A Vocação Humana: uma Abordagem Antropológica e Filosófica

A Conquista da Lua” por Vicente do Rego Monteiro (1899-1970)

1. Escolha profissional: dificuldades atuais e perspectivas

O momento da opção profissional tem se revelado como dotado de uma crescente dificuldade de escolha entre os jovens, constatada por especialistas em Orientação Vocacional, por pesquisas acadêmicas e pela grande imprensa.

(…)

A sociedade contemporânea, em grande parte, revela muita insegurança e incerteza quanto a valores: não há pontos de referência estáveis. Isto gera crise e confusão, tornando muito difícil para o homem atual identificar, em última instância, “o que vale a pena” e dedicar-se a isto; o afastamento das questões mais essenciais como o porquê da existência, um sentido ou causa à qual entregar a vida, gera esquecimento ou inexistência de critérios para orientar e sustentar decisões ou ações (…).

A dificuldade do homem contemporâneo de tomar consciência de si mesmo, de posicionar-se diante da realidade e a experiência freqüente de indecisão, são conseqüências de uma mentalidade que, negligenciando a necessidade deste fundamento, não favorece a descoberta de valores, nem um autêntico desenvolvimento humano. Não havendo uma clara hierarquia de valores, a postura assumida diante de situações que exigem soluções imediatas é a de relatividade, sem aprofundamento das razões das escolhas ou atitudes a serem assumidas.

À confusão de valores, soma-se a instabilidade da economia e do mercado de trabalho. A forma atual de organização do trabalho, sempre mais competitiva e em rápida transformação, tem exigido definição profissional cada vez mais precoce e, ao mesmo tempo, oferecido uma crescente disponibilidade de mão de obra. Para os jovens, cada vez mais novos ao serem solicitados a uma definição neste universo profissional, é necessário oferecer algo que transcenda as perspectivas instáveis e dramáticas do mercado de trabalho. Esta urgência vem sendo captada por educadores que apontam a necessidade de educar para o mundo do trabalho e não apenas para o mercado de trabalho. (…) Ao realizar a escolha profissional dentro deste contexto dinâmico e instável é necessário considerar não estritamente a profissão, mas concebê-la dentro de uma dimensão mais ampla e, ao mesmo tempo essencial, que é a da vocação, possibilitando transcender o nível ocupacional inclusive para poder incluí-lo ou transformá-lo.

É necessário que, ao realizar uma opção tão fundamental como a vocacional que, em princípio envolve toda a vida, o jovem possa ser convidado a aproximar-se, a perguntar-se sobre o sentido e finalidade de seu existir. Às questões normalmente colocadas como ‘o que gosto de fazer?’, ‘o que me dá prazer realizar?’, ‘o que sei fazer?’, ‘com qual profissão me darei bem na vida?’, devem ser acrescentadas: ‘a que sou chamado?’, ‘que sentido pode haver no trabalho que desejo realizar?’, ‘qual a finalidade do meu existir?’. Assim, no processo de orientação vocacional, além das dimensões psico-sociológicas, devem ser igualmente consideradas as dimensões antropológica e filosófica, que são fundamentais para o entendimento da vocação humana.

Considerar uma questão do ponto de vista filosófico significa buscar a verdade sobre ela, exige uma preocupação com o todo e não apenas com sua aplicação, seu uso imediato. Nessa perspectiva, para apreender o que há de essencial acerca da vocação do homem deve-se partir da grande interrogativa sobre o ser do homem, de suas características idiossincráticas. Desta forma, partindo da concepção de pessoa – segundo os autores contemporâneos Josef Pieper, Viktor Frankl, Luigi Giussani -, de algumas categorias que apresentem tanto as potencialidades especificamente humanas quanto a expressão delas no relacionamento com a realidade, pode-se chegar a uma compreensão mais ampla da vocação humana – a partir também de filósofos contemporâneos como Julían Marías e Alfonso Lopez Quintás -, de forma a oferecer aos jovens subsídios para realizar uma escolha e um caminho vocacional mais humanos.

2. Características antropológicas do homem

A compreensão do que é o homem está vinculada à idéia de pessoa. O conceito de pessoa esteve sempre presente em toda tradição do pensamento ocidental; os pensadores gregos identificaram no ser do homem duas categorias ou dimensões: o corpo e a alma, o espírito e a matéria. É no homem que estas duas dimensões da realidade se acham presentes, constituindo uma unidade indissolúvel.

A pessoa, uma totalidade aberta a outras totalidades, é considerada em toda a tradição judaico-cristã um valor absoluto: a pessoa vale por si. O homem é pessoa, com possibilidades muito precisas de percepção e relacionamento com o real, que podem ser descobertas e utilizadas a partir de um trabalho de humanização.

A característica própria, distintiva do ser humano é a razão. (…). Razão é a estrutura interna de compreensão do homem, sua capacidade intelectual de compreensão. Esta forma peculiar de se relacionar e conhecer o real foi chamada pela tradição do pensamento ocidental de capacidade de conhecimento espiritual (…). Assim, a possibilidade de relação do homem com a realidade é extremamente ampla e elevada, tornando-o capaz de estar diante da totalidade do real: o ‘mundo’ do espírito é a totalidade do ser.

É no nível espiritual que se encontra uma outra característica distintiva do homem: a busca de sentido. (…) além de buscar a satisfação de suas necessidades e seu equilíbrio homeostático, ele tem urgência em encontrar e realizar um sentido. É inerente ao homem o anseio por descobrir um ‘para quê’, uma finalidade última para existência, algo pelo qual valha à pena entregar a vida. A possibilidade de realizar o desejo de sentido, a afirmar um significado último para a existência, está em responder, de forma singular, própria, às situações concretas, cada uma delas única e irrepetível. Uma vida plena de sentido se constrói buscando e encontrando o significado de cada experiência cotidiana.

(…)

É na relação com a realidade que o homem descobre suas potencialidades, necessidades e as possibilidades de nela intervir; é no encontro com o real que pode reconhecer a singularidade e unicidade de seu ser. (…) Assim, cada homem é único e irrepetível, tem um modo próprio de existir, um ‘ser-assim’ que lhe permite responder a circunstâncias irrepetíveis, afirmando valores que só ele seria capaz de fazê-lo naquele momento, daquela maneira.

É próprio do homem a capacidade de decidir, de agir e, portanto, de responsabilizar-se. Uma das manifestações da natureza humana é a capacidade de agir com autonomia e responsabilidade, de posicionar-se diante da realidade com autodeterminação. Ser responsável significa assumir decisões e atitudes dentro das circunstâncias concretas da vida, afirmar valores e posicionamentos a partir de critérios que são identificados pela consciência. O ser humano é responsável porque é livre, porque é um ser que decide, escolhe como proceder em sua existência. A liberdade é a capacidade do homem de conduzir-se a si mesmo, de estabelecer, orientado pela consciência, os critérios que nortearão seus atos e escolhas, de decidir-se pelo bem. Para exercer essas potencialidades especificamente humanas como a responsabilidade e a liberdade, é preciso um processo educativo (…).

O conceito vocação tem sido entendido de forma redutiva, na maioria das vezes identificado com o sentido profissional ou muito próximo a ele. Julián Marías denomina de vocações parciais aquelas que se referem a alguns aspectos ou facetas da personalidade, comuns a várias pessoas, portanto, genéricas. Seriam formas secundárias de vocação. A vocação no sentido mais profundo e radical envolve a pessoa em sua totalidade e singularidade(…).

A vocação é um convite, uma proposta à liberdade e responsabilidade do homem, à qual ele pode aderir ou não, mas não lhe compete fabricá-la ou modificá-la. É um chamado que vem de encontro ao homem, a ele cabe apenas atender ou não. (…).

Tampouco as circunstâncias da vida de uma pessoa podem ser escolhidas. Não são decisões suas o lugar ou época em que nasceu, sua família, características físicas, etc… Estas circunstâncias são impostas e é a partir delas que sua vida será configurada; porém, a escolha ou decisão humana incide no modo, no ‘como’ vai construir sua história, na maneira particular, pessoal de se relacionar com o que lhe foi dado. (…).

Assim, a trajetória é expressão da liberdade da pessoa, é a realização de um caminho pessoal construído a partir da vocação proposta e da circunstância imposta.

A descoberta da vocação antropológica, do chamado a ser si mesmo e a sua realização, através das trajetórias biográficas, esclarece e dá sentido às vocações específicas, como as profissionais, dando-lhes um caráter único e insubstituível. A vocação profissional — que supõe a escolha de uma carreira profissional, bem como seu cumprimento — deve estar subordinada, então, a afirmação de quem a pessoa é e deseja ser: é este ‘alguém’ que dá consistência e significado para o que vai ser realizado.

4. O trabalho com expressão da ontologia humana

Este conjunto de características antropológicas da vocação humana possibilitam aprofundar temas relacionados ao caminho vocacional, que são comumente entendidos a partir da perspectiva hedonista e redutiva, como o conceito de auto-realização, felicidade e do sentido do trabalho.

O conceito de auto-realização, modernamente identificado como conquista de satisfação, sucesso, prazer, tem sido cada vez mais valorizado, e ao mesmo tempo, mal compreendido. A busca de realização está direcionada a aspectos parciais do homem, a ponto de muitas vezes se conceber ‘realização’ como sinônimo de realização profissional, de status ou sucesso advindo do exercício profissional. Considera-se realizado quem atingiu seus objetivos ou está em pleno desenvolvimento dos planos estabelecidos para si; a realização é concebida como resultado de empenho e domínio sobre o real, de forma a alcançar metas previamente estabelecidas.

(….) Isto significa que a auto-realização do homem é construída durante toda a vida, é um movimento dinâmico contínuo, onde constantemente o homem experimenta sua existência como um ‘ainda não’ ou um constante ‘tornar-se’, ‘vir-a-ser’. Assim, o homem está sempre a caminho de sua plena realização, é um caminhante, um peregrino (…).

A busca da realização, a aspiração à felicidade é próprio da pessoa, dos seres espirituais, é um ‘querer’ dado pela natureza (…).

O desejo de felicidade é, então, um querer natural, próprio da natureza humana, que a constituiu segundo esta direção e forma. Esta vontade natural de felicidade age como uma força de gravidade, sobre a qual o homem não tem nenhum poder, mas para a qual tende inexoravelmente, irresistivelmente. (…) Portanto, a felicidade está vinculada à autenticidade da vida humana, à possibilidade de relacionar e integrar cada aspecto parcial com um ponto unitário, na busca da realização total, da plenitude do viver humano.

O trabalho é um aspecto fundamental da vida por atender às necessidades humanas, tanto do ponto de vista material como espiritual, já que através das tarefas concretas o homem se sustenta e, ao mesmo tempo, expressa seu modo original de realizar valores em um determinado tempo e lugar.

A descoberta do valor de sua contribuição pessoal para a vida em sociedade é fundamental para o homem contemporâneo que vive em uma sociedade onde é valorizado o individualismo, o isolamento e a competitividade.

O trabalho pode constituir-se em uma oportunidade privilegiada para o homem atual redescobrir a possibilidade de autêntica relação eu-mundo — onde o pessoal não seja negado, esquecido ou dissolvido — na medida em que o trabalhar se torne ocasião de encontro. O filósofo espanhol contemporâneo, Alfonso López Quintás afirma que é no âmbito do encontro que a pessoa se desenvolve e se aperfeiçoa, é no encontro com o outro que o homem descobre-se, revela-se a si mesmo. Para que haja encontro é necessário ir além de uma simples proximidade com o outro; é fundamental a abertura, o diálogo, a comunicação(…). Quando há encontro de verdade é possível superar uma lógica individualista e sectária, para afirmar uma postura capaz de abertura, generosidade e acolhimento do diferente.

Uma exigência fundamental para se gerar a possibilidade de encontro é buscar e compartilhar valores: quando as pessoas dirigem-se e empenham-se para atingir o objetivo último do trabalho que fazem juntas, que é a realização do bem comum, colocam-se a caminho, cada uma com sua contribuição, para a construção de uma nova realidade comum.

O trabalho constitui, assim, uma possibilidade de colocar-se a serviço de outros. É nesta possibilidade de ser uma contribuição e expressão original que o trabalho ganha relevância e significado para a pessoa, constituindo-se ocasião de descoberta e integração da própria personalidade. Torna-se, então, fundamental a maneira como se trabalha, o que se expressa de especial e único, adquirindo menor importância a tarefa em si(…). Portanto, a realização que pode advir do trabalho está vinculada à expressão da singularidade do ser, daquilo que há de específico e original em cada homem.

A plena realização humana não pode ser encontrada sem que estas características antropológicas possam ser descobertas e experimentadas. As decisões ou escolhas, bem como a realização do caminho vocacional, devem ser iluminadas e sustentadas por estas características, de outra forma tornam-se superficiais e frágeis. A dimensão profissional é apenas um aspecto da vocação humana e, portanto, a ela deve estar submetida.

A possibilidade de um acompanhamento e ajuda eficaz nos processos de Orientação Vocacional está vinculada à compreensão da vocação antropológica do homem, que possibilita uma visão essencial e abrangente da questão. Quem é homem? Para que educar? Existe um ideal, que sociedade formar? Estas são questões fundamentais para um trabalho eficiente nas áreas da psicologia, pedagogia, sociologia. A Antropologia Filosófica deve estar na base de qualquer trabalho junto ao ser humano.

Excerto de Artigo de Sílvia Regina Rocha Brandão. Leia na íntegra AQUI

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2 Respostas to “A Vocação Humana: uma Abordagem Antropológica e Filosófica”

  1. Sizue Itho Says:

    Olá, colegas!

    Estou um pouquinho sumida dos encontros e aproveito esse espaço prá dizer que nossas conversas tem feito muita falta.

    Estou trabalhando loucamente nesse final de ano e não tenho tido oportunidade de ler os materiais do grupo, nem mesmo reservar um sábado por mês para os encontros.

    Mas, guardem meu lugarzinho no sofá prá mim porque eu vou voltar!

    É só as coisas esfriarem e a gente mata a saudade do papinho e do café.

    Abraços a todos,
    Sizue Itho

  2. Grupo Papeando Says:

    Olá Sizue,
    percebemos sua ausência e sentimos sua falta! Saiba que será, sempre, muito bem-vinda, afinal, o Papeando é nosso!


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