A Roupa Como Linguagem

Ellen_Von_Unwerth
Imagem: Foto de Ellen Von Unwerth

*Por Sergio Lage

As roupas não são apenas vestimentas que protegem o corpo ou adereços e adornos que nos embeleza. As roupas, como todos os objetos usados no cotidiano pelos homens, são partes da nossa existência diária, traduzem estados de espírito e identidades pessoais.

Elas preenchem o mundo de sentido e significado e nos ajudam a construir diversas narrativas e expressões sobre nós mesmos: sobre quem somos ou como queremos ser vistos, a nos diferenciar ou criar identificações, a ocupar posições ou oposições dentro do grupo.

A roupa nos constrói e tem um poder sobre nós. Ela é um elemento forte da nossa cultura material. Ela nos ajuda a construir universos de sentido e significação, representações e símbolos visuais sobre aspectos de nosso self e de nossa identidade pessoal e social. Nas nossas relações com o mundo, com os outros homens e com os objetos que nos cercam construímos nossa cultura e quem somos.

Não se pode querer compreender o comportamento e as atitudes do consumidor sem entender antes o que a posse, os usos e representações destes bens significam para ele. Uma forma de se fazer isso é reconhecer que eles consideram e vêem suas posses como partes deles, conscientemente ou não, intencionalmente ou não. As roupas são dentre todos os objetos aqueles que sempre carregaram a maior carga de valor sígnico. Através das roupas podemos entender a organização e a dinâmica político-social de um período, os tipos de interações e relações humanas e sociais, entender o comportamento e a sensibilidade de uma época e também contar histórias pessoais da vida cotidiana, pois as roupas nos falam, acima de tudo, de emoções, experiências e conquistas.

É comum nos descrevermos, destacando certos traços característicos de nossa personalidade atribuídos por outros. Também é muito comum usarmos categorias sociais objetivas como: sexo e idade, classe e escolaridade, pertencimento cultural e filiação familiar para dizer quem somos. Hoje em dia não usamos apenas estas informações ou características pessoais, mas dizemos quem somos através de muitos outros canais: nossos interesses, práticas, opiniões, de outras pessoas e participação em lugares ou eventos, através de hábitos de mídia e consumo, posse de certos produtos e marcas.

Usamos cada vez mais objetos e marcas para ajudar a nos descrever. Muitas vezes são estas coisas: etiquetas e roupas, que nos atribuem senso de identidade social e nos auxiliam a construir, projetar e ativar nossa auto-imagem ou marca pessoal. No teatro de aparências e representações da vida contemporânea todos buscam visibilidade e reconhecimento, querem ser identificados ou diferenciados dentro dos diversos grupos sociais coexistentes.

Os produtos e marcas são usados como marcadores sociais, promotores de estilos de vida, de distinção e originalidade pessoal. São códigos e manifestações que carregam sentidos e significações, exprimem padrões de sensibilidade e comportamento compartilhado e expressam nosso gosto e estilo. Por isso que dizemos que as roupas são comunicadores sociais, com uma linguagem própria e poderosa, que carrega uma força simbólica enorme.

Os objetos que possuímos, usamos ou consumimos, mandam mensagens sobre quem somos, como queremos ser vistos e aspiramos ser. Nosso consumo preenche muito pouco nossas necessidades materiais e funcionais. Ele é atravessado por um profundo valor emocional e simbólico. Nosso corpo e nossa casa são os suportes sobre os quais inscrevemos projetos e narrativas, mensagens e códigos: um sistema e meio de comunicação.  Uma comunicação rica em metáforas e aliterações. Nós falamos através das nossas roupas, da nossa casa e dos nossos objetos. São signos visíveis de nossa condição social e de nossa auto-expressão pessoal. Uso minha casa e meu corpo para dizer quem sou. Eles são os últimos espaços privados de liberdade criativa que restaram aos indivíduos. Nossos interesses e preferências de consumo transmitem mensagens sobre nossa identidade e status social. Produtos e marcas pessoais nos ajudam a confirmar a própria imagem e definir nossas frágeis fronteiras de subjetividade, mas também prometem a experiência de novas identidades e da transformação de si.

Interagimos social e simbolicamente com diversos grupos e indivíduos nas diversas escolhas que fazemos e nos signos e imagens que consumimos. Uma roupa, um objeto ou acessório é uma mensagem que efetivamente utilizo para transmitir algo sobre mim.

Os homens, muitas vezes, se definem mais pelas suas posses que por aspectos de natureza interna. Através de objetos e roupas, desenvolvemos uma linguagem que é fortemente definida pela publicidade que estabelece padrões e atitudes, gostos e interesses. As mercadorias se vêem transformadas em objetos de comunicação e portadores de identidade social.

*Sérgio Lage é mestre em Sociologia e Publicidade e Marketing pela USP. Professor Universitário nas áreas de Antropologia do Consumo e Cultura Material, Tendências, Comportamento e Consumo, Posicionamento Estrátégico de Marca e Consumidores. Sérgio tem ainda uma consultoria na área de Comportamento e Tendências chamada What´Z´on – estudos e idéias. Nas horas vagas, adora escrever textos e crônicas sobre a vida moderna nos blogs Alto Valor Agregado e Vidas no Singular.

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5 Respostas to “A Roupa Como Linguagem”

  1. Wilson Saraiva Says:

    Olá prof .
    Pode-se medir o comportamento de um cliente dentro da loja ,atraves da roupa que ele está usando no momento da compra?
    Ou ainda : Pela roupa que ele está usando , pode-se identificar sua personalidade ou estado psicologico no momento da compra?

  2. Grupo Papeando Says:

    Olá Wilson,
    suas perguntas são complexas demais para o nosso curto espaço de diálogo. De forma bem simplificada: a roupa pode oferecer indicações sobre o estado psicológico momentâneo de uma pessoa, e também sobre parcela da personalidade dela, pelo menos da parte que ela se sente confortável para mostrar ao mundo exterior. Os sinais comportamentais enviados pela roupa, contudo, não podem ser interpretados isoladamente, há vários outros fatores que precisam ser levados em consideração como, por exemplo, expressões faciais e linguagem corporal da pessoa. Além disso, o comportamento do consumidor é influenciando por vários fatores, e a maioria deles é desconhecida inclusive daquele que consome. O psicólogo Daniel Khanemann , ganhado do Nobel de Economia, e outros estudiosos do comportamento do consumidor, têm demonstrado em estudos que a tomada de decisão voltada ao consumo é um processo essencialmente emocional e pouquíssimo consciente.

  3. A Missão da Roupa: Da Moda ao Discurso Nas Performances Says:

    DESIGN SENSUAL

    Nos fazemos atrair,
    não só pela estética física,
    mas pelo que podemos fazer o
    outro sentir.
    Assim como admiramos o outro,
    não só pela embalagem que ele veste:
    o próprio corpo, a roupa;
    mas pelo que ele nos leva a sentir.
    Tudo é uma composição de faces.
    A mulher que atrai menos pela face,
    Pode hipnotizar mais pelo descruzar de pernas.

    BOICOTA-SE A VIDA AO DEIXAR DE REVELAR SEU MELHOR DESIGN, O MELHOR DO SEU CORPO.

    ……………………….
    …………………………..

    (Página 146, livro A Missão de Roupa: Da Moda ao Discurso Nas Performances – Autor: Mamede de Alcântara)

  4. Moda e psicologia | mulheresucesso Says:

    […] A Roupa Como Linguagem […]

  5. Personal Stylist, personal o quê? Says:

    […]  “A Roupa Como Linguagem”, por Sérgio Lage, Mestre em Sociologia e Publicidade e Marketing pela USP > Clique AQUI […]


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