Psicologia Econômica

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Cientistas laureados com o Prêmio Nobel de Economia estudaram a influência de fatores psicológicos na hora da tomada de decisão

*Publicado em 30/10/2002

Para quem não faz parte do mundo financeiro, economia e psicologia parecem ciências completamente diferentes e sem qualquer ligação. Entretanto, a relação entre estas duas áreas sempre foi discutida no meio econômico, sem que se chegasse a alguma conclusão. A partir de agora, isso pode começar a mudar. Dois cientistas norte-americanos, o economista Vernon Smith e o psicólogo Daniel Kahneman, foram laureados com o Prêmio Nobel de Economia deste ano exatamente por serem autores de teorias que provam cientificamente que não é possível depender apenas da matemática para tomar decisões econômicas. Segundo eles, às vezes, o lado psicológico de um investidor pode até ser mais importante do que seu conhecimento financeiro.

“Sempre se discutiu que a tomada de decisão não pode ser exclusivamente feita pela análise de números, mas ninguém havia mostrado isso de forma científica. Eles conseguiram”, afirma o professor de Finanças Comportamentais da FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo), Ricardo Humberto Rocha. Segundo ele, nos últimos quinze anos, os economistas se voltaram para a matemática de uma forma exagerada. “Começou até a haver um certo preconceito das escolas que não são tão focadas nos números. Os dois vencedores provam que um bom economista deve sim saber muita matemática, mas tem que estar atento ao lado psicológico das pessoas. Agora, os pesquisadores que estavam voltados para este tema se sentirão mais amparados cientificamente. Uma nova fronteira está se levantando. Mas esta mudança não é instantânea”, opina.

A lógica da pesquisa de ambos é a de que quem toma a decisão final, em qualquer situação, é o ser humano. Ou seja, mesmo que a pessoa possua ótimo conhecimento técnico e financeiro, sempre é o chamado feeling, o lado comportamental, que determina qual o rumo a seguir. “Teoricamente, todos os gestores que estão no mercado têm o mesmo preparo técnico e estão olhando para os mesmos números. Entretanto, decidem de forma diferente; alguns se dão bem, outros, mal. Portanto, é fácil perceber empiricamente que há influência do psicológico na tomada de decisão”, explica Rocha. Para o diretor do departamento de economia da UnB (Universidade de Brasília), Jorge Nogueira, a concessão desse prêmio vai ajudar a tornar a Economia Experimental uma área nobre da Economia. “Isso é extremamente importante, pois mostra que a Economia Experimental está se tornando cada vez usada para a formulação de teorias. É importante, por exemplo, estar atento a como um investidor se comporta em determinada situação de risco. E, para poder dizer como é esse comportamento, é necessário ter informações de área experimental”, diz Nogueira.

Na opinião do diretor, é provável que a partir de agora a visão da Economia comece a mudar até nas universidades. “Acho que os alunos e professores vão se voltar mais para a interface entre economia e psicologia, já que essas áreas são essenciais para entendermos efetivamente o comportamento do ser humano enquanto agente econômico”. O vice-reitor e professor do Departamento de Economia da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Aldair Rizzi, entretanto, discorda e não acredita que o Prêmio traga mudanças brutais aos currículos. Segundo ele, a teoria de que a psicologia também deve ser analisada começou a entrar nas instituições de ensino no início dos anos noventa. “Sempre existiu essa dicotomia na economia, essa diferença entre um enfoque que privilegia a questão dos modelos matemáticos e outro que privilegia o estudo da economia como uma ciência social. O que eles fizeram foi provar isso por meio de laboratório. É uma teoria que tem muito rigor teórico, mas se abstrai da realidade, que é muito mais complexa. Não agrega nada aos cursos universitários porque a análise da economia não se restringe ao laboratório, ela envolve política, sociologia e outros diversos campos que complementam o estudo teórico. Não adianta apenas dizer que o aumento da oferta reduz os preços. Isso já nem existe mais na economia”, sentencia.

Além disso, para Rizzi, a discussão não refuta preceitos consagrados da economia. “Os dois laureados tentaram agregar formas de interpretação. Mas existem teorias muito mais antigas que são mais apropriadas e mais consistentes para o estudo da economia. Na prática, este prêmio não trará mudanças”, conclui. O professor da UnB, entretanto, aposta em modificações. “Eles conseguem demonstrar, por exemplo, que o agente econômico tem muito mais medo de perder do que tem interesse de ganhar. E o que se pensava até hoje é que a vontade das pessoas de ganhar muito era comparável ao risco de perda que estavam dispostas a correr. Eles mostraram o contrário: que as pessoas preferem minimizar a perda ao invés de tentar maximizar o ganho”, afirma Nogueira. “Claro, não foram os primeiros a fazer este tipo de análise, mas, com certeza, estão entre aqueles que mais contribuíram”.

Meio ambiente valorizado

Professor voltado para a Economia do Meio Ambiente, Nogueira acredita que as teorias de Vernon Smith e Daniel Kahnegem podem contribuir bastante para sua área. “Ambos trabalham muito na tentativa de colocar preço em coisas que não têm mercado, como o ar e a água. Kahnegem estudou muito o método de tentar estimar preço para estes bens, o chamado método de valoração contingente”, explica.

Segundo o professor, este é um ponto importante e que tem sido muito discutido. “É necessário tomar decisões de como gastar e quais são os recursos necessários para evitar a poluição e a degradação do meio”. Os dois cientistas fizeram estudos experimentais com o comportamento humano para conseguir descobrir quanto as pessoas estão dispostas a pagar por algo que não tem mercado. “Como não há mercado de ar puro ou de conservação da natureza, por exemplo, é muito difícil estabelecer um preço. Eles estudaram métodos para alcançar esta valoração da forma mais verdadeira possível. Isso é muito importante, pois, a cada dia, as sociedades gastam mais recursos para tentar decidir hoje sobre resultados que só vão aparecer daqui a muito tempo – por isso não se sabe exatamente o quanto gastar. Precisamos criar preço para poder, por exemplo, pressionar o governo a investir em um parque nacional”, explica. Nogueira afirma que a premiação destas teorias dá maior substância para a negociação de uma política publica mais ativa “para este tipo de coisa, aparentemente, pouco importante, como a água limpa e o ar puro”.

FONTE: Universia

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