A construção do corpo e as estratégias da moda II

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Imagem: Foto de Ruven Afanador

*Por Nízia Maria Souza Villaça

A contemporaneidade, mais que nunca, acentua Beatriz Sarlo (2001, p. 98), sintetiza a moda como cultura da velocidade e da nostalgia, do esquecimento e dos festejos de aniversários, cultivando com igual entusiasmo o estilo retrô e a busca da novidade. É a paradoxalidade da busca de signos de identidade em um mundo unificado pela internet e por satélites. Há uma crescente convergência no mundo do consumo entre várias áreas da comunicação, notadamente com as artes, sobretudo, em virtude da explosão das redes planetárias de computadores e o acesso ao banco de imagens e sites de artistas, comenta Lúcia Santaella (2005). Paralelamente, a moda se espalha pela cidade ou, melhor, pelas cidades, reorganiza seus espaços, dinamizando-os como bem acentua a manchete “Rio top model” (Marra e Novaes, 2006, p. 2). A estética da periferia também participa dessa dinâmica, seja por meio de comunidades artesanais que cooperam com os estilistas como, por exemplo, a Copa Rocca. A mídia dá notícias de um trânsito de mão dupla centro/periferia. O caso Daslu/Daspu é um bom exemplo disso.

Reproduziremos algumas dinâmicas estabelecidas entre a construção do imaginário corporal e a estética da moda dos anos 50 ao momento atual, delineando um certo “ar do tempo” para cada década. Com essa estratégia, não pretendemos apontar movimentos hegemônicos, mas apenas sublinhar algumas tendências que merecem registro por marcarem o constante crescimento do universo fashion, que ultrapassa de longe a questão da pertinência de um vestuário para atingir o estilo de vida dos indivíduos nas complexas escolhas efetuadas no campo estético, científico e ético. Corpo, moda e subjetivação adquirem contornos sempre mais complexos.

Nos anos 50, encontramos a moda/proposta. É o momento em que a sociedade de consumo começa entre nós a delinear seu perfil e o corpo brasileiro está atrelado a todo um imaginário fashion que era importado; notadamente, aparece o estilo new look de Dior, com cintura marcada e saia rodada. O cinema e a televisão disseminavam as imagens do American Way of Life. A produção era massiva e o consumo também. O corpo da brasileira apresentava-se dócil e a criatividade apenas se esboçava no final da década, inspirando-se em ídolos como Marlon Brando ou James Dean, bem como em mitos eróticos femininos, como Jane Russel, Jayne Mansfield e as italianas Gina Lolobrígida e Sophia Loren. A estrela fugaz e o herói da cena artística era o pintor do movimento Action Painting, Jackson Pollock, hoje considerado o pioneiro da “conectividade” na arte, por ter sido o primeiro a levar a pintura para fora da galeria, trazendo-a para a superfície da terra, demarcando uma arena para a ação e para a interatividade (Bragança de Miranda, 1998, p. 183). Em 58, surge a primeira feira nacional da indústria têxtil e o cenário dos chás de caridade se tornam maiores com happenings em que participam artistas plásticos como Nelson Leirner e artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Rita Lee. O presidente, dito, Bossa Nova, Juscelino Kubistcheck, dá o tom do Brasil moderno. A moda jovem oferece seus primeiros passos, inspirada nos ingleses estilos teddy-boys ou na moda americana das calças cigarretes, saias rodadas e jeans.

A moda/prótese, nos anos 60 e 70, significou uma extensão do corpo para expressar linhas de liberdade, contestação e novos imaginários como o espacial. O surgimento da câmera de vídeo portátil trouxe impacto para a publicidade televisiva; o vídeo se ajustou com precisão ao clima de liberação sexual e de protesto político, típico do final dos anos 60 e início dos 70; o país vivia o pop e a contracultura; o corpo liberava-se nos revolucionários anos 60. A moda transformava-se numa prótese de si, exprimindo o poder jovem que subia em cena, a revolução feminina e um comportamento mais engajado com o contexto conflituoso da época. Foi um pouco como se a moda tivesse descoberto a cor e a liberdade de estilo. O movimento Tropicalista lançava duas marcas brasileiras que até hoje contam um pouco de nossa história: Caetano Veloso e Gilberto Gil. A moda de rua comandava o espetáculo. O baby boom dos anos 50 possibilitou a expansão de um mercado jovem. Os anos 70, também incluídos no que denominamos de moda prótese, passaram pela moda hippie, pelas discotecas (novela Dancing Days e seu figurino psicodélico), pelo No Future dos punks (Sex Pistols), pelo clímax do jeans e se fecharam entre nós com a anistia e a tanga do Gabeira nas dunas de Ipanema, significando com a anistia maior liberação política refletida nos corpos. Começava aí a antimoda, a consciência ambiental fashion e a customização. O romantismo natural da moda hippie trouxe para as roupas inspiração das culturas exóticas, a onda anticonsumo e muito brechó.

A moda/fetiche, nos anos 80, marcada pelo desenvolvimento das multinacionais, de shopping centers e pela importância das marcas, que pareciam mais importantes que o próprio corpo, verdadeiros fetiches em tempos neoliberais. Constituía um marco dessa importância a compra da Kraft pela Philip Morris por um preço seis vezes maior do que valia no papel. Empresas como Nike, Microsoft afirmavam que, graças à liberalização do comércio e a reforma das leis trabalhistas, a terceirização ganhava importância e a eles caberia não criar coisas, mas imagens de suas marcas. Da fábrica ao marketing na corrida pela ausência de peso. A criação publicitária adquiria extrema importância na agregação de valor às marcas.

A moda dos anos 90, que denominamos de moda/álibi, desloca questões ligadas à ética e à política para o fórum global e multicultural das passarelas, em respostas às solicitações das minorias. De alguma forma, assinala Naomi Klein (2004) que as estratégias da moda nesse sentido acabaram por criar etiquetagens politicamente corretas, que não atendiam exatamente ao movimento de dar voz às diferenças.

Nos anos 2000, a moda “instalação” constitui uma ampliação dessa narrativa de apropriação generalizada que se desloca incessantemente abarcando de forma criativa espaços reais, recursos tecnológicos, com uma especial identificação com o mundo da arte, enfatizando novos processos de subjetivação e ambientação do sujeito contemporâneo com sutis estratégias de envolvimento, nos quais o fortalecimento das marcas era o que mais importava quando se pensava no licenciamento de uma infinidade de produtos. Além da questão de propiciar uma provocação para a percepção do contemporâneo, a moda no seu viés instalação, criava eventos que, por sua maneira espetacular, reforçavam a marca. A gestão da marca é o grande desafio no capitalismo de imagens que não paravam de criar pseudo-sujeitos e pseudo-acontecimentos. A marca fabricava verdadeiros romances e outras narrativas provenientes de diversos campos com alusão, notadamente, às novas tecnologias.

Assim, o processo de subjetivação passa por trânsitos diversos em que somos passivos e ativos dinamicamente. O poderio da economia global suscita discussões a respeito de homogeneização e/ou diferenciação e intervenção de indivíduos, de grupos e de nações. Os fluxos acelerados, obviamente, provocam novas percepções, criam descentramentos e desequilíbrios, bem como uma consciência crescente da necessidade de criar espaços próprios e diferenciais, que se tornam um dado fundamental da sociedade do consumo e da visibilidade.

As perguntas como se subjetivar no momento atual e, ainda, como se inscrever no processo de auto-reflexão resultam no campo da moda no que chamamos de moda/instalação, constituindo-se como apropriação dos processos de produção artística. Os produtores e estilistas preocupam-se com a elaboração de climas que sugerem a complexidade da subjetivação contemporânea e buscam a interação maior com o público, já que a interatividade e a multiplicidade de escolhas, os ambientes imersivos se tornam palavras, passe no trânsito produção/consumo. A possibilidade oferecida a todos parece ser a da escolha do diálogo, da interferência, da reorganização ambiental. Nada se perde, tudo é recuperado pela publicidade que, sugestivamente, atende ao cliente, envolvendo-o e lhe sugerindo climas.

O momento é de festejo do efêmero e as antenas da moda farejam sempre mais as tendências artísticas. A “instalação” como proposta que ganha terreno, segundo críticos e curadores, coloca o espectador definitivamente como co-autor da obra, num processo que, concomitantemente, instaura novas possibilidades de subjetivação em que todos os sentidos são conclamados a interagir em espaços multimidiáticos. Se o resultado nem sempre corresponde, essa parece ser a proposta recorrente dos teóricos. No campo da moda, as tendências mais fortes seguem tal linha, sempre mais espetacular em que o espaço meticulosamente programado não é apenas lugar de uma encenação, mas, efetivamente, terreno de uma inscrição do corpo. Daí a preocupação crescente na escolha das diferentes ambiências. As pretensões criativas vão do lúdico carnavalesco à sugestão de espaços que beiram o sagrado; do conceitual ao escultural. O Caderno Ela, de 17 de janeiro de 2004, trazia a manchete “Atraído pelo efêmero da moda, Tunga criou a instalação para um desfile, em que modelos se transmutavam em sereias”. A matéria comenta que um de seus trabalhos mais bonitos foi uma performance feita por sete meninas, em longas túnicas gregas, que passearam na estação de trem durante a Bienal de Veneza, sustentando, como as cariátides, um gigantesco canotier (chapéu de palha), feito pelo chapeleiro do Hermès. Acima do chapéu, sete crânios balançavam, contrapondo o plano da morte ao chapéu, templo do plano terreno (O Globo, 2004, p. 5).

Segundo informações do site Dumas Amenidades, foi criada para o evento SPFW, em 2005, uma programação de projeções, que toma conta de 700 m2 da fundação. Mais de quarenta projetores são instalados e equipados com lentes especiais, sendo controlados por uma central de computadores para criar imagens de até sete metros de altura. Referências visuais relacionadas às áreas de artes plásticas, fotografia, cinema, vídeo, história, música, arquitetura, indumentária e design tomam o espaço e o prédio da Bienal, que se transforma numa grande instalação em que as dez mil pessoas, que freqüentam a SPFW, diariamente, entram como participantes.

Nessa linha ambiental “No lançamento outono-inverno 2006”, no MAM, a palavra clima dominou, apontando para o tema “Horticultural” e a necessidade de conexão com o ecossistema. Segundo Eloysa Simão, organizadora do evento, “essa mistura remete à herança carioca onde favela e asfalto se encontram”. Para a holandesa Li Edelkoort, uma das maiores trendsetters, muita inspiração para o verão 2007 será compilada no tema “Museu de história natural”. Na mesma viagem climática, Maria Fernanda Lucena espalhou tinta pela passarela a fim de passar a idéia de aula de pintura do Parque Lage. É interessante notar que nessa proposta de moda como instalação, tanto se criam quanto se reestruturam ambientes com intervenções e propostas fashions. Trabalho preparado para lugares previamente escolhidos.

A moda/instalação, por vezes, privilegia a performance espetacular; por vezes, a estrutura plástica e, freqüentemente, o conceito, segundo Ginger Gregg Duggan, que prefere usar o termo performance, oriundo de expressões artísticas dos anos 60 e 70. No nosso caso, o termo instalação exprime melhor a indefinição entre o lugar do sujeito e do objeto no mundo contemporâneo em oposição ao pathos subjetivo que caracterizou as décadas referidas. A respeito dessa ambigüidade das novas relações de sujeito e objeto, notadamente no mundo do consumo, dos bens materiais simbólicos e imateriais falam, com muita propriedade, os autores Jurandir Freire Costa, Mário Perniola e Massimo Canevacci. Os objetos ganham vida no mundo contemporâneo, quando o homem concomitantemente problematiza e parece se deixar fascinar por se tornar um programa eletrônico, um novo produto da biotecnologia ou mercadoria com alto valor agregado.

Ronaldo Fraga que, como Carlos Miéle, parece prezar mais a arte, o conceito, do que a roupa propriamente. No SPFW de 2006, Fraga joga com os modelos bolas de isopor e mergulha em seguida na cena final. Sempre cada vez mais tudo é clima, atitude e construção simbólica de marcas para o business global.

O diálogo entre arte e moda provoca discussões e Alcino Neto enumera trabalhos da Bienal inspirados no mundo fashion. O esloveno Tadej Pogacar, por exemplo, trabalhou com a grife Daspu para realizar o seu projeto. Uma série de roupas está sendo produzida no Rio, com o apoio da Ong. Davida. E o artista planeja fazer um desfile no pavilhão da Bienal (Parque do Ibirapuera), onde acontece a mostra a partir de 7 de outubro.

Meschac Gaba, artista de Benin que vive em Roterdã, comprou notas de dinheiro fora de circulação a está produzindo em Recife um conjunto de colares e broches. O turco Esra Ersen pesquisou frases de gangues de rua em São Paulo e vai imprimi-las em jaquetas de couro. O coletivo Taller Popular de Serigrafia, de Buenos Aires, vai trabalhar com camisetas que estampam palavras de ordem de passeatas. E a brasileira Laura Lima elaborou um varal repleto de indumentárias que podem ser vestidas pelos visitantes.

Lisette Lagnado comenta sobre a relação arte/moda, reconhecendo as influências da moda na arte, mas que, em sua opinião, a moda instrumentaliza artistas para seus fins, esvaziando seus conceitos. Diz ela que a moda pode ser arte, mas que a arte não pode ser moda, e sublinha o interesse da moda por questões menos glamorosas e que propõem estéticas marginais (2006, p. E12).

Segundo a criadora milanesa Miuccia Prada, se há similitudes na maneira pela qual devemos nos deixar impregnar pelo ambiente e retranscrevê-lo sobre um objeto, as motivações da arte e da moda são completamente diferentes, sendo freqüentemente falaciosas e oportunistas. A criadora diplomada em Ciências Políticas reinvindica uma aproximação mais sociológica e busca acompanhar, a partir dos anos 90, o desenvolvimento das marcas, a emergência das segundas linhas e a globalização da moda numa escala planetária. Em 2000, para a abertura da boutique Miú-Miú, de preços mais acessíveis, ela utilizou a sede do partido comunista. Sendo assim, Miuccia Prada busca não participar da hipermediatização dos criadores.

O mundo da moda e do consumo que Baudrillard adjetivou de um mundo dos signos desligados da realidade, parece em seu movimento querer abarcar também esta última, como ilustra entre outros fatos o desfile para lá de excêntrico, realizado pelo Prêt-à-Précaire, com sua coleção carioca Fashion Real na Escola do Parque Lage. Na passarela ou nos espaços selecionados desfilam os excluídos que, utilizando estratégias do mundo fashion, realizam seu avesso, como bem demonstram fotos em negativos apresentadas na revista Global (2007, p. 23).

A idéia de maior interatividade parece efetivamente importante se levarmos em conta a opinião de Gilberto Dimenstein (2006) sobre a cultura contemporânea, em seu livro: O mistério das bolas de gude. Para o colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo, a invisibilidade é a principal causa da violência, maior ainda do que a pobreza. É a sensação de não-pertencimento à sociedade. Percorrendo diversos países, concluiu que o importante era oferecer meios para as pessoas se expressarem por meio da dança, da música, da poesia e do esporte. Nesse sentido, a ocupação fashion da cidade tem o sentido positivo como os programas sociais efetivos, das iniciativas do terceiro setor e das lideranças comunitárias. Instalações de resistência. Religação do cidadão, da cidade, do sujeito e da sociedade. A propósito, a antropóloga Teresa Caldeira (2005), da Universidade de São Paulo, sublinha o fato de que é importante a inclusão na vida da cidade para diminuir a segregação.

Em mais um de seus feitos interativos, Nick Knight – renomado fotógrafo e editor do site Showstudio.com – resolveu criar um editorial beneficente para a revista i-D. Como assim? Knight vai arrecadar dinheiro para Oxfam – uma organização que capta recursos para ajudar pessoas pobres no mundo, por meio de um editorial especial para a revista i-D que reúne top stylists, modelos e diretores de arte. Entretanto, as roupas usadas nesse editorial são de pessoas comuns e, após o editorial, que será transmitido ao vivo no site Showstudio, as peças serão leiloadas no E-bay. Ou seja, sabe aquele casaco incrível que você idolatra dentro do seu armário e nunca tira ele de lá? A peça pode entrar no editorial e, de quebra, você ainda faz uma boa ação. Para participar, o internauta deve preencher o formulário no site dizendo a razão de aquela peça ser especial e, ainda, enviar uma foto sua com a roupa para o endereço assinalado.

Fica, assim, a pergunta sobre a validade das negociações do mundo da moda e do consumo, com as estéticas periféricas que, se podem representar apenas apropriações, criar vítimas e exclusões, podem também propiciar estratégias de revitalização de espaços e de mobilizações de cunho democrático e/ou artístico.

É no espaço midiático que são construídas e desconstruídas aparências, dotadas de atitudes próprias. Um exemplo é a nova postura gay mais intelectualizada e menos “sarada”, que tem circulado no cenário da moda. Para Gringo Cárdia, “mostrar para o mundo a produção dos artistas de periferia, tão integrada à estética do cotidiano das grandes cidades, significa para eles algo inestimável, a construção de uma identidade” (Accioly, 2005, p. 23).

*Nízia Maria Souza Villaça é Professora titular da Escola de Comunicação/UFRJ

FONTE: Iara – Revista de Moda, Cultura e Arte, 2008

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Uma resposta to “A construção do corpo e as estratégias da moda II”

  1. Moda e psicologia | mulheresucesso Says:

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