“O dinheiro é como um anel metálico que colocamos em nossos narizes”

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Esta é uma entrevista com Bernard Lietaer feita pela jornalista Sarah van Gelder, editora da revista Yes, revista de futuros positivos, EUA, 1988. O texto em espanhol foi enviado à Primavera, aos 23 de Abril de 2002. Esta tradução é do tipo tradução livre da CAPINA.

Poucas pessoas trabalharam com e sobre o sistema monetário a partir de enfoques tão distintos como Bernard Lietaer, que atuou cinco anos no Banco Central da Bélgica. Aí, seu primeiro projeto foi o desenho e a implementação de uma moeda européia unificada. Lietaer foi presidente do sistema de pagamento eletrônico da Bélgica; desenvolveu para empresas multinacionais tecnologias a serem usadas em ambientes de múltiplas moedas nacionais; também atuou em países em desenvolvimento, contribuindo para melhorar suas poupanças. Ensinou finanças internacionais na Universidade de Lovaina, na Bélgica, país onde nasceu, e, ainda, foi gerente geral e broker (corretor) de uma das grandes empresas de investimento.

Atualmente, é professor visitante do Centro para o Desenvolvimento Sustentável da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e está escrevendo o seu décimo livro, O Futuro do Dinheiro: mais além da cobiça e da escassez. A editora Van Gelder conversou com ele sobre a possibilidade de um novo tipo de moeda, mais adequada à construção da comunidade e da sustentabilidade. Essa é a conversa que transcrevemos aqui.

Por que você põe tanta esperança no desenvolvimento de moedas alternativas?

O dinheiro é como um anel metálico que colocamos em nosso nariz e nos esquecemos de que fomos nós mesmos que o desenhamos e, então, nos deixamos conduzir por ele ao redor do mundo… Acredito que já é tempo de imaginar aonde queremos ir e, em minha opinião, deveríamos nos encaminhar para a sustentabilidade e para a comunidade. Portanto, é preciso desenhar um sistema monetário que nos conduza até este ponto.

Então, na realidade, você diria que muito daquilo que ocorre ou que não ocorre na sociedade tem sua raiz no desenho do dinheiro?

É assim. Enquanto os livros de texto de Economia sustentam que as pessoas e as empresas estão competindo por mercados e recursos, eu sustento que, na realidade, elas estão competindo é por dinheiro – usando os mercados e os recursos para fazer isso. Portanto, o desenho de um novo sistema monetário significa, na realidade, redesenhar o alvo para o qual se orienta grande parte do esforço humano. Mais ainda: creio que a cobiça e a competência não resultam de nenhum temperamento humano imutável constitutivo. Eu cheguei à conclusão de que a cobiça e o medo da escassez, na realidade, estão sendo continuamente criados eamplificados, como conseqüência direta do tipo de dinheiro que estamos utilizando. Por exemplo, podemos produzir mais alimentos do que o suficiente para alimentar todo o mundo, como também existe trabalho suficiente para todos no mundo. Mas, claramente, não existe dinheiro suficiente para pagar todos esses trabalhos: a escassez está em nossas moedas nacionais. Na realidade, a tarefa dos Bancos Centrais é criar e manter essa escassez de divisas e a conseqüência disso é que temos então que lutar uns contra os outros a fim de sobreviver.

O dinheiro é criado quando os bancos fazem empréstimos. Quando um banco entrega a soma de cem mil dólares contra uma hipoteca, na realidade o que o banco está criando é o dinheiro principal e inicial, ou seja, os 100.000 que você gasta e que, então, faz circular a economia. Mas, na realidade, o banco conta com que você vai devolver 200.000 dólares nos próximos vinte anos. Só que estes segundos 100.000 dólares não são criados. Pelo contrário, significa que o banco manda você para o mundo cruel, para que você lute contra todo mundo e traga para ele esses segundos 100.000 dólares.

Então, isto quer dizer que uns têm que perder para que outros possam ganhar? Ou seja, é preciso que uns tenham que sacar de suas contas para que outros consigam dinheiro suficiente para pagar esses juros?

É assim: é exatamente isso que os bancos fazem quando emprestam o dinheiro que têm. E isso é assim porque as decisões tomadas pelos Bancos Centrais, como a Reserva Federal dos EE UU, são tão importantes. Uma alta significativa no custo das taxas de juros automaticamente determina uma proporção muito alta de quebras necessárias. Na realidade, isso quer dizer que quando o banco verifica sua credibilidade, realmente o que ele está checando é o quanto você é capaz de competir e vencer os outros jogadores. Em outras palavras, até que ponto você vai ser capaz de extrair esses segundos 100.000 dólares que o banco nunca criou e que, se você fracassar neste jogo, ele o fará perder sua casa ou qualquer outro patrimônio colateral que você terá que entregar.

Isto influencia também a taxa de desemprego?

Seguramente, este é um fator maior, mas ainda há algo mais a agregar: cada vez mais, as tecnologias da informação permitem que se alcance um alto crescimento econômico sem um correspondente aumento do emprego. Creio que nos EE UU, neste momento, estamos vivendo uma das últimas etapas ou períodos orientados pelo emprego, como diz Jeremy Rifkin em seu livro o Fim do trabalho: os empregos não vão existir mais, nem sequer nas boas épocas. Um estudo feito pela Federação Metalúrgica Internacional em Genebra prediz que, dentro dos próximos trinta anos, apenas dois ou três por cento da população mundial serão capazes de produzir todas as necessidades do planeta. Mesmo que multipliquemos isso por um fator dez, a pergunta será: o que então fariam os outros 80 por cento da humanidade? Meu prognóstico é de que as moedas locais serão uma ferramenta de muita importância para o desenho social no século XXI, mesmo que não seja por nenhuma outra razão além do emprego. Não estou dizendo que essas moedas locais estão sendo chamadas a substituir ou que irão substituir as moedas nacionais. Por isso mesmo é que as chamo de moedas complementares. As moedas nacionais que geram competição, com certeza, vão continuar a desempenhar seu papel no mercado global competitivo. Mas, creio eu que, sem dúvida, as moedas locais complementares são muito mais adequadas para desenvolver as economias locais e cooperativas.

Você acredita que essas economias locais irão prover uma forma de emprego que não será ameaçada de extinção?

Ao menos numa primeira etapa, isso é correto. Na França, atualmente, existem umas trezentas redes de intercâmbio local chamadas SEL (SAL). Desenvolveram-se quando os níveis de desemprego alcançaram os 12%, para facilitar intercâmbios de diversos tipos de produtos e serviços, desde os aluguéis à produção orgânica. Mas também é certo que em alguns lugares se trata de um movimento bastante desenvolvido, como no Sudeste da França, em Ariège, onde existe um movimento bastante importante de pessoas que, não só comercializam queijos, frutas, tortas e outros produtos de mercado comercializados a cada 15 dias, mas também serviços de serralheria, cabeleireiro, aulas de navegação a vela ou aulas de inglês. Nesse circuito, apenas são aceitas as moedas locais. E as moedas locais criam trabalho; assim, creio ser adequado fazer a distinção entre trabalho e emprego. Emprego é o que você faz para viver. Ao contrário, trabalho é algo que você pode fazer se que você quiser, se te agrada. Desde já, espero que os empregos se tornem cada vez mais obsoletos e, mesmo assim, sempre existirá um fascinante e infinito trabalho por ser feito. Na França, você encontra pessoas que oferecem aulas de violão em troca de aulas de alemão e ninguém paga em euros. O que é maravilhoso quanto à moeda local é que quando as pessoas criam sua própria moeda não precisam criá-la com base no fator da escassez e nem precisam dispor de moedas de nenhum outro lugar para poder fazer um intercâmbio com o vizinho. Outro exemplo clássico é o do Time Dollar de Edgard Kahn, que significa que, enquanto existir um acordo entre duas pessoas sobre alguma transação com uso desses time dollars, o dólar tempo, eles já criaram odinheiro no próprio processo do acordo; não existe, portanto, escassez de moeda e isso não significa que exista uma quantidade infinita dessa moeda. VOCÊ NÃO PODE ME DAR 500.000 horas de time dollars porque seria impossível da tua parte dar tantas horas… Mas não existe essa escassez artificial de dinheiro que os bancos criam permanentemente. Em vez de atirar uns contra os outros, este sistema impulsiona as pessoas a cooperarem entre si.

Você está sugerindo que a escassez não precisa ser um princípio guia de nosso sistema econômico. Mas a escassez não é fundamental à economia, em especial quando se trata de um mundo de recursos limitados?

A análise dessa questão está baseada no trabalho de Carl Gustav Jung, porque ele foi o único que construiu um marco de abordagem da psicologia coletiva. E o dinheiro é um fenômeno de psicologia coletiva. O conceito chave de Jung é que o dinheiro é um campo emocional que mobiliza as pessoas individual e coletivamente em uma direção particular. Jung mostrou que todas as vezes que um arquétipo particular é reprimido, emergem dois tipos de sombras que são polaridades uma da outra. Por exemplo, se o arquétipo que corresponde ao papel de rei ou de rainha é reprimido, eu vou me comportar seja como um tirano seja como um covarde.

Essas duas sombras estão conectadas uma à outra através do medo. Assim, alguém é tirano por medo de parecer débil, enquanto o débil o é por medo de parecer tirano. Só alguém que não tenha medo dessas duas sombras pode incorporar o arquétipo do Soberano. Agora, podemos aplicar este marco também ao fenômeno, já tão bem documentado, da repressão ao arquétipo da Grande Mãe – o arquétipo da Grande Mãe foi muito importante no mundo ocidental, nos albores da pré-história, através do período pré indo-europeu e ainda o é em muitas culturas tradicionais atuais. Mas esse arquétipo tem sido violentamente reprimido no ocidente, ao menos durante 5.000 anos iniciados com as invasões indo-européias, reforçadas pela cosmovisão judáico-cristã, que é contrária à figura da deusa, e culminando com os três séculos de caças às bruxas ao longo da era vitoriana.

Assim, se repressão exercida contra esse arquétipo é de tal ordem, e tendo durado todo esse tempo, então, aquelas sombras se manifestam de maneira muito poderosa na sociedade. Se depois de 5.000 anos as pessoas passaram a considerar esses comportamentos de sombra como normais, a pergunta que eu me faço é muito simples: quais são as sombras do arquétipo da Grande Mãe? Daí que estou propondo que estas sombras sejam a cobiça e o medo da escassez. Assim, não é surpreendente que, na época vitoriana, no clímax da repressão contra a Grande Mãe, um mestre escola escocês chamado Adam Smith tivesse então criado a economia moderna, que pode ser definida a partir deste enfoque como uma maneira de distribuir ou de administrar os recursos escassos através do mecanismo individual e pessoal da cobiça.

Então, se a cobiça e a escassez são as sombras, qual é o arquétipo da Grande Mãe? Ou melhor, o que representa o arquétipo da Grande Mãe em Economia?

Primeiro, seria importante distinguir a deusa que representa todos os aspectos do DIVINO como a GRANDE MÃE, que simboliza especificamente o planeta Terra, a fertilidade, a natureza e o fluxo da abundância em todos os aspectos da vida. Alguém que assimilou o arquétipo da Grande Mãe confia na abundância do universo. É quando falta confiança em você mesmo que, então, o fato de ter uma gorda conta bancária, a qualquer preço, acaba sendo o maior valor a que se aspira. O primeiro homem que acumulou uma série de coisas como proteção contra as incertezas do futuro, automaticamente teve que começar a defender o seu botim contra a inveja e as necessidades dos outros. Se uma sociedade tem medo da escassez, ela cria um ambiente no qual se manifestam boas razões para se viver com medo da escassez: isso é o que se chama uma profecia de autocumprimento.

Também é verdade que temos vivido durante um longo tempo acreditando que era necessário criar escassez para criar valor. Mesmo que isso possa ser válido em alguns domínios, se extrapolado para outros, como temos feito, pode ser absolutamente artificial. Por exemplo, não existe nada que nos impeça de distribuir gratuitamente toda informação. O custo marginal dessa distribuição nos dias de hoje é praticamente nulo; sem dúvida, inventamos copyrights e patentes para manter a informação escassa (e valiosa). Assim, o medo da escassez é que cria a cobiça e a acumulação, criando por sua vez – em outra parte – a escassez que se temia. Enquanto, por seu lado, as culturas que incorporam a Grande Mãe são baseadas na abundância e na generosidade.

Estas idéias estão desenvolvidas por você no conceito de comunidade?

Na realidade, minha definição de comunidade é etimológica. A origem da palavra ‘comunidade’ vem do Latim, de munus, que quer dizer dom, presente; e de cum, que quer dizer juntos. Juntos, um com o outro é o que significa literalmente comunidade; dar-se uns aos outros. Portanto, eu defino comunidade como um grupo de pessoas que acolhe bem e honra minhas ofertas e presentes, e de quem espero também receber em troca, de volta, razoavelmente, ofertas e presentes.

E as moedas locais podem facilitar este intercâmbio de presentes?

A maioria das moedas locais que conheço começaram com o propósito de criar emprego, mas existe um grupo crescente de pessoas que estão começando experiências de moedas locais especificamente para criar comunidade. Por exemplo, eu me sentiria muito estranho se chamasse meu vizinho, no vale, e lhe dissesse: “percebi que você tem um montão de pêras em sua árvore. Será que posso pegar algumas? Imediatamente, me sentiria com a necessidade de lhe oferecer algo em troca… Mas, se vou ao supermercado e ofereço meus dólares escassos, é muito mais fácil e muito mais cômodo, simplesmente porque … vou ao supermercado! Assim, acabamos não usando as pêras do vizinho. Mas, se eu tivesse moedas locais, não teria nenhuma escassez de meios de troca. Então, comprar as pêras do vizinho poderia se tornar numa boa desculpa para a interação. Em Tahoma Park, Maryland, Olav Eliberk começou com uma moeda local para facilitar esse tipo de intercâmbio dentro da comunidade e todos os participantes concordam que foi isso o que ocorreu desde então.

O que nos leva à seguinte pergunta; se as moedas locais podem significar também um meio pelo qual as pessoas podem satisfazer suas necessidades básicas, como alimentação e moradia? Ou se essas são necessidades que deverão continuar sendo satisfeitas pelo mercado competitivo?

Tem muita gente que gosta de jardinagem mas que, neste mundo competitivo, não pode viver de jardinagem. Agora, se um jardineiro está desempregado e eu estou desempregado, na economia formal os dois devemos morrer de fome. Sem dúvida, com as moedas complementares, ele pode cuidar de meu jardim e fazer crescer meus alfaces e eu posso lhe pagar em moeda local, prestando algum serviço a alguém que precise dele, da mesma forma como as horas de Ithaca, NY, são aceitas no mercado local. Pois, os granjeiros usam a moeda local para pagar a alguém que os ajude com a colheita ou para consertar alguma coisa dentro de casa. Alguns senhorios aceitam essas “horas” para pagamento do aluguel, especialmente se não estão afetados por cotas de hipoteca a serem pagas com os dólares escassos.

Quando você dispõe de moeda local, rapidamente se torna claro o que é local e o que não é local. Por exemplo, um grande supermercado só vai aceitar dólares, porque seus fornecedores estão em Hong Kong, Singapura, ou Kansas City. Mas o supermercado local de Ithaca aceita horas e dólares. Usando moedas locais, você pode criar um caminho em direção à sustentabilidade local. As moedas locais também provêem a comunidade de algumas proteções contra os aumentos de preços e os vaivéns da economia global.

Você que esteve no negócio de monitoramento e de desenho do sistema financeiro global, porque você acredita que as comunidades deveriam estar protegidas desses vaivéns?

Antes de tudo, o sistema monetário oficial atual já não tem mais quase nada a ver com a economia real. Só para dar uma idéia, as estatísticas de 1995 indicam que o volume de moeda intercambiada em nível global foi de 1 a 3 trilhões por dia: isto é, 30 vezes mais do que o produto bruto diário dos países desenvolvidos da OCDE em seu conjunto. Um produto interno bruto (PIB) dos EE UU é movimentado no mercado global a cada três dias. Deste total, só dois ou três por cento têm a ver com transações reais; o resto está dentro do cibercassino especulativo global. Isso significa que a economia real foi relegada a ser uma mera capa de cobertura do bolo da especulação, o que é o reverso do que acontecia até duas décadas atrás.

Quais são as implicações deste fato e o que ele significa para aqueles que não estão fazendo transações através das fronteiras internacionais?

Por um lado, está muito claro que o poder se deslocou dos governos para os mercados financeiros. Quando um governo faz algo que desagrada ao mercado – como os britânicos em 1991, os franceses em 1994, os mexicanos em 1995 – ninguém vai se sentar à mesa e lhe dizer: “vocês não deveriam fazer isso porque…” O que acontece é algo muito mais fácil: surge uma crise monetária com aquela moeda. Assim, algumas centenas de pessoas que não foram eleitas por ninguém e que não têm nenhuma responsabilidade coletiva sobre nada… Como, por exemplo, são os fundos de pensão ou tantas outras coisas… E assim segue o processo…

Você falou também da possibilidade de uma explosão desse sistema…

Hoje, estou vendo uns 50% de probabilidade de que isto ocorra nos próximos 5 ou 10 anos. Há pessoas que dizem que essa possibilidade é de 100%, que este horizonte está muito mais próximo. George Soros, que trabalhou especulando com moedas, concluiu que esta falta de estabilidade é cumulativa; assim, que a quebra da livre flutuação da moeda está absolutamente garantida. Joel Kurtsman, ex-diretor de Harvard Business Review põe o seguinte título em seu último livro: A morte do dinheiro e prognóstico de colapso iminente devido à loucura especulativa…

Só para ver como isso poderia acontecer, imaginemos as reservas de todos os Bancos centrais da União Européia, que representam algo em torno de 640 bilhões US$. Pois, numa situação de crise, se todos os Bancos Centrais decidissem trabalhar juntos – coisa que nunca fizeram – e se todos decidissem usar todas as suas reservas – o que tampouco jamais ocorreu – eles seriam fundos para controlar apenas a metade do volume de um dia normal de comércio! Isto seria numa ocasião normal; mas num dia de crise este volume poderia duplicar ou triplicar; aí, então, as reservas dos Bancos Centrais não durariam mais que duas ou três horas…

E qual seria a saída?

Se isso ocorresse de repente, estaríamos hoje em um mundo muito diferente. Em 29, o mercado de ações quebrou, mas se manteve o padrão ouro. Foi por isso que o sistema monetário se sustentou. Agora, estamos lidando com algo muito mais fundamental: o único caso próximo que conheço é o do império romano, que terminou com a moeda romana. Naquele tempo, isso levou quase um século e meio para que a quebra se propagasse
para todo o império. Agora, essa mesma coisa levaria apenas algumas horas.

As moedas locais não poderiam prover as comunidades de alguma forma de resistência, ajudando-as a sobreviverem em situação de quebra das moedas ou de qualquer outra quebra internacional? Você mencionou também que as moedas locais poderiam promover a sustentabilidade: qual é a conexão?

Para compreender isso, é preciso ver a relação que existe entre as taxas de juros e os modos como operamos tendo em vista o futuro. Se eu pergunto: “Você quer cem dólares agora, ou cem dólares dentro de um ano?”, a maior parte das pessoas irá responder que querem o dinheiro agora. Simplesmente porque acham que devem depositar esse dinheiro numa conta bancária, sem riscos, e poder contar com cento e dez dólares um ano mais tarde. Uma outra maneira de dizer isso é que, se eu te ofereço dez dólares dentro de um ano, seria equivalente a te oferecer noventa, hoje. O desconto que se faz em relação ao futuro se refere ao desconto pelo dinheiro à vista. Por exemplo, se pagamos à vista, em geral, sempre nos dão um desconto de dez por cento, por isso, às vezes é o caso de oferecer pagar com cartão ou cheque. Isso significa que no sistema monetário corrente tem sentido cortar árvores e colocar o dinheiro no banco, porque o dinheiro no banco vai crescer mais rápido que as árvores. Isso faz com que tenha sentido poupar dinheiro construindo casas pobremente dotadas de isolamento térmico, por que o custo da poupança de energia na casa é mais baixo do que o de isolá-las.

Devemos desenhar um sistema monetário que faça exatamente o oposto daquilo que acontece atualmente. É o que eu chamo de carga de longo prazo – “demurrage charge” – , um conceito desenvolvido por Silvio Gesell já faz cerca de um século. Sua idéia era de que o dinheiro é um bem público, assim como o telefone ou o transporte coletivo, pelos quais deveríamos pagar apenas uma taxa por usá-los. Em outras palavras, criaríamos uma taxa de juros negativa em vez de positiva. Seria assim: se eu te dou um bilhete de cem dólares e digo que dentro de um mês você tem que pagar um dólar para que o bilhete continue válido, o que você faria? Suponho que trataria de usá-lo ou, senão, iria investir em algo mais, para não “perder” esse dólar… Exatamente essa é a função do dinheiro: só é bom quando circula. No sistema de Gesell, as pessoas deveriam usar o dinheiro como um meio de intercâmbio, mas não como reserva de valor. Deste modo, se geraria trabalho, se causaria a circulação e se poderia investir num sistema de incentivos de curto prazo. Em vez de cortar árvores para colocar o dinheiro no banco, você investiria seu dinheiro em árvores vivas ou em instalar calefação ou em isolamento de madeira para a sua casa.

Isto já foi experimentado?

Só sei de três períodos nos quais podemos encontrar isto: no Egito clássico; na Idade Média européia, três séculos atrás; e há alguns anos, na década de trinta.

No Egito antigo, quando se acumulavam grãos, você recebia um bônus que era intercambiável e se transformava numa espécie de moeda. Se você voltasse um ano depois, com dez “moedas”, você poderia obter nove vezes essa quantidade de trigo, porque os ratos haviam comido uma parte, os guardas que haviam mantido o sistema deviam ser pagos, etc. Então, essa quantidade das dez peças era submetida a uma taxa negativa, ou seja, havia uma espécie de desvalorização. O Egito foi o celeiro do mundo antigo – o presente do Nilo. Por quê? Porque, em vez de conservar valor em moeda, todo o mundo era levado a investir em elementos produtivos que durariam para sempre, como em melhorias na terra e nos sistemas de irrigação.

A prova de que o sistema monetário tem algo a ver com a riqueza é que tudo terminou abruptamente, quando o império romano substituiu a moeda egípcia, que tinha os grãos como padrão, por seu próprio sistema monetário, com juros positivos. Depois disso, o Egito deixou de ser o maior celeiro do mundo e se transformou num país em desenvolvimento… como se diz hoje. Na Europa, na Idade Média, séculos X – XIII, as moedas locais eram emitidas por senhores locais que periodicamente as recuperavam e reeditavam, recolhendo um imposto nesse mesmo processo. Com essa desvalorização, tornava-se indesejável manter essa moeda como valor de reserva, já que a moeda acumulada deixava de ser válida. O resultado foi o florescimento da cultura e o crescimento e expansão do bem estar, no período correspondente àquele em que essas moedas locais foram usadas. Quase todas as catedrais foram construídas nesse período e, se você pensa sobre o que se exige de uma pequena cidade para construir uma catedral, é simplesmente fantástico!

As catedrais consumiram gerações para serem construídas, não é verdade?

Não só por isso. Para além dos papéis que, obviamente, desempenham o simbólico e o religioso, que não quero aqui absolutamente diminuir, deveríamos nos recordar de que as catedrais também tinham uma função econômica importante. Elas atraíam os peregrinos que, da perspectiva dos negócios, desempenhavam um papel similar ao dos turistas de hoje. Essas catedrais foram construídas para durar para sempre e para criar um fluxo de dinheiro de longo prazo para as comunidades. Essa foi a maneira de se criar abundância para cada um e para todos os descendentes, por treze gerações. A prova é que isto funciona assim até hoje no negócio das cidades; Chartres vive ainda dos turistas que visitam sua catedral, o que já dura 800 anos e nunca se esgotou.

Quando a introdução da tecnologia da pólvora permitiu que os reis centralizassem o poder, no século XIV, a primeira coisa que fizeram foi monopolizar o sistema monetário. O que aconteceu então? Não se construíram mais catedrais. Nos séculos 14 e 15, a população continuava tão cristã e devota como antes, mas o incentivo econômico para os investimentos de longo prazo havia terminado. As catedrais são só um exemplo; os relatos do século 12 mostram como moinhos e outros elementos da produção se mantiveram num extraordinário nível de qualidade, com partes que eram substituídas antes que estivessem gastas. Estudos recentes revelaram que a qualidade de vida dos trabalhadores, na Europa dos séculos 12 e 13, era altíssima, mais alta ainda do que hoje. Quando não se pode manter a poupança na forma de moeda, deve-se então investi-la em algo que possa produzir valor no futuro; esta forma de dinheiro foi que criou essa extraordinária explosão.

De todo modo, esse foi um período no qual o cristianismo era hegemônico na Europa. Sendo assim, como fica o arquétipo da Grande Mãe que devia estar sendo reprimido?

Na realidade, um símbolo religioso muito interessante que se tornou dominante nessa época foi a famosa madona negra. Havia centenas dessas estátuas durante o período que vai do século 10 ao 13. Na verdade, eram estátuas de Isis com o menino Hodes sentado em seu colo, importadas diretamente do Egito durante as primeiras cruzadas. Seu assento especial, vertical, era chamado cátedra – daí a palavra cátedra atualmente – e de forma muito interessante essa cadeira era um símbolo exato que identificava Isis no antigo Egito. As estátuas das madonas negras também foram identificadas na época medieval como a alma mater que era a mãe generosa, literalmente – o que depois, na América, vai se referir a algumas universidades relevantes. As madonas negras eram uma continuação direta da Grande Mama, em uma de suas formas antigas. Elas simbolizavam o nascimento e a fertilidade, a riqueza e a terra. Elas simbolizavam o espírito encarnado na matéria antes que as sociedades patriarcais separassem o espírito da matéria. Temos, assim, uma vinculação direta entre duas civilizações que criaram sistemas de moeda com juros negativo criando níveis de abundância inusuais para pessoas comuns (o Egito antigo e a Europa do século 10 ao 13). Estes sistemas monetários correspondem exatamente a honrar aquele arquétipo.

Que potencial você vê para moedas locais no sentido de que possam trazer o arquétipo da Grande Mãe, da bondade e a generosidade, para as nossas economias atuais?

A questão mais importante que a humanidade de hoje em diante tem que se por é a da sustentabilidade e das desigualdades e quebras nas comunidades, que criam tensões que resultam em violência e guerra. É possível atacar ambos os problemas com a mesma ferramenta, fazendo uma criação consciente de sistemas locais que reforcem ao mesmo tempo a sustentabilidade e a comunidade. Significativamente, temos observado no passado, nas décadas passadas, um claro despertar do arquétipo feminino. Isso está refletido não só nos movimentos de mulheres, no aumento das preocupações ecológicas ou nas novas epistemologias que reintegram espírito e matéria, mas também em tecnologias que nos permitem substituir hierarquias por redes, como é o caso da Internet.

Se agregarmos a estas tendências o fato de que, pela primeira vez na história da humanidade, temos tecnologias de produção para criar uma abundância sem precedentes, tudo isso converge para uma extraordinária oportunidade de combinar o hardware de nossas tecnologias da abundância com o software das mudanças de arquétipo. Tal combinação, que antes nunca havia sido possível nessa escala e nessa velocidade, nos permite, hoje, desenhar com consciência sistemas monetários feitos de tal modo que sejam eles que trabalhem para nós e não nós para eles. Proponho desenvolver sistemas monetários que nos levem a alcançar a sustentabilidade e a comunidade, cuidando dos níveis local e global. Estes objetivos estão em nossas possibilidades no tempo de uma geração. Se os materializamos ou não, isso vai depender de nossa capacidade de cooperar uns com outros e de, conscientemente, inventar nosso dinheiro.

FONTE: Deriva Editora

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2 Respostas to ““O dinheiro é como um anel metálico que colocamos em nossos narizes””

  1. Você está pronto para a permacultura? « Plantando Consciência – Desperte a sua Says:

    […] monocultura (para saber mais, veja esclarecedora entrevista com o economista e co-autor do Euro, Bernard Lietaer, que, por sinal, é um dos entrevistados do filme 2012 Tempo de Mudança, que exibimos recentemente […]

  2. Renato Bueno Says:

    “Tô Besta!”


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