Análise Psicológica do Dinheiro

Money Tree

Se somos obrigados a buscar, gostar e lutar por um valor coletivo chamado dinheiro seria interessante que o fizéssemos com um toque profundamente pessoal e singular de criatividade e prazer, pois só desta forma nosso complexo de inferioridade e incerteza seriam debelados, nos devolvendo a certeza de que nosso lugar jamais será eterno, mas que fomos capazes de expor todo o nosso potencial, sendo o ápice que podemos alcançar como seres humanos.

*Por Antonio Carlos Alves de Araújo

Discutir as implicações psíquicas e sociais de todo o simbolismo e mitologia do dinheiro é tarefa fundamental para um projeto sério da psicologia social. O tema ainda é um verdadeiro tabu, sendo que apenas encontramos escassas obras que tentam dar um sentido moral para a questão. Psicologicamente o dinheiro é sentido como a alavanca de um sonho que gostaríamos de efetuar, assim sendo, seu caráter é totalmente futurista, contribuindo para o incremento do poder do tempo sobre o prazer do indivíduo, ressecando por completo a vitalidade da pessoa, que sempre só pode existir no presente. Já está mais do que na hora de percebermos que o dinheiro é o confidente mais preciso de nossa alma e espelha todas as partes não resolvidas de nossa personalidade; sendo uma espécie de terapeuta que conhece as entranhas de um ser humano, porém, é o mais passivo e omisso em relação a uma atitude de resolução. Um dos instrumentos de aferição da saúde psíquica é exatamente a relação da pessoa com o dinheiro.

Muitos se queixam que precisam gastar compulsivamente, não percebendo que tal ato mascara uma culpa inconsciente não apenas por talvez ter acesso ao dinheiro, mas que historicamente sofreram de um complexo de inferioridade que lhes diz a todo o instante que não são merecedores de determinado prazer, devendo se livrar o mais rápido possível do instrumento que causa a satisfação. Outros reclamam da extrema cautela em gastar, estando presos não apenas num complexo de segurança, mas também espelham sua profunda miséria psíquica na retenção de uma espécie de “totem” instituído pela pessoa. O dinheiro para estas pessoas é algo sacralizado que mesmo o obtendo, jamais poderão se livrar de seu sentimento de carência pessoal. O leitor já chegou a conclusão óbvia de que o dinheiro ou poder cobrem ilusoriamente todas as carências pessoais, pois a pessoa que o detém será objeto do comentário, cobiça e interesse dos demais. Mas neste ponto outra questão fundamental se coloca: Por quanto tempo seguramos o interesse por algo? Este sem dúvida alguma é o drama de uma era consumista. Todos almejam no plano pessoal o que o sistema econômico tenta impor diariamente; a necessidade infinita de consumo. É justamente por esse motivo que a figura do traficante de drogas no plano ideológico causa tanta repulsa, pois independentemente do malefício que o mesmo traz à saúde publica, não deixa de espelhar fielmente o que o sistema almeja, o consumo incessante de um produto. O dinheiro paralelamente tenta compensar esta ilusão da eternidade, sendo que o medo da morte que nunca foi tão grande na história da humanidade como em nossos dias encontra um escapismo elegante na sensação de se possuir.

Principalmente as culturas orientais enfatizaram que a grande contradição humana é à procura da satisfação do desejo que jamais pode ser realizada, pois o mesmo é por si só o objeto de conflito. Se algo cobiçado é alcançado vira coisa amorfa e desprovido de paixão pessoal. Por outro lado é infantil determinada atitude de desapego de objeto material, apenas para se provar a superação da ambição. Se a solução fosse a simples procura de um guru, quase toda a população mundial deveria se mudar para determinado templo no HIMALAIA. Com o enfraquecimento do poder político da igreja no final da idade média, o centro da preocupação humana migrou da idéia de como alcançar o “paraíso” para a satisfação de se possuir dinheiro; ambos tem como função o entorpecimento da angústia em relação à morte. A antiga contabilidade das boas ações que teve seu apogeu nas indulgências vendidas pela igreja foi facilmente substituída pelo imediatismo da contabilidade material do dinheiro, que transportou o indivíduo para uma sensação de vencer ao menos temporariamente o horror da morte e abandono. As religiões têm sua sobrevivência no resquício da culpa ou medo de uma punição posterior, que o indivíduo não sabe qual será. Apenas o “mistério” as mantém vivas na cabeça materialista do homem contemporâneo, e assim como na psicologia, a entidade deus apenas é lembrada na profunda crise e desespero, sendo que o trato diário pela melhora do íntimo humano é totalmente negligenciado.

O dinheiro como toda espécie de totem ou entidade erigida tem como função básica a sua manutenção e sobrevivência por si só, não interessando a análise social e moral de seu impacto. Há uma escala da progressão em relação ao dinheiro, e quanto maior o peso de fatores inconscientes, maior será o grau de neurose que aflige o indivíduo. Exemplificando, o dinheiro serve para: sobrevivência, necessidade de abrigo e alimentação, educação, lazer e diversão, ou: competição, compensação de uma auto imagem negativa, exibicionismo, compensação de um arraigado complexo de inferioridade. A contradição no exposto acima é a de que o dinheiro deveria servir para algo extremamente concreto, mas basta um olhar mais apurado para descobrirmos que a cada dia o mesmo serve aos aspectos de nosso imaginário. O medo e pânico do desemprego, que é um câncer mundial das economias, apenas reforçam o conceito de que ganhar dinheiro é sinônimo de estar vivo. Nenhuma outra emoção ou desejo seja: amor, fé ou paixão conseguiu centralizar por completo a preocupação do homem contemporâneo, e repito que isto se dá não apenas por um fator de sobrevivência. Talvez a compulsão pelas drogas chegue perto do anseio citado, embora a mesma também não deixe de ser um subproduto do dinheiro. As próprias religiões se curvaram a entidade do dinheiro ao acatarem sem muitas delongas a questão do dízimo em seus trabalhos eclesiásticos.

FREUD analisou o desenvolvimento psíquico do dinheiro. Chegou a conclusão que a primeira experiência psicológica de valor para uma criança era o treino do toalete. Assim sendo, as fezes tinham uma conotação de apego para a criança, sendo que a mesma ainda fantasiava inconscientemente que os bebês nasciam através da defecação. Embora tal aparato seja um tanto complicado de ser aceito pelo leigo, o fato é que tal assertiva tem o seu mérito na questão do desenvolvimento do processo mental de retenção e acúmulo. Analisar eficientemente o processo histórico que leva um ser humano à incapacidade de dividir seria uma das coisas mais nobres que a psicologia poderia efetuar. O dinheiro fornece a sensação de se poder viver constantemente em um “mito”, retocando uma auto imagem sempre negativa como disse anteriormente. O problema também afeta aquelas pessoas que já possuem o dinheiro e gostariam que as vissem sem uma imagem já pré-estabelecida pelos demais, fato quase que impossível. CARL GUSTAV JUNG estabeleceu a noção dos opostos no inconsciente. Para qualquer ação ou emoção corresponderia uma força similar no sentido contrário, como o famoso empuxo de Arquimedes.

A noção de riqueza ou miséria nada tem a ver com o dinheiro para o inconsciente humano, e buscar nossa categoria social no plano mental seria a chave para uma análise mais profunda de nossa alma. Não que toda pessoa que possua o dinheiro seja um miserável emocionalmente, mas perceber que nossa mente reproduz o sistema vigente de estratificações sociais é no mínimo fugir da ignorância pessoal. Qual é o equilíbrio em relação ao dinheiro? Acumular gananciosamente fazendo da mesquinhez a distração diária para nossa mente? Permitir ser explorado pelas pessoas que culpam e invejam quem possui o dinheiro? Gastar ou reter compulsivamente, se enchendo de dívidas, ou a sensação de reconforto ao ver o extrato bancário? Acreditar que o dinheiro pode ajudar alguém que desconhecemos se em outras instâncias seja merecedor de apoio? Todas estas perguntas todos se fazem quase que diariamente possuindo ou não dinheiro. O centro da questão é se o mesmo representa o instrumento para algo que desejamos, ou a revanche contra o que sentimos que perdemos e jamais iremos recuperar, mas mesmo assim alimentamos constantemente dita ilusão.

A verdade sempre reside na simplicidade, embora todos gostem da ostentação em todos os planos na tentativa de se obter destaque pessoal. Se cada um se permitisse algum tempo para a reflexão, não seria difícil perceber que tendo ou não, o dinheiro acarreta um profundo “stress” nos dias atuais, pelo simples fato de que sua busca ou posse se tornou uma profissão paralela perante qualquer atividade profissional que exerçamos. Qualquer um pode contabilizar que possui dois empregos ao esmiuçar o raciocínio citado, sendo que o dinheiro não serve apenas no âmbito material, mas principalmente no fator comparativo, que é a base para o indivíduo formar sua estima pessoal, e embora isto traga danos irreversíveis a personalidade, o fato é que há muito as coisas se orientam desta forma. Que prova pessoal de honestidade daríamos se houvesse a admissão de que é muito mais simples a preocupação com o dinheiro, poder, autoridade, política dentre outras, do que lidar com o histórico emocional íntimo sempre em dívida. Já colecionei mais de uma centena de casos de pessoas extremamente bem sucedidas financeiramente, que abortaram o processo terapêutico pelo simples questionamento de sua impossibilidade de abraçarem ou trocarem algum tipo de carinho com os pais ou parceiros. É extremamente errôneo o projeto de psicologia vigente, quando se omite da denúncia das mais puras necessidades humanas insatisfeitas. O papel do psicólogo sempre deveria ser de confronto e estímulo em relação à importância do percebido e não efetuado pelo paciente.

Os históricos movimentos socialistas tentaram ingenuamente imputar um freio forçado no processo da cobiça e posse material. Não cabe aqui uma análise ou crítica deste tipo de movimento social, mas a percepção de que todos os processos econômicos possuem seu correlato no psiquismo. O próprio conceito marxista da “mais valia” (a soma do custo da produção mais à exploração da mão de obra pelo capital para gerar lucro) está totalmente presente nas relações sociais. Observando muitos casais na dinâmica do relacionamento, me deparo diariamente com tal conceito; um ou ambos tentando explorar ao máximo a afetividade do outro sem nenhuma contrapartida, se obtendo uma espécie de lucro no plano emocional, que não deixa de ser a raiz da timidez, que pode ser caracterizada como uma tentativa consciente de subtrair do outro algum tipo de vantagem sem que a pessoa se exponha ou participe ativamente. O tímido assim como o capitalista almeja apenas gerir suas vantagens ou lucros, jamais compartilhar. Apenas deixo claro para o entendimento do leitor que a timidez não é vista pela psicologia como o que corriqueiramente se coloca acerca do retraimento, vergonha ou medo; sendo que estas emoções estão presentes numa pessoa que podemos chamar de introvertida. A timidez em essência é um estado mórbido de egoísmo e tentativa constante de não trocar no âmbito emocional, sendo a queixa diária de um dos parceiros que o outro apesar da convivência ainda é um total “enigma”, acumulando uma energia do ambiente, assim como na “mais valia” marxista. Se alguém deseja realmente ser um revolucionário deverá rever sua metodologia, pois muito poucos têm uma vocação para a liderança, embora todos sintam a exploração em todos os níveis.

Desta forma o começo para uma autêntica e saudável transformação é a denúncia e pontuação de comportamentos diários de egoísmo e abuso em relação ao outro, pois tal tarefa pode ser cumprida por todos. Uma revolução só é verdadeira quando há uma função ativa para toda a comunidade, sendo que nos dias de hoje isto se traduz pela explanação da insatisfação pessoal, pois é a única coisa que ainda pode ser compartilhada por todos os participantes; do contrário apenas teremos a troca do poder, coisa mais do que conhecida por todas as pessoas. O dinheiro é um fator constante de tensão dentro de determinados relacionamentos. O que mais incomoda não é a posse em si do mesmo, mas a consciência do parceiro de que o outro compartilha segredos, confidências e cuidados apenas com algo inanimado, deixando a pessoa real ao seu lado com um profundo déficit de confiança e valor. A entidade “dinheiro” reclama uma importância única e exclusiva do ponto de vista psíquico, não permitindo a entrada de mais de uma pessoa. A armadilha maior sempre será o tipo de sentimento negativo desenvolvido perante o detentor do valor, chegando ao pensamento nefasto da “prostituição”, por achar que o outro deve pagar por um companheirismo ou sexualidade. Neste ponto as coisas fogem plenamente do controle, acarretando uma somatória de várias sensações incômodas e negativas perante o parceiro. A tônica será uma acirrada disputa e mágoa internalizada, pois a sensação de que o outro desfruta de algo que não será dividido apenas reforça um abismo intransponível na relação. O fato em si é a renegação no decorrer dos tempos que o dinheiro sempre foi algo que gerou o medo, seja para quem o possui ou não; então é ponto notório de que muitos poucos saberão como lidar com o mesmo; aliás, não existe instrução econômica em todos os setores da escola de nossa sociedade, e o dinheiro e seus simbolismos são encarados como um tipo de sociedade secreta onde uns poucos têm acesso.

Algo que possui um valor universal em vários aspectos (sobrevivência, poder, status) terá uma marca pessoal de cada um em relação ao símbolo, como na religião. Quando falamos de algo que abrange toda a coletividade devemos pensar em uma estrutura que fornece segurança material e psicológica, ou algo que desestrutura todo o psiquismo e comportamentos diários. Nos tempos de outrora a posse material era extremamente concreta, sendo aferida pelo acúmulo de terras. Embora as propriedades ainda consistam na riqueza de alguém, o dinheiro no último século alcançou um valor simbólico para a personalidade como nunca antes visto no decorrer das relações sociais; o ponto não é mais a contabilidade da quantidade, mas o quanto de projeção pessoal e narcisista pode se colocar com o auxílio do instrumento dinheiro, e juntamente com o poder e a beleza formam o triunvirato cobiçado pelo mais íntimo de um ser humano. Estas três últimas esferas revelam toda a real e verdadeira natureza da pessoa, embora muitas vezes sejam usadas no intuito de camuflar o que realmente somos. Não podemos mais negar tais questões por pretextos de desapego de ordem religiosa ou moral, e sim questionarmos o que nos tornamos ao entrar em contato com todos os processos acima descritos; se ainda sobrou alguma parte desejante que seja realmente genuína de nosso ser, ou apenas foi moldada pelos valores vigentes. É claro que o desejo não deixa de ser também um fator que se forma no âmbito social, mas quanto nos restou do mesmo como disse acima, sem contaminação da inveja ou competição?

O dinheiro é a fronteira final para a resposta do que verdadeiramente estamos buscando, e como manejamos a busca do prazer pessoal, que está intrinsecamente ligado à outra pessoa. Satisfação é acúmulo, apego, segurança ou a divisão de algo de valor que possuímos com alguém sem que a esfera do medo esteja presente? Nosso inconformismo com a morte só é aplacado com uma posse maior perante determinada parcela do coletivo? Comparar e se sentir superior é realmente nosso conforto? Em quais áreas temos dificuldade de doação? Questionar tais questões podem nos conduzir a essência da importância do dinheiro em nossas vidas; do contrário, apenas seguiremos o dogma de termos família ou filhos para a perpetuação de nosso sucesso econômico. O fato é que a vida desde que somos crianças, nos revela o quanto somos ínfimos e insignificantes perante quase todos os processos sociais e a própria natureza. A ilusão do poder ou destaque pessoal passa a agir como fator compensatório numa personalidade que vê “tudo grande” no externo e “tudo pequeno” no interno. O dinheiro então é uma espécie de convite ou passe para que se diminua a humilhação de tal realidade sentida. Somos “atacados” diariamente, e passamos a correr por algo que nos proteja ao menos temporariamente de nosso sofrimento pessoal perante necessidades criadas pelo âmbito social. Se somos obrigados a buscar, gostar e lutar por um valor coletivo chamado dinheiro seria interessante que o fizéssemos com um toque profundamente pessoal e singular de criatividade e prazer, pois só desta forma nosso complexo de inferioridade e incerteza seriam debelados, nos devolvendo a certeza de que nosso lugar jamais será eterno, mas que fomos capazes de expor todo o nosso potencial, sendo o ápice que podemos alcançar como seres humanos.

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