Freud e a Parapsicologia: Parte I

witchesMacbeth e as Feiticeiras” por Henry Fuseli (1741 -1825)

*Por Paulo Urban

Revista de Psicanálise em Circuito Nacional, ano IX, nº 85, maio de 1996.

Resumo
Com base em textos escritos pelo próprio Sigmund Freud e relatos sobre sua vida apontados por Ernest Jones, um de seus maiores discípulos e biógrafos, o autor apresenta a evolução do pensamento freudiano no tocante aos fenômenos parapsicológicos, sobre os quais Freud deitou seu interesse e que o levaram a analisar mais detidamente o fenômeno telepático. Neste trabalho, o autor evidencia fundamentalmente as dificuldades que enfrenta a parapsicologia em nossos dias, por um lado impropriamente usada pelos místicos que dela tentam servir-se para fundamentar suas crenças, a modo do que tentaram fazer com a psicanálise na época de Freud; e por outro, alvo de todo um preconceito acadêmico, no mínimo desatento a certos aspectos de relevância existentes na obra freudiana.

“Se fosse viver de novo, eu me dedicaria à pesquisa psíquica em vez da psicanálise”. Foi esta a surpreendente declaração de Freud a Hereward Carrington, no verão de 1921, ao desculpar-se por não aceitar o seu convite para ser co-editor de um periódico sobre o ocultismo.

Em que pese sua precavida recusa, não só a Carrington mas também a outras duas semelhantes propostas que lhe foram feitas em mesma época, é de se notar o grau de importância com que o mestre valorizava a parapsicologia, dita metapsíquica ou pesquisa psíquica em sua época. Se vivesse outra vez, exploraria o desconhecido campo dos fenômenos parapsicológicos!

Mas se aceitar não pôde estas propostas, quer por presumir fosse escasso o tempo de vida que lhe restava, ou mais obviamente pelo desejo de preservar a mal compreendida psicanálise, objeto de tantas contendas injustas; o fato é que Freud parece ter sido instigado pela idéia, à qual seu texto “Psicanálise e Telepatia” ofereceu pronta resposta. Embora nunca editado durante sua vida, o trabalho tornou-se público vinte anos após ter sido especialmente escrito para ser lido numa conferência no Hartz, em setembro daquele mesmo ano de 1921.

O que se presumia fosse uma justificativa de Freud para sua recusa em publicar artigos nos periódicos voltados para a divulgação do ocultismo, acabou por revelar o surpreendente interesse do mestre por questões um tanto nebulosas para a época, sobre as quais focalizava sua mente aberta e esclarecida, a fazer frente tanto a uma base supersticiosa, invariavelmente presente no cerne de todo o ocultismo, quanto aos corriqueiros preconceitos por trás dos quais se protegem as “Academias de Ciências”.

Ao introduzir o assunto, Freud procura claramente preservar a psicanálise frisando que, se por um lado, inadvertidamente, os místicos o convidavam a escrever, talvez por “considerarem a psicanálise como quase pertencente a eles e como ponto comum de apoio contra a autoridade da ciência exata”, por outro, a própria “noção de inconsciente estava incluída entre aquelas coisas que estão entre o céu e a terra, sobre as quais a sabedoria acadêmica nem sequer conseguia sonhar”.

Freud comparava a psicanálise aos cidadãos que durante a Grande Guerra estivessem vivendo naturalizados em nação estrangeira contingencialmente adversária, e que, sendo mal vistos no país onde escolheram residir, ao lograrem suas fugas para o país de origem acabavam recebendo tratamento igualmente hostil, posto que eram tidos como representantes do inimigo.

Lamento não seja outro senão este o destino ao qual se encontra fadada a parapsicologia em nossos dias, que, lutando para desvencilhar-se das redes que o misticismo insiste em jogar sobre ela, agora de modo ainda mais desesperador, visto não ter podido se apropriar da psicanálise no passado, e ainda com a esperança de que algum fundamento científico possa vir a embasar suas crenças; conforme vai conseguindo libertar-se da referida malha, acaba tendo de enfrentar o preconceito leonino da ciência estabelecida, disposto a devorar qualquer novo paradigma que se lhe faça frente.

Curiosamente, vamos encontrar no seio da própria psicologia hoje instituída, a bem dizer dentro da psicanálise mais especificamente, as maiores barreiras ao reconhecimento da parapsicologia como ciência, lamentavelmente confirmando a existência do já apontado preconceito científico, bem como uma lavrada ignorância no que concerne à natureza da ciência parapsicológica e seu respectivo objeto de estudo. Chega a ser comum observar pessoas de formação científica tratando a parapsicologia como o faria qualquer leigo que opinasse sobre o tema, com o agravante do qual estes últimos se acham naturalmente redimidos, posto que podem expressar livremente suas idéias sem a presunção de serem cientistas.

Embora Freud vivesse numa época em que a parapsicologia ainda engatinhava, mal sabendo pronunciar seu próprio nome, sendo ainda conhecida pela alcunha de metapsíquica ou pesquisa psíquica, não encontramos por parte dele em nenhum momento de sua vida qualquer espécie de desprezo pelos fenômenos parapsicológicos, que aliás sempre mereceram a seriedade de sua atenção. Ao lado de outros cientistas e intelectuais de sua época, como Sir William Crookes e Sir Arthur Conan Doyle da Inglaterra, Charles Richet, Lombroso e Flournoy da Europa Continental, e William James dos E.U.A, Freud voltou seu espírito investigador para os então chamados fenômenos parapsíquicos, dedicando alguns textos de seus estudos à interpretação dos ditos fenômenos, objetos da mais nova ciência que surgia, contemporânea da psicanálise.

Em 1911, Freud filiou-se a S.P.R. (Society for Psychical Research), Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, com a qual travou fértil correspondência e que durante alguns anos a partir de 1922 esteve sob a direção do psicanalista T. W. Mitchell. Quatro anos mais tarde tornar-se-ia Sócio Honorário da Sociedade Americana de Pesquisa Psíquica, vindo a receber semelhante título da Sociedade Grega de Pesquisa Psíquica, nos fins de 1923.

Numa de suas cartas a Eitingon, datada de 4 de fevereiro de 1921, Freud dizia textualmente ao discípulo referindo-se aos “fenômenos ocultos”, que “pensar nesta maçã verde o fazia estremecer, mas não havia como deixar de mordê-la”. Ainda que tal registro denote o interesse e a abertura do pai da psicanálise ao tratar o assunto, a mesma postura não é comumente encontrada entre seus filhos ideológicos, os psicanalistas de hoje que, embora tenham suas vidas acadêmicas favorecidas por uma parapsicologia já razoavelmente desenvolvida – normatizada que está pela P.A.(Parapsychological Association), associação esta que reúne os parapsicólogos universitários, aceita desde 1969 como órgão membro da A.A.A.S. (American Association for Advance of Science), – não tomam sequer conhecimento destas importantes conquistas e insistem em lançar num mesmo saco a parapsicologia e o ocultismo ou espiritismo, sistemas estes de crenças dos quais a primeira faz questão de prescindir, não por considerá-los totalmente inválidos, mas obviamente descabidos como fundamentação para qualquer pensamento que se pretenda científico. Também a parapsicologia não se presta para embasar crenças espiritualistas, e quando as últimas indevidamente dela se apropriam, luta por manter a dignidade de sua identidade como método de estudo científico, assim como se empenhava Freud para amadurecer e desvencilhar a “personalidade” da psicanálise do obscuro campo do ocultismo. O mestre interessou-se sobremaneira pela questão da telepatia e estava consciente das possíveis consequências em admitir a realidade deste fenômeno.

Conforme escreve Ernest Jones, um de seus principais discípulos e biógrafos, “alguns anos depois da Guerra, o interesse de Freud pela telepatia renasceu. Sua mente estivera refletindo sobre os mais profundos problemas da vida e da morte e sobre a possibilidade da imortalidade, temas que podem passar prontamente para os problemas do ocultismo.”

Se “Psicanálise e Telepatia”, conforme já dissemos, apenas fora lido no Congresso do Hartz em 1921, para ser publicado postumamente, apesar de Freud ter expresso seu desejo de reapresentá-lo para o “Comitê” no Congresso do ano seguinte e ter sido aconselhado a não fazê-lo por Jones e Eitingon, o mestre “não seria dissuadido de todo e em 1922 publica “Sonhos e Telepatia”, redigido com mais precaução”.

“Proponho-me a bem modesta tarefa de investigar as relações entre os fenômenos telepáticos, pouco importando sua origem, e o fenômeno onírico, ou mais precisamente nossa teoria do sonho”, diria Freud ao introduzir o assunto, ressaltando que “ainda que se estabelecesse com certeza a existência de sonhos telepáticos, isto não obrigaria a modificar em absoluto nossa concepção do sonho”.

Após analisar dois interessantes casos presumivelmente de natureza telepática, oferece a ambos uma interpretação psicanalítica, questionando se os mesmos seriam de fato bons exemplos desta espécie de fenômeno. Acaba por considerar que “a telepatia nada tem a ver com a essência do sonho, nem pode contribuir para aprofundar nossa compreensão analítica do mesmo”; mas já antecipando sua futura conversão pública frente à constatação da realidade deste fenômeno, completa: “Pelo contrário, é a psicanálise quem pode alimentar o estudo da telepatia, aproximando-nos, com a ajuda de suas interpretações, ao entendimento de muitos elementos incompreensíveis que apresentam os fenômenos telepáticos, ou demonstrando que outros fenômenos, ainda duvidosos, são, com efeito, de natureza telepática”. E na seqüência de sua argumentação conclui: “Quanto à vinculação entre telepatia e o sonho, aparentemente tão íntima, só resta a inegável facilitação da primeira causada pelo estado de repouso, ainda que esta não seja uma condição imprescindível para que se dêem os processos telepáticos, mesmo porque estes consistem em mensagens ou produções inconscientes”.

Embora Jones tivesse sido arguto em observar a maior precaução de Freud ao redigir este texto no intuito de não conturbar ainda mais a já mal compreendida psicanálise, o fato é que as palavras acima referidas já não fazem restar dúvidas quanto à tendência de Freud em aceitar o fenômeno em questão como real, visto que o mestre faz até afirmações já com grau de propriedade quanto à natureza inconsciente do fenômeno.

Neste mesmo texto, concluiria que, “sem dúvida, devemos reconhecer que não se pode desacreditar das observações telepáticas simplesmente porque o acontecimento e seu pressentimento (ou a mensagem que o anuncia) não tenham sucedido no mesmo momento astronômico. É facilmente aceitável que a mensagem telepática seja recebida no instante em que ocorre o fato provocador, sendo percebido pela consciência ao dormir na noite seguinte, ou ainda durante a vigília, mas tão somente ao cabo de certo tempo, durante uma pausa de atividade psíquica. …Pois se o fenômeno telepático não é mais que uma produção do inconsciente, então não nos encontramos diante de nada novo. Neste caso seria natural e imprescindível aplicar à telepatia as mesmas leis da atividade psíquica inconsciente”.

*Paulo Urban é médico psiquiatra, hipnoterapeuta e psicoterapeuta do Encantamento; diretor clínico do Hospital Psiquiátrico São João de Deus da Ordem Hospitaleira de São João de Deus de 1994 a 2000; ex-membro da P.A.(Parapsychological Association).

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