A Praça, O Parque, A Cidade Para Todos

Como psicólogos e educadores estão usando os espaços públicos para transformar as relações sociais e promover a cidadania.

A cidade de São Paulo tem quase quarenta parques municipais, além de centenas de praças. Para muitos, são um ambiente adequado para o prazer e relaxamento, pontilhado por crianças brincando e atletas treinando. Para indivíduos em situação de rua, um “dormitório”. Porém, esses locais podem se configurar em laboratório para a construção da cidadania. Os espaços públicos de lazer, como praças, parques e campos de futebol oferecem condições interessantes para os psicólogos desenvolverem atividades que estreitam o contato com a comunidade e promovem a observação das relações humanas, em particular, na periferia, em bairros onde os direitos sociais não são garantidos. Dessa intertavidade, podem aparecer informações importantes para a compreensão dos movimentos sociais.

Políticas públicas que aproveitem o potencial desses locais ainda são poucas. Mas há pelo menos um bom exemplo sendo desenvolvido na cidade. De acordo com a secretaria do Verde e Meio Ambiente, a administração municipal mantém equipes em dez parques que trabalham valores e atitudes com os usuários. Entre as atividades estão as caminhadas por trilhas. Acompanhando grupos durante o passeio, o educador faz paradas estratégicas para dar lições de cidadania de forma lúdica e dinâmica. “Uma das questões abordadas é a responsabilidade ambiental”, diz Helena Magozo, psicóloga que integra uma dessas equipes. “É o que chamamos de trabalho de controle social, que para ser bem sucedido precisa ter caráter interdisciplinar, passando da biologia e geografia até a arquitetura e a psicologia”, afirma ela.

Outro projeto que utiliza os espaços públicos de lazer como instrumento de trabalho é o Pólos da Paz, do Instituto Sou da Paz. O foco, porém, é outro: influenciar as políticas públicas de segurança. Destinado a jovens entre 15 e 24 anos, o projeto propõe a prevenção da violência através do trabalho comunitário de revitalização de praças e da realização de eventos esportivos e culturais nesses locais de maneira participativa. “O grande desafio é fazer a comunidade se sentir responsável pela praça, que comumente é alvo de depredação, vandalismo e abandono”, diz Marcus Góes, coordenador do Pólos da Paz.

Segundo Góes, ao se compreender o fenômeno da violência como resultado de um contexto social em que direitos não estão sendo garantidos, em que a desigualdade é gritante, em que a qualidade de vida é ruim, em que as pessoas não têm projeto de vida nem tampouco perspectivas de um futuro diferente, o trabalho com a segurança pública assume um caráter preventivo. Assim, ocupar um espaço de maneira democrática, participativa, promovendo a garantia de direitos (como o esporte e a cultura) e a construção de laços comunitários, de perspectivas coletivas de mudança, de valorização do bem comum, reivindicando a presença do Estado, contribui para a segurança pública.

Reformado pelas mãos dos moradores locais, o espaço passa a ser mais valorizado. Há um projeto que está sendo desenvolvido em duas praças de São Paulo pelo Pólo da Paz. Uma delas é a Praça João Paes Málio, no distrito de Campo Limpo. Ali, a parceria com a Subprefeitura rendeu bons frutos. “O apoio vem desde o empréstimo de máquinas para as obras até a concessão de troféus e medalhas para os campeonatos realizados pelos jovens na quadra da praça”, explica Marcus Góes. “Quando o projeto chegar ao fim, esperamos que o poder público continue apoiando as iniciativas dos moradores”, diz. A outra praça fica no bairro do Alto da Riviera, no distrito do Jardim Ângela, também na zona sul. Apesar da parceria com a Subprefeitura do M´Boi Mirim ainda estar em fase inicial, os moradores vêm promovendo uma série de atividades culturais e esportivas.

A idéia é modificar a relação dos usuários com o espaço público, trabalhar a cidadania e o comprometimento com o desenvolvimento e a sustentabilidade da cidade. “Pretendemos preencher uma lacuna nas políticas públicas, fazer algo inovador. Esperamos que o trabalho possa inspirar outras ações”, diz Góes. Cerca de 1.500 pessoas já foram beneficiadas pela iniciativa, seja com atividades coletivas nesses espaços, seja com a reforma das praças.

Porém, a contribuição da Psicologia só produz efeitos se trabalhada interdisciplinarmente. “O psicólogo, ao ler o modo como as relações se desenvolvem, busca na educação, na arquitetura e nas ciências sociais uma maneira de construir sua estratégia de intervenção. Assim, ele procura produzir um movimento diferente, em que a potência desse coletivo-comunidade possa ser o impulso de um processo de transformação da relação com o espaço público”. diz Góes.

Para Helena, a educação dos usuários dos espaços públicos não se esgota na informação. Precisa também de convivência e prática. “O contato com os usuários de espaços públicos pode ser revelador a respeito do comportamento, levando, inclusive, a conclusões sobre problemas sociais mais complexos”, adianta. Ou seja, ainda que um biólogo possa ensinar sobre as flores do parque e um arquiteto possa orientar na reforma da praça, o psicólogo tem instrumentos para intervir na forma de convivência e promover uma transformação cultural mais efetiva.

FONTE: Conselho Regional de Psicologia/SP

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