Cuidar Da Cidade Começa Com a Boa Vizinhança

*por Priscilla Santos

Quando era estudante de arquitetura, Roberto Pompéia ouviu de um dono de construtora uma frase que jamais esqueceria: É um absurdo pensar em se dedicar aos pobres, pois os pobres não têm como te pagar. A sentença surtiu efeito contrário. Roberto tornou-se um representante da arquitetura popular no Brasil. Foi integrante do Laboratório de Habitação da Unicamp (LabHab), que se especializou em projetar mutirões para erguer casas na periferia,durante 13 anos. Quando o Laboratório foi extinto, em 1999, trabalhousozinho para terminar um mutirão no sul de Minas Gerais. Ao todo foram mais de 15 comunidades em estadoscomo Alagoas, São Paulo e Rio Grande do Sul. Roberto acaba de defender, na USP, a tese de doutorado em que conta a história do LabHab e dos mutirões em que esteve envolvido. A vivência nas favelas e na periferia me trouxe a certeza de que a preservação e a qualidade do espaço público dependem de uma identidade coletiva que zela pelo seu lugar, diz. E para se criar essa identidade coletiva é preciso antes voltar os olhos para a história de cada morador. E nisso não importa classe social, raça, credo, religião.

Como surgiu a questão da identidade em seus trabalhos?

A maior parte das pessoas que moravam nas periferias, onde realizávamos os mutirões, vinha de fora, pois quando a pessoa não vê futuro em sua cidade natal parte para a metrópole. Contrapor-se à sua história original é a primeira quebra de identidade. Quando a pessoa chega à cidade grande, vem a segunda. Quem era Zezinho ou Mariazinha lá no interior vira um zé-ninguém. Estranha à cidade, a tendência da pessoa é se voltar para dentro. É muito comum a pessoa construir um barraco e, na parte interna, botar azulejos da melhor marca, mas não se preocupar com o acabamento externo, pois não quer mostrar nada de bom para fora, quer mais é se cercar. Daí vêm os cacos de vidro nos muros, as cercas. Primeiro, porque as pessoas se sentem seguras, obviamente, mas também porque a rua, que na cidade de origem era o lugar que agregava, na cidade grande é o lugar que desagrega.

Como isso se revertia?

Quando comecei a trabalhar nos mutirões, notei a importância da cozinha coletiva na obra. O momento da refeição parecia uma comunhão: todo mundo em volta da mesa comendo a mesma comida e trocando histórias. Havia pessoas absolutamente tímidas que, quando alguém perguntava e aí, você veio de onde?, começavam a contar sua história, e parecia que começavam a crescer, a ficar importantes dentro do grupo. Todos ficavam absolutamente em silêncio ouvindo. Aí essa pessoa que aparentemente não era nada passava a ser alguma coisa. É como se ela re-significasse seu papel dentro da comunidade.

É o primeiro passo para a identidade coletiva?

Sim. Não existe possibilidade de se construir uma identidade coletiva sem o reforço da identidade individual. Você só forma a identidade coletiva quando se reconhece como um ser importante dentro da comunidade, diferente e único. Na hora em que você resgata sua história, mesmo com os erros e fracassos, você cria uma estrutura, que é você mesmo, e passa a ser respeitado. A palavra respeito vem de re-spectare: olhar muitas vezes para trás. E a história do coletivo é formada por um grande número de histórias individuais, a partir do momento em que você tem uma relação franca com o outro, em que você respeita o outro porque conhece sua história. Você não está vinculado ao vizinho pelo espaço físico simplesmente.

Como isso contribui para a preservação do espaço público?

Quando você sente que o espaço é seu, você cuida e quer interferir, você limpa, não deixa abandonado. Então, o limite entre o público e o privado é muito menos hostil, as cercas são mais baixas, as pessoas convivem mais. Mas às vezes ocorre o contrário. Espaços comuns são tratados como privados. Teoricamente, o hall do apartamento, por exemplo, pertence tanto a você quanto ao seu vizinho. Muitas vezes, entretanto, acabamos estabelecendo uma fração do hall como nosso e, se a plantinha da vizinha cresceu demais e saiu dos limites, já nos sentimos agredidos.

O que fazer para melhorar isso?

Manter o habitar na dimensão humana, que é o contato direto entre as pessoas. Um estudo feito na Universidade de Harvard, em 2001, concluiu que, quanto mais fortes são os laços sociais entre as pessoas de uma comunidade, maior é a qualidade de vida e o nível de satisfação. Tive a oportunidade de conhecer, em Paris, um bairro que foi construído no fim da Segunda Guerra. Na rua que me mostraram havia prédios de quatro andares, de um lado, e de 12, do outro. O grupo que prestava assessoria técnica à periferia de Paris constatou que a vida dos que moravam nos edifícios mais baixos (onde foram criados espaços comunitários como áreas de recreação e clube de idosos) era muito melhor que a dos que moravam nos apartamentos mais altos (onde não havia nenhuma iniciativa para agregar seus moradores). O diagnóstico foi preciso: a diferença entre eles estava principalmente na escada. As pessoas dos prédios baixos, sem elevador, tinham de se encontrar pela escada. Os que subiam cruzavam com os que desciam; ao se passar pelos andares, era inevitável sentir os apartamentos, ouvir barulhos mais íntimos, sentir o cheiro de uma comida apetitosa ou, até mesmo, dar uma olhadela pela porta de um apartamento, aberta por descuido ou generosidade; ajudar alguém a carregar as compras e logo depois ser convidado para um cafezinho. Nos prédios com elevador, o isolamento é muito maior, as pessoas mal se conhecem.

Como fomentar esse contato direto nos prédios altos?

Crie um projeto coletivo. Se você tem um projeto comum, que seja botar uma luminária legal no hall, já vale. Pode ser que saia uma coisa horrível, que as pessoas queiram colocar um lustre de cristal, mas é uma discussão saudável. Se há um salão de festas no prédio, vamos fazer uma festa lá? Projetos coletivos se contrapõem ao espaço que tenta ser o menos coletivo possível. Agora, é difícil, você tem que enfrentar um monte de coisas chatas. Mas, às vezes, é preciso passar pela chateação para resolver as questões da coletividade. Quanto mais relações houver entre as pessoas, melhor. Mesmo que seja para criticar, para xingar, pois isso é menos solitário do que a não convivência. Por que é tão encantador andar nas ruas de Nápoles, de Veneza? Não só porque são estreitas e cheias de história, mas porque sempre tem aquela gritaria, o varal na janela. Cria-se essa quase promiscuidade urbana que até certo ponto é saudável. Torna a cidade mais viva.

FONTE: Vida Simples

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