“As pessoas não precisam estar mais bem-vestidas. Precisam ser melhores”

Entrevista_JumNakao

Imagem: Jun Nakao em “A Costura do Invisível

Jun Nakao, Maio de 2009

Estranho ouvir isso de um estilista? Pois a moda, para Jum Nakao, nada mais é do que uma “ferramenta de descoberta”. Ele não aposta em tendências e padrões, mas em um novo formato de mercado: “A gente precisa reconectar as pessoas à essência humana”. Desde que deixou a passarela mais importante do País, em 2004, decidiu dedicar a carreira ao resgate de valores. Ministra cursos no sertão, desenvolve objetos sustentáveis com comunidades na Amazônia. O que mais dói, conta, é perceber todo o potencial de recursos e saberes do País que fica “confinado ao silêncio”.

Qual é o papel que a moda pode desempenhar na sociedade?

Eu vejo a moda como a relação do indivíduo com o lugar em que habita, sua cidade, seu país, a sociedade. A moda não deveria ter a característica do isolamento, que faz as pessoas perderem o senso de coletividade, de cultura, de sociedade. Se pensar nos guetos, por exemplo, eles traduzem visualmente crenças e cultura. Enfim, a moda é a última camada após as suas convicções. A moda sedimenta tudo aquilo que você é.

Por que decidiu parar de desfilar na São Paulo Fashion Week, em 2004?

Para mim, o mais importante é transformar as pessoas. Eu não acho que as pessoas precisam estar mais bem-vestidas. Acho que as pessoas precisam ser melhores. Então, percebi que estava num sistema que tinha que ser repensado, com o qual eu não podia mais compactuar.

O que no seu trabalho destoava dos grandes eventos de moda?

Eu nunca acreditei nas tendências. Eu acredito muito mais na moda como uma ferramenta de descoberta, não como um mecanismo a ser trabalhado dentro de um senso comum. A moda tem esse pressuposto de que você precisa ser igual. Igual a modelos estabelecidos, dentro de uma tendência, uniformizado. Uma crença única que, pra mim, é uma forma muito emburrecedora de lidar com as potencialidades das pessoas. Meus desfiles eram quase que modulares as pessoas podiam recompor. Romper, para mim, foi uma questão ética. Eu preciso que as pessoas mudem, por isso decidi dedicar minha carreira às pessoas.

Seu último desfile simbolizou este rompimento?

Foi uma apresentação fora do convencional. Eu queria mostrar que não importa do que a roupa é feita. E só usei papel no projeto, que chamamos de Costura do Invisível. Um papel pode conter ideias capazes de mudar o mundo. Pode conter a escrita e todo o seu significado, e ao mesmo tempo é algo em branco, um desafio. É algo barato, que só tem valor se você atribui valor a ele. Minha ideia era transformar o papel num monumento, num sonho. Gastamos quase uma tonelada de papel para fazer a cenografia e as roupas, e mais de 700 horas de trabalho. Num evento onde as pessoas vão para enxergar tendências, cores, de repente apresentamos um desfile em branco. Mas era uma fábula, um momento de encantamento. As roupas eram fantásticas e aquilo criou um silêncio. As pessoas foram transportadas para outro lugar, para dentro de um conto. As modelos usavam perucas tipo “playmobil”, um elemento lúdico que rompia com a barreira entre público e obra, porque havia um regaste de memória. Quando o público achou que o desfile tinha terminado, as modelos rasgaram tudo.

Qual foi a reação da plateia?

Foi um baque. A plateia se jogou pra pegar pedacinhos rasgados, como se fosse possível guardar pedaços de um sonho. Com isso, mostrou-se que o invisível tem muito mais valor que o visível. Apesar de trabalhar num momento de extrema velocidade, de transformações, de efemeridade, uma obra em branco, se pulverizada, tem permanência. A ideia era falar: “Tá tudo errado, as coisas precisam ser mudadas”. E, para que as coisas mudem, a gente precisa reconectar as pessoas à essência humana. Tirá-las do “estado zumbi”. O objetivo era criar uma suspensão de tempo. Por um instante que seja, tiramos o chão daquelas 1.200 pessoas que estavam assistindo ao desfile. Espero que elas tenham refletido sobre o que está acontecendo.

Você deixou de acreditar na concepção dos grandes desfiles?

Eu continuo acreditando na importância da moda, mas tenho que pensar em novos processos. Estou sempre com alunos, em oficinas e palestras, porque preciso formar pessoas. Não para o mercado. Preciso formar pessoas capazes de criar novos formatos de mercado. Se os processos não mudam, os hábitos continuam os mesmos.

Diante da crise mundial, a moda deve se transformar?

Acho até curioso que uma crise como a que a gente vive esteja acontecendo, fazendo as pessoas pensarem nos seus conceitos, na sua cultura de consumo. Do que a gente precisa? Acho que esse primeiro quarto de século vai ser todo dominado por uma discussão sobre sustentabilidade, sobre novas éticas. Chegou um ponto em que é necessário reformular valores. Não há como imaginar que do jeito que está podemos continuar.

É preciso repensar os parâmetros de consumo?

O que mostra como uma comunidade vive é o consumo. Eu acho um absurdo que para a sociedade continuar existindo as pessoas tenham que consumir carros, por exemplo. Para suprir a necessidade atual do planeta inteiro, dentro dos hábitos atuais de consumo, precisamos de dois planetas. Se isso não mudar, é impossível falar em futuro. Uma outra questão é a própria hierarquia de valores. O valor do material é muito maior do que o valor do conhecimento. O de uma celebridade, muito maior que o de um pensador. A sociedade perdeu seus parâmetros. E não adianta as pessoas só falarem em “ecologicamente correto”, em “consciência de sustentabilidade”. Elas precisam comprar a ideia. Consumir não é ruim, é um ato político. Se você vai comprar um produto, tem que avaliar se ele está sendo produzido num sistema com o qual você concorda ou não. Desde que entrei no projeto Floresta Móbile, o que mais acho importante é que os produtos vendam. Senão a comunidade que acreditou no projeto como alternativa de sobrevivência vai voltar a queimar.

“Um país, para mim, não se define pelas fronteiras geográficas ou pelo PIB, mas pela cultura de seu povo.”

Como funciona o Floresta Móbile?

É um projeto grande, desenvolvido no mundo todo. Eu trabalho com uma comunidade carvoeira na Amazônia. Produzimos móveis com resíduos de madeiras que seriam queimados. Na contramão da antiga Revolução Industrial, partimos para a “revolução humana”. Resgatamos o valor de como é feito, não do que é feito. Se um saber está sendo aplicado, a natureza ganha fôlego para o reflorestamento. Queimando, se acaba com algo como um Estado de São Paulo por dia. Colaborar, dar vida, animar – no sentido de dar alma a coisas inertes – exigem um tempo diferente do da destruição. Jogar uma bomba é rápido, reconstruir demora. A proposta é que essas comunidades se dediquem a construir, não a destruir. Se esses projetos não derem certo, elas vão voltar a destruir. Por isso é muito importante que a sociedade compre a ideia, e não somente no plano filosófico.

Você tem andado muito pelo Brasil. O que tem visto?

O País é muito rico de recursos e saberes. Se você for para qualquer lugar do País, vai encontrar um Brasil diferente. Mas você sabe que é a sua casa. E as pessoas te reconhecerão como brasileiro também. Isso você não vai sentir em nenhum outro lugar do mundo. Essa questão da hospitalidade – ainda que não seja restrita aos brasileiros – mostra como entre nós existe, sim, uma comunhão. Entretanto, há uma cultura muito viva, mas que está sendo sufocada. Não precisa ir longe. No interior de seu Estado você pode descobrir coisas de que nunca ouviu falar. A verdade é que a gente só olha para o que está sendo vendido. Há um potencial muito grande de saberes que fica confinado ao silêncio. Se não há demanda por estes saberes, as pessoas que os detêm simplesmente partem para outras atividades que possam garantir o sustento. Se a sociedade só quer carvão, estas pessoas vão fazer queimadas. Ou vão morrer de fome.

Existe brasilidade na moda? É um caminho?

O que eu percebo é que há um certo risco nesse tipo de tentativa. Não podemos ter um pensamento isolacionista, achar que, para sermos brasileiros, temos que fechar as fronteiras e procurar a raiz. A cultura é um elemento transversal, um amalgamento de camadas. Não um retrato estático. Eu enxergo o Brasil com essa cara múltipla.

Essa multiplicidade muitas vezes é ignorada, não?

Eu lamento muito a situação cultural que o Pais vive. Um país, pra mim, não se define pelas fronteiras geográficas ou pelo pib, mas pela cultura de seu povo. A nossa, até por uma falta de base educacional, deixa de ter materialidade. E, assim, acabamos apenas assimilando o que vem de fora. O que mais me dói é perceber todas estas potencialidades e, ao mesmo tempo, este silêncio. O que as pessoas acreditam que seja o Brasil, além de futebol, samba e feijoada? Temos que acreditar na cultura, nas pessoas que pensam. E em pesquisa tecnológica, em pesquisa estrutural, em produção mesmo.

Como você dizia, falta valorizar o saber…

Como professor, em outros lugares do mundo, me chamam de “mestre”. Aqui não existe a valorização de quem lapida a cultura, a base. Como as coisas vão mudar? Precisamos de gente que entre na “guerrilha do bem”: que queira educar, fazer eventos, projetos democráticos, que mude pelo menos algumas pessoas.

Para finalizar: o que é brasilidade pra você?

O que mais caracteriza a brasilidade para mim é essa cultura antropofágica. Pegar o mundo inteiro, amalgamar e devolver de uma forma singular, cheia de gambiarra, de ginga. Pegar o sushi, devolver o sushi de morango. Pegar o hi-tech e transformar no low-tech, mas com muita alma, muito suingue. Essa coisa cultural, de falar todas as línguas desse País. Não apenas as verbais, mas essas línguas de saberes que se somam e produzem todo um caldeirão, um caldo único.

FONTE: Almanaque Brasil

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