Mercado financeiro movido à testosterona

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Nível de hormônio masculino seria capaz de influenciar desempenhos de operadores da bolsa de valores: quanto mais, maiores as chances de aumentar os ganhos

*Por Geoff Brumfiel – Tradução de Nilza Laiz Nascimento da Silva

Os livros e os filmes geralmente retratam os operadores do mercado de capitais como jogadores “machões”. E pode haver realmente provas científicas que apóiem essa imagem da cultura popular: dois pesquisadores associaram os níveis de testosterona ao sucesso dos operadores da bolsa, em um mercado de ações de Londres.

John Coates, da Cambridge University, no Reino Unido, um ex-operador que se tornou neurocientista, começou esse estudo a partir do que ele observou durante o tempo em que trabalhava no ramo: os operadores de pregão se tornavam exaltados por ocasião de grandes ganhos e profundamente deprimidos com as perdas. “Era um tipo de com portamento maníaco”, ele diz. Coates salienta ter começado a suspeitar que os hormônios, e especificamente a testos terona, pudessem estar envolvidos nesse processo porque as poucas operadoras do sexo feminino não lhe pareciam ser afetadas do mesmo modo.

Para investigar isso, ele e seu colega da Cambridge — Joe Herbert — acompanharam 17 operadores de uma firma de Londres, por oito dias consecutivos de trabalho. Os pesquisadores coletaram amostras de saliva do grupo antes e depois das operações do dia. Eles analisaram dois hormônios — a testosterona e o cortisol, hormônio produzido em situações de incerteza.

Causa ou Correlação?

Os resultados, divulgados no Proceedings of the National Academy of Sciences, foram claros, segundo Coates: “Os ope radores tiveram ganhos acima da média nos dias em que seu nível de testosterona também estava acima da média”. Catorze dos dezessete operadores testados ganharam mais dinheiro nos dias em que apresentaram níveis de hormônio elevados, pela manhã.

A testosterona estaria por trás desses ganhos? Coates acha que sim. Porém, Herbert, seu colega e co-autor do tra balho, adverte que os resultados não são suficientemente consistentes para provar que é a testosterona que está mobilizando o comportamento de risco. “Percebe-se uma correlação, não necessariamente uma relação de causa efeito”, ressalta.

Os níveis de cortisol, por outro lado, não parecem estar correlacionados a perdas ou ganhos. Esse hormônio parece acompanhar a volatilidade do próprio mercado, fator que pode ter tornado mais estressantes os dias dos operadores.

Hormônios Elevados

Coates afirma que os achados da pesquisa apontam para uma intrigante possibilidade — a de que os hormônios poderiam intensificar a irracionalidade dos mercados financeiros. “As altas vertiginosas vistas nas ‘bolhas’ do mercado podem ser impulsionadas ainda mais pelos níveis elevados de testosterona dos operadores, ao passo que os desastres financeiros e as liquidações poderiam ser exacerbados pelo cortisol”, especula Coates.

O tamanho pequeno da amostra torna essa especulação exagerada, adverte Hans Vermeersch, biossociólogo da University of Ghent, na Bélgica. Vermeersch, cujas pesquisas apontaram uma relação entre testosterona e comporta mento de risco em adolescentes, afirma que muitos outros fatores, tais como atividade sexual, dieta e até mesmo o deslocamento matinal até o trabalho poderiam estar influenciando os níveis hormonais dos operadores. Mesmo assim, ele não exclui a possibilidade de a pesquisa mostrar que os mercados também sofrem influência dos hormônios.

Os resultados não me surpreendem”, comenta Benedict Stoddart, um operador de taxa de juros de uma firma de Londres. “Quando você está ganhando ou perdendo dinheiro há uma resposta emocional.” Mas, ele acrescenta que isso não significa que aquela imagem popular de “feras movidas à testosterona” seja verdadeira. Na realidade o que a maioria dos empregadores busca são operadores que tentem permanecer calmos, apesar da fúria de seus hormônios: “A testoste rona, com certeza, não seria algo que estaria na mira dos bancos”, conclui.

Comportamentos de risco

A teoria da evolução de Darwin estabeleceu um marco no estudo das variações entre e intra sujeitos, não apenas quanto às variações nas suas formas como também nos seus comportamentos. Assim como as características físicas, os comportamentos também estão sujeitos aos processos de seleção natural, o que permite a geração de hipóteses preditivas acerca de seu valor adaptativo. Fazer este exercício de traçar vínculos entre os diferentes comportamentos, seu valor adaptativo e possíveis traços psicológicos permite que se tente responder a perguntas como: qual o valor adaptativo presente nas alterações comportamentais geradas pela presença de testosterona? Responder a esta pergunta certamente ajudará a discutir sobre a aparente aptidão de ganhar grandes somas de dinheiro na bolsa de valores.

A presença de testosterona no organismo faz com que homens e mulheres se tornem, além de mais fortes, mais dispostos ao enfrentamento físico, o que parece ser necessário para participar e vencer competições. Durante muito tempo isso levou a se pensar que a testosterona estivesse envolvida apenas com o controle do comportamento agressivo e violento. No entanto, em ambos os sexos, a testosterona também está envolvida com variações da libido, o que faz com que diversos pesquisadores entendam que ela não esteja gerando o comportamento violento isoladamente, mas que está relacionada com o desejo por exercer maior domínio social em um grupo.

Por este raciocínio a testosterona induziria uma maior disposição em lutar por posições mais dominantes no grupo, ao mesmo tempo que aumentaria sua disposição ao acasalamento. Dessa forma o comportamento violento seria uma conseqüência e não um fim. O que é gerado é um comportamento afeito ao risco de se expor às disputas, ou seja, uma disposição a situações com alta probabilidade de insucesso, no qual as perdas, assim como os ganhos, podem ser muito grandes.

Sendo assim, parece que, para entender como a testosterona aumentou os ganhos na bolsa, devemos entender como um comportamento de risco pode ser útil nesta situação. Para isso, poderíamos perguntar a um investidor profissional por que correr riscos poderia levar a um maior ganho. Se fizermos isso teremos de ouvir que o ganho associado a um maior risco está, sempre, associado a maiores chances de perda. Mais ainda, que apenas alguns cenários de investimento são favoráveis a quem corre grandes riscos, sendo que na maioria das vezes leva apenas a maiores perdas. Se isso for verdade podemos supor que apenas em algumas situações mais testosterona significa mais lucro, em outras será exatamente o oposto, mas para isso teria de se fazer outros estudos.

Mesmo que isso valha pouco para ajudar na análise sobre o papel da testosterona na bolsa de valores que sirva, ao menos, para inibir as pessoas a pensar que tomar anabolizantes (com testosterona) pode, além de deixar a pessoa mais “bonita” (o que já é questionável), deixar a pessoa mais rica também.”

FONTE: Ciência e Vida

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