Esoterismo: Busca do Deus Interior

falero8A Visão de Fausto” Por Luis Ricardo Falero(1851-1896)

*Por Isabel Mattei

in: Esoterismo, Auto-Ajuda e Trivialidade em O Alquimista

O fenômeno esotérico, a partir da década de 1960, começou a desenvolver-se intensamente no Brasil. Tal fenômeno pôde ser percebido através das mais diversas formas, manifestando-se, nos últimos anos, através de meios formais e informais. Há, atualmente, todo tipo de oferta de produtos e serviços esotéricos no mercado, envolvendo desde anúncios classificados e livros até adesivos em automóveis, folhetos e serviços de consulta por telefone e internet. Houve, também, um crescimento significativo de consumo de produtos dessa linha: anjos, bruxas, incensos. Essa ascensão passou a ser explorada, principalmente, com fins lucrativos. Não há como esquecer as consultas, por telefone (0900), que prometiam resolver todos os problemas de ordem pessoal ou profissional e que renderam fortunas incalculáveis aos consultores.

Devido aos lucros exorbitantes dessa oferta esotérica de produtos e serviços, muitos estudos consideraram esse fenômeno essencialmente mercadológico. Nessa perspectiva, os livros de tema esotérico, nos últimos anos, têm movimentado o mercado editorial, estando, sempre, entre os primeiros colocadosem venda. Algumas editoras, inclusive, especializaram-se no assunto e comercializam exclusivamente livros que tratam dessa temática. Devido à diversidade de estilos e assuntos, torna-se difícil estabelecer uma definição clara do gênero, no entanto, percebe-se um ponto de convergência nas diversas manifestações: todos os discursos referem-se ao homem como um ser essencialmente espiritual e objetivam a evolução espiritual do ser humano.

Os livros esotérico-espiritualistas oferecem […] um discurso alternativo para os problemas psicossociais, cujas respostas podem ser encontradas no auto-cultivo e auto-aprimoramento orientado por um ideal de perfectibilidade do self, em que o beneficiado não é só o indivíduo em si, na medida em que a transformação interior implica também a transformação planetária. (TINTI, 2004, p. 78). Nesse sentido, há uma aproximação com os princípios da auto-ajuda, uma vez que muitos livros dessa categoria fazem referências a experiências místicas. Assemelham-se, também, quanto aos aconselhamentos ou lições morais: objetivam a busca do ser interior e a superação de limites individuais através de uma força superior.

Tal aproximação é também estabelecida por Rüdiger (1996, p. 145), em sua análise sobre as propostas de conduta e as condições histórico-universais que possibilitaram o desenvolvimento da prática da auto-ajuda, quando apresenta as principais direções do desenvolvimento dessa prática, que se manifesta através de dois paradigmas. Correspondem ao primeiro as estruturas narrativas baseadas em um modelo de subjetivação e uma perspectiva de vida comprometidos com o desenvolvimento da carismática individual ou do ethos da personalidade e, ao segundo, as narrativas que envolvem uma espécie de misticismo terapêutico.

Acrescenta ainda que o contraponto de ambos não é somente a classe de relato responsável por uma radicalização do subjetivismo contido no referido ethos, cujo sentido, ao mesmo tempo paradoxal e revelador (…) é o de uma dessubjetivação da subjetividade, mas a perspectiva de subjetivação contida nos relatos em que o princípio do pensamento positivo, secularizado ou não, combina-se com o conceito de crescimento pessoal e o entendimento terapêutico da supracitada carismática, para definir auto-ajuda. (RÜDIGER, 1996, p. 145).

Por conta dessa expansão do esoterismo, nas últimas décadas, vários pesquisadores passaram a investigar o fenômeno, na tentativa de explicar as causas desse desenvolvimento. A maioria deles faz referência a uma possibilidade de fuga das contradições sociais da sociedade contemporânea, estimulada pelo consumismo e pela competitividade. No âmbito das discussões, o que fica passível de evidência é a relação entre esoterismo e religiosidade: um apelo ao misticismo como forma de sanar lacunas espirituais advindas das turbulências do mundo contemporâneo.

Ao referir-se às obras de Paulo Coelho, Maestri (1999) ressalta que a temática esotérica de tais obras foi elaborada sob medida para uma geração deslumbrada com o discurso neoliberal da época, contudo angustiada e desmoralizada pela falta de perspectiva do mundo em que vivia. Essas obras serviam (e ainda servem), portanto, como alívio para um homem apavorado frente a um mundo e uma vida que não compreende e os quais não consegue controlar.

O esoterismo da modernidade senil propõe aos leitores formas fáceis e ao alcance de todos de intervir positivamente sobre si mesmos e sobre o mundo social, na procura sobretudo de vantagens materiais e pessoais. Trata-se de uma via mágica no universo virtual da sociedade de consumo.” (MAESTRI, 1999, p. 102). Para Felinto (2002, p.4), é possível arriscar pelo menos um fator de unidade fundamental para a diversidade das novas formas de religiosidade. Todas elas respondem a um anseio elementar da cultura: a necessidade de se encontrar um fundamento estável para um mundo onde a instabilidade é tão aparente. No labirinto que é a cultura contemporânea, não parece caminhar nenhum super-homem Nietzcheano, afirmando sua liberdade de transvalorar todos os valores e criar seus próprios fundamentos. Não, o que se vê com intensidade cada vez maior são andarilhos que vagam incessantemente em busca de uma saída, de uma realidade transcendente a qual possam agarrar-se.

Nessa busca do indivíduo, essas manifestações, intimamente relacionadas aos mecanismos e organismos de comunicação de massa, propuseram-lhe uma literatura encantada como forma de aceitação de uma realidade contraditória que não pode ser mudada ou questionada.

*Isabel Mattei é Especialista em Língua Portuguesa e Literatura, professora da Educação Básica da Rede Estadual de Ensino do Paraná.

Leia o Artigo na íntegra AQUI

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