Terapias Alternativas e Ética na Psicologia

waterhouse63Psyche Abrindo a Caixa Dourada” por John William Waterhouse (1849-1917)

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL – UFRGS
Departamento de Psicologia Social e Institucional
Ética Profissional
Professora: Rosane Neves
Alunas: Claudia Ferrari e Patrícia Schaffer

“Esoterismo associado ao tratamento psicológico confunde interessados”, alerta matéria do UOL. O texto continua: “Borra de café, cristais, astrologia, florais de Bach, terapias de vidas passadas e transe mediúnico. Encontra-se de tudo nos anúncios de psicólogos ou supostos psicólogos que oferecem uma mistura de terapia com esoterismo em propagandas espalhadas por toda parte da cidade de São Paulo-em faixas e cartazes na rua, em revistas semanais de informação e, principalmente, em milhares de sites na internet.”

O espaço das terapias alternativas é uma realidade que, se estudada mais de perto, não parece fácil de mudar. Primeiro, porque existe demanda. Segundo, porque o Conselho de Psicologia só tem poder sobre os psicólogos, o que libera o mercado das terapias alternativas para outros profissionais, sérios ou não. E, terceiro, porque, como diz também a matéria do UOL, “algumas técnicas ficam realmente na linha tênue que existe entre o verdadeiro tratamento e as invenções mirabolantes”.

Vamos examinar cada uma dessas razões. Comecemos pela demanda: cabe-nos uma reflexão de por que ela existe. Figueiredo (1996) cita como exemplo a questão da “familiaridade”: ser familiar às pessoas, plantas, e animais, as forças da natureza, ao cosmos. A demanda por casa, familiaridade, raiz, participação e pertinência foi expressa por vertentes do movimento romântico do século XVIII e XIX. Práticas alternativas são uma forma de restaurar esta harmonia com a natureza, que é o que nos consola quando falta o equilíbrio. O setting clínico responde de um certo modo à demanda de estar em casa, de um habitar sereno e confiável. Vale ressaltar que essa índole romântica de pensar e agir está presente na psicologia como um todo, em algumas teorias (como a humanista) mais do que em outras. Talvez, porém, a psicologia tenha andado muito rápido em busca de cientificidade enquanto que as configurações econômicas e socioculturais contemporâneas ofereciam cada vez mais as condições existenciais para as quais as éticas disciplinar e liberal não apresentam qualquer resposta. As terapias alternativas preencheram o que a psicologia deixou para trás.

Outra justificativa para a escolha de uma terapia alternativa é a busca por soluções imediatas. Segundo a reportagem do UOL, “muitas pessoas não têm tempo nem disposição para tratamentos mais longos, como costumam ser as terapias profissionais”. Novamente, sabemos que, assim como a psicologia humanista preserva a familiaridade, a terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, atende essa demanda. Mas nem todas as pessoas sabem disso, e a facilidade de encontrar um profissional não-psicólogo muitas vezes é muito maior.

Há, também, a atração exercida pelo inexplicável. Muitas pessoas realmente não se preocupam com comprovações científicas. Por isso, Luiz Alberto Hanns, presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia, deixa claro que não se trata de uma caça às bruxas. As pessoas, afinal de contas, têm o direito de escolher a terapia que quiserem. Mas elas têm, também, o direito de saber em que terreno estão pisando antes de fazer essa escolha. É aí que reside uma das grandes preocupações do CRP. Para Hanss, “é necessário apenas distinguir o campo de cada um e deixar que os interessados escolham entre a prática clínica, o espiritismo ou os astros”. A tarefa do Conselho, então, é separar a psicologia das práticas alternativas, e não simplesmente acabar com esse mercado porque ele pode ser perigoso. Figueiredo (1996) critica a aliança estratégica que existe entre psicólogos de diferentes teorias contra os alternativos quando o objetivo é dar credibilidade aos piscólogos em dertrimento dos “invasores”. Nesses casos, os conceitos de cientificismo são muitas vezes utilizados erroneamente para legitimar uma teoria.

Figueiredo (1996) sugere que as práticas alternativas e as escolas psicológicas sejam confrontadas no campo da ética, “tomados como dispositivos de constituição de subjetividade” (p. 70). De acordo com ele, a diversidade teórica da psicologia corresponde aos diversos lugares que estes sistemas ocupam na configuração contemporânea das práticas sociais. Sendo assim, não é correto colocar em pólos opostos o conjunto de conhecimento das práticas alternativas e os das teorias psicológicas oficiais, pois em muitos aspectos há muitas coisas entre eles. No confronto com as práticas alternativas, segundo Figueiredo (1996), os psicólogos reivindicam para si um estatuto de cientificidade excluindo os alternativos. Contudo, não percebem que estão desconsiderando a diversidade das teorias psicológicas. Seria necessário fazer avaliações epistemológicas e metodológicas de cada teoria e avaliações sobre a eficácia e eficiência de cada técnica antes de demarcar aquilo que se considera práticas legítimas e práticas suspeitas.

É justamente assim que o CRP vê as coisas, como nos mostram o artigo 2° da Resolução 010/97 e o Código de Ética Profissional do Psicólogo, no item c do Art. 1º e nos itens b, d, e e f do Art. 2º. O Conselho preocupa-se com a ética, mas não está fechado para práticas menos ortodoxas. Às vezes, o dilema ético vem à tona mesmo dentro de teorias psicológicas, como a transpessoal. A ampliação de consciência por meio de exercícios de respiração seria eficaz, por exemplo? Enquanto isso não é comprovado, fica proibido que psicólogos associem as respirações que alteram o estado de consciência à terapia. Segundo a coordenadora da Comissão de Ética do CRP-SP, Elisa Zaneratto Rosa, em artigo do Jornal Psi, se o psicólogo oferece algum tipo de prática não reconhecida, ele não pode misturá-la à prestação de serviço psicológico. Se ele é, ao mesmo tempo, astrólogo e psicólogo, deve separar constantemente as duas atividades, seja no cartão profissional ou em outras formas de divulgação, nos locais em que trabalha, nas atividades que realiza, quando procurado para cada tarefa.

Enfim, o que precisamos ter presente é que, quando se lida com a estrutura psíquica de um ser humano, todo cuidado é pouco. Podemos nos valer de uma prática que deixe o paciente à vontade, que o acalme, que responda às suas angústias, mas… estamos preparados para lidar com o que daí emerge? Estamos preparados para reconhecer o que fica de fora, acolher o inesperado? Figueiredo (1996) alerta: “O ethos familiarista do complexo alternativo engendra, à sua revelia, experiências que reafirmam o desenraizamento, o estranhamento; estas experiências estranhas, contudo, ele não pode reconhecer e acolher”.

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3 Respostas to “Terapias Alternativas e Ética na Psicologia”

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  2. Terapias Alternativas Funcionam? - Comportamento.Net Says:

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