Freud e a Parapsicologia: Parte II

Macbeth_consulting_the_Vision_of_the_Armed_HeadMacbeth Consultando a Visão da Cabeça Armada” por Henry Fuseli (1741 -1825)

*Por Paulo Urban

Revista de Psicanálise em Circuito Nacional, ano IX, nº 85, maio de 1996.

Mas o que havia em “Psicanálise e Telepatia” que teria feito Jones haver demovido o mestre de sua publicação?

Ora, Freud analisa três casos contundentes de transmissão de pensamento; e para maior temor de seu discípulo, propõe uma interpretação psicanalítica para o fenômeno. Veremos aqui os dois primeiros, mais interessantes.

O primeiro caso é o de um paciente seu, estudante de filosofia, a quem Freud analisara alguns anos antes da guerra e que durante a terapia revelara seu desejo incestuoso pela irmã mais nova. Esta, cujo namoro não era aprovado pelos pais, pede ao irmão que interceda por ela e por seu pretendente, um jovem engenheiro. Solidário à irmã, convence seus pais a autorizarem o casamento, mas leva o cunhado a uma aventura de alpinismo nas montanhas, onde sofrem apuros e perigo de queda. Freud aponta a realização da aventura como fruto de um desejo tanto homicida quanto suicida, ao que o paciente pouco refuta.

Interrompendo a análise, retorna um ano mais tarde, já doutor em filosofia, e conta o incrível caso de uma vidente a quem teria visitado em março último, que fazia profecias baseadas em cálculos a partir da data do nascimento das pessoas. Tendo-lhe fornecido a data de nascimento de seu cunhado, ficou estupefato ao ouvir que de acordo com o oráculo essa pessoa morreria em junho ou agosto próximo devido a uma intoxicação causada por ostras e caranguejos.

Freud argúi que se estavam em novembro e a profecia fora feita em março, o que haveria de extraordinário nela, posto que nem ao menos havia se cumprido? Para espanto seu, o paciente lhe revela que era certo que a previsão não se cumprira, mas que seu cunhado adorava ostras e mariscos, e que em agosto do ano passado havia sofrido a citada intoxicação, quando esteve quase a ponto de morrer.

Freud explica: “A adivinha não podia ter conhecimento da intoxicação por caranguejos já sofrida por um sujeito nascido em determinada data, nem tampouco tê-lo adquirido por meio de seus cálculos e tabelas. Outrossim, tal conhecimento se encontrava no consulente. Todo o ocorrido se explica integralmente se aceitarmos que o conhecimento tenha se transferido dele para ela, a pretensa profetisa, por algum caminho desconhecido que exclui as formas habituais e familiares de comunicação. Isto significa que deveríamos admitir a transmissão de pensamento. …Cremos poder reconstruir o curso das idéias que nosso jovem teve depois da doença e recuperação de seu cunhado tido como rival; “Bem, desta vez saiu com vida, mas nem por isso renuncia a seu perigoso romance com minha irmã, e “espero” que da próxima vez morra por isso. Foi este “espero” que se converteu em profecia, …demonstrando a análise do caso que o conteúdo da dita profecia coincide com o da realização dos desejos”; o que de certo modo desmistifica a figura da vidente, que anunciando adivinhar o futuro nada mais fazia do que simplesmente “ler” pensamentos, o que já é uma distinção, sendo que nos casos em que acertasse algo o fizesse devido à existência de um forte desejo inconsciente presente naqueles que a procuravam, a atuar como fator facilitador do fenômeno.

Freud interessou-se tanto pelo fenômeno que em carta a Ferenczi, em 15 de fevereiro de 1910, deu-lhe o endereço desta adivinha, Frau Arnold, para que pudesse consultá-la.

O segundo caso é o de uma mulher ansiosa por ter filhos, cujo marido, um primo seu, não tendo mais como ocultar seu segredo após oito anos de casamento, revela-lhe ser estéril. A esposa desenvolve por causa da notícia uma grave neurose, sendo internada. Após mais de uma década de enfermidade, chega às mãos de Freud. Aos 40 anos, sem filhos, conta a Freud que visitara certa feita, quando tinha 27 anos, um vidente que lia o futuro sem nada perguntar, apenas analisando a impressão deixada pela mão espalmada contra uma caixa de areia. Ter-lhe-ia dito na ocasião: “Em futuro breve terá que suportar graves conflitos, mas tudo acabará bem, você se casará aos 32 anos e terá dois filhos”.

“Mas não foi este o caso, a mulher já contava 40 anos e não tinha filho algum. Qual seria pois a origem e o significado de tais números? A própria paciente não tinha a menor noção a respeito”.

Freud descobre, entretanto, que “as cifras, de fato, adaptavam-se de forma inconteste à vida da mãe da paciente. Aquela havia se casado somente após os 30 anos, precisamente aos 32, diferentemente da maioria das mulheres, e querendo recuperar seu atraso, teve dois filhos em um mesmo ano. Portanto, a profecia é suscetível de se traduzir facilmente assim: “Não te aflijas por tua atual infecundidade; isto não quer dizer nada, pois todavia pode ocorrer-te o mesmo que à tua mãe, que à tua idade nem sequer estava casada e mesmo assim teve dois filhos aos 32 anos. …Teremos a liberdade de incluir, como premissa desta realização de desejo totalmente inconsciente, uma aspiração a mais: “A morte te libertará de teu marido, ou bem acharás a força para separar-te dele”. …De acordo com isso, deveríamos considerar este exemplo como prova quase incontroversa para a possibilidade da transferência de um desejo inconsciente e dos pensamentos e conhecimentos que dele dependem”.

Nove anos antes de tê-los escrito, Freud já houvera falado a respeito desses seus dois incríveis casos a Ferenczi que, por sua vez, há muito já vinha seguro da realidade da telepatia. Eitingon, Rank e Sachs também se impressionaram com os relatos, mas Jones permanecia cético. Este discutiria mais tarde com o mestre, decepcionado que ficara com a publicação de “O Significado Oculto dos Sonhos”, em 1925, texto em que Freud claramente indicava sua aceitação da telepatia.

Pouco antes disso, Freud escrevera a Jones, após ter lido o “Relatório sobre experiências da Telepatia com o Prof. Murray”, registrado nas atas da S.P.R. de Londres sob a data de 24 de dezembro de 1924: “Confesso que a impressão produzida por esses relatórios foi tão forte que estou pronto a abandonar minha oposição à existência da transferência do pensamento, embora eu naturalmente não possa dar a menor contribuição para explicá-la. Eu deveria até estar preparado para emprestar o apoio da psicanálise à questão da telepatia”.

No texto de 1925, motivo da citada contenda entre Jones e seu mestre, Freud é claro: “Presume-se que existam duas categorias de sonhos atribuíveis aos fenômenos ocultos, os proféticos e os telepáticos. A favor de ambos advoga uma inumerável quantidade de testemunhos, contra ambos, a tenaz aversão ou como queiram, o preconceito da ciência”.

E ressalvando que a aceitação de tais fenômenos não alteraria em nada sua teoria sobre os sonhos, continua: “Bem diferente é o que ocorre com os sonhos telepáticos, mas a respeito cabe-nos advertir, antes de tudo, que ninguém afirmou todavia, que os fenômenos telepáticos – a recepção de um processo psíquico alheio a uma pessoa que o capta através de uma via distinta da percepção sensorial – ocorram exclusivamente nos sonhos. Por conseguinte, tampouco a telepatia se constitui numa questão onírica, e o juízo sobre sua existência não precisa fundamentar-se no estudo dos sonhos telepáticos.

Se submetermos os testemunhos sobre os fenômenos telepáticos à mesma crítica que nos tem servido para refutar outras afirmações ocultistas, comprovaremos que resta um apreciável material que já não é tão fácil de descartar”. E mais adiante, posiciona-se abertamente: “Também em experiências realizadas em círculos íntimos se há obtido a impressão de que não é difícil transmitir lembranças de intenso teor afetivo. …Múltiplas experiências me levam a deduzir que tais transmissões são particularmente facilitadas no momento em que uma idéia surge no inconsciente, a dizer, em termos teóricos, enquanto passa do processo primário ao processo secundário.

Em que pese a abrangência, novidade e as incertezas do tema que nos obrigam a proceder com maior cautela, já não creio seja conveniente calar estas considerações sobre a questão da telepatia”.

Jones explodiu, mas não sem razão. Artigos confusos surgiram na imprensa popular criticando a psicanálise e expondo Freud ao ridículo. Os místicos, que já interpretavam religiosamente o conceito de pulsão de vida, sentiam-se agora mais respaldados em suas impropriedades.

Jones, pouco antes da publicação do polêmico texto de 1925 escrevera ao mestre: “…na Inglaterra, pelo menos, uma grande parte da oposição à psicanálise baseia-se na idéia imaginária de que ela opera com agentes (a psique) que são considerados independentes do corpo. O preconceito contra a telepatia é também tão forte que qualquer mistura dos dois assuntos só poderia ter um efeito, o de retardar a assimilação da psicanálise”.

Em resposta, Freud escreve-lhe: “Nosso amigo Jones parece estar muito infeliz em virtude da sensação que minha conversão à telepatia causou nos periódicos britânicos. Ele se lembrará de como cheguei perto da conversão na comunicação que tive oportunidade de fazer no Hartz”.

E imediatamente após a publicação de “O Significado Oculto dos Sonhos”, Jones dá seqüência à discussão: “Mas o sr. é feliz por viver num país onde a Ciência Cristã, junto com todas as formas da chamada “pesquisa psíquica” misturada com prestidigitação e quiromancia, não prevalece, como aqui, de modo a aumentar a oposição a qualquer psicologia. Aqui foram escritos recentemente dois livros tentando desacreditar a psicanálise apenas com esse pretexto”.

E rebatendo a estas últimas críticas, Freud fecha a questão em carta circular de 07 de março de 1926: “Lamento muito que minha manifestação sobre telepatia o tenha lançado em novas dificuldades. Mas é realmente difícil não ferir as suscetibilidades dos ingleses… Não tenho perspectiva de pacificar a opinião pública na Inglaterra, mas gostaria pelo menos de explicar-lhe minha aparente incoerência na questão da telepatia… Hoje, a revisão de “A Interpretação dos Sonhos” para a Edição Reunida foi um incentivo para reconsiderar o problema da telepatia. Além do mais, minhas próprias experiências com testes que fiz com Ferenczi e minha filha adquiriram uma força tão convincente para mim que as considerações diplomáticas, por outro lado, tiveram de abrir caminho. …Quando alguém expõe minha queda no pecado, apenas respondo calmamente que a conversão à telepatia é assunto particular meu, tal como meu judaísmo, minha paixão pelo fumo e muitas outras coisas…”

Sete anos mais tarde, em 1933, publicou “Sonhos e Ocultismo”, texto que reapresentava três antigos casos de telepatia somados a um outro ainda inédito. Após apresentar os que já eram conhecidos, comenta: “A questão que sem dúvida mais interessa, se podemos crer na realidade objetiva destes fenômenos, a psicanálise não pode resolvê-la diretamente, mas o material trazido à luz com seu auxílio, propicia, pelo menos, uma impressão favorável a seu respeito”.

Discorre então sobre um paciente seu que citava ter sido apelidado por uma namorada de “Herr von Vorsicht”(Don Prudêncio). Não causaria espécie em Freud se não tivesse há menos de uma hora recebido em seu consultório o Dr. David Forsyth, recém-chegado de Londres, cuja visita o interessava grandemente, visto ser o primeiro acadêmico a procurar-lhe após o término do bloqueio continental ocasionado pela guerra, para iniciar-se na psicanálise.

Não podendo atendê-lo prontamente, pediu-lhe que retornasse mais tarde. Durante a consulta seguinte foi aos poucos ficando deslumbrado com a série associativa de idéias de seu paciente. Este, inclusive havia vivido alguns anos de sua juventude na Inglaterra e, interessando-se por literatura, comentara possuir uma vasta biblioteca inglesa da qual certa vez havia emprestado a Freud uma novela de autoria de Galsworthy, intitulada “O Homem de Propriedade” que contava a saga de uma família fictícia de nome Forsyth! Freud não só observa que a coincidência era por demais exata para ser casual como também que “foresigth”, a significar “previsão”, era a tradução do termo alemão “Voraussicht” cuja pronúncia muito se aproximava de “Vorsicht”, o dito apelido com que o paciente introduzira o assunto daquela sessão!

Freud ainda observaria outras coincidências significativas no discurso de seu paciente, mas o exemplo ora citado já está suficiente para alcançarmos a interpretação a que chegou. O referido paciente embora já se encontrasse de alta há algum tempo, relutava abandonar a terapia. Freud, por sua vez, já nem lhe cobrava as consultas, explicando que a ele próprio também valiam as horas em que se encontravam, como estímulo e descanso, posto que seu paciente era pessoa amável e erudita. Era, portanto, significativo que seu paciente houvesse proferido, poucos momentos após o encontro de Freud com Forsyth, sem sequer tê-lo visto, o nome daquele que lhe roubaria o horário, pois “sabia que sua análise haveria de cessar, conforme nosso trato, tão logo começassem chegar a Viena pacientes e alunos estrangeiros, como de fato ocorreu um pouco mais tarde.”

Em seguida, Freud ainda arrisca uma possível explicação psico-física para o fenômeno, cabível talvez para a ciência newtoniana da época. Propunha que “o processo telepático consistiria em que um ato psíquico de uma pessoa estimulasse o mesmo ato em outra pessoa”, e que “muito bem poderia existir um processo físico a mediar tais atos”, de forma que algum tipo de transformação psíquica numa extremidade da ligação fosse transmitida ao outro extremo, levando consigo a mensagem.

Mas voltando à interpretação psicanalítica, propõe: “Se a telepatia existe como processo real, poderíamos supor, apesar de sua difícil demonstração, seja um fenômeno muito freqüente. Corresponderia às nossas esperanças poder identificá-la precisamente na vida anímica da criança. Recordemos a freqüente representação temerosa das crianças de que seus pais conheçam todos os seus pensamentos sem que elas os tenham comunicado; parelha perfeita e talvez a fonte da crença dos adultos na omnisciência divina”.

Mas se Freud não pôde viver duas vezes para dedicar toda uma segunda vida à Parapsicologia, conforme expressou esta vontade, os psicanalistas seus seguidores, no mínimo deveriam estar atentos para este fértil campo de pesquisas, despindo-se dos preconceitos que o próprio Freud apontara, para que possam investigar com digno orgulho este mundo desconhecido, a exemplo do que fez Freud com o inconsciente.

Como vemos, quem quer que se aprofunde na psicanálise, estará cada vez mais se deparando com explicações humanas para os ditos fenômenos parapsicológicos, contribuindo assim para desmistificar os contatos telepáticos com o além, bem como a intercessão de espíritos em nosso mundo realisticamente fantástico, tornado fantástico pela realidade do inconsciente a envolver incríveis capacidades humanas e todo um complexo funcionamento.

Ainda que tal noção, a do inconsciente, por um lado se traduza em algo virtual e impalpável, pelo menos não diz respeito ao sobrenatural, mas enriquece a experiência humana, tornando extremamente abrangente o âmbito de suas faculdades.

A telepatia é apenas uma delas. E a parapsicologia merece ser devidamente reconhecida.

*Paulo Urban é médico psiquiatra, hipnoterapeuta e psicoterapeuta do Encantamento; diretor clínico do Hospital Psiquiátrico São João de Deus da Ordem Hospitaleira de São João de Deus de 1994 a 2000; ex-membro da P.A.(Parapsychological Association).

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Uma resposta to “Freud e a Parapsicologia: Parte II”

  1. Raquel Says:

    Bom dia ,
    Eu tenho uma grande curiosidade em relação ao excesso de coincidencia com pessoas próximas. Por exemplo, tenho 4 amigos de considerações diferentes em que toda vez que ligo ou escrevo dizem; Nossa estava pensando em você! ou, caramba ia te ligar ou escrever agora mesmo. Mas as coincidências é sempre com as pessoas, e nunca comigo.
    Agradeço por uma breve resposta.


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