Moda, Cultura e Sentido

Guy_Bourdin
Imagem: Foto de Guy Bourdin

*Por Renata Pitombo

O homem se veste e enquanto tal exerce sua atividade significante; portar uma vestimenta é fundamentalmente um ato de significação, para além dos motivos de pudor, proteção e adorno. “Se vestir é um ato de significação e, portanto, um ato profundamente social instalado no coração mesmo da dialética das sociedades”, defende Barthes. (…)

Em um de seus pequenos, mas astutos artigos dedicados ao tema da vestimenta, Barthes a identifica como um fenômeno concernente a todo ser humano, na medida em que diz respeito a todo corpo humano, a todas as relações do homem com seu corpo e também deste corpo com a sociedade. (…)

(…)Georg Simmel recorre ao elemento da imitação, mas o trabalha sempre de modo binário: imitação/distinção, ressaltando o processo dialético entre a necessidade de imitar e a vontade de se diferenciar do ser humano, dinâmica que se encontra completamente incorporada ao modo de funcionamento do fenômeno da moda de uma maneira geral e também no campo do vestuário, de uma forma específica. Mas é justamente no setor da vestimenta, em especial, que o autor concentra seus argumentos em defesa de que é o capricho de distinção das classes ditas superiores que engendra a novidade, que é, por sua vez, imitada pelas classes inferiores, o que induz, mais uma vez, as classes superiores a investirem em uma outra novidade e assim por diante, num ciclo contínuo. Esse ciclo explicaria o porque do fenômeno moda, segundo o autor. (…)

Propõe Marshall Sahlins (…) que a indumentária não reproduz apenas as divisões e subdivisões entre grupos etários e classes sociais, mas também a distinção entre feminilidade e masculinidade tal como é conhecida na nossa sociedade. Do mesmo modo, pode-se reconhecer através do vestuário a demarcação entre cidade e campo e, dentro da cidade, entre o centro e os bairros residenciais, assim como também a distinção entre a esfera pública e a privada. Além dessa marcação espacial, vê-se uma distinção do próprio tempo – diário, semanal, sazonal. Tem-se roupas para a noite e roupas para o dia, vestidinhos de fim de tarde, entre outros. “Cada uma referencia a natureza das atividades determinadas por aqueles períodos de tempo, da mesma maneira que as roupas de domingo estão para as roupas de dia de semana como o sagrado está para o profano” (SAHLINS, 1979, p.202).

(…) Embora possamos reconhecer talvez o risco de uma análise que vê a roupa como reflexo de, representação de, herdeira de uma certa noção de simbólico que se oporia à idéia de imaginário, o trabalho de Sahlins é já um passo na direção de uma concepção mais abrangente do fenômeno moda.

Num espaço talvez intermediário entre a análise de Sahlins e a de Michèle Pagès-Delon, que exibiremos a seguir, encontra-se o trabalho do francês Frédéric Monneyron, La Frivolité Essentiel (2001), cujo esforço é o de compreender o fenômeno moda à luz das ferramentas lançadas por Gilbert Durand, através da sua teoria do imaginário, desenvolvida em As Estruturas Antropológicas do Imaginário. O autor defende a hipótese de que o imaginário da moda fornece a possibilidade de penetrar na superfície social, nas profundezas societais, percebendo seus esquemas, arquétipos, e por conseqüência, as grandes estruturas antropológicas que definem uma época e que lhe dão sentido. A partir deste pressuposto, Monneyron utiliza a definição de Durand dos três grandes gêneros estruturais de imagens fomentadas pela imaginação humana, a saber: as estruturas esquizomorfas ou heróicas, que revelam o regime diurno do imaginário; as estruturas místicas e as estruturas sintéticas que, ambas, revelam o regime noturno do imaginário para analisar não apenas as tendências da moda por época, bem como para enquadrar a criação pessoal de alguns estilistas.

(…)Desse modo, o autor afirma, por exemplo que as imagens de moda produzidas entre 1965 e 1970, alta costura e prêt-à-porter, revelam o regime diurno do imaginário, e mais particularmente, as estruturas esquizomorfas. Já a moda dos anos 70 se caracteriza por uma imersão total das imagens no regime noturno, entre estruturas sintéticas e místicas. Na década de 80, particularmente no período que se estende entre 1981 e 1987, há um predomínio das estruturas heróicas, que atingem seu apogeu em 87 com a coleção alta costura de Christian Lacroix, marcada pela suntuosidade e referências mediterrâneas. Com os anos 90, as estruturas sintéticas e místicas se propagam através da confusão de épocas, culturas, gêneros. A pregnância das estruturas místicas se manifesta através da exigência de conforto, de uma relação de quase fusão entre corpo e vestimenta, uma procura interior e uma demanda mística de ligação, cujo trabalho minimalista de Hussein Chalayan e de seus colegas japoneses são a expressão mais significativa.

Sinteticamente exibido, o itinerário desenvolvido por Monneyron, através do imaginário da vestimenta e da moda(…) parece se fragilizar na medida em que tenta afastar, de modo excessivo, a vestimenta da identificação recorrente com a futilidade, a frivolidade. Opera, nesse sentido, um empenho gigantesco, pretencioso, talvez, em busca de aceder ao imaginário global de uma sociedade através do imaginário da moda e da vestimenta. (…) Além de aplicar de maneira muito reducionista os conceitos elaborados por Durand (…).

Vislumbramos uma aproximação da abordagem que intentamos privilegiar aqui no trabalho da socióloga Michèle Pagès-Delon, que talvez dê um passo à frente de Sahlins no que diz respeito à analise do vestuário. Ainda que tenha uma forte inspiração de cunho sociológico, a autora também se desvencilha do refrão da distinção social pura e simplesmente e integra a dimensão simbólica da moda de modo interessante, propondo, de fato, uma relação dialógica, e, talvez, nesse sentido, lúdica, entre a aparência corporal como construção social e enquanto espaço de criação individual.

(…)

Outro fator importante na análise de Michèle é a crítica que a autora faz a uma determinada corrente de pensamento que interpreta a busca da excelência corporal como um índice do aumento do individualismo e do narcisismo de certas camadas sociais, como sugere Gilles Lipovetsky, por exemplo, em O Império do Efêmero, David le Breton em Corps et individualisme ou mesmo certas considerações de Baudrillard. (…)

(…)Michèle nos convida a observar as relações estabelecidas entre o corpo e a roupa, destacando, ao menos, três modos de diálogos possíveis entre esses dois elementos ou três modos de apropriação diferenciados do vestuário, que como arriscamos interpretar corresponderiam, por sua vez, a modos distintos de atribuição de valores à indumentária: a primeira delas conceberia a roupa como elemento de valorização do corpo, cujo dispositivo semiósico estaria relacionado aos valores de beleza e sedução;

(…) através da vestimenta, a estética corporal é visada, porque ela permite seja por em evidencia algumas das partes julgadas como particularmente atraentes, seja a dissimulação de imperfeições corporais inadmissíveis para os atores sociais que tem uma expectativa quase artística do corpo (PAGES-DELON, 1989, p.66).

O segundo veria a aparência como “estado da natureza” e, portanto, encontraria-se próximo aos valores utilitários de proteção do corpo: “Nenhum aspecto lúdico de sedução deve ser vislumbrado pela vestimenta, nenhuma preocupação estética; a vestimenta deve ser adaptada às condições de vida e sobretudo a um corpo que é antes de tudo percebido como máquina destinada a trabalhar ou/e que deve antes de tudo ser preservada em bom estado” (Idem, p. 69).

E o terceiro trataria o vestuário como uma “segunda pele”, no sentido em que valorizaria sobretudo o conforto, a liberdade de movimentos, etc, revestido de um valor ligado à saúde e ao bem estar pessoal.

As vestimentas aqui são concebidas como uma “segunda pele”. Estar a vontade numa roupa confortável é o princípio fundamental: “o corpo não deve ser nulamente restringido nem por uma roupa, nem por outras condições percebidas como coercitivas. (…) É a liberdade do corpo que é aqui visada” (Idem, p.71).

(…)

Um dos fatores mais enfatizados pela autora é a condição de possibilidade de reconhecimento que a aparência corporal permite. Levando-se em consideração cada um desses modos de apropriação da roupa em sua relação com o corpo, o importante é lembrar que é através deles que o reconhecimento do outro se efetiva e essa é a condição primeira de sociabilidade (no dizer Simmeliano) ou mesmo interação (à la Goffman) que faz sociedade, que engendra comunicação. A aparência corporal aparece, assim, não apenas como um sub-produto da vida social, o efeito combinado de diversos determinismos estruturais e culturais, mas sim como uma fonte e aposta fundamental na dinâmica da socialização. Pode ser considerada como uma instância imaginária e mítica, na medida em que revela uma relação entre o indivíduo e o mundo, entre o indivíduo e os outros e entre o indivíduo e a sociedade.(…)

*Renata Pitombo é jornalista, mestre e doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Faculdade de Comunicação da UFBA.

Leia o artigo na íntegra AQUI

Anúncios

Uma resposta to “Moda, Cultura e Sentido”

  1. Moda e psicologia | mulheresucesso Says:

    […] Moda, Cultura e Sentido […]


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: