles que emitem as mensagens e os que a recebem não são apenas de dominação, mas incluem a colaboração e o trânsito entre produtores e consumidores.

O consumo se constitui como processo sociocultural em que se dão a apropriação e o uso dos produtos, como mais que simples exercícios de gosto, ou compras irrefletidas. Não se pode falar de uma imposição da produção para mercado ou de apostar apenas no aspecto lúdico e autônomo da criação de um estilo de vida que o consumo, por meio do discurso fashion em todas as suas variantes e suportes, propicia. A “desordem” proveniente de slogans como “nada de regras, apenas escolhas”, celebrada por alguns, não representa necessariamente a implosão do social. Exige, sim, a leitura de um recorte mais frouxo no interior do espaço social.

Como lembra Nestor Garcia Canclini (1990), a racionalidade econômica de tipo macrossocial não é a única que modela o consumo. Refere, com propriedade, a existência de uma racionalidade sócio-política-interativa que revela a integração entre produtores e consumidores, com regras móveis, influenciando a produção, a distribuição e a apropriação dos bens. Instala-se um cenário de disputas por aquilo que a sociedade produz e pelos modos de usar essa produção. Nesse sentido, para o autor, o consumo induz à reflexão e é fator de cidadania. Mike Featherstone (1995, pp. 31-37) colabora para a compreensão do fenômeno, descrevendo três camadas de sentido que se cruzam no consumo. Uma primeira camada, ligada ao aspecto econômico e ao capital financeiro; uma segunda, conectada ao capital cultural e à proposição do estilo de vida e, ainda, uma terceira que provém da negociação com esses discursos hegemônicos por parte do público.

O importante, na visão de Featherstone, é atribuir maior intervenção aos consumidores. Os novos heróis da cultura de consumo não adotam um estilo de vida por hábito, mas como projeto. Criam diferenças que devem ter legitimação social, e é essa a questão que o autor busca pesquisar na luta entre grupos, classes e frações de classes. As distinções, se não são rígidas e impostas verticalmente, permanecem. A economia dos estilos considera a competição do mercado, os impulsos da produção e do consumo, as tendências de grupos e segmentos de mercado para monopolização nas diversas práticas sociais. Portanto, haverá permanentemente uma dinâmica instalada entre a estrutura ocupacional e de classe, a estrutura cultural e o habitus, entendido como conjunto de preferências e disposições inconscientes com as quais o indivíduo ajusta o próprio gosto às práticas e bens culturais propostos pelo estilo de vida. Esse habitus inclui o corpo, sua forma, volume e postura, modo de andar, tom de voz, gestos.

Na construção do estilo próprio, as três camadas a que nos referimos estarão em jogo e o marketing da moda certamente vai adquirindo estratégias menos óbvias na forma de impressionar o viés não racional da percepção dos consumidores. A moda oferece uma leitura dos investimentos simbólicos corporais no campo das questões de gênero, étnicas, etárias e políticas, que se aceleram e complexificam, a partir dos anos 60, quando o mundo da moda efetivamente se qualifica como um lugar de discussão dos processos de subjetivação.

*Nízia Maria Souza Villaça é Professora titular da Escola de Comunicação/UFRJ

FONTE: Iara – Revista de Moda, Cultura e Arte, 2008

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Uma resposta to “A construção do corpo e as estratégias da moda I”

  1. Moda e psicologia | mulheresucesso Says:

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