Afinal, queremos mesmo um futuro sem capitalismo?

São Paulo” por Tarsila do Amaral(1886-1973)

*Por Leonardo S.

Na América Latina, assiste-se atualmente a um rápido avanço da retórica anticapitalista. Países como Venezuela, Bolívia e Equador estão em franco processo de institucionalização de regimes antiliberais, adotando Constituições de fortes tons marxistas. No Brasil, intelectuais argumentam que o capitalismo é um sistema naturalmente excludente, que, mesmo quando permite sucesso econômico, falha em promover a igualdade social. As críticas são ilustradas por afirmações que ressaltam problemas comuns aos vários países da região, como a excessiva concentração de renda. Mas, será que os problemas levantados são fruto do sistema capitalista?

Para ajudar na defesa dos valores liberais, recorramos às idéias do economista austríaco Joseph Schumpeter, a respeito do capitalismo. Por irônica coincidência, Schumpter nasceu em 1883, ano da morte de Karl Marx, crítico feroz dos ideais capitalistas. Esse também foi o ano de nascimento do brilhante John Maynard Keynes, defensor da intervenção estatal na economia.

Para Schumpeter, o capitalismo é como “Um vendaval perene de destruição criativa”. As pessoas que mantêm esse vendaval soprando são os empreendedores, homens e mulheres de negócios que criam empresas, as quais espalham riqueza para amplas parcelas da população. Embora isso possa parecer utópico, é interessante ressaltar que parte significativa do crescimento econômico brasileiro deveu-se ao processo industrializante ocorrido no País, a partir do início do século XX. Os benefícios sociais desse processo, para parte significativa da população, foram muitos, como o surgimento de oportunidades de emprego melhores e mais diversas que as passíveis de serem oferecidas pela economia agroexportadora herdada do período colonial.

Schumpter também argumentava que a inovação está no centro da dinâmica capitalista. Os empreendedores, termo popularizado por ele, realizam a tarefa de mover recursos de setores cambaleantes da economia para novos setores, nos quais podem ser melhor utilizados. Para o austríaco, um inovador pode surgir em qualquer lugar, tanto em uma empresa quanto no dormitório de uma universidade. A revolução da internet prova o acerto da visão de Schumpeter, com novos empreendedores construindo impérios, como o Facebook, em tempo exíguo, e empresas aparentemente consolidadas sendo varridas do mapa. Quem se lembra do navegador Netscape? Provavelmente, quase ninguém.

Uma das preocupações de Schumpeter era que, para funcionar, as empresas dependem do que ele denominou de uma “complexa ecologia”, como o mercado de ações. Se essa “infraestrutura” for abalada, o sistema pode parar. Assim, ele temia a possibilidade de burocratas e intelectuais tentarem frear o selvagem espírito capitalista ou de empresários estabelecidos associarem-se a políticos, a fim de evitar o surgimento de novos concorrentes. Quando consideramos o movimento de implantação do socialismo na América Latina, limitando a propriedade privada e a livre iniciativa, e os sucessivos escândalos envolvendo empreiteiras e políticos, as preocupações de Schumpeter parecem muito atuais.

Ao menos na Europa Ocidental, valores capitalistas, como a livre iniciativa e a propriedade privada, tiveram muito sucesso em criar sociedades mais ricas e igualitárias do que as sociedades socialistas da Europa Oriental e da América Latina. Basta comparar as duas Coréias, em termos econômicos, sociais ou educacionais, para verificar que essa afirmação não carece de sentido. Mesmo o país central do mundo comunista, a União Soviética, ruiu sob o peso da ineficiência econômica. Como ficou patente quando da queda da Cortina de Ferro, a pobreza se havia generalizado entre a população, enquanto uma pequena elite de burocratas, militares e intelectuais gozavam de privilégios inimagináveis para o cidadão comum.

Assim, pobreza e desigualdade não parecem ser característica do capitalismo. Não é por acaso que a China somente passou a desfrutar do crescimento econômico que tirou milhões da pobreza, quando adotou práticas capitalistas, em certas partes do país. As raízes da pobreza e da desigualdade na América Latina não estão, assim, na propriedade privada ou na livre concorrência. Elas estão consolidadas em estruturas sociais e mentalidades herdadas dos períodos coloniais desses países. Essa herança, tão estudada por historiadores, sociólogos e geógrafos, parece carecer exatamente dos valores liberais que fizeram o progresso, embora com altos e baixos, dos países capitalistas.

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