O Estilo: Uma ponte entre a moda e a individualidade

Solve SundsboImagem: Foto de Solve Sundsbo

Por Angelita Corrêa Scardua

A percepção humana do corpo, e do impacto que a relação com ele exerce sobre o indivíduo e o grupo, nos leva a duvidar de que a roupa, nosso invólucro sociocultural, seja apenas um abrigo para nos proteger dos elementos. A história da moda indica que a vestimenta também não é um simples recurso moral para distinguir os “salvos” dos “perdidos”, muito menos um mero divisor de águas entre pobres e ricos. A psicologia do imaginário parece indicar que o que vestimos vai muito além das tendências estilísticas disseminadas pela mídia. O vestir-se, então, revela-se um mosaico de percepções, necessidades e motivações que oscilam entre dois mundos:

– O mundo objetivo dos valores econômicos, morais, físicos e culturais. Nesse espaço – mediado pelo conjunto social e pelas condições de vida –, a roupa adquire funções de proteção, status socioeconômico, identidade grupal, representação de gênero e atribuição moral. Assim, o lugar que ocupamos no mundo, e aquele que acreditamos querer ocupar, materializa-se nas roupas que escolhemos vestir.

– O mundo subjetivo dos afetos, fantasias, desejos e complexos. Nesse espaço – mediado pelo inconsciente individual e coletivo –, a roupa exerce a função de linguagem, estabelecendo a comunicação entre aquilo que somos e o que queremos ser/parecer. Nossa personalidade: nossos medos, inseguranças, fraquezas, talentos, forças e potencialidades insinuam-se por meio das roupas que escolhemos usar.

Mas, se a roupa pode nos inserir no mundo objetivo das convenções socioculturais e, ao mesmo tempo, revelar aquilo que nos distingue individualmente, até que ponto a moda – como definidora de tendências para o vestir – pode interferir na construção de um estilo pessoal? A questão se coloca porque uma das características da moda, como indústria, é definir o que é ou não adequado em termos de vestuário. Ou seja, a princípio, a moda parece propor a distinção das pessoas em elegantes ou não, bem-vestidas ou não, detentoras de estilo ou não. Dessa forma, até que ponto a roupa escolhida por alguém não revela apenas o quão dependente ela é dos padrões estabelecidos socialmente? Ou, ainda, o quanto a roupa que vestimos não é um mero símbolo do lugar social que ocupamos? Resumindo, a escolha de uma roupa, num mundo dominado pela indústria da moda, pode realmente oferecer espaço para a expressão da individualidade?

Individualidade no vestir, contudo, não pode ser confundido com originalidade. Não há originalidade no vestir-se! Porque não há? Por duas razões essenciais:

– A primeira razão é que a individualidade pura, a noção de um ser único, é uma idealização. Todos nós somos afetados pelo contexto sociocultural no qual vivemos. Isso inclui tudo o que já foi produzido pela humanidade; conscientemente ou não, cada um de nós carrega a herança imaginária da nossa espécie. Não há, de fato, uma individualidade intocada pelas crenças e valores do grupo social. Individualidade, portanto, seria muito mais caracterizada por uma capacidade de traduzir e significar as experiências que já foram e são vivenciadas por muitas pessoas.

– A segunda razão, diz respeito à primeira, é que fazer roupas é uma experiência muito velha dos seres humanos. Nossa relação com o vestir parece ser mais velha do que a linguagem falada, a descoberta do fogo ou a religião. Pode-se dizer que, há muito tempo, não há invenções na moda. Tudo o que se faz atualmente no âmbito das roupas são releituras do que já foi criado em algum momento da história humana.

Parece claro que individualidade e moda são dois conceitos “datados”. Como não é possível ser inédito, nem no que diz respeito à moda, nem no que concerne à individualidade, é válido perguntar-se o que seria o estilo. Afinal, soa razoável pensar que estilo e individualidade andam juntos.

Rasteiramente falando, ser um indivíduo, e expressar essa individualidade, implica em conseguir estabelecer os próprios limites, mesmo quando a coletividade avança sobre aquilo que é singular com suas regras, guias, normas e padrões. Nesse sentido, a moda não é uma ditadura, um regime de força que impossibilita a liberdade de escolha. A moda é apenas um conjunto de tendências sobre o que vestir, onde e como.

Se uma pessoa torna-se vítima da moda – e, com isso, subtrai a própria identidade, passando a ser apenas um repositório de marcas, modelagens e cores – não é um problema da indústria, mas da pessoa. A individualidade, como meio de expressão de nossa singularidade, ou seja, como veículo para externalizar aquilo que é próprio de cada sujeito, não é algo que um outro nos atribui ou conceda, é uma conquista pessoal. Nesse aspecto, o estilo é parte integrante da individualidade, ou, pelo menos, deveria ser!

Tal como a individualidade, o estilo seria o resultado das experiências que fazem com que uma pessoa perceba-se como sendo distinta de outra. Nos dois casos, a percepção pessoal seleciona, da interação com o mundo externo, os elementos – símbolos, fatos, eventos, sensações, emoções, sentimentos, objetos, texturas, cores, etc. –, que melhor possibilitem a produção de um repertório afetivo e cognitivo. Conferindo, assim, significado às experiências vividas e estruturando-as no mundo interno. Para fazer essa seleção, o sujeito utiliza alguns critérios:

– No caso da individualidade, a seleção é feita por traços de personalidade herdados, condições materiais de vida, herança cultural, valores e crenças aprendidas…ou seja, tudo aquilo que constitui a noção que uma pessoa tem de ser um sujeito com uma história própria.

– No caso do estilo, a seleção é feita pelos resultados obtidos ao longo da própria história. Assim, a profissão, os interesses pessoais, a maneira de se obter lazer, a relação com o corpo, o ritmo de vida, etc., são utilizados para definir o estilo de cada indivíduo.

O estilo seria, portanto, uma expressão da vida que o indivíduo constrói. Uma manifestação de individualidade. Como dito anteriormente, a vida de um indivíduo não é original porque baseia-se em experiências comuns à condição humana. Logo, a individualidade não está isenta da influência do meio social. Conseqüentemente, o estilo individual não está isento da influência da moda, sendo esta uma produção social. Mesmo quando alguém se pretende anti-moda, toma a moda por referência ao fazer oposição a ela. Mais, não estar na moda não é o mesmo que não usar roupa de moda, pois algo que não está na moda hoje, esteve um dia.

Reiterando: não parece possível criar uma roupa que nunca foi criada. Ainda que as inovações tecnológicas (re)criem tecidos e cortes. As “novidades” no campo da moda dizem muito mais respeito à incorporação de formas, cores e texturas de culturas diversas do que ao ineditismo das criações. Toda novidade na moda é uma apropriação, sejam os véus adotados pelas islâmicas por influência do modo de vestir das mulheres cristãs bizantinas; seja o corte império no século 19 como uma releitura das vestimentas gregas; seja a mini-saia de Mary Quant como uma atualização das togas etruscas e dos saiotes romanos.

Se a moda que se faz hoje é um desdobramento do passado – assim como os indivíduos atuais são uma extensão dos muitos humanos que por aqui passaram – o estilo, como expressão da individualidade, nada mais é do que a releitura de uma história de vida.

É quase certo que uma pessoa que conhece as próprias motivações para viver dessa ou daquela maneira, e que aprecia a própria história – participando ativamente de sua construção – tem muito mais chances de desenvolver um estilo pessoal. De elaborar uma forma de vestir-se para o fruir da experiência e não para assisti-la. Ou seja, de fazer valer o seu desejo sobre as determinações do grupo. O que não quer dizer, obviamente, ser único e original mas, sim, ser aquele que consegue recriar a experiência compartilhada no mundo externo a partir das referências pessoais que alimentam o mundo interno.

Anúncios

Uma resposta to “O Estilo: Uma ponte entre a moda e a individualidade”

  1. Lilian De Paula Says:

    Estou fazendo uma monografia sobre psicanálise e moda e em minhas pesquisas encontrei o seu texto. Gostaria de parabenizá-la pela qualidade e perguntar e ele não está disponível em outro lugar para que eu possa usar como uma das referências do meu trabalho.

    Obrigada pela atenção e parabéns mais uma vez.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: